Especial – Tilápia

Passados muitos anos desde que foi introduzida no Brasil, e após ser confirmada como o maior fracasso da nossa piscicultura nas últimas décadas, sendo indesejável e até considerada como praga, a tilápia reapareceu nos viveiros brasileiros, bem como em dezenas de outros países embalada por novas tecnologias, manejos e sofisticadas seleções genéticas capazes de estimular seus atuais criadores, fazendo-os crer que não estavam totalmente errados aqueles que acreditavam que a tilápia seria capaz de revolucionar um dia a piscicultura brasileira e mundial.

O cultivo de tilápias aparece registrado em pinturas egípcias confirmando o seu cultivo desde aproximadamente 2.500 anos a.C.. Há quem afirme que a tilápia foi o peixe que Jesus multiplicou para alimentar a multidão faminta. Tal fato inclusive, é aproveitado atualmente como mote de uma grande campanha de marketing orientada por especialistas israelenses, que passaram a chamar a tilápia de St. Peter’s fish ou peixe de São Pedro.

A Panorama da AQÜICULTURA recolheu dados de diversas pessoas que se envolvem com este peixe.

São pesquisadores, produtores e comerciantes que expõem suas experiências passadas e perspectivas futuras.

 Aspectos relevantes da biologia e do cultivo das tilápias

Panorama da AQÜICULTURA agradece aos especialistas da Auburn University, Thomas Popma e Len Lovshin por terem permitido a livre coleta de informações de seu recente trabalho “World Prospects for Commercial Production of Tilapia “.

As tilápias são endêmicas na África, Jordânia e Israel, já tendo sido identificadas aproximadamente 70 espécies. As tilápias de importância comercial estão divididas em três principais grupos taxonômicos, distinguidos basicamente pelo comportamento reprodutivo. São eles as do gênero Tilapia spp ( incubam seus ovos em substratos), Oreochromis spp (incubam os ovos na boca da fêmea) e Sarotherodon spp (incubam os ovos na boca do macho ou de ambos).

Na verdade, essa classificação taxonômica é recente. Há vinte anos atrás, todas as tilápias de importância comercial eram agrupadas num único gênero – Tilapia. Na metade da década de 70, entretanto, as espécies que incubavam seus ovos na boca foram separadas daquelas que incubam seus ovos externamente e foram classificadas como sendo todas do gênero Sarotherodon. Mais recentemente, em 1983, as espécies do gênero Sarotherodon foram novamente divididas, separando as espécies que incubam os ovos nas bocas da fêmeas sob o gênero Oreochromis. Desta forma, a tilápia nilótica, uma espécie de grande importância para a aqüicultura, hoje classificada como Oreochromis niloticus, será encontrada na literatura do final da década de 70 e início da de 80 como sendo Sarotherodon niloticus e, anteriormente a isso, como sendo da espécie Tilapia nilotica.

A tabela 1 mostra a nomenclatura comum e científica das principais espécies de importância comercial. Em todo o mundo, os cultivos em larga escala comercial se limitam às quatro primeiras espécies.

REPRODUÇÃO

Nas quatro principais espécies de tilápias cultivadas, todas do gênero Oreochromis, o macho polígamo escava um ninho no fundo do viveiro, geralmente em águas com menos de um metro de profundidade. Após um breve ritual de acasalamento, a fêmea desova no ninho (1 a 2 ovos/grama de fêmea) e incuba os ovos na sua cavidade bucal, depois de fecundados externamente. As larvas permanecem na boca da fêmea até a absorção total do saco vitelínico e freqüentemente buscam refúgio na boca por diversos dias após ser inflada a bexiga natatória.

A maturidade sexual nas tilápias é função da idade e do tamanho. O. mossambicus e O. urolepsis hornorum, em geral, alcançam a maturidade sexual com um tamanho menor e mais jovem que O. niloticus e O. aureus. Experimentos mostram que tilápias da mesma população crescendo em ambientes naturais maturam numa idade mais avançada e com tamanho maior do que aquelas colocadas em viveiros de engorda. O. niloticus, matura a partir do décimo mês em diversos lagos do Leste da África. A mesma população, cultivada em condições próximas ao de máximo crescimento maturou aos 5 meses com cerca de 150 gramas.

