Especialista fala sobre o policultivo de camarão com a tilápia

“É preciso viabilizar comercialmente as fazendas que operam com baixas sobrevivências e elevadas taxas de conversão alimentar”

Em junho último, pelo nono ano consecutivo, foi realizado em Fortaleza-CE, o Pecnordeste 2005. O evento promove seminários para diversos setores do agronegócio com destaque para os seminários de aqüicultura, que vêm a cada ano ganhando mais corpo, propiciando a muitos aqüicultores no nordeste a oportunidade de assistir a grandes contribuições oferecidas pelos especialistas convidados.

A versão deste ano do Pecnordeste aconteceu logo a seguir à divulgação das primeiras notícias relatando a descoberta da presença do vírus da mancha branca em fazendas do município de Aracati – CE. Muitos produtores, pegos de surpresa com a notícia, aproveitaram o evento para buscar informações consistentes e esclarecedoras. Por conta disso, entre as palestras mais concorridas, destacou-se a do presidente da Associação Norteriograndense de Criadores de Camarão (ANCC), Enox de Paiva Maia, que falou acerca dos testes que realizou recentemente com o policultivo do camarão L. vannamei com a tilápia do Nilo Oreochromis niloticus, em tanques-rede e viveiros.

Na introdução de sua apresentação, Enox se preocupou em justificar a importância que tem o policultivo no momento atual da carcinicultura brasileira, e para isso apresentou uma resenha da produção de camarões no Brasil, de 1998 a 2004. O quadro apresentado não foi dos melhores. Enox Maia falou objetivamente dos principais problemas que desembocaram na atual redução dos níveis de produção e produtividade nas fazendas brasileiras, com destaque para a presença ameaçadora do vírus IMNV, causador da NIM que, entre outras enfermidades, mantém a sobrevivência média atual ao redor de 45%, com impensáveis fatores de conversão alimentar, que não raramente chegam a alcançar patamares próximos de 3:1, resultando em custos de produção que variam, hoje, de R$ 6,00 a R$ 10,00 para o quilo do camarão cultivado (Figura 1).

Figura 1 - Variação dos custos de produção em função da densidade inicial e da produtividade
Figura 1 – Variação dos custos de produção em função da densidade inicial e da produtividade

Paralelo às enfermidades, Enox também atribuiu uma grande responsabilidade à queda dos preços do camarão no mercado internacional e a desvalorização do dólar americano em relação ao real como fatores que contribuíram para a recente queda de lucratividade dos produtores, tornando a carcinicultura marinha uma atividade não tão interessante como vinha sendo nos últimos anos.

Com o objetivo de viabilizar as fazendas de camarão já existentes, Enox Maia discutiu as possibilidades, os requisitos e as vantagens da integração do cultivo de camarão com outros cultivos, como o de moluscos, plantas aquáticas, peixes estuarinos (tainha, carapeba e robalo) e a tilápia.

Camarão + Tilápia

Alguns requisitos relacionados ao uso da tilápia no policultivo com o camarão foram discutidos por Enox, entre eles, a tolerância do peixe à salinidade trabalhada nas fazendas de criação de camarão, a disponibilidade de alevinos, cuja demanda pode elevar-se abruptamente com o repentino interesse por esse tipo de consórcio, a disponibilidade de recursos financeiros e de linhas de crédito, e a necessidade de abertura de mercado, tanto nacional como internacional. Entre as vantagens do consórcio, destacou que haverá uma diversificação saudável dos produtos ofertados, a redução dos custos de produção de camarão e o aumento da capacidade de pagamento dos investimentos, itens dificilmente alcançados na situação atual em que se encontra a carcinicultura, com a prática do monocultivo.

A necessidade dessa integração, segundo Enox Maia, surgiu em outros países, em função das grandes perdas causadas pelo WSSV (vírus da mancha branca) na Tailândia, Vietnã, Filipinas, México e Estados Unidos. No nordeste brasileiro, pelo menos até o momento, não é o vírus da mancha branca que aponta para a necessidade do policultivo já que, apesar de estar presente, até o momento não foram encontrados camarões com sintomas da doença. Entretanto, os prejuízos causados pelo vírus IMNV, causador da necrose muscular (NIM), que vem resultando em baixas sobrevivências e altas taxas de conversão alimentar, são motivo mais do que suficiente, na opinião do especialista, para por em prática as estratégias do cultivo consorciado. A tilápia nilótica, na sua opinião, torna-se a principal espécie com potencial para o policultivo com o L. vannamei em decorrência da sua rusticidade e facilidade de adaptação à água salgada, onde, segundo Enox, suporta muito bem salinidades de até 25 ppt, com 90% de sobrevivência. Hoje já existem cerca de 10 hectares de viveiros integrando o L. vannamei com a Oreochromis niloticus nos Estados do RN e CE, entretanto Enox deu a entender que muito em breve, extensas áreas deverão iniciar este policultivo.

