Entrevista: Robins Mcintosh

Jomar Carvalho Filho – Após décadas manejando viveiros de terra, o carcinicultor brasileiro que acabou de assistir à sua palestra se deparou com produtores tailandeses engordando camarões em alta densidade, confinados em viveiros bem menores, revestidos com mantas plásticas (liner) e obtendo produtividades jamais obtidas. O Sr. acredita que estamos diante de uma tendência, e que esse pode ser também o futuro da carcinicultura brasileira?
Robins Mcintosh – Não é o que “eu” acredito. Mas todos nós sabemos que os preços do camarão estão caindo bastante, e quem quiser ficar no negócio vai ter que baixar o seu preço. Para isso, vai ter também que baixar os custos de produção. Então, a eficiência é o que conta. Na nossa experiência, cultivar camarões em alta densidade em viveiros revestidos com mantas plásticas é o modelo que funciona para reduzir os custos. Existem outros modelos, mas esse é o que melhor funciona para nós, e é por isso que estamos concentrados nele. Quem quiser ficar no mercado, terá que baixar custos, pois é para lá que os preços estão indo.

Jomar Carvalho Filho – O senhor pode nos falar sobre as vantagens do uso das mantas plásticas?
Robins Mcintosh – As mantas reduzem o tempo de preparação e otimizam o uso do viveiro. Quando você usa viveiros de terra tem que seguir as velhas regras, e depois da despesca é preciso secar, fazer calagem e outros ajustes, esperar encher novamente para aí então povoar. Isso tudo leva muito tempo e custa muito dinheiro. Com as mantas, se você tiver uma operação eficiente, você despesca e limpa tudo em apenas um dia, esteriliza com sol em um ou dois dias, enche novamente e vai colocar o viveiro em produção na semana seguinte. Isso é uma economia muito grande porque você pode ter mais ciclos, e esse é um dos atrativos que nos levam a pagar pelas mantas. Além disso, usando as mantas plásticas, você, basicamente, inicia cada ciclo com um viveiro novo em folha. Já os tanques de terra tendem a ficar envelhecidos e as performances caem ano após ano. Com as mantas plásticas a performance é a mesma em cada novo ciclo, porque você tem sempre um fundo novo e não há um envelhecimento ao longo do tempo. Como eu disse na minha palestra, a preparação do viveiro passa a ser algo mais “científico”, e deixa de ser uma “arte”. Se você considerar os últimos 10 anos e analisar grupos de produtores, verá que cada um tem a sua própria metodologia e o seu próprio jeito de lidar com o fundo dos viveiros e vai concluir que o que basicamente funciona é a intuição (feeling) de cada um. Ou seja, uma “arte”. O que temos com as mantas plásticas é “ciência”: limpamos, esterilizamos, enchemos e pronto. Por outro lado, quando se lida com cultivo intensivo, com mais camarões, temos que ter em mente que eles gostam de um fundo duro. Não gostam de muita lama e silte. Se você tem 10 camarões/m2, não tem camarões suficientes para perturbar o fundo, que permanece limpo, assim como a água permanece limpa, e está tudo ok. Mas, se você colocar 100 camarões/m2 e tiver animais se movendo para lá e para cá, o material do fundo e a lama tendem a suspender, e isso os camarões não gostam, e reduz muito as taxas de crescimento. Se estamos lidando com sistemas intensivos, com muitos animais, não queremos silte em suspensão e a manta plástica permite isso. É claro que existem também outras opções, e que o uso da manta não é obrigatório. Mas, seja qual for a opção, tem que levar em conta que não pode haver silte em suspensão.

Jomar Carvalho Filho – Qual o tamanho médio dos viveiros na Tailândia que utilizam mantas plásticas?
Robins Mcintosh – Isso varia, mas é tecnicamente difícil cobrir e também manejar viveiros muito grandes. Quanto menor o viveiro, mais fácil de cobri-lo. E se você paga pelas mantas você tem que cultivar intensivamente. Você não pode pagar por elas e utilizar 10 camarões por m2. Tem que partir para produtividades que lhe remunere. Mas, na medida em que o seu tanque ficar maior, a sua habilidade de produzir altas quantidades de camarão por m2 vai reduzindo. Respondendo a sua pergunta: geralmente o tamanho é abaixo de dois hectares.

