FENACAM 2006

A terceira versão do evento juntou esforços para superar as dificuldades do setor


Mais uma vez a realização da Feira Nacional do Camarão – Fenacam 2006, na sua terceira versão, em março último em Natal, Rio Grande do Norte, trouxe para a carcinicultura brasileira um pouco de ar fresco tão necessário para o setor que vem, não é de hoje, se esforçando para solucionar os gargalos que impedem o País de mostrar todo o seu potencial para a produção de camarões em viveiros. Coerentemente, a feira de produtos e serviços, que acontece tradicionalmente junto ao evento, foi menor que nos anos anteriores sem, contudo, ter perdido o brilho que a caracteriza, tendo atraído um excelente número de visitantes.

A abertura do evento contou com a participação de muitas autoridades, com destaque para o então ministro José Fritsch, que anunciou a autorização para importação de matrizes de camarão certificadas como livres de doenças. A medida, uma reivindicação dos carcinicultores, é fundamental para a recuperação da carcinicultura brasileira. O que se espera com a autorização dessa importação é que o país possa renovar seu plantel com animais mais resistentes a enfermidades e com maior qualidade. A autorização é fruto de um trabalho conjunto entre a Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (SEAP), o Departamento de Defesa Animal do Ministério da Agricultura e a Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC). A decisão, de acordo com a SEAP, vai garantir mais segurança para os produtores e permitir a geração de mais empregos no setor.

Em seu discurso de abertura, Itamar Rocha, presidente licenciado da ABCC para concorrer ao cargo de deputado federal (ver www.itamarrocha.com.br), bateu duro na política econômica e cambial do governo. Itamar afirmou que entre os 50 países produtores de camarão, o Brasil é o único que se encontra em situação de pré-insolvência, exatamente em decorrência da política econômica e cambial que está penalizando o setor produtivo. O resultado disso, disse Itamar, não foi apenas a subtração de 28% da receita como resultado da desvalorização brutal do dólar, mas também o aumento de 7% nos custos de produção do camarão, e tudo isso somado às dificuldades de licenciamento ambiental e a conseqüente redução dos financiamentos para o custeio da produção.

Itamar, ainda em seu discurso de abertura na Fenacam 2006, disse que não bastam apenas boas intenções. Falando em nome das lideranças da carcinicultura brasileira, exortou que é preciso vontade política para que sejam flexibilizadas as rígidas normas do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central, visto que o setor primário, quando exposto a intempéries e fatores externos, precisa de mecanismos de compensação. Segundo Itamar, é uma ilusão pensar que um setor primário exportador pode manter competitividade sem subsídios, lembrando a todos os presentes que os EUA, países da Comunidade Européia e da Ásia estão aí para confirmar a sua afirmação.

A Fenacam 2006 reuniu, como de costume, especialistas nacionais e internacionais ao redor dos principais temas de interesse dos produtores, pesquisadores e da indústria. Foram 32 palestras e dezenas de trabalhos técnico-científicos, com informações atualizadas sobre gestão de qualidade e sustentabilidade ambiental, nutrição e requerimentos nutricionais, melhoramento genético, mercado do camarão marinho cultivado e, legislação ambiental envolvendo competência, conflitos e entraves ao licenciamento.

Os organizadores do evento trouxeram 12 conferencistas internacionais representando dez diferentes países. Além disso, rodadas de negócios internacionais – Aquainvest, atraíram empresários espanhóis, franceses e italianos, movimentando inúmeros comércios durante o evento.

