Entrevista: Lucia Elizabeth Suarez

Algumas fazendas de criação de camarões brasileiras foram visitadas recentemente pela Dra. Lucia Elizabeth Cruz Suarez responsável pelo Programa Maricultura da Universidad Autonoma de Nuevo Leon no México. Convidada pela INVE do Brasil e ciceroneada pela Dra. Patricia Abelin, a Dra. Elizabeth, um dos expoentes mundiais na nutrição de organismos aquáticos concedeu uma entrevista a Panorama da AQÜICULTURA, onde falou, entre outras coisas, da importância das matérias primas na elaboração de alimentos de boa qualidade e amigáveis com o meio ambiente.


Panorama – É um prazer enorme tê-la conosco na Panorama da AQÜICULTURA e para começar poderíamos falar um pouco sobre seu trabalho no México, à frente do Programa Maricultura?
Dra. Elizabeth Cruz – O Programa Maricultura é o programa onde desenvolvemos nossa pesquisa. Estamos na Universidade Autônoma de Nuevo Leon, que é uma universidade que se encontra no interior. Mesmo não estando à beira do mar, há nove anos nossa instituição desenvolve uma pesquisa no Laboratório de Ecologia Aquática e Pesca. Atualmente contamos com uma infra-estrutura para fazer pesquisa aplicada e trabalhamos muito com a indústria, já que podemos desenvolver bioensaios experimentais em meio controlado, especialmente com camarões marinhos.

Panorama – De onde vem seu interesse pelos camarões marinhos?
Dra. Elizabeth Cruz – Fazem 16 anos que estou trabalhando na área. Desde a licenciatura, minha área de pesquisa e minhas teses foram sobre crustáceos e isso começou em 1980. O trabalho das minhas teses de mestrado e doutorado foram desenvolvidos na França com o grupo de pesquisa do IFREMER.

Panorama – Nos últimos nove anos sua pesquisa se concentrou somente nos camarões peneídeos?
Dra. Elizabeth Cruz – Sim, nesse período a maior parte da pesquisa foi dedicada aos camarões peneídeos, mas também trabalhamos com peixes de água doce, principalmente com os bagres.

Panorama – Atualmente o seu trabalho no México é voltado para o Penaeus vannamei?
Dra. Elizabeth Cruz – Estamos trabalhando principalmente com P. vannamei, mas neste momento há uma decisão, motivada por vários fatores, para regressar também ao cultivo do P. stilirostris. Esta espécie havia ficado de lado por um problema de enfermidade com o vírus IHHN (Infectious Hypodermal and Hematopoietic Necrosis), que ocasionava uma mortalidade quase total nos cultivos. Mas atualmente parece que esse camarão se tornou relativamente resistente a este vírus e por isso estamos retomando a pesquisa com o P. stilirostris nativo. Estamos tendo um problema muito grande com o cultivo de P. vannamei devido a Síndrome de Taura e muitas fazendas estão povoando com P. stilirostris. Além disso, há um empreendimento importante no México chamado Projeto Aquanova, que acabou de construir um laboratório de produção de pós-larvas de camarão azul (P. stilirostris).

Panorama – E o vírus IHHN?
Dra. Elizabeth Cruz – Esse grupo mexicano comprou uma tecnologia de um grupo francês no Taiti, que produziu uma linhagem de P. stilirostris que desenvolveu uma resistência particular ao IHHN e que é transmitida hereditariamente. Baseado nisso, já construíram esse laboratório impressionante e pretendem produzir pós-larvas para povoar milhares de hectares de viveiros a partir deste ano.

Panorama – Qual o tamanho da carcinicultura mexicana?
Dra. Elizabeth Cruz – Em 1995 foram produzidos cerca de 14 mil toneladas, em aproximadamente 12 mil hectares de viveiros com uma produtividade média de 800 a 1000 kg/ha/ano. 75% são fazendas com cultivos semi-intensivos com produtividades de 1 e 2 toneladas por ha. 20% são cultivos extensivos, com produtividades entre 500 e 800 kg/ha e aproximadamente 5% são cultivos intensivos com uma produtividade em torno de 5 toneladas por ha.

Panorama – Em quantos ciclos anuais?
Dra. Elizabeth Cruz – Dois

Panorama – Com que peso médio os camarões são despescados?
Dra. Elizabeth Cruz – Depende do mercado. Na realidade não há uma decisão, a priori, do tamanho que se deve despescar os camarões. Na prática despescam de acordo com as estratégias de mercado. Se hoje os preços estiverem bons, fazem a despesca hoje, antes do previsto.

