FENACAM 2012 Um evento focado nos desafios e nas perspectivas da aquicultura brasileira

Itamar Rocha, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarão - ABCC
Itamar Rocha, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarão – ABCC

A 9ª edição da FENACAM – FEIRA NACIONAL DO CAMARÃO, realizada no Centro de Convenções de Natal/RN, de 11 a 14 de junho apresentou para os diversos segmentos que integram a aquicultura brasileira, uma programação diversificada e muito focada nas demandas técnicas e mercadológicas atuais de toda a cadeia produtiva, com enfoque especial para o momento atual da carcinicultura. Como de praxe, a solenidade de abertura da IX FENACAM contou com a presença de várias autoridades, como o ministro da pesca Marcelo Crivella, a governadora Rosalba Ciarlini, todos ciceroneados pelo presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarão – ABCC, Itamar Rocha.

Durante a abertura do evento a governadora Rosalba Ciarlini assinou um decreto isentando os pequenos produtores do Rio Grande do Norte do ICMS, colocando-os em condições de competir mais fortemente com outros estados. A medida beneficiará as empresas de produção do crustáceo que são inscritas no Simples. “Quando o objetivo é impulsionar a economia do RN não medimos esforços. No entanto, devemos crescer de maneira responsável, com vistas à geração de emprego e renda”, declarou a governadora.

O presidente da ABCC – Associação Brasileira de Criadores de Camarão, Itamar Rocha, disse que os pequenos e médios produtores foram o foco principal desta nona edição do evento. “Estamos voltados para o pequeno e médio produtor, a fim de incrementar o mercado regional e nacional trazendo informações de manejo e biossegurança da criação do camarão. Só no Rio Grande do Norte, atualmente, são gerados, direta e indiretamente, cerca de 20 mil empregos no mercado da carcinicultura”.

O tema central do evento desse ano foi “Desafios e Perspectivas para a Aquicultura Brasileira”. O tradicional encontro da aquicultura brasileira incluiu o IX Simpósio Internacional de Carcinicultura; VI Simpósio Internacional de Aquicultura; IX Feira Internacional de Serviços e Produtos para Aquicultura e, o IX Festival Gastronômico de Frutos do Mar, além das apresentações de trabalhos técnicos. Especialistas de todas as partes do mundo passaram pela FENACAM. Além da participação de palestrantes do Brasil, vieram também especialistas do Equador, México, Chile, Guatemala, Nicarágua, Peru, Estados Unidos, França, Bélgica, Tailândia, Indonésia, China e Vietnam. No terceiro dia do Simpósio Internacional de Carcinicultura, um único tema foi abordado por todos os palestrantes: “Estratégias de manejo na produção do L. vannamei ante a presença de doenças virais”. Em todo o mundo é grande a preocupação com as doenças virais, com destaque para a mancha branca. Mas, segundo o engenheiro de pesca Thales Andrade, novas doenças estão sempre surgindo e, entre as emergentes, merecem destaque as novas cepas do vírus de Taura; a Síndrome da Mortalidade Precoce (Early Mortality Sindrome), que ocorre ao redor dos 30 dias de cultivo provocando o amolecimento da carapaça e grandes mortalidades; o nodavírus do Macrobrachium rosenbergii (MRNV), que também afeta o L. vannamei; e, a Mionecrose Infecciosa (NIM), que tanto prejuízo já causou no Brasil, e que agora ataca fortemente alguns países do sudeste asiático.

Uma visão da carcinicultura no mundo foi o tema da palestra apresentada por Darryl Jory, da Global Aquaculture Alliance. A atividade não cresceu de forma continuada na última década, disse. De 2005 a 2009 manteve uma média de crescimento anual de 7%, de 2010 para 2011 houve uma queda de 3% e, de 2012 para 2013, está sendo esperado um crescimento superior a 10%. Entre os maiores desafios a serem enfrentados, Jory destacou o gerenciamento das patologias e a disponibilidade de ingredientes para formulação de alimentos, já que a demanda por alimentos aquícolas cresce anualmente desde 1995 a uma taxa de 10,5%. Em 2010 o mundo consumiu 35 milhões de toneladas de rações aqua, e a expectativa é de que em 2015 e 2020 a demanda seja de 50 e 70 milhões de toneladas, respectivamente. Segundo Darryl Jory o futuro certamente trará muitas tecnologias para melhorar a eficiência da produção e a sustentabilidade dos cultivos e nessa linha deverão surgir mecanismos mais eficientes para detecção de vírus, desenvolvimento de linhagens SPF, imunoestimulantes e probióticos. Darryl Jory evidenciou também a domesticação, a resistência a patógenos específicos, marcadores genéticos e cruzamentos voltados para a performance. Por fim destacou, entre as novas tecnologias, a importância e a crescente adoção das técnicas de cultivo em meio à bioflocos, mostrando exemplos de como essa tecnologia vem sendo adotada em diversos países ao redor do mundo.

