Entrevista: Nailton Canuto

Entrevista05

Nesta edição 14 convidamos José Nailton Canuto e Silva*, engenheiro de pesca que vem, desde 1985, se dedicando ao cultivo do camarão de água doce Macrobrachium rosenbergii. Nailton iniciou o seu trabalho com o crustáceo na Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária (IPA), tendo, posteriormente, sido um dos responsáveis técnicos da Fazenda Capiatã Aquicultura, de Alagoas, a maior e mais bem estruturada empresa voltada para a produção deste animal já montada do Brasil, e atualmente desativada. Em 1995 se mudou para o Estado do Espírito Santo tendo trabalhado no Centro de Tecnologia em Aquicultura e Meio Ambiente – CTA. Atualmente é coordenador do Setor de Aquicultura do Instituto Federal do Espírito Santo – IFES, Campus Itapina, e sócio da empresa Água Viva Consultoria Aquícola e Ambiental, além de ser consultor do Sebrae-ES para as áreas de Agronegócios e Arranjos Produtivos Locais.


Panorama da AQÜICULTURA – O Estado do Espírito Santo é uma referência quando se fala na produção do M. rosenbergii. Quais as razões para isso?
Nailton Canuto 
– A atividade no Espírito Santo foi iniciada no início dos anos 80, próximo ao começo da história da produção do M. rosenbergii no Brasil. Enquanto outras regiões se apresentavam mais promissoras para a produção desta espécie de camarão, principalmente por questões climáticas, inclusive com instalação de fazendas de grande porte e uma quantidade de larviculturas que atendiam a essa nova atividade, o Estado do Espírito Santo, apesar de apresentar condições climáticas e de relevo menos interessantes para o cultivo, ainda assim conseguiu desenvolver a atividade com certo sucesso até os dias atuais. O apoio do Sebrae-ES, iniciado através de um diagnóstico da atividade no início dos anos 90, com assistência da empresa capixaba Centro de Tecnologia em Aquicultura – CTA, foi fundamental para a organização da cadeia produtiva do M. rosenbergii no Estado, trazendo vários parceiros para o processo, como órgãos federais, estaduais e municipais, assim como empresas privadas. A instalação da única cooperativa de produtores de camarão de água doce do país (Cooperativa dos Aquicultores do ES – CEAQ) foi um dos resultados desse apoio. Pesa também o fato de que esse camarão é muito bem aceito no mercado local, dado a sua enorme afinidade com a culinária capixaba. Isso tudo, associado ao fácil acesso aos insumos, contribuiu muito para que a atividade venha se desenvolvendo de forma contínua, ao longo dos últimos anos, em pequenos e médios empreendimentos, com área média de 1,5 hectares. Uma curiosidade é que a maioria dos carcinicultores capixabas tem a atividade como um complemento da sua renda, uma diversificação dos investimentos.

Panorama da AQÜICULTURA – Como está distribuída atualmente a produção no Espirito Santo?
Nailton Canuto 
– A carcinicultura de água doce, desenvolvida em sistema semi-intensivo ou em policultivo com a tilápia, está presente em grande parte dos municípios capixabas. Mas a maior concentração de propriedades – diria que ao redor de 70% – será encontrada nas regiões norte e noroeste do estado, especialmente nos municípios de Governador Lindenberg e São Domingos do Norte. Os produtores que fazem o policultivo com a tilápia estão concentrados em municípios mais ao centro e sul do estado, como Domingos Martins e Muniz Freire. Infelizmente não existe uma coleta de dados efetiva e perene avaliando a produção, portanto não é possível precisar a produção atual. Estima-se que atualmente a produção anual esteja ao redor de 80 toneladas, proveniente de viveiros com áreas que variam entre 300 e 4.000 m².