Panorama – O que determinou o crescimento da carcinicultura mexicana?
Dra. Elizabeth Cruz – O México vem desenvolvendo pouco a pouco o cultivo de camarões, depois que suplantou uma barreira que havia, onde era permitido somente o cultivo de camarões à cooperativas. Ao redor de 1990, quando esta lei foi mudada e este problema solucionado, houve um grande desenvolvimento. Importante também foi a criação de uma associação de produtores de aqüicultura para ajudar a resolver os problemas políticos e econômicos que possam vir a prejudicar ou freiar o desenvolvimento da atividade. Por exemplo, caso haja um ataque de grupos ecológicos, que muitas vezes fazem comentários não muito bem fundamentados, os diretores da associação buscam a origem dessa informação e atacam o problema na sua origem, evitando que prossigam crescendo e causando danos a atividade. Não fosse esse tipo de trabalho, o desenvolvimento estaria muito mais lento. O representante da associação é uma pessoa da área da aqüicultura e está defendendo seus próprios interesses e de seus pares. É uma pessoa motivada, ativa e preocupada. Qualquer entrevista ou comentário que esteja fora do lugar, ele busca uma maneira de retificar com dados e números. Por exemplo, quando dizem que se destruiu manguezais numa área, os números informados são geralmente muito maiores do que a soma dos viveiros lá construídos. Dessa maneira é importante comprovar a incongruência da informação, que muitas vezes é veiculada com má intenção e má fé.

Panorama – Que papel desempenhou a indústria de rações no crescimento da carcinicultura mexicana?
Dra. Elizabeth Cruz – Pouco a pouco a quantidade de fazendas que requerem alimento complementar ou total está crescendo. Então a necessidade do alimento e a sua importância no desenvolvimento da indústria cresceu de maneira paralela a intensificação dos cultivos. Os cultivos semi-intensivos requerem alimentos complementares, sempre considerando a contribuição do alimento proveniente do meio natural. Já os cultivos intensivos dependem 100% do alimento completo. Então, é sobretudo nesses cultivos intensivos, que a qualidade do alimento desempenha um papel muito importante pois não há nada que possa compensar as deficiências. Nos outros casos, onde a produtividade natural está presente, não se nota se o alimento é um pouco deficiente. Há um aspecto educacional até que todos aprendam a manejar a produção natural e complementem com alimento balanceado. Nestes casos, não adianta oferecer um alimento muito caro, mesmo que seja completo, pois há a produção natural. Tem que haver equilíbrio das duas fontes. É muito importante o bom manejo dos viveiros.

Panorama – E os cultivos intensivos?
Dra. Elizabeth Cruz – Nos cultivos intensivos é preciso que o alimento seja o mais completo possível. Nesses casos, é imperdoável o não suprimento de um requerimento nutricional. Aí, podemos falar sobre um aspecto que em muitas partes do mundo foi descuidado, que é a qualidade da matéria prima. Dizem que o formulador de rações deve a todo momento mudar a fórmula para cobrir certos requerimentos nutricionais, em função da disponibilidade da matéria prima e da sua qualidade. Mas, atualmente, podemos dizer que os conhecimentos dos requerimentos nutricionais são suficientes para fazer uma boa ração desde que a qualidade da matéria prima seja constante, que tenha uma boa digestibilidade e uma grande disponibilidade de nutrientes. Baseado nisso, quando entramos numa fábrica de rações querendo um alimento adequado, a primeira coisa a ser verificada é a disponibilidade das matérias primas e de que forma são obtidas. De acordo com o processo de obtenção das matérias primas podemos definir, a priori, sem muitas análises de indicadores de qualidade, se a ração vai ter nutrientes disponíveis para os organismos. Infelizmente existem muitas matérias primas disponíveis, mas de má qualidade. Quando isso ocorre, procuramos ajudar os fornecedores, pois às vezes com pequenas modificações e investimentos, é possível fazer com o que os produtos – farinhas e óleos – que saem do processamento passem a ser de boa qualidade.

Panorama – Qual a origem das farinhas utilizadas no México?
Dra. Elizabeth Cruz – A capacidade de produção das farinhas de pescado do México cobre aproximadamente 40% das necessidades nacionais. As farinhas de pescados não são utilizadas somente na produção aqüícola, mas também na produção agropecuária. Muitas das companhias mexicanas que fazem alimento para aqüicultura trabalham com farinha importada do Chile e do Peru.

