Entrevista: Itamar Rocha

 

Panorama da AQÜICULTURA: O Brasil produziu 70 mil toneladas de camarão em 2011. Em sua opinião, qual a expectativa de produção para 2012?
Itamar Rocha:
 A nossa conta é que vai ficar entre 60 e 65 mil toneladas, e não vai passar disso, pois tivemos problema de doença que afetou a Bahia, Pernambuco, Paraíba e o sul do Rio Grande do Norte. E, mesmo que a produção no Ceará tenha crescido bastante e esteja bem ativa, não conseguiremos compensar tudo isso. E olhe que a Potiporã Aquacultura (RN), voltou a operar a 100%, e isso é importante, pois estamos falando de quase 1000 ha de viveiros que ajudaram a contrabalancear. Mas o setor vem crescendo e a quantidade de micro e pequenos produtores aumentou bastante. Estamos concluindo o Censo do Cultivo do Camarão em todo o Brasil, que contabilizou mais de 1500 produtores, quando a expectativa era de 1200 produtores.

Panorama da AQÜICULTURA: Você tem uma ideia aproximada da área atualmente em produção? 
Itamar Rocha: Não. Depois que a Potiporã se recuperou, a gente tinha uns 20 mil hectares. Só que nesse ano a Atlantis e a Netuno saíram, e a Lusomar está querendo sair. A Maricultura tinha saído, mas já voltou a povoar, então vamos vendo que é mais ou menos entre 18 e 20 mil hectares em operação.

Panorama da AQÜICULTURA:Todos os carcinicultores brasileiros foram visitados pelo censo?
Itamar Rocha: Fizemos o censo esse ano com georreferenciamento de tudo, de toda a cadeia. O censo foi encabeçado pela ABCC e contou com o apoio do Ministério da Pesca e Aquicultura. Os dados estão sendo tabulados pela UFERSA, de Mossoró. Nós queremos separar os micro e os pequenos produtores. Antes tínhamos o pequeno produtor que criava em até 10 hectares, mas agora identificamos os micro produtores, que possuem até 3 hectares, que é um grande universo que está, inclusive, cultivando o vannamei nas águas interiores. Eles dizem água doce, mas são águas interiores. Hoje lá nas águas do rio São Francisco, na região de Propriá, já existe de 30 a 40 pessoas criando o vannamei.

Panorama da AQÜICULTURA: E essas pessoas estão no censo?
Itamar Rocha:
 Estão sim. Levantamos dados de todo o Brasil, incluindo aí os produtores do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Saberemos quem está fechado e por quanto tempo está fechado. Tudo com o georreferenciamento para que fique fácil fazer as atualizações e até as correções, no caso de alguém ficar de fora. Esse é o terceiro censo que fazemos, então temos experiência na identificação do tipo do cultivo. Saberemos quanto à intensificação, se o produtor usa aerador ou não, se possui mão de obra qualificada, se é uma atividade familiar, etc. Pretendemos que esse censo seja uma radiografia completa.

Panorama da AQÜICULTURA: E tem um prazo para acabar?
Itamar Rocha:
 Nós já estamos terminando. Um relatório vai ser publicado em breve, mas o censo completo vai virar um livro dedicado ao camarão onde nós vamos publicar tudo que tivermos, inclusive a legislação que o setor tem hoje, com o novo Código Florestal, as resoluções do CONAMA que ainda estão incidindo na carcinicultura, as resoluções estaduais, os resumos de teses e outros trabalhos importantes. Vamos colocar tudo nesse livro, para que sirva de referência. Na FENACAM de 2013 vamos estar com ele pronto.