Beneficiamento do camarão (toalete) na CEAQ – Cooperativa dos Aquicultores do ES, em São Domingos do Norte
Beneficiamento do camarão (toalete) na CEAQ – Cooperativa dos Aquicultores do ES, em São Domingos do Norte

Panorama da AQÜICULTURA – Qual o tamanho do camarão que normalmente é comercializado no ES?
Nailton Canuto – Aqui é o camarão grande. Esse é um fato interessante e peculiar do consumidor capixaba. Para o camarão marinho até se aceita em tamanho menor, mas com o “gigante da Malásia” não tem jeito, o consumidor quer sempre maior. É um hábito que não mudou desde que a atividade começou por aqui. Cerca de 90% do camarão produzido é comercializado inteiro e com casca, com peso médio de 35 g, numa escala de seis classificações que varia entre 20 e 60 g. Antes da venda é realizado apenas um toalete, que se limita ao corte dos apêndices do cefalotórax e um corte parcial do rostro.

Panorama da AQÜICULTURA – Quanto tempo de engorda para obter esse camarão?
Nailton Canuto
 – Considerando as condições climáticas do Estado, o tempo médio para que 80% da população de um viveiro atinja as 35 gramas é de oito meses. Se o cultivo for iniciado e concluído em um período mais quente do ano, esse tempo pode ser reduzido em 1 a 2 meses.

Panorama da AQÜICULTURA – Em linhas gerais, como é feita a engorda?
Nailton Canuto
 – Predomina o sistema semi-intensivo em viveiros escavados, em estocagem única, com densidade de 10 PL/m². No entanto, uma parte dos produtores utiliza o sistema bifásico, com berçários para a produção de juvenis e estocagem posterior. São 2 a 3 meses no berçário em densidades de até 100 PL/m² para obter animais de 2 a 4 gramas. Isso possibilita a realização de dois ciclos de cultivo/ano. Essa prática vem se disseminando e, junto com outras técnicas de manejo, tem possibilitado um incremento na produtividade média atual, que de 1.500 kg/ha tem ido para 2.500 – 3.000 kg/ha. As taxas de conversão alimentar têm oscilado entre 1,7:1, para os que usam bandejas, e 2,2:1 para os que não usam. E as taxas médias de sobrevivência atuais são de 75% e 60%, respectivamente para berçário e viveiro.

Panorama da AQÜICULTURA – Nessas condições, qual o custo médio de produção e o valor que os produtores capixabas estão recebendo pelo produto? E qual o preço que o consumidor final está pagando?
Nailton Canuto
 – O custo médio está em torno de R$ 14,00 por kg. A cooperativa está pagando ao produtor, em função do peso médio do camarão entregue, de R$ 28,00 a R$ 32,00 por kg. Para o consumidor, após o beneficiamento, os preços variam entre R$ 35,00 e R$ 55,00 por kg, numa escala que vai de camarão pequeno ao premium.

Panorama da AQÜICULTURA – Quais as tendências desse mercado a curto e médio prazo? Ele é influenciado pela oferta do camarão marinho?
Nailton Canuto
 – Os preços que citei são influenciados essencialmente pela demanda contínua e muito acima da oferta atual de camarão. 80 toneladas/ano é uma produção ainda modesta e há um mercado a ser ainda bem explorado. Grandes redes de supermercados, restaurantes e hotéis procuram a CEAQ para compra de quantidades significativas e com fornecimento regular, mas não existe produção para garantir essa demanda. Os preços devem continuar atrativos por um período ainda considerável, mesmo com a concorrência do camarão marinho, pois o camarão de água doce tem nichos de mercado específicos. Obviamente nos períodos de defeso do camarão marinho alguns consumidores migram temporariamente para o camarão de água doce, e a procura ainda é maior. A permanência não é maior por não encontrar o produto com regularidade. O camarão cinza cultivado está presente nas redes de supermercados do estado, mas atualmente não chega a influenciar no consumo do de água doce.

Panorama da AQÜICULTURA – A oferta de pós-larvas, que sempre foi um dos gargalos, atende a demanda atual?
Nailton Canuto
 – Atualmente, sim. E deve atender à demanda acrescida. Mas é um fator que sempre foi um dos maiores gargalos da produção. Se não permanentemente, mas por períodos. Com a inauguração ainda esse ano de uma nova larvicultura no município de Governador Lindenberg, o Espírito Santo passará a contar com quatro unidades para a produção de pós-larvas, que juntas terão capacidade para produzir mensalmente 3,5 milhões de PL’s. Mais segurança para quem já está produzindo e para quem pretende investir na atividade. Hoje as pós-larvas representam 20% do custo de produção, com preços que variam de R$ 60,00 a R$ 100,00 por milheiro. Acredito que com uma maior oferta esses valores tendem a reduzir.

