Entrevista: Marcelo Chammas

O engenheiro de pesca Marcelo Chammas, um dos proprietários da Fishtec Consultores Associados, faz parte da nova geração de especialistas em aqüicultura comprometida com o crescimento planejado da atividade. Ao falar aos leitores da Panorama da AQÜICULTURA sobre o perfil da til apicultura brasileira, Marcelo aproveita para apontar os pontos vitais da aqüicultura brasileira que precisam ser estimulados,

Panorama – Na sua opinião o Brasil já é um produtor de tilápias ou é apenas um candidato a produtor? Qual o estágio de maturação da tilapicultura brasileira?

Marcelo Chammas – A situação do cultivo da tilápia no país não difere das outras espécies. A atividade de piscicultura segue sendo uma grande promessa, com bolsões isolados de uma indústria embrionária. Todos os indicadores nos levam a crer que o período de experimentações já passou e é ponto pacífico que já se dispõe de tecnologia nacionalizada para implantação de uma segunda fase mais profissional na aqüicultura nacional como um todo. Oxalá as autoridades definam uma política de crédito mais realista e um programa efetivo de extensão rural para que possamos alavancar este processo.

Panorama – Hoje se cultiva tilápias por que existe um mercado seguro ou por que se espalhou por aí que além de fácil era uma atividade muito lucrativa, do tipo “como ganhar dinheiro sem fazer força”? Qual o perfil do criador brasileiro de tilápias?

Marcelo Chammas – A aqüicultura brasileira se caracteriza por ser cíclica com relação a escolha da espécie a ser cultivada, o que demonstra o grau de primarismo em que se encontra, explicado pela pouca idade da atividade no país. Infelizmente, os modismos não contribuíram e nem irão contribuir para a consolidação da atividade. Alguns veículos de comunicação com amplo alcance popular foram os grandes responsáveis por este desserviço, lançando modismos e alardeando as facilidades e os altos ganhos com a aqüicultura, gerando aqüicultores despreparados que num curto espaço de tempo passam a propagar a inviabilidade do sistema.

A escolha da espécie a ser cultivada depende de uma análise criteriosa das condições climáticas e biológicas da propriedade e de um estudo detalhado do mercado para o produto, de ta] sorte que se respeite as grandes disparidades existentes em ambos quesitos no Brasil. Atua]mente temos uma grande gama de ti]apicultores no país, desde os mais despreparados até aqueles que se utilizam de tecno]ogia que não deixa nada a desejar a nenhum país do mundo. Fica difícil portanto, traçar um perfil do criador brasileiro.

Panorama – E o perfil do mercado? Existem dados sobre a demanda atual?

Marcelo Chammas – No Brasil o mercado de tilápias apresenta características distintas de acordo com as formas de comercialização do produto, origem e preços. Em linhas gerais podemos dizer que no nordeste brasileiro a maior parte das tilápias comercializadas são provenientes da pesca artesanal (a exceção da Capiatã e outros poucos produtores de pequeno-médio porte) e são comercializadas na forma de filés com preços ao redor de R$ 4,00 o quilo. Na região do oeste paranaense o produto é proveniente de pisciculturas de pequenas e médias propriedades e podemos observar situação similar a do nordeste no que diz respeito ao preço e forma de comercialização. Outra realidade é a observada para o Saint Peter’s (tilápia vermelha tetra-híbrida ) produzida na região sudeste do país, proveniente de grandes propriedades produtoras e que vem sendo comercializada apenas resfriada e com vísceras a um preço médio de R$ 5,00 o quilo. A situação comum destas três realidades é a de que a demanda é inúmeras vezes superior a oferta do produto e que o mercado vem crescendo nos últimos anos de forma consciente no que diz respeito a preços e volumes.

Panorama – Parece que essa grande demanda pela carne da tilápia não ocorre só no Brasil.

Marcelo Chammas – Na Colômbia por exemplo, em menos de dez anos após a introdução da tilapicultura comercial, se consome hoje cerca de 400 t de tilápia por mês. Vale lembrar que é um país com uma população igual a do Estado de São Paulo e situação econômica não muito diferente da nossa.

Nos Estados Unidos a produção interna em 1994 foi de aproximadamente 7.500 t, superior em 30% ao ano anterior, que já havia crescido 40% em relação a 1992. Mas o interessante é que as importações também não pararam de crescer, registrando um total de 15.000 t em 1993, um aumento de 87% em relação a 1992. Esse aumento superou em volume as importações de salmão em suas diferentes apresentações naquele mesmo ano.

Segundo o ICLARM (Filipinas), a produção mundial de tilápia dobrou de 1984 até 1991 e de lá para cá vem crescendo aproximadamente 10% ao ano, atingindo em 1994 um total de 588.900 t. Destas, 498.300 t foram produzidas na Ásia e o indicador de que ainda há espaço para um maior crescimento é que o preço não parou de subir nos últimos anos.

Panorama – Na sua opinião a produção brasileira de tilápias nos próximos anos será proveniente das grandes plantas produtoras, ou virá das associações de pequenos produtores de tilápias como ocorre atualmente no Oeste do Paraná?