Sob condições de alimento limitado, O. niloticus e O. aureus podem chegar a maturidade sexual em pequenos viveiros com pesos em torno de 20 a 30 gramas e, sob condições de crescimento rápido em viveiros de engorda; O. mossambicus e O. hornorum podem chegar a maturidade sexual em até três meses de idade. Nestas condições, raramente atingem peso superior a 60-100 g e, sob condições limitadas de alimentação, os peixes maturam com peso abaixo de 15 g.

SALINIDADE

Apesar de serem peixes de água doce, as tilápias são extremamente tolerantes a água salobra. O. niloticus é a espécie menos tolerante entre as espécies comerciais embora cresça bem e se reproduza em salinidade de até 15 ‰. O. aureus cresce bem em águas com salinidades superior a 20 ‰ e O. mossambicus e O. spilurus crescem e até se reproduzem em salinidades próximas a saturação. Como resultado desta tolerância, O. spilurus, O. mossambicus e as tilápias vermelhas (derivada da O. mossambicus), são as preferidas para os cultivos no mar, em tanques-rede.

TEMPERATURA

A temperatura fria letal para a maioria das espécies de tilápias é de 10 ou 11 ºC, sendo que O. aureus é tolerante até 9 ºC. A alimentação geralmente cessa quando a temperatura cai abaixo de 16º ou 17 ºC. O manuseio pode causar doenças, que geralmente levam a mortalidades, se for feito a temperaturas abaixo de 16 ºC. A reprodução é inibida a temperaturas abaixo de 20 ºC.

A temperatura ideal para engorda de tilápias é de aproximadamente 29 – 31 ºC. Quando o peixe dispõe de alimento farto, o crescimento nesta faixa de temperatura é três vezes maior que a 20 ºC.

Tilápias podem tolerar temperaturas acima de 40 ºC, mas o estresse, que induz a doenças e mortalidades, é comum quando a temperatura ultrapassa os 37 ºC.

OXIGÊNIO

Baixas taxas de oxigênio dissolvido (OD) reprimem o crescimento em tanques de cultivo intensivo. As espécies de tilápias mais comumente cultivadas sobrevivem a concentrações de OD abaixo de 0,5 mg/l, níveis bastante baixos para outras espécies de peixes. A resistência para sobreviver em níveis baixos de OD deve-se a sua habilidade de aproveitar o OD do filme de água que fica em contato com o ar. Apesar dessa habilidade, os viveiros de engorda de tilápias devem ser manejados de modo a manter níveis de OD acima de 2 ou 3 mg/l porque o metabolismo e crescimento ficam inibidos quando esses níveis são cronicamente baixos e se mantêm por períodos prolongados.

pH

Tilápias parecem crescer melhor em águas próximo ao neutro ou ligeiramente alcalinas. O crescimento é reduzido em águas ácidas (possivelmente devido a redução da produção natural de organismos alimento), mas as espécies de tilápias mais cultivadas podem tolerar até pH 5.

O aumento de pH que geralmente ocorre na parte da tarde, podendo chegar a 10, aparentemente não afeta a produção de tilápias. Os limites letais de pH situam-se acima do pH 11.

AMÔNIA

A toxidez da amônia está intimamente ligada ao pH e por extensão à temperatura e ao OD. Com o aumento do pH, um grande percentual de amônia total se converte na forma tóxica não ionizada. Com o pH 7 menos de 1% da amônia total está na forma não ionizada, com o pH 8 cerca de 5 a 9%, com o pH 9 de 30 a 50% e, com o pH 10, de 80 a 90%. Conseqüentemente a toxidez da amônia é mais problemática em viveiros mal tamponados (alcalinidade abaixo de 30 mg/l de CaCO3) que freqüentemente alcançam, à tarde, pH 9 ou mesmo 10.

Mortalidades em massa de tilápias ocorrem em cerca de dois dias quando são transferidas abruptamente para águas com amônia não ionizada acima de 2 mg/l. Entretanto, quando aclimatadas, aproximadamente 50% dos peixes poderão sobreviver em concentrações superiores a 3 mg/l.