Produtora Dilma Schimith Bergher durante despesca, Sítio Rota do Sol, município de Governador Lindenberg
Produtora Dilma Schimith Bergher durante despesca, Sítio Rota do Sol, município de Governador Lindenberg

Panorama da AQÜICULTURA – Como os produtores capixabas têm se solucionado no que tange a alimentação desses camarões?
Nailton Canuto
 – Anos atrás, quando a atividade chegou a ser bem mais significativa do que é hoje, os produtores conseguiam adquirir rações com formulação específica para camarão de água doce. Essa realidade mudou e os produtores vêm usando rações para o camarão marinho, com bons resultados, pois é a que se encontra em larga escala no mercado. Como os resultados têm sido interessantes, os camarões têm crescido satisfatoriamente e não vêm apresentando sintomas de carências nutricionais ou enfermidades, essas rações vêm sendo utilizadas há bastante tempo. Os produtores, no entanto, reclamam dos preços e da falta de oferta no mercado interno. Mas, recentemente, uma empresa capixaba resolveu apostar no segmento e iniciou a produção de ração específica para camarão de água doce, inclusive para todas as fases do cultivo.

Panorama da AQÜICULTURA – Como está sendo feito atualmente o beneficiamento?
Nailton Canuto
 – A cooperativa hoje beneficia o camarão com selo de inspeção estadual (SIE). No entanto, uma nova planta da CEAQ deve ser construída em área industrial do município de São Domingos do Norte, migrando para o SIF, e aumentando sua capacidade de beneficiamento, acima dos atuais 500 kg/dia. Pontos de comercialização e/ou pequenos entrepostos podem ser instalados futuramente em outros municípios. Uma empresa instalada no município de Cachoeiro do Itapemirim tem projeto para instalação de planta beneficiadora, sendo que parte da estrutura já está em obras.

Panorama da AQÜICULTURA – O estado conta com profissionais preparados para dar assistência técnica?
Nailton Canuto
 – Sim. Esse é um fator positivo, ampliado recentemente. O Instituto Federal de Educação do ES – IFES, através dos campus Alegre e Piúma, forma profissionais nas especialidades de Engenharia de Aquicultura, Técnico em Aquicultura, Processamento de Pescados e Engenharia de Pesca. O Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural – INCAPER dispõe de profissionais especialistas na área de aquicultura, enquanto o SEBRAE e o SENAR têm um cadastro de consultores experientes, tanto na área de piscicultura como na de carcinicultura. O Espírito Santo ainda conta com empresas privadas especializadas no ramo da aquicultura.

Vista parcial da estrutura atual da CEAQ e caminhão frigorificado adquirido em parceria com o MDA
Vista parcial da estrutura atual da CEAQ e caminhão frigorificado adquirido em parceria com o MDA

Panorama da AQÜICULTURA – Em que pé que está o registro da marca “Camarão Capixaba”, e de que forma o uso dessa marca será capaz de impulsionar o cultivo do Macrobrachium rosenbergii no Espírito Santo?
Nailton Canuto 
– A marca “Camarão Capixaba” será um pioneirismo do Espírito Santo no setor de pescado. O processo de registro no INPI encontra-se em fase final, nos últimos ajustes. O camarão para receber essa marca vai atender ao Regulamento Técnico da Produção e do Processamento. Após a aprovação, a CEAQ poderá recusar lotes de camarão que não atendam ao regulamento. Um dos principais objetivos é ampliar a qualidade da produção e do produto, transmitindo uma maior segurança para o consumidor com o aval dos produtores que produzem através das boas práticas. Será a consolidação do camarão de água doce como um produto do gosto dos capixabas. O SEBRAE-ES está apoiando o registro da marca.

