Entrevista: Dr. Ye Jin Yun e Jim Zhang

Ni Hão, A República Popular da China é um “grande” país, com uma “grande” população e com uma “grande” aqüicultura que não para de crescer, acompanhando o desenvolvimento que o país vem experimentando nas últimas décadas. O desafio foi o de trazer para o leitor um Panorama dessa indústria através da visão de dois especialistas que atuam diariamente nessa nesse processo. Agradeço ao Sr. Ye Jin Yun, Diretor do Zhejiang Institute of Freshwater Fisheries (a direita na foto) e ao Sr. Jim Zhang, do escritório da American Soybean Association, em Xangai (a esquerda) e ao amigo Fernando Kubitza, que com o seu “chinês impecável”, também participou deste bate-papo. Xie Xie

Jomar Carvalho Filho – Editor

Panorama – Como poderíamos caracterizar os principais pólos de produção em água doce na China?

Ye Jin Yun – O cultivo de espécies dulcícolas está distribuído, principalmente, em três regiões da China, com o predomínio do cultivo das carpas. A primeira região se encontra no Leste do país, nas províncias de Zhejiang e Jiangsu. Normalmente nesta região os alevinos são estocados antes de março e despescados em dezembro. Nestas províncias, o período ótimo para o crescimento das carpas é de seis meses, de abril a outubro-novembro, onde a temperatura da água varia de 18 a 34 graus. A partir de dezembro a temperatura cai muito. A segunda região, também de muita importância, está localizada na parte central da China, mais precisamente nas províncias de Hunan e Hubei, e possui características ambientais muito parecidas com a região do Leste. A terceira região está localizada nas províncias de Guangdong e Guangshi, localizada no Sul da China e caracteriza-se por ser uma região subtropical, com invernos bem mais amenos.

Panorama – Qual a contribuição dessas três regiões para a produção aqüícola da China?

Ye Jin Yun – Eu suponho que no ano passado a produção em água doce da China tenha ficado ao redor de 15 milhões de toneladas. Eu diria que 60 a 70% deste total são provenientes dessas três regiões que estamos falando.

Panorama – A maior parte desta produção é ainda obtida através do sistema de policultivo tradicional?

Jim Zhang – Certamente. A maior parte é ainda o sistema de policultivo tradicional, mas com algumas modificações. O sistema tradicional de policultivo na China não usa ração, sendo baseado no uso de dejetos de animais, onde os produtores adicionam ainda alguns alimentos disponíveis na propriedade, como forragens, farelo de soja e outros, mas não usam ração. Atualmente podemos verificar que existem pelo menos duas novas tendências: a primeira que vemos é a utilização da ração no policultivo e, a segunda, adotada por um número crescente de produtores, é a adoção do sistema chamado 80-20, uma tecnologia que a American Soybean Association (ASA) está promovendo. O sistema 80-20 significa que 80% dos peixes despescados são de uma única espécie que se caracteriza por ter uma alta demanda e alto preço de mercado. Os demais 20% dos peixes são o que chamamos de “espécies de serviço” (service species). Usualmente é uma carpa filtradora para a limpeza da água ou uma espécie predadora para controlar os competidores. Há produtores que não usam exatamente o 80-20, por preferirem o 70-30 ou o 60-40. O interesse dos produtores em produzir peixes que se alimentam com ração é devido ao alto valor que obtêm no mercado. Há 10 anos as espécies filtradoras, carpa cabeça grande e carpa prateada, representavam cerca de 65% de total de peixes de água doce produzidos. No ano passado esse percentual já caiu para 35%. Isso mostra que mais e mais fazendeiros estão usando espécies de maior valor de mercado e que são produzidas com ração. É preciso ver que há 10 anos a China tinha uma economia planejada e, para as propriedades bastava apenas que produzissem peixes sem se preocupar com eficiência econômica já que o governo comprava todo o peixe produzido. Atualmente, tudo está baseado na economia de mercado, fazendo com que o gerente de uma fazenda tenha que estar preocupado com a eficiência econômica. Se você produzir muito peixe você pode não ganhar dinheiro suficiente para poder continuar a produção. E se você não produzir muito peixe pode fazer dinheiro e se tornar um herói.

Panorama – Nas principais regiões produtoras quais são as principais espécies escolhidas para serem as arraçoadas?

Ye Jin Yun – A número um é a carpa capim, um peixe de valor médio, mas com uma altíssima demanda de mercado, já que os chineses têm uma longa história de consumo desse peixe. Eles sabem como prepará-lo. A número dois é a carpa comum, seguida da Carpa “Cruciana”, da carpa de Wuchang, da tilápia e do bagre do canal vindo dos EUA. Atualmente o sistema de policultivo tradicional está evoluindo, deixando de utilizar esterco para usar ração, uma mudança impulsionada pela recente melhora do padrão de vida das pessoas na China. As pessoas estão optando por comer espécies de qualidade como resultado da economia de mercado.