Jomar Carvalho Filho – Nos tanques com mantas são utilizados bioflocos?
Robins Mcintosh – O que os bioflocos nos permitem é uma redução no uso da água. Repetindo o que falei sobre a “arte”: todo produtor tem uma quantidade diferente de água que costuma utilizar nos viveiros, e uma grande convicção sobre o que faz e o que não faz o camarão crescer. Mas hoje em dia, quando estamos lidando com um ambiente que possui doenças, os princípios de exclusão e biossegurança são importantíssimos se você quiser ter consistência. No topo da taxa de crescimento a consistência é sinônimo de lucratividade porque, atualmente, temos margens muito pequenas de lucro. Há 20 anos as margens eram muito grandes. Quando se perdia um viveiro, recuperava-o com a metade da safra de outro viveiro. Nos dias atuais, se você perder um viveiro pode precisar de até 15 viveiros para recuperar o prejuízo. Sabemos que todo produtor que tem um alto percentual de perdas de viveiro vai fatalmente sair do negócio. A idéia então é que haja consistência, e para ter consistência você tem que ter biossegurança, o que significa minimizar as perdas no viveiro. Tenho escutado muitas diferentes definições sobre biossegurança, mas a que eu uso é a exclusão dos patógenos. E um fator chave para excluir patógenos é não adicionar muita água, porque a água é o principal veículo para entrada de patógenos. Então os bioflocos permitem o uso mínimo de água e, essencialmente, atuam como uma estação de tratamento de água dentro de um viveiro. Imagine dois processos trabalhando ao mesmo tempo: em um deles os camarões estão crescendo, ao mesmo tempo em que temos um processo que transforma os resíduos em elementos não tóxicos. Algumas vezes um dos processos compromete o outro e você tem que manter o equilíbrio entre os dois. Dessa forma você minimiza a quantidade de água e, consequentemente, minimiza a possibilidade de introduzir patógenos. O propósito real disso tudo é reduzir riscos e aumentar a consistência da sua despesca.

Jomar Carvalho Filho – O senhor acredita que uma indústria como a que temos no Brasil pode sobreviver sem um programa SPF (livre de patógenos específicos)?
Robins Mcintosh – O termo SPF é geralmente mal utilizado. SPF é um termo que tem a ver somente com saúde. As pessoas confundem genética com SPF e SPR; e se você não entender muito bem isso, provavelmente terá problemas. Você não obtém SPF e SPR através de cruzamentos. SPF significa apenas que o animal está livre de vírus específicos. Então você me pergunta se podemos viver sem uma indústria de SPF? Bem, eu não sei. O importante é um programa que realmente enfatize a biossegurança. O caminho número um para ser seguido é o que leva à produção de pós-larvas limpas, com a exclusão de patógenos. Eu não uso o termo SPF, eu uso pós-larva limpa, que não possua vírus e outras doenças. Quando usamos um sistema caro e temos que estar seguros que não há vírus presente, a primeira coisa que se tem a fazer é se precaver, porque isso pode acabar com todo o processo. Refiro-me a necessidade de existir programas que visam produzir animais livres de doenças, cujos reprodutores são especificamente voltados para produção de pós-larvas que permita ao produtor trabalhar com biossegurança, nada tendo a ver com ganho de peso, bom crescimento, etc.. O principal é que esses animais não sejam portadores de nada que não queiramos que esteja dentro dos viveiros. Mas eu proponho também que animais limpos possam portar uma genética que os permita viver bem e ter uma boa performance nos viveiros. São coisas diferentes, mas você precisa desses dois componentes: animais limpos e boa genética.

