EPAGRI divulga resultados de produção da Safra aquícola de 2010 em Santa Catarina

Por: Jomar Carvalho Filho
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Biólogo e Editor da Revista Panorama da AQÜICULTURA

Todos os anos o Estado de Santa Catarina fecha com precisão os números da sua produção do ano anterior, e a divulgação desses dados aqui nas páginas da Panorama da AQÜICULTURA serve, principalmente, para que o exemplo catarinense de coletar essas informações seja seguido por instituições assemelhadas que fomentam a aquicultura em outros estados. Não é novidade que a extensão aquícola no Brasil se dissolveu ao longo dos últimos anos e que pouquíssimas instituições ainda insistam em fazer este importante trabalho, cuja ausência talvez seja a principal razão para que a aquicultura no Brasil ainda não tenha alcançado o nível de profissionalização que todos desejam. Mas a Empresa de Pesquisa Agropecuária e de Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), aposta na extensão, e não é à toa que este estado, com seu clima peculiar, ora temperado ora tropical, pratique uma aquicultura vigorosa, que cresce ano após ano, e cujos resultados podem ser avaliados ao final de cada safra, ajudando a estabelecer as metas para a safra seguinte.


A Epagri é uma empresa vinculada à Secretaria de Estado da Agricultura e da Pesca, e os dados da produção da aquicultura recentemente divulgados, referentes ao ano base 2010, foram coletados pelos seus técnicos, presentes em todos os municípios catarinenses. Esse levantamento vem sendo feito anualmente desde 1981.

Os números recém-divulgados retratam a produção das diversas espécies cultivadas em todo o estado, a área inundada destinada aos cultivos e a quantidade de produtores que se dedicam a atividade. Após o levantamento, as informações coletadas são enviadas aos escritórios regionais e, depois de organizadas, seguem para o Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca – Cedap, que vem a ser a unidade responsável pela gestão das pesquisas para o desenvolvimento dos cultivos de águas marinhas e continentais de Santa Catarina. Além da produção de peixes de água doce, foram também disponibilizados os dados contabilizados de cada um dos municípios produtores de ostras, mexilhões, vieiras e camarões.

Ao término de 2011, a empresa apresentou um conjunto de planilhas que mostra o panorama da aquicultura catarinense em 2010. Desta vez, o diferencial das informações sobre os peixes de água doce foi a divisão do volume, especificando o que foi produzido pelos produtores amadores (sem regularidade de produção, baixa tecnologia, vendas eventuais, etc.) e pelos chamados comerciais (ou profissionais), visando maior acuidade dos dados. Outro detalhe importante é que os dados relativos aos produtores profissionais foram coletados com nome, endereço, área alagada e produção por espécie. Além disso, foram também levantadas as associações de classe, o número de produtores de alevinos e as quantidades produzidas, bem como as informações relativas aos pesque-pagues existentes.

Produção da piscicultura amadora catarinense em 2010 (Fonte: Epagri)
Produção da piscicultura amadora catarinense em 2010 (Fonte: Epagri)
Piscicultores amadores

O trabalho da Epagri revelou um perfil de produtores que costuma passar despercebido no universo da informalidade. São produtores que se caracterizam pela falta de regularidade na produção e pelo uso de baixa tecnologia, comercializando apenas eventualmente a produção, razão pela qual foram considerados amadores. A produção (13.464 t) dessas pisciculturas, porém, é surpreendente e se mostrou significativamente importante (47,5%) para o universo produtor de pescado de Santa Catarina. São 21.623 piscicultores amadores que produzem em 33,4 mil viveiros, que juntos somam 9.514 hectares de lâmina d´água. O manejo feito de forma amadora permitiu que a produtividade média em 2010 não ultrapassasse 1,4 toneladas por hectare.

A tilápia foi o peixe preferido (5.411 t) entre os piscicultores amadores catarinenses, seguida da carpa comum (3.856 t), carpa capim (1.296 t) e carpa cabeça grande (1.044 t).

Com relação ao volume produzido, os 1.827 piscicultores amadores do município de Rio do Sul se destacaram ao produzirem juntos, um total de 1.768 t em 1.127 hectares de lâmina d´água (produtividade de 1,56 t/ha/ano), seguido dos 572 piscicultores de Caçador que despescaram 1.445 t em 575 hectares (produtividade de 2,5 t/ha/ano) e dos 1.593 piscicultores de Joinville que despescaram 1.235 t de 604 hectares de viveiros (produtividade de 2,04 t/ha/ano).