Exposição prolongada (algumas semanas) a amônia não ionizada a níveis superiores a 1 mg/l provocam perdas graves, especialmente entre larvas e juvenis em águas com baixo OD. As primeiras mortalidades devido a exposições prolongadas começam com níveis de amônia não ionizadas de até 0,1 – 0,2 mg/l. A amônia não ionizada reduz o apetite e o crescimento já em concentrações de 0,08 mg/l.

ALIMENTAÇÃO NATURAL

As tilápias ingerem uma grande variedade de alimentos naturais, incluindo plâncton, folhas verdes, organismos bênticos, invertebrados aquáticos, larvas de peixes, detritos e matéria orgânica em decomposição. Mesmo em viveiros com alimentação suplementar adequada, os organismos naturais são responsáveis por 30 a 50% do crescimento do peixe.

As tilápias são com freqüência considerados peixes filtradores porque podem capturar eficientemente organismos planctônicos. Entretanto, “filtradores” não é exatamente um termo correto, porque as tilápias fisicamente não filtram a água através dos arcos branquiais como fazem a carpa capim ou a cabeça grande. Nas tilápias, as brânquias secretam um muco no qual se aderem as células planctônicas e o “bolo”, rico em plâncton, é então ingerido. Este mecanismo permite a tilápia capturar micro-fitoplânctons menores que 5 µ de diâmetro.

Estercos de animais nos viveiros de tilápia funcionam duplamente como fertilizante e alimento. Os poucos carboidratos do esterco dos suínos e das aves são bem digeridos pelos peixes e aproximadamente a metade das proteínas remanescentes nas fezes dos suínos (proteína da dieta não digerida e escamação do tecido dos intestinos), são também bem digeridos.

A tilápia não revira o fundo do viveiro tão agressivamente como a carpa comum, entretanto, e principalmente nas primeiras horas da manhã, o fazem a procura de invertebrados bentônicos (do fundo).

Como outros Ciclídeos, os juvenis mais desenvolvidos e adultos são extremamente territorialistas e como conseqüência deste comportamento, o crescimento é muito desigual, principalmente em altas densidades quando o alimento é pouco e concentrado em poucos pontos do viveiro. Mas em geral, as tilápias utilizam o alimento natural tão eficientemente que produtividades acima de 1.500 kg/ha podem ser obtidas em viveiros bem fertilizados sem adição de alimento. O valor nutricional do alimento natural tem muita influência, mesmo em cultivos comerciais com alimentação farta.

PRODUÇÃO DE ALEVINOS

No ambiente natural, os animais se utilizam de diversas estratégias para assegurar a continuidade e a sobrevivência das espécies. Desta forma, alguns produzem um número muito grande de descendentes (alta fecundidade) e outros, geram pequenas proles para que possam melhor protegê-las. As carpas por exemplo, desovam somente duas vezes ao ano e não dispensam nenhum cuidado aos ovos após a fertilização. Uma aparente falta de cuidado que é compensada por desovas muitas vezes superiores a um milhão de ovos. Já as tilápias, ao contrário, produzem poucas centenas de descendentes por desova, os protegem guardando dentro da boca e podem, sob condições adequadas, desovar com grande freqüência (4 a 6 semanas), além de fazê-lo com pouca idade (freqüentemente antes dos 6 meses).

Os hábitos reprodutivos da tilápia são suficientes para assegurar sua boa sobrevivência em ambientes naturais. Esses hábitos no entanto, não são o que podemos chamar de ideal para o manejo de um cultivo, já que há a necessidade de se manter um grande número de reprodutores o que, por outro lado, reduz os riscos de consangüinidade muito comum e indesejável em cultivos de outras espécies.

Curiosamente, apesar da baixa fecundidade, a desova constante causa freqüentemente uma superpopulação e a redução no crescimento nos cultivos onde machos e fêmeas são engordados juntos (cultivo misto). Esse tipo de cultivo traz resultados inconsistentes tornando inaceitáveis comercialmente essa estratégia de produção, agravado ainda pelo fato de que o peso final das fêmeas representa geralmente, de 50 a 70% do peso dos machos.

Pode-se prevenir por exemplo a superpopulação fazendo a engorda em tanques-rede. Neles, os ovos caem através do fundo antes que as fêmeas possam recolhê-los para incubação na boca. Outra estratégia é o cultivo de tilápias com espécies predadoras, opção pouco recomendada por trazer maior complexidade nas operações.