Marcelo Chammas – Acredito nas duas possibilidades. Muito embora não haja uma cultura de cooperativismo no país, está na hora dos produtores descobrirem as grandes economias que este sistema propicia.

Panorama – Qual o investimento necessário para implantar uma fazenda de grande porte?

Marcelo Chammas – Uma análise responsável dos custos para a implantação de qualquer projeto tem que levar em conta as particularidades de cada propriedade, sendo um bom projeto de engenharia tão importante quanto um bom projeto biológico. Se quisermos uma idéia aproximada dos custos para implantação de um cultivo intensivo (30 a 40 t/ano), respeitadas as escalas mínimas de viabilidade econômica, podemos dizer que estes investimentos se pagam após 3 a 4 safras, cada uma variando de 9 a 12 meses, dependendo da temperatura local.

Processamento de tilápias na Maragricola, Colômbia. Acima, peixes lavados seguindo para filetagem. Abaixo, resultado final do processamento. Na Colômbia são consumidas 400 t por mês de tilápias
Processamento de tilápias na Maragricola, Colômbia. Acima, peixes lavados seguindo para filetagem. Abaixo, resultado final do processamento. Na Colômbia são consumidas 400 t por mês de tilápias

Panorama – O que põe em risco hoje o desenvolvimento do cultivo de tilápias no país?

Marcelo Chammas – A falta de linhas de crédito; a escassez de técnicos especializados e o alto custo dos insumos e equipamentos. Vale ressaltar que estes problemas afetam não só a tilapicultura, mas a aqüicultura como um todo.

Panorama – Por quê ainda são baixas as produtividades nos cultivos de tilápia brasileiros?

Marcelo Chammas – Infelizmente vivemos um cicIo vicioso onde o preço dos insumos e equipamentos são altos dado o baixo consumo. A qualidade dos peixes é baixa dado os baixos preços e vice-versa. Os preços também são baixos devido a uma falta de suprimento constante, o que se justifica com a falta de hábito do consumo de peixes e, tudo volta ao começo.

A experiência colombiana nos ensina que em um determinado momento alguém tem que romper com este cicIo. Se quisermos vivenciar o processo de alta produtividade que alguns países alcançaram teremos que investir em tecnologia visando produtos com controle de tamanho e off flavour (sabor desagradável de lama), preços constantes e produção ao longo do ano todo. Para tanto, os preços pagos ao produtor que hoje se situam na faixa de R$ 0,80 terão que subir e o preço dos insumos baixar, já que num cultivo intensivo de peixes a taxa de conversão alimentar se situa em torno de 2: 1 e o preço médio do quilo de ração é de R$ 0,40.

Panorama – E como anda o material genético da Oreochromis niloticus (tilápia nilótica) cultivada no país?

Marcelo Chammas – Pesquisas realizadas em Auburn (EUA) nos anos de 1983 e 1984 concluíram que dentre três fontes distintas de tilápia nilótica analisadas, israelense, brasileira e egípcia, a brasileira foi a que apresentou os piores resultados em termos de tolerância a baixas temperaturas e taxas de crescimento significativamente menores. Uma vez que não se importaram novos animais desde aquele período, é de se supor que exista material genético de melhor qualidade em outros países. Cabe ressaltar que devido ao longo tempo que algumas regiões do país receberam a tilápia, houve um processo de seleção natural resultando em indivíduos bem adaptados àquelas condições naturais. Por outro lado, esta base genética é bastante reduzida, trazendo prejuízos pela alta consangüinidade. De modo geral é muito difícil avaliarmos a qualidade de um determinado peixe apenas pela avaliação de suas características morfométricas, já que é de vital importância conhecermos a que condições este animal foi submetido, mas com certeza urge a necessidade de uma política clara de melhoramento genético de nossas espécies como um todo.

Panorama – Afinal, tilápia vermelha é melhor ou pior que as outras?

Marcelo Chammas – Na realidade uma tilápia vermelha pode ser melhor, igualou pior do que uma cinza, mas o que eu gostaria de salientar, é que da mesma forma que ninguém diz que cultiva uma tilápia cinza e sim tilápia do Nilo, tilápia áurea, tilápia do Congo, etc., chegou o momento de se esclarecer também a que variedade de tilápia vermelha estamos nos referindo e, acima de tudo, o porquê da opção por este ou aquele híbrido, já que a engenharia genética nos permite desenvolver animais mais precoces, mais prolíficos, com maior rendimento de carne, adaptados a diferentes condições de temperatura, dentre outras características.

E, se desejamos que o peixe passe a ser consumido em larga escala, devemos oferecer, através do beneficiamento, a mesma praticidade das outras carnes. Sendo assim, comprar peixe “in natura”, num curto espaço de tempo, será tão primitivo quanto comprar frango vivo, portanto a questão da cor e da aparência do peixe tende a perder este status atual, já que ninguém’ sabe qual era a cor da plumagem do frango que consome ou do boi que origina alguns hambúrgueres. Atente-se para o exemplo argentino e uruguaio com seus fish sticks, practice lines de pescado, kanicamas, surimis, etc.

Enquanto.isso no Brasil….