Panorama – De que forma são comercializadas essas espécies?

Ye Jin Yun – Cerca de 90 a 95% dos peixes vão para o mercado local onde são produzidos para que sejam vendidos vivos, porque esse é o hábito das pessoas daqui. São mercados que chamamos de “mercado molhado”, onde as pessoas compram e levam para casa para limpar e preparar. Ainda é assim pois a distribuição do pescado para outras regiões ainda é restrita devido à deficiente infraestrutura viária e há uma carência em plantas processadoras, especialmente para os pescados de água doce. Esses são os dois maiores gargalos para o rápido e continuo desenvolvimento da aqüicultura na China. O governo chinês experiente no processamento e na distribuição do pescado já percebeu esses gargalos e está empenhado no desenvolvimento de plantas processadoras e vem multiplicando as rodovias muito rapidamente nos últimos 10 anos. A China já é o segundo país, bem próximo aos EUA, no total de milhas de rodovias construídas, isso somente nos últimos dez anos, quando praticamente saiu do zero. Quanto mais rodovias e plantas de processamento, mais peixes poderão ser distribuídos para diferentes localidades.

Panorama – Os chineses estão preparados para deixar de comprar o peixe vivo e passar a adquiri-los já processado, já que é uma mudança radical no seu hábito alimentar?

Jim Zhang – Essa pergunta me é feita com muita freqüência. Existem alguns motivos que explicam o porquê dos chineses não gostarem de peixes processados. O primeiro é histórico. Além disso, pequenas plantas processadoras já tentaram processar peixes de água doce, mas a qualidade era sempre muito ruim, levando os consumidores a terem a impressão de que todo o peixe processado não é bom. Há também o aspecto econômico: as pessoas costumavam ser muito pobres e não tinham condição de pagar os custos pelo processamento. O peixe vivo é vendido no mercado por ¥ 10 o quilo, o que equivale a R$ 2,88 o quilo. Após processado, o produto pode chegar a ¥ 30 o quilo e as pessoas não tinham salários para pagar por isso. Mas agora mais e mais pessoas estão tendo melhores condições, têm dinheiro e querem também usar o seu tempo livre de outras formas, aproveitando para ir ao cinema, ouvir música, praticar esportes, etc. As pessoas querem gastar o menor tempo possível na cozinha e já preferem comprar alimentos já prontos para serem cozidos, especialmente nas grandes cidades como Xangai e Pequim. A favor disso há ainda um outro aspecto importante: dez anos atrás, de cada 100 casas somente 10 tinham refrigerador. Mas agora, em 100 casas é possível que 95 já tenham refrigerador. Então, se comprarem um peixe processado terão agora onde armazenar. Há 10 anos, mesmo que adquirissem peixes bem processados, os chineses não teriam como guardá-los. Por outro lado, cada vez mais pessoas estão indo morar em apartamentos onde a circulação do ar é mais complicada, e os odores fortes do abate de um peixe vivo não saem com facilidade. Os mais velhos podem não reclamar disso e ainda irão preferir comprar peixes vivos para abater em casa, mas minha mulher, por exemplo, não gosta do odor que fica na casa. Quando ela vai a um “mercado molhado”, ela compra um peixe vivo e pede para abater lá mesmo. Eles ainda fazem isso, mas acredito que daqui a cinco anos não exista mais essa prática porque o governo já não quer vê-los mais fazendo, isso já que as vísceras e todo o resto são jogados fora e poluem muito o ambiente. Há um desejo de ver as cidades limpas com níveis de poluição cada vez menores. Hoje, se você for a um “mercado molhado” ainda vai encontrar pessoas eviscerando peixes, mas se você voltar daqui a cinco anos tenho certeza que não verá mais isso. O que se pretende é ter indústrias processadoras de altíssima qualidade, de modo que a qualidade do produto final seja a mesma do peixe vivo. Dessa forma a China espera que as pessoas aceitem esse produto.

Panorama – Que outras modificações estão ocorrendo na piscicultura e no comércio de pescados em decorrência da melhoria das condições econômicas?

Ye Jin Yun – Essa melhoria está levando os chineses a também preferirem algumas espécies de mais qualidade e por isso mesmo mais caras. Existem espécies que têm sido cultivadas para atender este mercado, como o peixe mandarim, o “largemouth bass” (“Black-bass”), a tartaruga do casco mole, o Macrobrachium rosenbergii e outras. O total produzido por essas espécies é ainda pequeno se comparado com as 15 milhões de toneladas de pescados de água doce que são despescados anualmente. Mas o volume desses pescados está crescendo mais e mais.