Para evitar a superpopulação, os cultivos comerciais de tilápias operam, quase que exclusivamente, com o cultivo monosexo de machos (mais de 95% de machos). Desta forma, não somente pode-se prevenir desovas indesejáveis, como também usufruir das vantagem do maior e melhor ganho de peso dos machos. A técnica mais difundida para se obter somente alevinos machos é chamada de reversão sexual, apesar de também serem utilizadas a hibridização e a seleção manual dos sexos.

REVERSÃO SEXUAL

A reversão sexual é um processo no qual esteróides masculinos são administrados a larvas recém eclodidas. Este manejo faz com que os tecidos, ainda indiferenciados, das gônadas das fêmeas (geneticamente fêmeas) se desenvolvam em tecido testicular, produzindo indivíduos que crescem e funcionam reprodutivamente como machos. A administração dos hormônio esteróide masculino é feita via oral através da alimentação. O processo deve ser iniciado antes que o tecido da gônada primitiva tenha se diferenciado em tecido ovariano o que em Oreochromis spp em águas com temperaturas de 24 a 28 ºC, se dá na 3º ou 4º semana após a eclosão, com tamanho variando de 11 a 13 mm. Para obter alevinos revertidos, alimenta-se as larvas com rações contendo de 40 a 60 mg de 17 a metiltestosterona/kg de alimento por 3 a 4 semanas. A ração deve ser oferecida diariamente, pelo menos duas vezes ao dia. Ao final do tratamento a larva normalmente deverá estar pesando de 0,1 a 0,5 gramas, dependendo basicamente da temperatura e da qualidade da ração. A sobrevivência de 70 a 80% é considerada normal. A presença abundante de fitoplâncton na água não reduz a eficiência do tratamento, da mesma forma que as temperaturas baixas, que diminuem a taxa de crescimento, podem apenas prolongar o tratamento por mais uma semana sem afetar negativamente a eficiência.

O percentual de machos após o tratamento freqüentemente fica acima de 95%, mas ocasionalmente podem ocorrer percentuais de 80 a 90%. As razões para essas ocasionais reduções na taxa de reversão ainda não estão claramente entendidas mas o tamanho/idade adequadas para o início do tratamento bem como um crescimento muitas vezes muito acelerado (peso final de 0,7 g) são causas prováveis. Esse crescimento rápido, resultado de uma combinação de alta temperatura e boa qualidade da ração pode induzir a larva a passar muito rapidamente pela estreita janela da susceptibilidade da reversão sexual. A eficácia da reversão sexual é similar para O. niloticus, O. aureus e O. mossambicus.

Evidências disponíveis indicam que o esteróide metiltestosterona é eliminado naturalmente pelo peixe assim que o tratamento é encerrado, não sendo mais encontrado em peixes de 1 grama. Aparentemente parece não haver nenhum dano ao consumidor já que o peixe é criado muitos meses sem esteróides antes do abate. Apesar disso, os produtores devem estar atentos a este assunto pois muitos consumidores ainda podem rejeitar a tilápia por essa razão. Além disso, a venda de tilápias tratadas com esteróides não é aprovada pelo FDA (Food and Drug Agency) do governo norte-americano. Tecnicamente a tilápia tratada com esteróides em qualquer estágio do seu ciclo de vida é ilegal para ser vendida nos EUA. Mas, na realidade, centenas de toneladas de tilápias tratadas com esteróides quando larvas são atualmente vendidas nos EUA. Um grande número de agências educacionais e governamentais trabalham junto ao FDA para desenvolver as evidências necessárias a aprovação do esteróide para criadores profissionais.

SUPER MACHO

A técnica de produção de super machos de O. niloticus ainda está sendo aperfeiçoada. Os super machos (YY) quando cruzados com fêmeas normais (XX) produzem uma prole 100% machos sem a necessidade da utilização oral de esteróides.

A produção é baseada no fato de que o sexo genético dos peixes não é mudado com a reversão sexual, mesmo que a aparência e a capacidade reprodutiva do peixe tenha sido alterada.