O Experimento

Em sua palestra no Pecnordeste 2005, Enox apresentou os resultados de um experimento de policultivo do L. vannamei com a tilápia do Nilo, conduzido na Fazenda Aquarium Aqüicultura do Brasil Ltda., em Mossoró (RN). O experimento foi realizado em duas fases, a primeira em tanques-rede e a segunda fase em viveiros escavados.

1a Fase – Para a primeira fase do experimento, alevinos de tilápia nilótica foram transportados durante seis horas, na densidade de 2,5 peixes por litro, com água a 30 oC e 6 ppt de salinidade. Na fazenda os alevinos foram aclimatados de 6 ppt para 14 ppt, durante 5 horas (1,6 ppt/hora), apesar da tilápia nilótica agüentar choque direto de salinidade de 6 para 15 ppt com 100% de sobrevivência.

Na primeira fase do experimento, dez tanques-rede (4,3 m3 cada) foram instalados em dois viveiros escavados medindo 2.700 m2 cada, ou seja, cinco tanques-rede (TR) em cada viveiro. Cada TR foi povoado com 1.000 alevinões com 30,8g de peso médio inicial (232,6 alevinos/m3). Ao final de 50 dias, quando os alevinões atingiram cerca de 170g, os dois viveiros foram estocados com camarões provenientes de berçários, já com 7,1 g de peso médio (10 camarões/m2). Ao final de 100 dias de cultivo, os peixes atingiram cerca de 350 g de peso médio e foram transferidos para a Fase 2, em um terceiro viveiro, onde foram mantidos sem a presença dos camarões.

Os camarões foram despescados dos viveiros 1 e 2 iniciais, após 40 dias da retirada dos peixes, ou seja, com 90 dias de engorda. O peso médio final dos camarões foi de cerca de 20 g e a sobrevivência final de 50%. Os camarões não foram alimentados durante a fase de engorda em policultivo.

2a Fase – Na segunda fase, o viveiro 3 foi povoado somente com as tilápias de 350 gramas, na densidade de 2,6 peixes/m2. Foram mantidas por mais 60 dias, quando foram despescadas com peso final de 700 g. A Figura 2 mostra o crescimento dos peixes ao longo de todo o experimento, e o resumo dos resultados em termos de sobrevivência, ganho de peso, tempo de cultivo, etc. é apresentado no Quadro 1.

Figura 2 - Peso dos peixes em relação ao tempo de cultivo
Figura 2 – Peso dos peixes em relação ao tempo de cultivo
Quadro 1 – Resultados da engorda do policultivo de L. vannamei e Tilápia do Nilo///Fonte: Enox de Paiva Maia 
Quadro 1 – Resultados da engorda do policultivo de L. vannamei e Tilápia do Nilo///Fonte: Enox de Paiva Maia

Após a apresentação dos resultados do experimento, Enox fez uma avaliação do desempenho econômico extrapolando os resultados do experimento que realizou para uma fazenda de 100 hectares. O Quadro 2 mostra o resultado da avaliação de cada hectare por ciclo de produção.

Quadro 2 – Avaliação do desempenho por hectare/ciclo quando os resultados são extrapolados para uma fazenda de 100 hectares///Fonte: Enox de Paiva Maia – Palestra Pecnordeste 2005 – Fortaleza-CE
Quadro 2 – Avaliação do desempenho por hectare/ciclo quando os resultados são extrapolados para uma fazenda de 100 hectares///Fonte: Enox de Paiva Maia – Palestra Pecnordeste 2005 – Fortaleza-CE

 

Outras alternativas de policultivo

Após a apresentação das variações de preço da tilápia nos principais mercados internacionais, Enox Maia apresentou comparações e as suas sugestões de policultivo com os camarões nativos, especialmente o Farfantepenaeus subtilis e F. brasiliensis com a tilápia, ao invés do L. vannamei, principalmente em função do comportamento dessas espécies durante a despesca. Para ele, além de um melhor manejo de engorda e despesca, essas espécies alcançam melhores preços no mercado internacional, por serem enquadradas como camarões rosa, ao contrário do L vannamei, que é considerado como um camarão branco, e conseqüentemente concorre com um menor preço.

Os aqüicultores presentes do Pecnordeste aplaudiram entusiasticamente Enox Maia por saberem que este é um momento delicado, onde as decisões precisam ser bem pensadas para que se chegue ao objetivo principal que é o de não permitir que o processo produtivo venha a ser ainda mais prejudicado. Ao contrário, novos e equilibrados caminhos devem ser abertos para que os carcinicultores possam continuar, nesse momento delicado, a utilizar os seus viveiros de produção, mesmo que seja utilizando peixes.