Fazendas de camarão são acusadas pela mortalidade de caranguejos em estuário no Rio Grande do Norte

A carcinicultura marinha está sendo alvo de acusações, justo no momento explosivo de seu crescimento econômico. O fato é que os caranguejos-uçá de Barra de Cunhaú, no município de Canguaretama- RN, estão morrendo e, enquanto não forem apontadas as verdadeiras causas das mortes, os moradores e pescadores da região continuarão acreditando que os verdadeiros responsáveis pelo acidente ecológico são as fazendas de cultivo de camarão e as usinas de cana-de-açúcar. Segundo declarações de pescadores ao jornal Tribuna do Norte de Natal – RN, a mancha esverdeada e fedorenta que chamam de “carborete”, seria provocada pelo resíduo de produtos químicos utilizados nos viveiros das fazendas, fazendo com que amarguem uma queda de 50% na comercialização do crustáceo.

   No mesmo jornal, José Narciso Silva Amaral, administrador da fazenda Formosa (antiga Sibra), uma das mais antigas fazendas de camarão da região, rebate a acusação dos pescadores e garante que o único produto usado é o cloro, afirmando que nem uma concentração muito elevada do produto, seria capaz de causar tamanho desequilíbrio ecológico. O administrador revelou porém, que tem conhecimento de que há empresas utilizando produtos químicos prejudiciais ao meio ambiente e que a própria fazenda Formosa já foi vítima de venenos usados por usinas de cana-de-açúcar. De acordo com ele, os camarões criados na fazenda morreram.

A morte dos caranguejos-uçá no mangue, foi também noticia no “Jornal Nacional” da TV Globo, que mostrou que os animais vivos apresentavam um comportamento fora do comum. Lentos, cambaleantes e em pequena quantidade, não tentavam escapar às investidas dos pescadores.

Verdades e Mentiras

   A mortalidade em massa dos caranguejos foi também amplamente debatida na lista de discussão Panorama-L. Segundo mensagem enviada por Gilson Melo, do Núcleo de Estudos e Pesquisas de Recursos do Mar da UFPB, episódios de mortandade de caranguejos-uçá ocorreram também na Paraíba durante o ano de 1998. Iniciaram no entorno do estuário do Rio Gramame, litoral sul de João Pessoa e, a partir daí, a “onda mortal” se propagou para os manguezais situados no norte deste estado, atingindo, sucessivamente vários municípios. As populações da espécie de caranguejo-uçá Ucides cordatus foram afetadas de forma devastadora e, passados dois anos, ainda não apresentam sinais de recuperação. Gilson informa ainda que o agente causal atingiu exclusivamente caranguejos-uçá e por conta disso, as comunidades de catadores de caranguejos vêm passando por grandes.

   Ricardo Tsukamoto, da empresa Bioconsult, em outra mensagem enviada a Panorama-L, alertou sobre a existência de vários relatos na literatura científica sobre mortalidades em massa de caranguejos na natureza e que podem se dar devido a enfermidades ocasionadas por protozoários, vírus ou bactérias, não tendo nada a ver com falha humana. Nesses casos, uma característica marcante é o fato apenas uma espécie ser afetada, obviamente por ser seu hospedeiro exclusivo ou mais sensível. Lembrou que é preciso portanto, verificar primeiro se outras espécies de crustáceos da área estão sendo afetados, pois caso a mortalidade fosse causada por resíduo orgânico, como restilo/vinhoto de usina canavieira, isso provocaria falta de oxigênio no rio, afetando visivelmente também outros animais. Esta opinião foi compartilhada por Sérgio Bueno, patologista de crustáceos da USP, que está iniciando um estudo em colaboração com o IBAMA que irá comparar as análises histopatológicas de caranguejos originários de populações sadias com as dos animais doentes, provenientes da região de Canguaretama. Nesse estudo os crustáceos serão submetidos também a testes de hibridação in situ, para o caso de viroses.

A Repercussão e o Estigma

   A discussão técnica acima, que aparentemente desvincula a mortalidade dos caranguejos às fazendas de camarões, não chegou infelizmente à grande imprensa, cuja repercussão do episódio de forma sensacionalista, pode gerar efeitos negativos indesejáveis junto à opinião pública e, conseqüentemente, resvalar na imagem, até agora boa, dos produtores brasileiros de camarões. Basta lembrar que foram necessários apenas poucos segundos no mesmo “Jornal Nacional” para que o bagre africano Clarias gariepinus ficasse estigmatizado, amargando até hoje uma má fama em todo o país.