Panorama da AQÜICULTURA: E como a mancha branca está sendo vista nesse momento?
Itamar Rocha: Sobre a mancha branca, muitas pessoas falam, ou pensam, como se eu quisesse tapar o sol com a peneira, mas te digo, como presidente da ABCC, eu nunca recebi uma informação oficial da mancha branca. Então, você acha que eu vou dizer que tem mancha branca sem ter recebido nenhuma informação oficial? Até quando jornalistas da Inglaterra me entrevistaram e perguntaram sobre a mancha branca, eu disse: “liguem para o Henrique César, que é diretor lá do Ministério da Pesca e Aquicultura, porque ele deve saber”. Mas eu nunca recebi nenhuma informação oficial sobre isso. Porque não passaram para ABCC nenhuma informação, um documento, mostrando que tinha mancha branca. Eu nunca recebi!

Panorama da AQÜICULTURA: Mas houve uma reunião em Brasília, com a presença de muita gente do setor, inclusive a sua, na qual foram divulgados os resultados de análises realizadas no laboratório oficial. Isso não pode ser considerado como a divulgação de um resultado oficial?
Itamar Rocha: 
Eu estava lá sim. Eles fizeram coletas no Nordeste e comunicaram que na Atlantis e na Netuno tinha mancha branca. E essas empresas também não passaram nenhuma informação para a ABCC. A informação, o documento oficial eu não recebi. Eu não vou dizer “ei não tem mancha branca porque eu não recebi o documento”. Mas eu nunca recebi o documento oficial. E outra coisa, nunca enviaram essas análises para serem validadas no laboratório do Lightner, nos EUA. Porque não mandaram fazer a contraprova no laboratório do Lightner? E mais, ter ou não ter mancha branca, isso realmente não interessa, porque nós temos 27 estados e cada um tem as suas peculiaridades. Se a doença está acontecendo em um ou dois estados, fica claro que o Brasil não está definido como tendo a doença por todo canto. E por conta disso, não haverá a importação de camarão. E mais: o ministério fez essas coletas e análises e, de lá pra cá, não teve nenhuma ação.

Panorama da AQÜICULTURA: Não está sendo feito nenhum acompanhamento ou avaliação?
Itamar Rocha:
 Eu acho que o primeiro passo seria fazer uma varredura nas maturações. Eu até falei isso com o Américo, que é o secretário do MPA. Minha proposta foi fazer uma varredura nas maturações, e o MPA faria essas análises no laboratório de Minas Gerais. E eu disse que pagaria, pela ABCC, para fazer a contraprova dos resultados lá com o Lightner. O objetivo seria avaliar as maturações para vermos como fazer para ter uma produção de reprodutores que não tenham essa e outras doenças. Para sabermos até se vai ser preciso trazer de fora os reprodutores livres de doença, pra gente montar um banco de reprodutores e quem sabe até fazer um negócio como hoje funciona nos EUA, que vende um mundo de reprodutores para Ásia. O lógico é que isso até já tivesse sido feito, mas não houve interesse. E vai ser sempre assim, só se preocupam quando o sapato aperta, e ficam sempre achando que o problema do vizinho não vai acontecer com a gente. Não existe esse negócio de você querer transferir responsabilidade. Se quiserem colocar para Deus, se ajoelhem, pois Deus não vai resolver aquilo que cabe ao produtor resolver.

Panorama da 
AQÜICULTURA: Você acha que o sistema asiático seria uma tendência para o Brasil?
Itamar Rocha: 
Na Ásia, por trás de toda tecnologia, sempre há uma empresa âncora, e a empresa âncora tem que entender que, mesmo com tanta tecnologia, não vai tomar conta do mercado sozinha. Ela precisa saber que é ela, e não o governo, que tem que dar o “guarda-chuva” para o micro e para o pequeno. Ela é que vai disponibilizar larva de qualidade, ração de qualidade e processamento com agregação de valor para valorizar cada vez mais o produto, e todo mundo sair beneficiado. Aí você vai ter uma parceria. Em 2003 a nossa produtividade era maior do que a da Tailândia, e era seis vezes maior do que a da China. Então, como é que chegamos em 2012 e a Tailândia tem uma produtividade de 14 mil toneladas e a nossa está em 3 mil e poucas, 4 mil e poucas toneladas? Hoje a gente sabe que para intensificar tem que ter tecnologia, mas temos que aprender que para crescer temos que levar o micro e o pequeno para debaixo do “guarda-chuva”. O grande produtor é responsável por eles. Hoje a Compescal e a Potiporã estão equipadas fazendo praticamente 30-40% do produto delas com valor agregado, já posicionado, coisa que parecia impossível. Essa é a saída, dar suporte para que o micro e o pequeno produtor estejam inseridos no mercado nacional, que é um mercado importante.