Os participantes tiveram a rara oportunidade de assistir a apresentação de Somsak Paneetatyasai, presidente da Associação Tailandesa de Criadores de Camarão. Desde 2001 a área cultivada na Tailândia se mantém a mesma – 38.000 hectares, e sua produção em 2005 foi de 380 mil toneladas, sendo 332 mil de L. vannamei e 19 mil de P. monodon. Segundo Paneetatyasai, a expectativa é de que em 2006 sejam produzidas 350 mil toneladas, um pouco menos que no ano anterior, por conta das chuvas de monções que retardaram o povamento dos viveiros da Região Sudeste do país. A mudança do monodon para o vannamaei deu-se por conta do declínio do peso médio de despesca do monodon, que em 1990 era de 28 gramas e em 2002 mal passava das 16 gramas. Das 380 mil toneladas produzidas em 2005, 283 mil foram exportadas, injetando na economia do país nada menos que 1.8 bilhões de dólares. Do total exportado, 56% foram para os EUA, 29% para a Ásia, 5% para o Canadá e apenas 4% para os países da Comunidade Européia. O país se destaca por suprir hoje 30% dos camarões consumidos nos EUA, sendo este o fruto do mar mais consumido naquele país. A indústria tailandesa se especializou em produtos com valor agregado e se prepara para entrar mais agressivamente nos países europeus, onde o Brasil hoje tem uma fatia de 6% do mercado. É importante lembrar que o cultivo de camarão na Tailândia, em nada afeta as pescarias de camarões no seu litoral, sendo duas indústrias que se complementam. Além dos valores mencionados referentes ao produto cultivado, o país capturou, no ano passado, 67 mil toneladas de camarões. Em sua palestra, Paneetatyasai afirmou ter consciência de que a mudança da Tailândia, deixando de lado o monodon para cultivar o vannamei, aumentou consideravelmente o abastecimento mundial do camarão branco e que isso resultou na queda dos preços tão conhecida de todos os produtores brasileiros. Na Fenacam, Paneetatyasai aproveitou para criticar a ação anti dumping do governo dos EUA, por favorecer a queda nos preços e por limitar a capacidade de produção dos países afetados. Paneetatyasai acredita, por outro lado, que para 2006, por conta de mudanças climáticas acontecidas recentemente como La Niña, monções extremas e o tsunami, o mundo será menos abastecido de camarões e isso refletirá numa significativa alta nos preços internacionais.

A mancha branca foi um tema largamente discutido nas palestras da Fenacam 2006. O equatoriano Eric Notarianni, gerente de operações da ENACA – Empacadora Nacional SA, foi um dos destaques na abordagem do tema, ao mostrar aos participantes toda a trajetória do vírus em seu país, iniciada no final de 1998. Segundo Notarianni, em julho de 1999, das 228 camaroneiras, 46% apresentavam resultado positivo para o WSSV, subindo para 68% em outubro daquele ano, baixando, curiosamente, para 12% ao final de novembro. Em sua palestra, discutiu com os presentes as possíveis causas dessas variações e mostrou que além da mancha branca, o país também conviveu nos últimos anos com os impactos de outras enfermidades importantes como as Síndromes da Gaivota e de Taura. Atualmente, segundo Notarianni, o que se vê é uma clara recuperação do setor produtivo, sendo difícil encontrar uma camaroneira que não tenha sido reativada, todas operando com níveis de produção similares aos obtidos antes da epidemia da mancha branca. “Apesar de existir uma tendência de certos grupos a trabalhar novamente com densidades altas, há atualmente uma maior consciência dos produtores para a necessidade de manejo mais amigável com o meio ambiente, eliminação do uso de antibióticos, diminuição da renovação de água, além de um grande interesse dos produtores em fazer parte de programas de certificação e boas práticas de manejo” disse o especialista.

Os editores Jomar Carvalho Filho (Panorama da AQÜICULTURA),  John Evans (Intrafish) e Kenny Mcffrey (Fish Farming International)
Os editores Jomar Carvalho Filho (Panorama da AQÜICULTURA),  John Evans (Intrafish) e Kenny Mcffrey (Fish Farming International)

Apesar da feira de produtos e serviços, por razões facilmente compreensíveis, ter sido menor que a dos outros anos, a Fenacam 2006 proporcionou aos seus participantes uma grande oportunidade de contactar empresas com seus estandes bem estruturados e equipes bem preparadas para atender a todas as demandas dos visitantes. O estande da Revista Panorama da AQÜICULTURA, presente ao evento, recebeu inúmeros leitores e parceiros. Foi com prazer que recebemos a visita dos editores John Evans da Intrafish e Kenny Mcffrey da Fish Farming International, publicações que mantemos estreita relação editorial.

Na próxima edição retomaremos os comentários e observações técnicas das palestras da Fenacam 2006.