Panorama – Que tipo de alimento está sendo utilizado atualmente na aqüicultura chinesa? Os produtores estão preparando a própria ração ou compram rações industrializadas?

Jim Zhang – 25% do total dos alimentos colocados na água vêm das fábricas de ração e os 75% restantes ainda são alimentos elaborados pelos próprios aqüicultores ou são insumos, farelos e grãos, comprados em lojas que são fornecidos diretamente aos peixes. Na China, em 2001, o total de rações peletizadas fabricadas para aqüicultura foi ao redor de 5 milhões de toneladas. Se incluirmos todos os nutrientes utilizados para alimentos da aqüicultura, como pré-mixes, etc…, o total de tonelagem seria ao redor de 20 milhões de toneladas.

Panorama – E ainda há o uso do esterco?

Jim Zhang – O uso do esterco está cada vez menor, especialmente ao redor das grandes cidades devido à poluição, que é um grande problema que o governo está atacando. Mas nas áreas remotas, quase inacessíveis, onde a poluição ainda não é um problema as pessoas ainda estão utilizando esterco.

Panorama – É esterco vindo somente de animais?

Jim Zhang – Sim, principalmente de suínos e gado.

Panorama – O que os consumidores pensam a respeito dos peixes criados com esterco?

Jim Zhang – Nas cidades as pessoas não gostam, mas nas áreas remotas onde o sistema de transporte é ainda muito ruim e os insumos têm muita dificuldade para chegar, as pessoas ainda utilizam o esterco. Mas nessas regiões também não é grande a preocupação com segurança alimentar ou a higiene. Até 10 anos atrás ainda havia muita aqüicultura baseada no uso do esterco. Hoje em dia o uso do esterco ainda pode ser visto, mas com uma freqüência cada vez menor. A piscicultura baseada no uso do esterco nunca se acabará na China. Nas áreas remotas do país haverá sempre pessoas usando essa tecnologia de cultivo. A maioria dos produtores vai abandonar totalmente esse manejo num período muito curto de tempo. Eu diria que em cinco anos 80% do total dos piscicultores estará utilizando ração.

Panorama – Os produtores também utilizam fertilização inorgânica?

Jim Zhang – Sim, quando estão preparando os viveiros para a produção de alevinos eles algumas vezes usam esse tipo de fertilização para obter um bloom de algas. Mas num sistema baseado no uso de rações não se acrescenta nenhum fertilizante orgânico ou inorgânico. Uma vez que o alimento é colocado, vai haver sempre resíduos metabólicos nos viveiros que terão o mesmo efeito dosfertilizantes e serão suficientes para promover o crescimento de algas para alimentar as espécies filtradoras.

Panorama – E com relação às rações extrusadas na China?

Jim Zhang – Seis anos atrás não havia rações extrusadas aqui na China. A produção comercial de rações extrusadas começou em 1996 e agora devemos ter ao redor de 150 linhas de extrusão em todo o país. Com isso as rações extrusadas estão cada vez mais disponíveis. A maior estabilidade na água e maior digestibilidade das rações extrusadas diminuem as perdas, reduz a poluição e diminui o consumo de eletricidade com aeração. As melhores conversões alimentares compensam o custo adicional da ração.

Panorama – Como andam os preços dessas rações?

Jim Zhang – As mais baratas estão em torno de ¥ 2000 (US$ 246 ou R$ 590,00) a tonelada, mas não são essas as que a ASA está promovendo. As que a ASA promove custam ao redor de ¥ 3000 (US$ 368 ou R$ 884,00) a tonelada. Apesar de serem mais caras, elas compensam por proporcionar uma melhor taxa de conversão alimentar. Além disso a qualidade da água é melhor mantida de modo que a ocorrência de doenças é menor, acarretando diretamente em uma maior sobrevivência. Essas rações proporcionam um meio em que os peixes podem expressar todo o seu potencial de crescimento. Mas o maior problema para os extensionistas e para a ASA aqui na China é ensinar aos produtores a não procurar as rações apenas pelo preço, isto é, rações mais baratas, e sim, comprarem ração de boa qualidade. E outro trabalho também difícil é o de ensinar ao produtor a fazer o cálculo correto dos custos de produção.

Panorama – Qual as características dessas rações que custam ¥ 3000 a tonelada?

