Especialização na ranicultura

A ranicultura brasileira é reconhecida internacionalmente pelo seu sistema revolucionário de cultivo e tem apresentado uma produção crescente a cada ano, como conseqüência do desenvolvimento tecnológico, melhoria nas instalações e manejo. Entretanto este quadro, aparentemente favorável, não reflete a realidade desta atividade. Em 1988 o Brasil chegou a ter 2.000 ranários e este número diminuiu para 600, em 1992 (Lima, 1992).

São vários os fatores que tem influenciado para dificultar a atividade, inclusive a própria situação que o país atravessa. Mas a maneira como o brasileiro administra o seu negócio, apesar do seu “espírito empreendedor”, é um dos principais motivos dos fracassos pois atua na maioria das vezes de forma amadora.

No Brasil, historicamente a ranicultura sempre despertou grande interesse por tratar-se de uma criação exótica e pela “imagem” de um excelente negócio. O quadro sempre se repete. Surgem pessoas que visitam alguns ranários, fazem pequenos cursos e já se acham experts acreditando ter condições para fazer uma criação de rã por conta própria, assegurando-se ingenuamente que seus ranários não terão defeito.

Iniciam suas construções economizando em tudo. Desde o projeto que é de sua autoria, compra de material inadequado e improvisação nas instalações, promovendo sérios problemas de manutenção que comprometem o manejo. O resultado é um ranário mal construído, não funcional, com baixa produtividade e perdas significativas.

Ocorre também que estes ranicultores “auto-suficientes” se isolam. Não há intercâmbio e perdem qualquer referência de manejo e tecnologia e ficam sem saber se estão evoluindo ou regredindo e, para agravar o problema, geralmente deixam o ranário por conta do caseiro. São os ranicultores de fim-de-semana. E isto não funciona, em nenhuma atividade rural, pois qualquer atividade, por menor que seja, só terá eficiência caso se comporte como uma verdadeira empresa, devendo ser administrada com as mais modernas técnicas disponíveis.

ESPECIALIZAÇÃO

A ranicultura é uma atividade com alto grau de especialização. E este tem sido um dos maiores problemas para o ranicultor. A existência de vários setores totalmente distintos, que por si só já são criações específicas e que exige um indivíduo em cada um desses setores, por menor que seja o ranário.

É difícil para o pequeno produtor dominar todas as técnicas de produção, de controle de reprodução, da eclosão, da girinagem, da recria (engorda) e ainda saber criar moscas em gaiolas.

O melhor caminho para o produtor é a especialização na ranicultura. Desta forma, ele trabalhará apenas em um segmento da atividade, como por exemplo, especializar-se somente em engorda de rãs para o abate.

Este tipo de sistema já é bastante utilizado na avicultura e na suinocultura com bastante sucesso. Temos um exemplo prático e real no Oeste de Santa Catarina, uma das regiões rurais de melhor padrão de vida para os produtores. Os responsáveis por esta mudança foram grandes empresas agropecuárias como a Sadia e a Perdigão, que iniciaram o sistema integrado vertical e são responsáveis por 50% da produção avícola no Brasil.

A especialização integrada ao nosso ver é o franchising rural, pois os procedimentos e as vantagens são semelhantes. O pequeno produtor tem um apoio técnico e logístico, especializa-se e está sempre atualizado com novas técnicas de manejo (ver quadro). Há uma administração profissional e a produtividade é sempre ascendente, com uma grande vantagem, não há a preocupação de vender porta-a-porta seu produto, deixando este trabalho para a empresa ou associação, onde existe profissionais especializados que desempenham esta tarefa. O segredo é que o sistema funciona com espantosa simplicidade.

INTEGRAÇÃO NA RANICULTURA

A integração consiste na parceria entre empresas com pequenos agricultores proprietários de minifúndios que, para complementar sua renda, passam a criar em suas terras as rãs produzidas por estas empresas. A integração ocorre através de uma central de produção de rãs jovens, geralmente as próprias Indústrias Frigoríficas/Empresas, que as distribuem aos produtores além da assistência técnica. Estes são responsáveis somente pela engorda do animal.

Em Brasília, em 1986, foi iniciado de forma pioneira o SIR – Sistema Integrado de Ranicultura, desenvolvido pela empresa Rander, especializada em criação, abate e comercialização de rãs. O SIR consiste em agrupar um número razoável de pequenos produtores que seriam as unidades integradas responsáveis somente pela engorda dos animais. Vários fatores impediram na ocasião o sucesso do projeto que somente agora com mais experiência e domínio de tecnologia está sendo retomado. Para viabilizar este projeto a Rander está cadastrando produtores interessados cuja propriedade está localizada na região geo-econômica do Distrito Federal. A empresa está se estruturando para ser uma “Fábrica de Imagos”, através da CRP – Central Rander de Produção, já que a dificuldade de suprir os integrados com rãs jovens foi uma das limitações do sistema. O projeto pretende chegar a 40 produtores integrados, número necessário para utilizar toda a capacidade do abatedouro Rander de 25 toneladas mensais, atualmente ociosa.

PARCERIA E COOPERAÇÃO

A experiência adquirida ao longo dos anos nos dá a certeza de que a ranicultura é uma atividade eminentemente coletiva. Sua viabilidade, principalmente para os pequenos produtores, só será possível se ele participar de organizações cooperativistas, associativas ou integradas. Sozinho, além das dificuldades naturais da criação, o produtor ainda encontra uma barreira implacável: a comercialização. Este é um grande entrave na atividade rural que leva ao fracasso um número significativo de produtores. Ao produtor, deve caber fazer apenas o que sabe, produzir.

ASSOCIAÇÃO MODELO

É oportuno um reconhecimento ao excelente trabalho desenvolvido pela ARERJ – Associação de Ranicultores do Estado do Rio e Janeiro, que tem sido um exemplo de sucesso, de parceria e cooperação entre os associados. Por sua organização compram grande quantidade de ração com preço mais baixo e distribuem entre os associados. Além disso promovem intercâmbio técnico através de uma profissional especializada que faz o acompanhamento técnico dos ranários. A ARERJ ainda auxilia os produtores na comercialização da carne e recentemente criou uma cooperativa para viabilizar um abatedouro que possa absorver toda a produção dos associados e comercializa-la com melhor qualidade e maior valor agregado.

Outra conseqüência deste trabalho bem feito está nos resultados, pois os ranários dos associados da ARERJ possuem um dos melhores índices de produtividade do país.

Hoje é inadmissível a concepção de ranário completo para pequenos produtores. Os técnicos tem a responsabilidade e o dever de alertar que atualmente iniciar uma ranicultura com um pequeno ranário completo (todos os setores) é o caminho mais rápido para o fracasso.

Há naturalmente uma certa relutância por parte dos produtores em aceitar a idéia de agir coletivamente. Mas sem dúvida o único caminho é a parceria de produção. Por menor que seja o número de ranicultores da região, desde que tenha mais de um, pode-se formar esta união. É preciso apenas pessoas sensibilizadas e motivadas em torno do mesmo objetivo.