Fazenda Santa Helena, em Córrego Grande, município de São Domingos do Norte, propriedade de Antônio Carlos Nicchio
Fazenda Santa Helena, em Córrego Grande, município de São Domingos do Norte, propriedade de Antônio Carlos Nicchio

Panorama da AQÜICULTURA – Como estão os produtores que estão se especializando no consórcio do camarão com a tilápia? Qual sistema é mais vantajoso?
Nailton Canuto 
– Eu diria que ainda não há um consenso entre os produtores de tilápia que vêm sendo estimulados a realizar o policultivo tilápia+camarão. Posso dizer que ainda estão testando a modalidade. Alguns enfatizam as vantagens de ter o camarão como produto extra; outros reclamam da dificuldade na despesca, que necessita um pouco mais de mão-de-obra. Alguns ainda ficam estimulados a testar apenas o camarão, após experimentarem a modalidade, e acabam fazendo isso. Tem os que não gostam e desistem. Tem também aqueles que são estimulados pelos que querem ampliar a venda de pós-larvas, sem observar os critérios técnicos e específicos de cada propriedade, de cada produtor. Tem de tudo. A indicação inadequada para essa modalidade de cultivo gera fatos que observei em visitas a algumas propriedades como, camarões cultivados em cidades montanhosas durante o inverno, com temperaturas na água de cultivo abaixo de 15°C, fora da faixa de conforto biológico do animal, gerando perdas significativas ou totais; ou, cultivados em áreas com alta incidência de odonatas, um dos principais predadores para a fase de pós-larvas, etc. Uma forma de minimizar as perdas com relação a esse último item tem sido adquirir juvenis, nem sempre fáceis de encontrar. Observei também que têm alguns produtores que dificilmente mudarão o foco, ou seja, gostam de criar apenas o peixe, e não mudam. E o contrário também se aplica, mesmo considerando a questão econômica. Sabemos que o policultivo é interessante, o custo adicional é representado apenas pela aquisição das pós-larvas do camarão, o camarão está com preço bem atrativo, sua venda cobre parte dos custos com a ração para as tilápias, não interfere no desenvolvimento das tilápias, ao contrário, tem uma função ambiental, aproveitando o que está no leito dos viveiros. Todos sabem disso, mas a realidade que tenho observado é a que citei. Quanto aos resultados, os camarões atingem um peso entre 25 e 40g, com sobrevivência entre 40% e 60%, consideradas interessantes por aqueles que desenvolvem o policultivo. Sobre qual sistema é mais vantajoso, sou suspeito para falar, pois sempre trabalhei mais com o camarão. Considerando a lucratividade que ora se apresenta aqui, o monocultivo, que pode até incluir uma pequena quantidade de carpas, apresenta-se como o mais atrativo. Há espaço para todos. O mercado dita as regras, mas a preferência nem sempre dita o mercado.

Arraçoamento em bandejas e uso de substratos em algumas propriedades
Arraçoamento em bandejas e uso de substratos em algumas propriedades

Panorama da AQÜICULTURA – Nailton, depois de tantos anos produzindo e manejando o M. rosenbergii, já é possível concluir que a produção deste animal é um bom negócio?
Nailton Canuto
 – Com certeza. O mercado aqui é peculiar e a demanda hoje é bem maior que a oferta. Daí a razão dos preços atrativos. Até aqueles que tiveram problemas para a obtenção de pós-larvas e tiveram a produção reduzida, conseguiram lucrar com a atividade. Com o aumento da produção, essa realidade pode mudar. É uma receita simples. Mas ainda tem muito lenha para queimar, pelo menos aqui no Espírito Santo. Não dá para esquecer de outras vantagens que esse camarão sempre apresentou: sabor e textura diferenciados, inexpressiva ocorrências de doenças durante todas as fases de cultivo e a possibilidade do cultivo com algumas espécies de peixes, como tilápias e carpas, agregando valor aos cultivos.

*[email protected]
[email protected]
(27) 3723-1263 / (27) 99933-0860