Europa: Larvicultura de Peixes Marinhos

Durante anos, na área mediterrânea, a dourada Sparus aurata e o robalo europeu Dicentrarchus labrax, tem sido, devido às suas qualidades organolépticas, os peixes marinhos de maior valor comercial. A redução dos estoques naturais através da pesca intensiva e o constante aumento da procura do produto no mercado, acelerou o processo de produção aqüícola dessas espécies. O início desta nova atividade foi difícil e muito aleatório devido a falta de conhecimentos técnicos aprofundados em larvicultura e produção de alevinos.

As primeiras fazendas de engorda surgiram em meados dos anos 80, fruto das pesquisas desenvolvidas por institutos de pesquisas franceses e britânicos.

A implantação progressiva de novas fazendas, logo colocou em evidência, quais eram, os principais pontos fracos para uma atividade economicamente viável, tais como: baixa taxa de sobrevivência larval; má formação e fraco crescimento devido a falta de bexiga nadadora; limitado conhecimento sobre as necessidades nutricionais. Posteriormente, o melhor entendimento biológico dessas espécies, aliado a padronização técnica das laboratórios de larvicultura (hatcheries), resultaram na solução dos problemas iniciais permitindo que a produção se tornasse mais confiável. Muitos desses resultados se deve aos esforços de várias entidades governamentais de pesquisa em países como a Espanha, Grécia, Itália (ENEA) e França (IFREMER).

A produção européia de juvenis dessas espécies aumentou de 6 milhões em 1985 para cerca de 140 milhões em 1993. Por outro lado, a melhor qualidade dos alevinos somada a um gerenciamento mais eficiente, diminuíram consideravelmente os custos de produção.

Melhores técnicas produtivas aliadas a altas densidades, permitiram às fazendas de engorda, níveis de industrialização mais interessantes e desta forma, a produção anual de peixes de tamanho comercial passou de 250 toneladas em 1985 para mais de 14.000 em 1992.

Atuais técnicas de incubação e alevinagem

Por causa das diferenças de temperatura sazonal devido ao clima temperado, as larviculturas européias incluem em suas instalações sofisticados equipamentos para aquecimento e resfriamento de água e dispositivos de indução de fotoperíodo para reprodutores.

Muito comum também são os diferentes tipos de sistemas de filtragem – mecânica e biológica, bem como a esterilização da água com radiação ultravioleta (U.V.) e ozônio.

Dependendo da técnica de cultivo utilizada, o volume dos tanques de uma larvicultura podem variar nos sistemas mais intensivos de 1 a 15 m3 e, nos sistemas semi-intensivos, podem ter até 30 m3. Os fluxos de água podem variar em fluxo contínuo ou recirculação (sistema fechado).

O sistema de alimentação dependerá muito da disponibilidade, quantidade e qualidade dos alimentos vivos. O uso de alimentos naturais é uma necessidade devido a uma pequena abertura bucal dessas larvas no momento da absorção do saco vitelínico.

Para essas espécies marinhas, até agora nenhuma dieta artificial obteve os mesmos resultados, em termos de sobrevivência e crescimento, se comparado às dietas com organismos vivos.

A procura de uma intensificação sempre maior empurrou a densidade de estoque larval das iniciais 20-30 lavas/litro para as atuais 100-150 lavas/litro. Mesmo com essas altas densidades a sobrevivência larval é acima dos 20%.

Atualmente, embora os resultados com diferentes técnicas de cultivo sejam eqüivalentes, duas tendências distintas podem ser observadas:

1) uma técnica “água verde”, mais tradicional e que dedica consideráveis esforços na produção de algas (Chlorella minutissima, Tetraselmis suecica, Nannochloropsis oculata, Isichrysis galbana, etc e rotíferos). Na verdade esta técnica é utilizada principalmente para produção de espárides (dourada ou Sparus aurata).

2) Uma segunda técnica, mais inovadora, somente para produção do robalo europeu – Dicentrarchus labrax, foi desenvolvida pelo IFREMER na França.

Essa técnica elimina completamente as complicações com a cultura de algas e de rotíferos Brachionus plicatilis enriquecidos, como primeira alimentação. Ao invés, Artemia salina é usada desde o início.

É interessante fazer uma pequena comparação entre esses dois sistemas de cultivo e um mais tradicional para peixes de água doce, como a truta por exemplo, onde a presença de um grande saco vitelínico e uma maior abertura bucal no momento da primeira ingestão de alimento, permitem uma transição automática e direta para alimentos artificiais. É claro que a fabricação dessas dietas só foi possível graças ao grande conhecimento de base sobre essa espécie e à maior rusticidade das larvas.

No entanto, para espécies de água doce com as mesmas características do robalo e da dourada, isto é, curta fase de alimentação endógena, boca pequena e fragilidade das larvas nos primeiros dias, poderia ser utilizada uma adaptação das técnicas de cultivo marinho como é o caso da Perca fluvialis onde os melhores resultados foram com a utilização de rotíferos, artemias enriquecidas e alevinagem segundo técnicas das larviculturas marinhas.

