Entrevista: Eduardo Vieira

O novo presidente da ABCC – Associação Brasileira de Criadores de Camarões, o jovem (23 anos) empresário Eduardo Vieira traz para a presidência da Associação sua experiência de Diretor Administrativo do Grupo Canaa que reune empresas voltadas para a produção agropecuária com frutas, sucos, aviário, frigorífico avícola, pecuária e criação de camarões. Eduardo é Diretor Superintendente da Marine Maricultura do Nordeste S.A., localizada em Canguaretama – RN com 120 hectares de viveiros em produção semi-intensiva de Penaeus vannamei.

Nessa entrevista vemos um adiministrador consciente dos principais entraves que atualmente impedem o desenvolvimento do setor e que espera buscar soluções junto ao govêrno, a exemplo das diretorias anteriores, sem se intimidar com a inoperância que este tem demostrado nos últimos anos.

Panorama – Qual o mandato do atual presidente da ABCC?

Eduardo – O mandato da nossa diretoria terá duração de dois anos e teve início em 30 de novembro do ano passado.

Panorama – Quantos sócios possui hoje a ABCC?

Eduardo – A ABCC é composta atualmente de 51 associados, sendo 45 sócios efetivos, 4 contribuintes e 2 beneméritos.

Panorama – Quantos sócios se dedicam ao camarão marinho e quantos se dedicam ao camarão de água doce?

Eduardo – Dos sócios efetivos, 28 se dedicam ao cultivo do camarão marinho e 17 ao camarão de água doce.

Panorama – Quais as atuais metas da ABCC e quais as estratégias para alcança-las?

Eduardo – Em primeiro lugar, elegemos como meta principal, o fortalecimento interno da ABCC, nesse sentido, pretendemos criar uma infra-estrutura de apoio operacional, capaz de prestar ao associado, os serviços inerentes ao papel de qualquer associação, com o objetivo de resgatar a confiança dos atuais associados e atrair novos membros. Além disso, pretendemos desenvolver através das diversas diretorias, um programa de trabalho englobando os principais interesses da classe, objetivando uma maior participação dos associados, que passarão a contar com o apoio da ABCC nas reivindicações de seus problemas aos setores competentes. Além disso, pretendemos organizar a publicação bimestral do nosso boletim informativo, bem como o calendário de reuniões bimestrais. Inclusive, dentro da nossa meta de divulgar e ampliar os horizontes da ABCC, consta a realização do IV SBCC – Simpósio Brasileiro Sobre Criação de Camarão, no período de 22 a 27 de novembro deste ano em João Pessoa. Acreditamos que esse evento, em face da atual conjuntura da carcinicultura mundial, será um marco importante para a carcinicultura brasileira.

Panorama – Quais são as atuais prioridades, ou assuntos, que hoje ocupam a diretoria da ABCC?

Eduardo – A nossa primeira preocupação foi conseguir uma sede independente para a instalação do escritório da ABCC. Superada essa dificuldade juntamente com os entraves burocráticos relacionados com a mudança de domicílio da Associação, estamos atuando no sentido de promovermos, o mais rápido possível, um recadastramento para a atualização de endereços e as situações financeiras de todos os associados, inclusive, para que possamos ter uma radiografia atualizada da presente situação da carcinicultura brasileira. Por outro lado estamos elaborando uma programação anual, com as ações a serem empreendidas como: o calendário de eventos, o orçamento dos custos operacionais do referido programa e as necessidades de receitas para a sua viabilização que deverá inclusive ser apresentada, para apreciação dos nossos associados, já na próxima reunião a ser realizada em Recife no próximo dia 12 de abril.

Panorama – O que distingue a atual diretoria da anterior, sob o ponto de vista prático e também filosófico?