Jomar Carvalho Filho – O senhor está aproveitando a sua vinda ao Brasil para conhecer um pouco mais sobre o Vírus da Mionecrose Infecciosa (IMNV ou NIM). Disse-me que não tem dúvidas de que um dia o vírus da NIM chegará à Tailândia, e que só não saberia afirmar quando. O Sr. pode nos falar um pouco mais sobre essa sua preocupação?
Robins Mcintosh – Qualquer produtor inteligente, que está no negócio já há algum tempo, entende que os vírus tendem a deixar as áreas em que estão contidos e se movem para outras áreas. O Brasil está muito distante da Ásia, mas, infelizmente, mesmo com todos os ensinamentos que se tenta fornecer, alguma pessoa não muito inteligente, não se sabe por que razão, obviamente levou algumas matrizes do Brasil para a China. E alguém, por alguma razão que também desconhecemos, levou da China para a Indonésia, pós-larvas e reprodutores provenientes dessas matrizes brasileiras. Foi dessa forma que a NIM foi transferida também para a Indonésia, estando presente em algumas áreas do país. Isso não quer dizer que a NIM vá para a Tailândia, mas aumenta muito a possibilidade. Num país onde a indústria do camarão é importante, como é o caso da Tailândia, seria uma imprudência não colocar em prática alguma estratégia para a eventualidade da chegada desse vírus no país. A NIM pode nocautear a indústria e isso pode custar muito caro.

Jomar Carvalho Filho – Seguindo o seu raciocínio, podemos então dizer que em algum dia a mancha branca pode afetar os cultivos no Nordeste do Brasil, como afetou a Região Sul?
Robins Mcintosh – Todos nós esperamos que não, mas forever is a long time (para sempre é muito tempo). Pode não ser neste ano, nem daqui a 10 anos, mas, e daqui a 100 anos? É difícil prever. A história nos diz que ao longo do tempo as coisas se movem, e você não pode predizer quando, mas a possibilidade existe. E quanto mais próximo o vírus estiver, maior a possibilidade. Mas veja um caso curioso com o vírus da mancha branca na América Central: Belize, no Caribe, ainda está livre do vírus da mancha branca, apesar da doença estar na Guatemala, em Honduras e no México, ou seja, em áreas bem próximas. Os produtores cuidadosos têm tido toda a precaução para não trazer matrizes contaminadas e a mancha branca ainda não entrou em Belize. Mas como eu disse, forever is a long time.

Jomar Carvalho Filho – Os resultados fantásticos com altas densidades que o senhor mostrou na sua conferência foram na presença da mancha branca. Como isso é possível?
Robins Mcintosh – Sim. A mancha branca está no meio ambiente, mas não dentro do viveiro. A biossegurança que praticamos é a de exclusão. Existe mancha branca no canal, no estuário, em todo lugar ao redor dos viveiros, mas não existe o vírus da mancha branca dentro dos viveiros e os camarões estão livres da doença apesar do vírus estar muito próximo. Se usarmos a tecnologia adequada ele não entra dentro do viveiro, e se os produtores não fizerem a coisa certa, vão perder a produção. Mas eles sabem o que tem que ser feito para sobreviver. Isso já foi demonstrado no Panamá e na China. A biossegurança por exclusão funciona.

Jomar Carvalho Filho – E como se dá esse processo de exclusão?
Robins Mcintosh – Se dá através de vários procedimentos que acabam por excluir o vírus do viveiro, e a utilização de animais limpos. Aliás, se você limpa os animais, você soluciona um grande percentual do problema. Na Tailândia, por exemplo, a mancha branca foi reduzida em 90% desde que introduzimos animais livres de doenças. Quando lidamos com vírus, precisamos conhecer quais são os seus portadores ativos e passivos. Os portadores ativos são aqueles que possuem o vírus incorporado e se multiplicando neles próprios. São geralmente animais com um grau de parentesco grande, como um outro camarão, um caranguejo, um decápoda e, em alguns raros casos, pode ser até um inseto. Já os portadores passivos são animais que, através da ingestão, capturam partículas do vírus que não são desativadas pelo seu trato intestinal. O vírus não está se multiplicando, e está simplesmente ativo e presente no trato intestinal por algum período de tempo. O camarão se alimenta desse portador passivo e se contamina. Mas os vírus são diferentes entre si e, se você tem um vírus, a primeira coisa que tem a fazer é conhecer como esse vírus infecta o seu camarão: se são pelas pós-larvas, pela água, por algum tipo de portador, por chuva, vento, etc.. Só depois de conhecer é que você pode desenhar um plano para eliminar a entrada desse vírus no sistema. No caso do vírus da mancha branca isso é relativamente simples porque é um vírus grande e complexo, que tem uma vida muito curta quando está fora de um portador ativo, que são, na maioria das vezes, decápodas. Neste caso, antes de iniciar o cultivo, aplicamos produtos químicos que eliminam os crustáceos portadores, e somos muito cuidadosos, pois temos que ter a certeza de que os decápodas foram todos mortos. Uma vez que não há mais portadores, os vírus presentes vão durar apenas três dias vivos no ambiente, que então estará pronto para ser povoado com pós-larvas limpas. Isso não funciona, por exemplo, com o vírus da Síndrome de Taura (TSV) que é muito diferente e bem mais complexo. Enquanto o vírus da mancha branca não suporta muito o ambiente dos tratos digestivos e se dissolve, o vírus da Síndrome de Taura mostra muita resistência, levando algumas pessoas até a especular que ele pode até ir para as nuvens e voltar ativo para os viveiros com as chuvas. E é essa complexidade que faz com que você não possa eliminá-lo apenas com medidas de biossegurança. E eis aí a importância da resistência genética. Passamos então a produzir animais resistentes ao TSV, e agora não nos preocupamos mais se ele está presente ou não no viveiro.