Diversos passos são necessários para a produção de super machos. Alevinos normais são revertidos sexualmente com esteróides femininos, resultando “fêmeas” que são machos genotípicos (XY) (identificados depois de maduros através de testes). Essas “fêmeas” são então cruzadas com machos normais (XY). Teoricamente 1/4 da população será YY ou super machos (1 XX fêmeas normais + 2 XY machos normais + 1 YY super machos).

A técnica é promissora mas ainda não está sendo utilizada comercialmente, além do mais, para complicar, o sexo em tilápias é também influenciado por outros fatores genéticos e possivelmente físicos.

SELEÇÃO MANUAL

A seleção manual de sexos ou sexagem, é feita através da observação da papila genital. Para selecionar com mais precisão a tilápia nilótica é preciso que os peixes tenham pelo menos de 25 a 30 gramas. Mesmo assim experiências de campo mostram também uma precisão de 95%. A vantagem da sexagem manual é que não é preciso a utilização de esteróides. Esse sistema é comercialmente exeqüível, e muitas vezes o mais recomendado, para produtores de pequeno/médio porte.

Para operações de grande porte, as seguintes desvantagens devem ser consideradas:

– Metade dos peixes produzidos nos berçários (fêmeas) é um subproduto de pouco valor e, para estocar alevinos de 1 g (machos e fêmeas) até o momento da sexagem é preciso ter um espaço total de 20 a 25% do total da área de engorda.

– A capacidade máxima de trabalho de um profissional especializado é de 2000 alevinos por hora (aproximadamente 1000 machos/hora).

– Erros de sexagem tendem a ser aumentados, dependendo do nível de experiência e da pressão para se sexar mais peixes e de tamanho cada vez menores.

BERÇÁRIO

Em países tropicais a duração da fase berçário varia de 5 a 13 semanas, dependendo do tamanho que se pretenda despescar. Para estocagem nos viveiros de engorda há uma preferência por peixes maiores para uma utilização melhor dos viveiros e porque se obtém melhores sobrevivências. O tamanho desejado pode ser menor que 10 g e não excede 50 g. Os de menor tamanho são adequados para viagens longas e quando a verificação do percentual de machos não é necessária. Os de tamanho intermediários são adequados para a sexagem manual e os de tamanho grande são utilizados geralmente para engorda em gaiolas. Com uma ração razoavelmente boa e temperaturas acima de 25 ºC, alevinos de 1 g alcançam de 10 a 15 g em 5 a 6 semanas e 25 a 30 g em 8 a 10 semanas. Em regiões subtropicais, o apetite das tilápias diminui assim como o crescimento. Na presença de alimento abundante, as tilápias em águas a 26 ºC crescem duas vezes mais rápido que a 22 ºC. A temperatura afeta o crescimento e conseqüentemente o tempo de berçário, mas pouco afeta a produtividade final ou a conversão alimentar caso os peixes não tenham sido super alimentados.

As taxas de estocagem recomendadas para o berçário são principalmente em função da disponibilidade de nutrientes e do peso final desejado ao final do período de berçário. A biomassa final, com uma ração de boa qualidade, sem aeração ou troca de água, é de 2.000 a 3000 kg/ha. A sobrevivência média nessa fase é de 60 a 80 %.

Em viveiros berçários ricos em plâncton, é possível não se alimentar nas primeiras duas semanas porque a abundância de alimento natural será suficiente se a população estiver abaixo de 300 a 500 kg/ha. Nesses casos, os viveiros são previamente adubados com esterco (1.000 a 2000 kg/ha) e de 300 a 800 kg/ha/semana durante as duas primeiras semanas.

ENGORDA

As estratégias para engorda de tilápias variam de simples manejos, com pouco controle sobre a qualidade da água, até técnicas complexas onde o controle da água é total bem como a qualidade do alimento artificial administrado. Oito níveis de manejo serão descritos a seguir. Qualquer um dos níveis poderá ser o mais apropriado segundo a infra-estrutura existente, disponibilidade de capital, custo e qualidade dos nutrientes disponíveis, valor de mercado do peixes, etc. Geralmente uma operação comercial de pequena escala opera com o nível 2 e operações comerciais de larga escala operam com variantes dos níveis 3 a 8.

Nível 1 – Extensivo – Densidade de estocagem de 1.000 a 2.000/ha com alimentação natural proveniente de nutrientes disponíveis no próprio solo. Produtividades variam de 200 a 500 kg/ha/safra. O cultivo só será viável se os custos com o terreno e a construção dos viveiros forem muito baixos.