Eduardo – Do ponto de vista prático a diferença entre esta diretoria e a anterior está relacionada com a mudança na composição do quadro de diretores e no fato de que a presidência anterior pertencia ao setor de criação de camarão de água doce, enquanto esta pertence ao setor de camarão marinho. Na atual composição da diretoria da ABCC, foi dado o mesmo peso para os dois setores, tendo sido criado quatro diretorias (operação, larvicultura, engorda e mercado) para cada um dos setores, objetivando dispensar o mesmo tratamento aos associados, independente de atuar com camarão marinho ou água doce. Por outro lado, acreditamos que o momento político atual, onde pela primeira vez estamos conseguindo dialogar com os governos dos estados, associado aos atraentes preços do nosso produto no mercado interno, são elementos que certamente nos favorecerão no sentido de obtenção de apoio e participação dos associados, que não ocorreu com a diretoria anterior, com reflexos negativos na execução do seu plano de trabalho. Do ponto de vista filosófico, procuramos perseguir os mesmos objetivos das diretorias anteriores, sendo que, em razão de um maior amadurecimento do nosso setor, aliado à parceria que começamos a identificar nos Governos Estaduais, estamos repensando o papel sócio-econômico da nossa atividade, onde certamente será dado uma maior ênfase do lado social, objetivando melhorar não só a renda dos demais elementos sociais das comunidades envolvidas com o setor.

Panorama – O que atualmente a ABCC espera obter de facilidades à nível governamental para o desenvolvimento da carcinicultura no Brasil?

Eduardo – Embora não tenhamos concluído o nosso programa de trabalho, já realizamos várias gestões junto aos setores competentes, objetivando a obtenção de melhores condições para o setor de carcinicultura, como sejam:
a) Reivindicação para a redução de tarifa de energia elétrica, através do enquadramento de carcinicultura na condição de “Irrigante”, nos termos de portaria nº 105 do DANAI, que prevê uma redução de 90% do valor da tarifa para a utilização da energia no horário de 22:30 às 05:30 hrs.
b) Reivindicação junto ao DIPOA – DF para a realização de uma nova inspeção sanitária pela Comunidade Econômica Européia, que em razão da falta de sensibilidade e envolvimento do governo federal com o nosso setor, durante a última inspeção de uma comissão da CEE, os projetos de carcinicultura foram simplesmente ignorados, tendo como resultado uma restrição, apenas para importação de produtos provenientes de fazendas de cultivo, oriundos do Brasil. O interessante é que essa restrição não existe para nenhum outro país, nem mesmo para o Perú!
c) Negociação junto aos governos estaduais da região nordeste, no sentido de obtenção de alguns benefícios fiscais, tendo presente a necessidade de se estabelecer uma massa crítica de produtores e de consumidores de serviços e produtos, objetivando atrair investimentos e tecnologias, indispensáveis ao fortalecimento da nossa atividade. Nesse sentido, temos reivindicado basicamente:
– Isenção de ICMS nas operações internas e na importação e exportação de náuplios e pós-larvas de camarão marinho e de água doce;
– Isenção de ICMS, por um prazo de cinco anos, nas operações internas e na exportação de camarão cultivado;
– Isenção de ICMS, por um prazo de 5 anos, nas operações internas e na importação de insumos para a aqüicultura;
– Isenção de ICMS, por um prazo de 5 anos, para as importações de equipamentos que objetivam melhoria da produtividade bem como, destinados a melhoria e qualidade do produto final.

Panorama – O que está sendo feito à nível de fortalecimento dos empresários envolvidos no cultivo de camarão para que possam melhor viabilizar seus investimentos?

Eduardo – A parceria que nos referimos com os governos dos estados, que certamente terá como consequência a obtenção de parte dos benefícios fiscais de que falei, aliado ao fato de que a mudança do sistema semi-extensivo, que gradualmente vem sendo feita para o sistema semi-intensivo, com o advento da realidade do P. vannamei, são elementos importantes para a reorganização desse setor. Por outro lado, acreditamos que a ABCC, atuará decisivamente no sentido de promover uma maior divulgação dos resultados positivos obtidos por algumas das empresas que já ingressaram no sistema semi-intensivo, objetivando tanto a melhoria do desempenho do setor como um todo como, principalmente, para que se evite repetições de erros. Além disso temos trabalhado arduamente objetivando a viabilização de investimentos internacionais, notadamente nas áreas de maior carência (produção de pós-larvas, nutrição e processamento), pois acreditamos que em razão de nossa debilitada estrutura de pesquisa, o caminho mais curto para superarmos o nosso grande atraso tecnológico, será através da importação, via joint-venture ou investimentos diretos, de tecnologia já desenvolvida e aperfeiçoada em outros países. Sem dúvida, esse conjunto de ações tem como benefíciários diretos os investimentos já realizados, mesmo aqueles que apresentam estruturas físicas deficitárias, pois no futuro, com o advento da tecnologia, será muito mais fácil a reestruturação destes do que iniciar um novo empreendimento.

