FENACAM 2009

Evento atrai empresas e destaca-se pela qualidade das palestras

Por: Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor da Revista Panorama da AQÜICULTURA
e-mail: [email protected]


O Centro de Convenções de Natal recebeu, de 15 a 18 de junho, a sexta versão da FENACAM, evento que reuniu simultaneamente o VI Simpósio Internacional de Carcinicultura, III Simpósio Internacional de Aquicultura e a sexta versão da tradicional Feira de Produtos e Serviços para a Aquicultura, que neste ano contou com a presença de 36 expositores de todos os segmentos que dão suporte a atividade.

Na concorrida solenidade de abertura, o presidente da Comissão Organizadora, Itamar de Paiva Rocha, ao saudar a platéia e a mesa plenária, composta essencialmente por expoentes da política nordestina, afirmou que todo esforço empenhado para a realização do evento não foi com outro objetivo senão o de definitivamente firmar a FENACAM como o maior evento técnico e empresarial da aquicultura brasileira. Ao saudar o Ministro Altemir Gregolin, Itamar Rocha reforçou a sua confiança no novo momento em que vivem a pesca e a aquicultura no Brasil, com a criação do Ministério da Pesca e Aquicultura e a aprovação da Lei da Pesca, aprovada com o empenho do governo, do setor produtivo, liderado pelo próprio Itamar, e de muitos dos políticos presentes à mesa.

Em seu pronunciamento, o Ministro Gregolin destacou a importância da FENACAM por reunir, em torno de uma cadeia produtiva, todos os seus integrantes, desde produtores até os consumidores, que são atraídos pelo Festival Gastronômico que acontece simultaneamente ao evento. A FENACAM, segundo o ministro, é um evento anual que permite avaliar os avanços, e ao mesmo tempo prospectar o futuro da atividade, os caminhos e as perspectivas do setor produtivo, bem como as tendências de consumo. Gregolin lembrou, porém, que a FENACAM ’09 se diferencia das anteriores pelo fato da aquicultura brasileira estar vivenciando um momento de construção das suas instituições, se referindo a transformação da SEAP em Ministério da Pesca e Aquicultura. Gregolin sugeriu aos participantes que aproveitassem esse novo momento para pensarem com mais ousadia no futuro das atividades aquícolas, já que a nova configuração institucional está livrando o setor de muitas das suas amarras.

Fenacam Fenacam Fenacam Fenacam Fenacam Fenacam

Palestras

Mas o grande destaque da FENACAM’09 foi uma bem montada grade de palestras abordando os mais diversos temas da aquicultura, que por muitas vezes deixou o público na dúvida ao ter que escolher entre dois excelentes temas, apresentados no mesmo horário.

Fernando Kubitza, da Acquaimagem e colaborador da Panorama da AQÜICULTURA, foi o convidado a falar sobre a evolução e os desafios que a tilapicultura brasileira tem pela frente. Segundo suas estimativas, o Brasil deverá produzir este ano ao redor de 117 mil toneladas, um volume muito aquém do seu potencial, que somente poderá vir a ser atingido a partir da solução de velhos e conhecidos problemas. Destacou as dificuldades com o licenciamento ambiental; a falta de planejamento e visão de mercado por parte dos empreendedores; as dificuldades de obtenção de crédito e, as doenças e as perdas decorrentes do manejo inadequado que atingiram, e ainda atingem, diversos empreendimentos, elevando os custos de produção. O especialista avaliou em R$ 40 milhões os prejuízos anuais decorrentes das doenças, incluindo ai mortalidade direta, redução no crescimento e piora na conversão. “A redução da informalidade e a manutenção de um alto padrão de qualidade, pautada na constância de fornecimento e ausência de off-flavor, estão entre os maiores desafios da tilapicultura”, disse Kubitza.

Fenacam

Fenacam

Fenacam

Fenacam

Fenacam

Fenacam

Fenacam

Fenacam

Os participantes da FENACAM’09 assistiram também a apresentação do brasileiro radicado na França, Mario Hoffman, da Matrice Production Marine (França), que mostrou a produção de peixes marinhos na Europa. Segundo Hoffmann, em 2000 a produção européia foi de 438 mil toneladas, e atingiu, em 2007, 1,1 milhão de toneladas, principalmente da “dorada” (sea brean), com 529 mil toneladas, e do robalo europeu (sea bass), com 445 mil toneladas. Hoffman disse ainda que a produção é feita por pequenas e médias empresas distribuídas em 15 diferentes países, com destaque para a Grecia e Turquia, que apesar de fazerem parte do mesmo bloco econômico, possuem diferentes legislações para lidar com a aquicultura. “Os peixes são basicamente comercializados sem valor agregado, refrigerados e inteiros, e a produção é quase toda consumida por apenas três países – Itália, Espanha e França”, afirmou Hoffmann.

Sobre a piscicultura marinha brasileira, Ronaldo Cavalli, da UFRPE, mostrou o potencial das diversas espécies nativas e acabou por impressionar a platéia comparando o crescimento do bijupirá, que alcança em média seis quilos em 12 meses, com o do salmão e do bacalhau, que precisam de 24 meses para atingir quatro e três quilos, respectivamente.

A programação das palestras foi de altíssimo nível, bem como dos 67 trabalhos científicos, cuja organização ficou a cargo do Dr. Walter Maia, que atraiu pesquisadores de todo Brasil, com destaque para os alunos da Pós-graduação da FURG que apresentaram uma série de trabalhos acerca do uso de bioflocos usado no cultivo intensivo de camarão.

Destaque também para Carlos Odebret, da Salmon Chile, que fez uma radiografia detalhada da salmonicultura chilena e Robins Mcintosh, da Charoen Pokphad Foods, o maior conglomerado tailandês na área do agronegócio, que inclui o cultivo de camarão. Em sua palestra Mcintosh falou das estratégias de produção adotadas por sua empresa para se manter viva no mercado, diante da queda de 34% nos preços pagos aos produtores no período de 2004 até os dias atuais. Por outro lado, nesse mesmo período a produção tailandesa pulou de 309 mil para 466 mil toneladas, com o predomínio quase total do L. vannamei, introduzido no país em 2003. Segundo Mcintosh, a carcinicultura tailandesa, apesar dos altíssimos níveis de produtividade, convive com os principais vírus que assombram muitos outros países, entre eles a mancha branca, a cabeça amarela e taura. Em 2008 existiam 30,7 mil fazendas registradas no país que somam 130 mil hectares de viveiros, sendo 80% funcionando em sistema fechado sem renovação de água. 99% das fazendas tailandesas utilizam pós-larvas domesticadas. Das 30 mil fazendas, 18 mil são certificação GAP. Para dar suporte a essa indústria o país conta ainda com três centros de melhoramento genético, três fazendas especializadas em produção de reprodutores, um centro para backup dos animais domesticados e um centro especializado em desafios de patógenos. Animais (L. vannamei) que em 2004 demoravam 128 dias para atingirem 25 gramas, hoje alcançam o mesmo peso em 86 dias de cultivo.

A seguir, a íntegra da entrevista que fiz com Robins Mcintosh, que falou dos benefícios de um programa para produção de pós-larvas livres de doenças; do uso das mantas plásticas como ferramenta para baixar os custos de produção e reforçar a sanidade; do conceito de “arte”e “ciência” que criou para distinguir manejos que muitas vezes se baseiam na intuição do produtor; da sua preocupação com o nosso conhecido vírus da Mionecrose Infecciosa e, principalmente, de como consegue produzir camarões sem mancha branca em viveiros cercados de canais e estuários com a presença do vírus.