Panorama – As farinhas de pescados mexicanas são provenientes de pescados inteiros ou de subprodutos?
Dra. Elizabeth Cruz – Nosso país é produtor de pescado por excelência e lá existem as duas – de pescados inteiros e de subprodutos, principalmente de atum. Desde que aconteceu o embargo do atum pelos EUA, com motivos a princípio ecológicos mas na verdade um reflexo da manipulação por interesses econômicos, o consumo de atum no México cresceu. Então, os subprodutos do enlatamento são usados para fazer a farinha que é de qualidade inferior às elaboradas a partir do pescado inteiro. Mas se soubermos processar podemos fazer com que essa qualidade melhore e possamos aproveitá-la. O importante é saber onde está o problema da composição. As vezes, simplesmente peneirando-se a farinha, podemos aumentar seu conteúdo protéico e, se processarmos adequadamente, a proteína dessa farinha de subprodutos vai ser digerível. Estamos trabalhando muito com os fornecedores para aumentar a qualidade, caso contrário a importação vai continuar sendo necessária e é óbvio que isso aumenta os custos.

Panorama – O produtor de farinha aceita bem essa tentativa de melhorar essa qualidade?
Dra. Elizabeth Cruz – Uns sim, outros não. É difícil. A primeira coisa que tem que ser feita são melhorias, e sob o ponto de vista econômico eles dizem que não é interessante pois os produtores não estão exigindo. Vemos então que é também um problema de educação. Eles tem razão. Para que vão gastar mais se os aqüicultores não reclamam? Os aqüicultores não sabem o que exigir de uma ração. Compram de boa fé e poucas vezes analisam e comprovam se o que lhes dizem que estão lhes vendendo, é o que estão realmente comprando. Os aqüicultores devem conhecer o que compram e exigir qualidade. Devem estar conscientes e pedir ingredientes de qualidade além de saber quais os indicadores de qualidade que devem buscar quando compram. Quando estiverem conscientes disso, o fabricante de alimentos vai ver-se obrigado a melhorar a qualidade de seu produto para participar do mercado. Uma coisa muito importante é que muita gente compra por crédito, por preço e, por último, por qualidade. É um problema muito grande por que se estão pedindo que um alimento seja barato é obvio que a qualidade vai ser limitada e não se poderá ser muito exigente.

Panorama – Quantas fábricas de rações existem hoje no México?
Dra. Elizabeth Cruz – Ao redor de dez fábricas de alimentos balanceados para aqüicultura. Umas eram inicialmente produtoras de alimentos para aves e suínos e com o crescimento da aqüicultura começaram a fabricar alimentos para o setor. Algumas fizeram as modificações necessárias e outras não. Poucas se dedicam exclusivamente à alimentos para camarão ou peixe. Temos também empresas grandes, que são líderes e outras que estão introduzindo seus produtos no México. A Purina é a que tem o principal mercado no país. Agora temos a Rangen, que é uma companhia americana que abriu uma fábrica recentemente e que está fazendo uma boa ração extrusada.

Panorama – O alimento extrusado para camarão funciona? Não flutua?
Dra. Elizabeth Cruz – Sim, funciona. Um alimento extrusado não necessariamente flutua. Tudo depende da tecnologia no momento de extrusar e da sua fórmula. Tem muito a haver com o conteúdo de amido e de água. Sempre se perguntou sobre a melhor tecnologia, a nível de custo/beneficio, para alimento de camarão. Se é peletizada ou extrusada. Era mais barato peletizar e por ai foram muita gente. Mas o alimento extrusado também pode ser barato e é muito bom.

Panorama – A preços acessíveis? Qual o preço médio de uma ração de boa qualidade?
Dra. Elizabeth Cruz – Sim, é acessível. Seu preço gira em torno de 50 a 60 centavos de dólares o kg.

Panorama – O alimento que tem esse preço supostamente alcança que taxas de conversão alimentar?
Dra. Elizabeth Cruz – Para semi-intensivo ao redor de 1,5-1,8:1. Isso depende principalmente do manejo da fazenda. O mesmo alimento usado numa granja que tenha bom manejo nos viveiros pode ter uma taxa de conversão entre 1.2 a 1.5:1.

Panorama – Qual é a característica de uma boa ração para P. vannamei?
Dra. Elizabeth Cruz – Se eu comprasse uma ração para camarão a primeira coisa que eu gostaria de saber seria a respeito da origem da matéria prima que está sendo utilizada. Com isso eu teria uma idéia da qualidade e da disponibilidade de nutrientes. Em termos práticos, gostaria de uma alimento que fosse estável na água, mas não por muito tempo pois tem desvantagens, mas que também não se desmanchasse rapidamente. E que não tivesse muitos farelos. As fábricas podem evitar esses farelos de várias maneiras. Uma é adicionando óleo ao final do processamento, outra é usando um bom aglutinante. Eu não receberia um saco de alimento com mais de 5 % de farelos.