Panorama – Que tipo de apoio seria benvindo da indústria produtora de insumos e serviços (rações, química, terraplenagem, etc) ?

Eduardo – Acho que é fundamental um maior estreitamento de relações entre as empresas produtoras de rações, outros insumos e/ou equipamentos com os produtores de camarão, pois as ações isoladas, de ambas as partes, só trazem desvantagens para o setor como um todo. Desse modo, abrimos a ABCC para toda e qualquer empresa que queira participar de nossas reuniões, inclusive podendo até se associarem na categoria de sócio contribuinte, pois entendemos que a troca de informações e experiência, será o caminho mais curto para o aperfeiçoamento de todo o processo produtivo. Inclusive vamos atuar ativamente no sentido de obtermos um expressivo apoio desse segmento da nossa indústria na promoção e participação através de estandes em novembro no IV SBCC em João Pessoa.

Panorama – Alguma mensagem aos produtores de ração de engorda?

Eduardo – No caso específico dos fabricantes de rações para camarão, além do que já foi dito, temos ainda algumas reivindicações bem específicas:

1) é preciso que estas empresas busquem nos resultados dos cultivos com seus produtos, as informações necessárias ao aperfeiçoamento dos mesmos,

2) é prioritário e estratégicamente importante que sejam desenvolvidos estudos sobre o requerimento nutricional das espécies nativas, especialmente o P. subtilis, objetivando a formulação de uma ração apropriada a sua exploração através do sistema semi-intensivo,
c) Também consideramos prioritário e urgente o desenvolvimento e fabricação de rações com o mínimo de requerimento, tanto físico (tamanho de pellet) como técnico (proteínas e carboidratos) para atender aos cultivos nos viveiros berçários.

Panorama – A pesquisa de base seria benvinda hoje se atuasse em que áreas do cultivo de camarões marinhos e de água doce?

Eduardo – Acreditamos que do ponto de vista do camarão marinho, a grande carência de pesquisa básica está relacionada com a nutrição das principais espécies nativas, pois o desenvolvimento da carcinicultura baseado na exploração de espécies exóticas cria uma dependência que a médio e longo prazo traz inquietação para o setor. Já com relação ao camarão de água doce, destacamos a necessidade de se definir uma apropriada e eficiente dieta alimentar, que permita uma maior intensificação dos cultivos como forma de baratear os custos de produção e consequente viabilização da comercialização, isso tendo em conta que o preço das pós-larvas já atinge hoje níveis de 6 a 8 dólares o milheiro. Além disso, acreditamos que tanto para o camarão marinho como para o camarão de água doce é imprescindível a realização de pesquisas relacionadas com o melhoramento genético dos reprodutores para que possam ser produzidas pós-larvas de melhor qualidade e menos sucetíveis aos agentes patógenos dos ambientes de cultivos.

Panorama – Alguma mensagem aos pequenos produtores de camarões de água doce?

Eduardo – Aos pequenos produtores de camarão de água doce do Brasil, gostaríamos de reiterar que a ABCC estará sempre com as portas abertas a todos os produtores de camarões do país, inclusive possui no seu atual quadro de sócios, desde pequenos produtores com 2 hectares até grandes produtores com 700 hectares. Acreditamos que o desenvolvimento da carcinicultura brasileira passa necessariamente pelo fortalecimento das associações de classe, pois só a conjugação de esforços permitirá a superação das dificuldades e o estabelecimento de condições de viabilização técnica-econômica dos nossos empreendimentos.

Panorama – Qual o endereço atual e o telefone da sede da ABCC?

Eduardo – Nosso escritório fica na Av. Caxangá, 2.200, Bairro Cordeiro em Recife, Pernambuco.O nosso telefone é 081-227-0637. Dulce é a nossa secretária e o meu telefone é 081-421-4321.