Panorama da AQÜICULTURA: Como está o consumo do mercado interno?
Itamar Rocha:
 Nós estamos com 100% do camarão vendido no mercado interno e o mercado interno está consumindo apenas 550g de camarão por ano, mas consome 55kg de carne vermelha. Quando o ministro disse que o preço do camarão estava caro, eu lhe disse que no final do ano, lá no sertão da Paraíba, o quilo do camarão estava sendo vendido a R$ 10,00, enquanto que o quilo da costela de carneiro saia por R$ 25,00. O camarão hoje é uma realidade no Brasil e tem um preço competitivo. Não tem lógica a gente achar que o camarão está caro. Eu acho que o espaço é muito grande para o camarão crescer no mercado interno, diversificando. Já se foi o tempo em que o camarão era caro, hoje o camarão é competitivo e dá para gente avançar muito.

Panorama da AQÜICULTURA: A mancha branca pode ser uma ameaça para esse mercado todo que a gente tem pela frente? 
Itamar Rocha:
 Ela vai afetar muito mais os produtores tradicionais, esses empreendimentos grandes que trabalham com baixa densidade. Não vai afetar o pessoal que tem um empreendimento menor, com condição de aplicar um programa de biossegurança e tratamentos, e nem o pessoal que cultiva na água doce, que não estão tendo problema e que estão crescendo e vão continuar a crescer. O pessoal da água doce é todo pequeno, e trabalha com densidades de 50 – 60 camarões/m2. Usam água de rio, água de subsolo e não estão tendo problema. Acho que poderemos crescer nessas áreas onde se pode fazer um completo isolamento e biossegurança para o camarão. Na Ásia todinha, se fizermos as contas devem estar com uns três milhões de hectares de áreas afetadas e eles estão produzindo um mundo de camarão. Na FENACAM passada, fizemos uma sessão especial sobre o nosso programa de biossegurança, boas práticas de manejo. Agora fizemos alguns ajustes e vamos publicar quando publicarmos os resultados do censo. Os códigos de conduta estão sendo revisados para incluir os probióticos, que não estavam nós códigos de conduta de 2002. Mas é preciso que se diga o seguinte: não tem remédio para a doença, mas também o camarão afetado também não afeta o consumidor em nada. Ele afeta é o bolso do produtor. Não tem remédio, mas tem boas práticas de manejo. E cada um que resolva o seu problema, não coloque essa responsabilidade para ninguém, não coloque para Deus e nem coloque para terceiros. Resolva o seu problema.

Panorama da AQÜICULTURA: Há medidas para produtores que utilizam a mesma área?
Itamar Rocha: Não tem. Um cara me mostrou um trabalho com um pato que comeu 120 camarões. Então você vai acabar com os patos da região todinha? Mas na sua fazenda você pode colocar as linhas de nylon e os patos não vão parar lá. Você pode colocar rede para o caranguejo não passar. E se é isso que está acontecendo no mundo todo, então essa é a solução que tem que ser feita, entendeu? Veja o exemplo do Equador. Em 2003 nós produzimos mais e exportamos mais do que o Equador. Naquele ano nós produzimos 90 mil toneladas e o Equador 87 mil toneladas. Nós exportamos 58.455 mil toneladas e o Equador exportou 57 mil toneladas. Aí no ano passado, nós produzimos 70 mil e exportamos apenas 108 toneladas. Quer dizer, de 58 mil toneladas baixou para 108. Já o Equador produziu 223 mil toneladas e exportou 142 mil toneladas. E ele estão com a doença! Os viveiros do Equador são muito grandes, e o Brasil tem os grandes e tem os pequenos e os micro produtores. Agora, esses produtores precisam de apoio. Eles precisam de licença ambiental para ter acesso aos financiamentos para poderem comprar aeração, etc. O que a gente quer com esse censo é propor aos governos dos estados mais ou menos aquilo que o ENEM está sendo hoje para o acesso às universidades. Então, o micro produtor faz os cursos todos na ABCC e passa a ter um documento que diz que está seguindo as boas práticas de manejo. Então o licenciamento ambiental dele tem que ser diferenciado. A gente espera isso.