O aprofundamento dessas informações geradas junto a este universo de produtores certamente vai tornar possível uma melhor assistência técnica. Esse é o caminho correto para que vocações, tanto pessoais como as das regiões produtoras possam ser expressadas e, cada vez mais produtores amadores possam ser incorporados ao universo dos produtores chamados pela Epagri de comerciais.

Piscicultores comerciais

Entre os 2.350 produtores comerciais assistidos pela Epagri foi contabilizada uma produção de 14.855 toneladas, que foram despescadas em 7.129 viveiros, que somam 3.184 hectares de espelho d´água. Em 2010 a produtividade média desses produtores foi de 4,6 toneladas por hectare, um índice significativamente maior do que o obtido pelos produtores amadores.

A tilápia (9.944 t) também predomina na preferência desses produtores, e representaram 67% do total de peixes produzidos, seguido de longe pela carpa comum (1.695 t), carpa cabeça-grande (707 t) e o catfish (625 toneladas).

O município de Rio do Sul, com seus 313 produtores comerciais, também liderou a produção no estado ao somar 3.079 t produzidas em 406 hectares (593 viveiros), alcançando uma produtividade média de 7,5 toneladas por hectare, bem acima da média do estado (4,6 toneladas/hectare). Do total produzido em Rio do Sul 78,4% foram representados pela tilápia.

Produção da piscicultura comercial catarinense em 2010 (Fonte: Epagri)
Produção da piscicultura comercial catarinense em 2010 (Fonte: Epagri)

Virtualmente empatado com Rio do Sul, o município de Tubarão foi o segundo maior produtor do estado. Seus 367 piscicultores despescaram 3.050 toneladas nos 577 hectares do município (887 viveiros), alcançando uma produtividade de (5,28 t/ha).

Quanto aos demais municípios, Blumenau (1.707 t), Joinville (1.427 t) e São Miguel do Oeste (944 toneladas), seguiram em importância com relação ao volume produzido.

Maricultura catarinense

Liderança isolada no ranking brasileiro, a maricultura catarinense produziu 13.723 t de mexilhões, 1.908 t de ostras e 5,2 t de vieras. Os produtores do município de Palhoça foram os que mais produziram mexilhões (7.820 t), seguidos pelos da Penha (2.720 t), Bombinhas (936 t) e São Jose (840 t). Os maricultores do município de Florianópolis foram os que mais produziram as ostras (Crassostrea gigas) com um volume de 1.477 t, seguido de longe pelos produtores de Palhoça (180 t) e São José (126 t).

Infelizmente a mancha branca ainda mantém engessada a carcinicultura no estado que, ainda assim, conseguiu produzir 172 toneladas de camarão, com destaque para o município de São Francisco do Sul (70 t), Laguna (31 t) e Barra do Sul (31 t). A Epagri registrou ainda a produção de 400 toneladas de tilápia produzidas em águas salobras.

Alevinos, pesqueiros, associações e vontade política
Distribuição percentual das principais espécies de peixes de água doce produzidas em Santa Catarina em 2010 (Fonte: Epagri)
Distribuição percentual das principais espécies de peixes de água doce produzidas em Santa Catarina em 2010 (Fonte: Epagri)

O acompanhamento anual da Epagri registrou 18 laboratórios que produziram 43,8 milhões de alevinos, a maior parte deles concentrada em Blumenau e Tubarão. O estudo revelou ainda que 38 associações de produtores atuam no estado e que nada menos que 160 pesque-pagues estavam de portas abertas em 2010.

Principais espécies e volume produzido em 2010 em Santa Catarina (Fonte: Epagri)
Principais espécies e volume produzido em 2010  em Santa Catarina (Fonte: Epagri)

O poder público que se propõe a fomentar a produção de pescado em Santa Catarina sempre demonstrou vontade política e continua fazendo muito bem o seu dever de casa. O seu exemplo deveria ser urgentemente replicado pelo poder público de outros estados. A coleta e divulgação de dados referentes à produção aquícola é ferramenta imprescindível para quem se propõe a fomentar a produção pesqueira. O exemplo catarinense bem que poderia ser seguido pelo próprio MPA, que até hoje não divulgou os resultados do censo que realizou recentemente.


Os dados completos estão disponíveis e podem ser acessados no site da Epagri: www.epagri.sc.gov.br