Panorama – E com relação às proteínas?
Dra. Elizabeth Cruz – O valor da proteína não quer dizer nada. Eu posso comprar um alimento com 45% de proteína mas, para o animal, somente 50% dessa proteína estará disponível se a qualidade da matéria prima não for boa. Por exemplo: se a fábrica de ração utilizar uma farinha de pescado que tenha até 70% de proteína, mas que foi processada a partir de um pescado que entrou em processo de decomposição (pois ficou esperando muito tempo no barco ou na fábrica antes de ser processado), pouca proteína estará disponíveis e teremos muitas aminas biogênicas produzidas pela atividade bacteriana. Se temos níveis de aminas biogênicas ou histaminas muito altos, isso indica que a matéria prima não estava fresca. Além disso, se não adicionam anti-oxidantes, as gorduras das farinhas se rancificam e baixam a digestibilidade das proteínas. Se ainda foi seca com calor direto, as proteínas se desnaturam e baixam também sua digestibilidade. Então, o valor de proteína como tal, mencionado na etiqueta do produto realmente pode não dizer nada. A garantia seria se tivéssemos o percentual de proteínas digeríveis no alimento. Outro ponto importante, é saber se o percentual de proteína de origem marinha é elevada ou não. As proteínas de origem marinha são mais digeríveis que as de origem vegetal. Eu exigiria ainda, por exemplo, que meu alimento para camarão tivesse como fonte de energia o amido de trigo que está provado ser o que mais facilmente se digere. Isto é parte do que os aqüicultores devem saber. Eles normalmente recebem suas rações de boa fé e a única coisa que checam é se o alimento não vai se desfazer rapidamente na água ou se não está rancificado.

Panorama – E a qualidade do alimento em relação ao meio ambiente?
Dra. Elizabeth Cruz – Existe ultimamente uma reação mundial, direcionando a produção aqüícola para a utilização alimentos chamados de “amigáveis com o meio ambiente” ou não contaminantes. Isso está muito ligado a digestibilidade dos ingredientes das rações e aos dejetos que gera. Se eu estou fornecendo um alimento com uma alta digestibilidade, a quantidade dos dejetos que o organismo gera e que libera no meio ambiente é menor. Também a relação custo/benefício é ideal, porque não estou desperdiçando nada. Mas se estou usando um alimento pouco digerível, a quantidade de dejetos que o animal libera depois de consumir este alimento somado ainda ao que não é consumido e que fica nos viveiros, fazem que o meio ambiente seja afetado. A primeira ponto afetado é a qualidade do fundo dos viveiros, a seguir a água e finalmente a produção. Também as águas que saem das fazendas podem causar problemas ao ambiente. Além da boa qualidade dos ingredientes, as rações amigáveis com o meio ambiente, utilizam aditivos que podem ajudar no aumento da digestibilidade ou na assimilação dos nutrientes trazidos pelas diferentes matérias primas. São aditivos enzimáticos para ajudar a assimilação protéica, aditivos lipídicos para ajudar na assimilação dos fosfolipídios, lecitinas e colesterol, e atrativos que fazem com que o animal coma todo o alimento rapidamente e que não haja perda para o meio através da lixiviação. Existe uma preocupação mundial em elaborar alimentos que sejam justamente o que o animal requer. Nem mais, nem menos e isso é bom também em termos econômicos.

Panorama – As fábricas tem se preocupado com este tipo de tecnologia e já incorporam esses aditivos?
Dra. Elizabeth Cruz – Há um estudo muito interessante feito pela equipe de pesquisadores do Grupo INVE, que compara os alimentos balanceados que existem em todo o mundo. Sem falar de marcas, pois é um trabalho muito ético, foi feito a categorização da composição das rações na Ásia, Europa, Índia e na América. A conclusão global depois de ver as análises completas de mais de 50 itens, entre proteínas, aminoácidos, ácidos graxos, colesterol, fosfolipídios, etc… de cada um desses alimentos, é que os alimentos asiáticos são os que oferecem os melhores rendimentos e estão cumprindo com esses nutrientes, que são muito específicos. Já os alimentos na América e nos outros lugares não. Podemos observar que nas regiões onde o cultivo de camarão já está muito desenvolvido, como na Ásia, que essas rações são elaboradas de maneira cotidiana. Seria muito interessante que também aqui no Brasil, fossem utilizadas essas novas tecnologias, antes que esses problemas ambientais venham a aparecer. De forma profilática. Os produtores ganhariam, sobretudo, através da alta qualidade desses alimentos.