Recentes Progressos

Na última década, três novidades foram responsáveis pelo vertiginoso aumento da produção de larvas e alevinos dessas espécies:

1. Redução do número de peixes com deformação na coluna vertebral devido à falta de bexiga nadadora. Técnicas que eliminam a película de óleo superficial da água no momento da inflação da bexiga foram constantemente melhoradas e resultaram em número de deformações não significativos;

2. Melhoria de certos aspectos nutritivos. Principalmente a manipulação dos níveis de ácidos graxos essenciais (W3 HUFA) presentes no Brachionus (rotífero) e Artemia; Dietas comerciais que possibilitam adição ao zooplâncton desses ácidos graxos, bem como, vitaminas, fosfolipídeos, pigmentos e, até mesmo, medicamentos e vacinas e, paralelamente, recentes avanços no cultivo de rotíferos eliminam completamente a dependência de algas e leveduras para o seu cultivo;

3. O estudo da flora bacteriana associada aos diferentes estágios de cultura dos alimentos vivos (algas, rotíferos e Artemia)

Pontos a serem desenvolvidos

1. Melhor compreensão das necessidades nutricionais dos reprodutores em relação a qualidade dos ovos e sobrevivências larval dos primeiros dias de vida.

2. Uso mais intenso de bio-encapsulação através do zooplâncton com substâncias terapêuticas tais como antibióticos e vacinas.

3. Uso de probióticos, tanto na cadeia de alimentação viva quanto dentro dos tanques larvais. Este procedimento reduziria o uso de antibióticos para tratamentos preventivos e/ou profiláticos.

4. Dietas artificiais que substituirão completamente a cadeia alimentar viva desde a primeira alimentação larvar, a exemplo do que já acontece com a truta, o salmão e outros peixes de água doce.

Alevinagem

A maioria das larviculturas preferem introduzir o alimento artificial o mais lento e gradual possível.Normalmente é utilizado uma sobreposição de regimes alimentares com Artemia sendo substituída cuidadosa e gradualmente pela dieta artificial.

Os tanques mais usados são circulares ou raceways que vão de 15 a 30 m3. As trocas de água diárias, são muito elevadas, podendo chegar até 100% de troca por hora.

Triagens de tamanho são feitas quase que quinzenalmente, de modo a evitar um intenso canibalismo devido as diferenças de tamanho.

As altas densidades de até 20 alevinos por litro fazem com que esse período seja muito delicado e onde todo monitoramento (oxigênio, amônia, etc.) é uma exigência.

Para reduzir mão de obra e obter melhores resultados, alimentadores automáticos são usados na rotina. A porcentagem de sobrevivência durante este período é muito elevada, podendo atingir de 70 a 90%. O alevino está pronto para ser estocado para engorda com a idade de 100 a 120 dias com peso médio de 1 a 2 gramas.

Custo de produção atuais se situam em torno de 0.15 dólares, dependendo do sistema usado e do tamanho e da idade do laboratório produtor (hatcheries).

A menos de três anos atrás, os preços de mercado eram de 1 dólar por unidade, mas atualmente, devido a grande oferta os preços giram ao redor de 0.5 dólares, ou até menos. A tendência é de preços mais baixos ainda o que disseminaria uma crise no setor, especialmente para os laboratórios com altos custos de produção e que estão localizados em países onde as temperaturas são mais amenas, tais como a França, Itália e Croácia.

Reprodutores

Os reprodutores machos da dourada – Sparus aurata tem no máximo 500 gramas (2,5 anos), a partir desse tamanho essa espécie muda de sexo e passa a ser fêmea (hermafrodita proteândrico).O melhor peso para as fêmeas é em torno de 2-3 kg.

Para o robalo europeu , normalmente o macho tem um peso médio de 1,5 kg e as fêmeas no mínimo 3 kg. A proporção fêmea : macho é geralmente de 2 : 1. Densidades de estoque giram em torno de 4 kg por m3.

Quase todas as larviculturas tem seu sistema de indução por fotoperíodo e temperatura de modo à obter ovos durante quase todo o ano. Nesses casos, indução hormonal quase não é necessária, todavia, alguns laboratórios menos equipados são obrigados algumas vezes a utiliza-la. A técnica mais usual é com injeções intramusculares de hormônio de gonadotropina coriônica humana (HCG) em doses entre 500-1000 UI por kg de fêmea, dada na parte imediatamente posterior da nadadeira dorsal.

Ultimamente, porém, o hormônio preferido é o LH-RH, com doses em torno à 10 µ/kg. Os resultados são mais interessantes em termos de eclosão e quantidade de ovos produzidos. Em todo caso, a boa viabilidade de ovos e larvas demonstra que esse tipo de indução é perfeitamente viável, comparável mesmo à fotoperíodos naturais. Uma fêmea produzirá em média por período reprodutivo, aproximadamente 200.000 ovos. O custo da gestão de um estoque reprodutor é elevado, situando-se em torno de 100 US$/kg/ano.

Conclusão

Esse vertiginoso incremento de produção, graças à sofisticação das técnicas produtivas, só foi possível devido ao suporte econômico europeu e também governamental dos países envolvidos. Toda a atividade se baseou no resultado das intensas pesquisas orientadas à produção.

Dentro desse desenvolvimento, alguns pontos podem ser usados como exemplos pelos países que por ventura queiram desenvolver sua aquacultura de peixes marinhos. O primeiro, e mais óbvio, é a escolha da espécie ou espécies a serem cultivadas. Importantes critérios são: valor de mercado, facilidade de obtenção de reprodutores, adaptabilidade da espécie ao cativeiro, etc. O segundo, e provavelmente o mais importante, é o engajamento das entidades de pesquisa. A escolha de uma estratégia de um plano de ação, orientada à longo prazo é essencial. Além do mais, sem pesquisas que possam demonstrar a factibilidade da atividade, será muito difícil que empresas privadas se interessem e invistam no setor. Também à considerar, são as possibilidades de intercâmbios com países onde a produção de peixes marinhos já é uma realidade.

Nesse ponto se torna também prioritário o auxílio econômico em forma de financiamentos que levem em consideração as características intrínsecas à produção de peixes marinhos, isto é, maior complexidade biológica em relação a outras espécies como por exemplo o camarão marinho.