Panorama da AQÜICULTURA: Vamos falar agora do Código Florestal. Como fica a aquicultura? 
Itamar Rocha:
 A única vantagem pra gente foi que saiu um diferencial da carcinicultura, e os produtores constituídos ficaram protegidos. Quem estava ocupando salgados e apicuns antes de 2008, tem direitos assegurados e isso está garantido. Agora, o futuro do uso dessas áreas é que vai depender de um zoneamento. No Nordeste só será possível usar 35% dos salgados e apicuns de cada um dos estados. É por isso que o zoneamento é importante, porque vai identificar qual a área total de salgados e apicuns, e aí então será possível dizer qual o total de hectares que poderá ser licenciado, respeitando os 35% da lei e, detalhe, descontado as áreas que já estão sendo utilizadas. Isso é para novas áreas. Os estados têm um ano para fazer o novo levantamento e nós sabemos que os estados não vão fazer. Lá na constituinte de 1988 foi acertado que os estados tinham que fazer o zoneamento ecológico-econômico na escala de 1:100.000 e a maioria dos estados não fez.

Panorama da AQÜICULTURA: E como é que isso vai ser resolvido?
Itamar Rocha:
 No meu entendimento, se um estado não fizer no prazo de um ano, a gente vai ter que entrar na justiça e conseguir o licenciamento por liminar. Mas isso que eu estou falando é para quem está no litoral, no salgado e no apicum. Se não é salgado e apicum está lá protegido, e agora tem cinco anos de licença ambiental, direito ao acesso à água e à drenagem, e quando soltar a água não é mais aquele negócio da bacia. A água tem que ser solta com a qualidade que foi pega, ou melhor. Todo mundo naquele Congresso sabe hoje o que é salgado, apicum e o que é manguezal, pois colocamos na lei as definições. Esse aí é um dos ganhos do setor, e agora todos lá do Congresso já sabem o que é salgado e apicum, e não tem esse negócio de dizer que faz parte do ecossistema manguezal. Salgado é terreno com salinidade de 100 a 150 partes por mil; apicum tem salinidade acima de 154 partes por mil e manguezal é manguezal, com floresta de mangue e tal.

Panorama da AQÜICULTURA: Então, para a carcinicultura, o saldo do novo código foi bom?
Itamar Rocha:
 Para os produtores já constituídos, vamos dizer que sim, e a ABCC representa os produtores constituídos. Se o produtor constituído não tiver mais nenhum hectare pra desenvolver, assim mesmo ele vai estar no céu porque o mercado está aí, o camarão está aí, a importação não vai acontecer e aí para o produtor constituído isso foi bom. Agora, como engenheiro de pesca, um cara que tem uma visão, que conhece e que não acha justo que essas oportunidades não estejam sendo usadas, eu acho que engessou. E acho um absurdo engessar, em um ano de seca no Nordeste, uma atividade que não depende de água doce em nenhuma etapa do ciclo produtivo. Não tem nenhum outro bioma no Nordeste que só pode usar 35%, nenhum. Todos podem ser usados em até 80%. Colocar o salgado e o apicum, que não têm vegetação, e está lá no Código dizendo que não tem vegetação, e dizer que só é possível usar 35% é um absurdo, é uma incompetência política muito grande.