Nível 2 – Semi-intensivo – Cultivo em viveiros que podem ser enchidos e drenados quando for preciso. Fertilização orgânica ou inorgânica e complementação alimentar com subprodutos da propriedade.

O abastecimento de nutriente orgânico (esterco + alimentação) varia de 30 a 50 kg peso seco/dia e, a utilização de 500 a 2.000 galinhas (ou patos), ou 50 a 100 suínos por hectare, é recomendada. Os menores valores são para águas paradas e os maiores para viveiros com trocas de 5 a 10 %/dia.

As taxas de estocagem vão de 5.000 a 20.000 tilápias/ha e as produtividades variam de 2.000 a 6.000 kg/ha/safra para viveiros somente estercados, e de 4.000 a 8.000/kg/safra em viveiros fertilizados e abastecidos com subprodutos agrícolas. Os ciclos são de pelo menos 6 meses.

Nível 3 – Intensivo com aeração de emergência – Cultivo em viveiros na qual a água que entra e sai pode ser controlada. As taxas de estocagem vão de 10.000 a 30.000/ha. As tilápias são alimentadas com rações de boa qualidade na taxa de 2 a 4% da biomassa dia com ofertas máximas diárias de 80 a 120 kg/ha. A aeração não é utilizada constantemente, apenas em momentos críticos para restabelecer os níveis de OD desejado. As produtividades variam de 5.000 a 10.000 kg/ha/safra.

Nível 4 – Intensiva com aeração constante e sem troca d’água – Estocagem e manejo como nível 3 acompanhado de aeração constante e nenhuma troca de água. As produtividades variam de 8.000 a 15.000/kg/ha.

Nível 5 – Intensiva com aeração constante e troca d’água – As unidades de cultivo são pequenas, os viveiros de terra são circulares ou retangulares com no máximo um hectare; ou podem ser de concreto, na forma circular e dreno central, variando de 100 a 400 m2. As densidades de estocagem variam de 5 a 10/m2 e os peixes são alimentados com ração completa de boa qualidade (não há alimentação natural). A aeração é contínua para manter o OD em nível elevados e provocar um fluxo que leve os dejetos para o esgoto central. As produtividades variam de 20.000 a 30.000/kg/ha/safra, dependendo principalmente das quantidades de água que são trocadas.

Nível 6 – Troca de água contínua – Raceways – As unidades de produção são pequenas (100 – 400 m2), de concreto, retangulares ou circulares e com dreno central. Machos de tilápia são estocados de 70 ou 120/m3 e são alimentados com ração completas. Trocas completas de água são feitas de 1 a 3 vezes por hora. Uma fonte de água para abastecimento por gravidade torna a operação economicamente mais interessante. A produtividade pode variar de 70 a 200 kg/m3/safra.

Nível 7 – Tanques-rede ou gaiolas – Tanques-rede são utilizados em lagos, reservatórios, rios de pequeno fluxo e oceanos. Os machos de tilápia são estocados de 50 a 100/m3 em tanques rede de grande volume (> 5 m3) e até 600/m3 (pequenas gaiolas são mais eficientes por unidade de volume devido a troca de água mais eficiente). As gaiolas não devem tocar o fundo para que sejam evitadas as desovas. Produtividades variam de 50 a 300 kg de tilápias/ m3.

Nível 8 – Reutilização da água – A maioria dos sistemas que reutilizam a água funcionam em ambientes fechados de modo que os parâmetros físico-químicos e biológicos possam ser controlados de perto. As tilápias são estocadas em densidades que variam de 25 a 50/m3 em tanques de 100 a 200 m2. A temperatura da água é controlada e oxigênio puro é fornecido. Os dejetos dos peixes e da alimentação são retirados com filtragem mecânica e biológica e trocas de 5 a 10% do volume de água são realizadas diariamente. As produtividades podem variar de 50 a 100 kg/m3/safra.

Os riscos de quebra de safra são grandes devido a defeitos mecânicos no sistema que podem levar a grandes mortalidades. É um sistema muito utilizado em regiões onde a temperatura cai abaixo das aceitáveis para as tilápias.