Jomar Carvalho Filho – Os víbrios estão muito presentes na carcinicultura brasileira. São também motivo de preocupação na Tailândia?
Robins Mcintosh – Eu parto do princípio que camarões saudáveis não são infectados pelos víbrios. Se um produtor se depara com uma infecção por víbrios, isso lhe diz que ele não tem camarões saudáveis. A pergunta que tem que ser feita é: por que é que eu tenho víbrio? Se você conseguir responder a essa pergunta, ao invés de ficar tentando superficialmente uma cura, as coisas vão ficar muito melhores. Os víbrios estavam presentes dessa forma no Brasil anos atrás? Alguma coisa tão drástica mudou de lá pra cá? Provavelmente não. O que pode, sim, estar acontecendo é que agora os animais estejam menos saudáveis.

Jomar Carvalho Filho – Podemos considerar os víbrios como os melhores indicadores do estado sanitário dos camarões?
Robins Mcintosh – E é um dos indicadores. Vamos olhar para o Equador e voltar aos anos 70. Era o início de tudo, tanques novos que nunca foram usados, não tinham uma indústria formada, não existiam rações de qualidade e os animais usados eram selvagens e saudáveis. Era muito fácil despescar animais com 25-26g. Já no final da década de 90, os produtores já começaram a ter muita dificuldade para despescar camarões com 12-14g. Detalhe: a tecnologia somente se desenvolveu, ela não retrocedeu! Porque então, que quando eles começaram e ninguém tinha experiência em criação de camarão, obtinham camarões com 25g e passados 20 anos de experiência, eles só conseguem obter camarões de 12g? Eu estive na Guatemala e lá é a mesma coisa. Eles estão produzindo camarão com média de 12g e estão felizes!!! E vibram quando conseguem camarões de 14-15g: olha que camarão grande! Isso não é normal. As sobrevivências de 50% passaram a ser consideradas normais, e é considerado um bom viveiro. Trabalhavamos 18 horas por dia com manejo de água e tudo o mais, e não conseguimos progredir apesar do esforço. Então eu fui para Belize para tentar alguma coisa diferente, e já que eu tinha um ambiente limpo decidi, ao invés de usar animais selvagens, utilizar animais limpos. Logo na primeira safra tivemos animais de 20g, e não foi difícil. O que mudou? Foi o fato de eu ter um animal limpo em um ambiente limpo. Foi aí que partimos para essa idéia de baixo nível viral porque concluímos que os animais selvagens, que deram início aos cultivos, foram, ao longo desses anos todos, se contaminando com vírus não letais. Os camarões não morrem nos viveiros, mas têm toda a sua fisiologia e o metabolismo afetados de tal forma que eles não crescem bem. Esses vírus vão enfraquecendo os camarões e basicamente impactam o sistema imunológico, tornando os camarões mais suscetíveis a víbrios e NHP, por exemplo.