Jim Zhang – 32 % de proteína e 6% de gordura. Uma ração completa para peixes onívoros. Para a carpa capim, espécie herbívora, temos uma outra ração com 8% de fibras, extusada e com uma taxa de conversão alimentar de 1,2.

Panorama – Seria possível ter uma idéia dos custos de produção?

Jim Zhang – Vamos fazer uns cálculos para a ver se chegamos ao custo aproximado de produção da carpa capim na China. O preço médio da tonelada de ração é ¥ 2700 (ou U$ 329.00 ou R$ 790,00) e vamos considerar a taxa de conversão alimentar em 1,2:1. Fazendo as contas concluímos que o custo do alimento no quilo da carpa capim é ao redor de ¥ 3,3 (ou R$ 0,94). Nas pisciculturas este custo com a ração pode variar de 80 a 50%, fazendo com que o custo final de produção varie de R$ 1,17 (80%) a R$ 1,88 (50%). O consumidor paga de ¥ 6 a ¥ 7 (R$ 1,75 a R$ 2,05) pelo quilo da carpa capim.

Panorama – Como tem sido o cultivo da tilápia?

Ye Jin Yun – O cultivo de tilápias está crescendo muito rapidamente, pois muitas processadoras de Taiwan estão se mudando para o sul do país. Eles estão processando e exportando para os EUA. No ano de 2001, se não me engano, a produção total de tilápia foi ao redor de 700.000 toneladas. A província de Guangdong é a maior produtora, responsável pela metade dessa produção. Está localizada no sul do país e dispõe de pelo menos 260 dias ao ano para cultivo. Eles só não produzem a tilápia em dezembro, janeiro e fevereiro. Em todo o resto do ano é possível produzir tilápias em Guangdong. Existem produtores que possuem estufas e cultivam ao longo de todo o ano. Também existem regiões no sul de Guangdong que são um pouco mais quentes o que permite também o cultivo durante todo o ano.

Panorama – Os chineses gostam de comer tilapia?

Jim Zhang – Eu particularmente gosto muito de tilápia, mas não são muitos os chineses que gostam da tilápia e não há uma razão especial. Acho que pode estar ligado ao fato da tilápia ter sido introduzida no país sem um trabalho de marketing. Vocês sabem: a primeira impressão é a mais importante. Quando a tilápia foi aqui introduzida, há mais ou menos 20 anos, as pessoas não foram direcionadas para consumir este peixe. Mas pouco a pouco os chineses estão percebendo o valor da tilápia

Panorama – Como é o cultivo de tilapias em gaiolas na China?

Jim Zhang – Há uma grande produção em Hainam, onde é feita na água doce. Em outra província autônoma, Guangxi, a parte final do cultivo, aproximadamente duas semanas, é feito na água salobra, para que o sabor fique ainda melhor e a textura da carne mais firme.

Panorama – O off flavor é aceito de alguma forma?

Jim Zhang – Em algumas áreas da China o off flavor é ainda um problema, mas os consumidores já aprenderam a identificar a origem dos peixes e evitam comprar. Eles têm tantas opções no mercado que eles podem escolher os bons fornecedores.

Panorama – E a importância do Macrobrachium rosenbergii na China?

Ye Jin Yun – Atualmente a produção anual de M. rosenbergii na China é ao redor de 45.000 toneladas e foi introduzido através de países do sudeste da Ásia e está particularmente mais desenvolvido na região de Huzhou, na província de Zhejiang, onde eu trabalho e, somente este ano, já produzimos 200 milhões de pós-larvas. A maior parte da engorda é feita em monocultivo, mas há casos onde é cultivado com espécies secundárias, como as carpas. Apesar de haver alguma exportação, onde segue inteiro e congelado para a Europa, a maior parte do M. rosenbergii produzida na China e consumida aqui mesmo.

Panorama – Vimos que há a introdução de muitas espécies. O channel catfish dos EUA, também o pacu, o dourado e o curimatã do Brasil. Essas espécies foram introduzidas porque os chineses acreditam que possam ter maior valor no mercado, como é o caso do largemouth bass ?

Ye Jin Yun – A primeira razão é o beneficio econômico, aumentando o leque das espécies cultiváveis. As pessoas gostam de ter coisas novas para comer. Aqui temos uma população muito grande, e consideramos a aqüicultura a fonte mais importante para aumentar a disponibilidade de proteína animal. As pessoas gostam muito de comer as diferentes espécies introduzidas de diferentes países. No nosso instituto, por exemplo, fazemos estudos para saber se uma determinada espécie vale a pena e para que região ela é mais adequada. O fato das pessoas gostarem de comer algo diferente permite também que o produtor que trabalha com espécies novas aumente seus lucros.