Quem assistiu a palestra/aula de Dagoberto Sanches, da Skretting, cujo braço brasileiro é a Nutreco Fri-Ribe, foi presenteado com uma aula sobre nutrição e manejo alimentar, com ótima ilustração sobre biossegurança nas fazendas, com rotinas que vão desde a cuidadosa assepsia das botas dos funcionários e visitantes com permanganato, até rodolúvios, e o manejo especial que devem ter os viveiros onde ocorrem mortalidades. Ficou claro que criar camarões, para quem ainda não sabe, é também saber lidar com um viveiro cheio de camarões mortos, sem por em risco os demais viveiros e muito menos os produtores vizinhos.

A maltaCleyton, que agora está sob o comando do grupo InVivo, apresentou a sua nova estrutura de atendimento aos clientes: o diretor comercial, Ricardo Mello e o gerente exclusivo para a Região Nordeste, Danilo Tremocoldi. Segundo Ricardo Mello, “as mudanças fortaleceram a maltaCleyton, já que, além dos profissionais que integraram a equipe, também passamos a contar com o suporte fabril, técnico e logístico que a InVivo tem no Brasil”. Durante o evento, a companhia que é pioneira no segmento de dietas antiestresse, apresentou seu portfólio de produtos com destaques para as linhas “Api – Camarão Antiestresse” e “Api – Camarão Prime”. Já no portfólio de nutrição de peixes, apresentou a linha Tilápia Evolution. Otimista com o setor, Ricardo Mello disse ainda que a meta da empresa é acompanhar o crescimento e a evolução do mercado.

Dentre os diversos expositores nacionais e internacionais estava a Bernauer Aquacultura, que apresentou o seu Medidor da YSI modelo Pro 2030, que faz a leitura simultânea do oxigênio e salinidade, o que melhora muito a precisão da leitura e o tempo destinado à mesma. Outra grande vantagem, muito apreciada pelos produtores, é que não há a necessidade de calibração toda vez que altera a salinidade, pois a compensação é automática.

Durante a feira, a Presence, uma marca da EVIALIS, multinacional do ramo de nutrição animal, aproveitou para divulgar as boas práticas de cultivo. “Distribuímos um guia prático que aborda os principais tópicos sobre biossegurança na carcinicultura. Além disso, estreitamos o relacionamento com os parceiros e clientes dando mais visibilidade à marca”, disse Otávio Serino de Castro, gerente de produto da EVIALIS. Um dos destaques da Presence no evento foi a linha Density de produtos voltados para sistemas de criações de camarões em alta densidade. “A linha Density contempla apenas produtos de alto desempenho e é resultado de estudos intensos nos centros de P&D e de intercâmbio internacional de experiências dos especialistas em aquicultura da EVIALIS”, disse Serino. A companhia também aproveitou a oportunidade para difundir sua linha de produtos Bernaqua que juntamente com a Presence consolidará um portfólio completo em soluções para nutrição de camarões marinhos desde a fase larval até a engorda.

O gerente de produtos para aquicultura do Grupo Guabi, João Manoel Cordeiro Alves, ministrou a palestra “Potencial zootécnico da tilápia para o cultivo em ambientes diversos”. A experiência no campo e o olhar de João Manoel sobre o tema – que para muitos pode parecer óbvio, já que a tilápia possui uma rusticidade bastante conhecida por todos – surpreendeu os presentes ao mostrar as inúmeras possibilidades e situações em que esse peixe pode ser cultivado, desde sistemas modestos de subsistência até sofisticados projetos de engorda industrial. Ao fim, todos concordando com a frase de Kevin Fitzsimmons (Universidade do Arizona), e que João Manoel estampou na abertura da sua palestra: “a tilápia será o peixe cultivado mais importante deste século”.

O cultivo da tilápia no Ceará foi o tema apresentado por José Ricardo Henrique, da empresa Aquanorte, produtora de alevinos de tilápia. Estima-se que o estado produza atualmente 30 mil toneladas anuais e ainda importe cerca de 12 mil toneladas de tilápia de estados vizinhos. Apesar da prosperidade dos números, José Ricardo apresentou informações preocupantes acerca da sustentabilidade atual da atividade, toda voltada para o consumo do peixe fresco. Tal hábito alimentar fez com que, mesmo com esse volume, não exista sequer uma empresa com SIF processando o peixe para que a produção cearense possa ser comercializada em outros mercados. “É cada vez mais frequente o produtor se deparar com um mercado desfavorável, com muita oferta, e ser obrigado a estocar o peixe dentro d´água porque não há indústria processadora interessada em adquirir o peixe” disse José Ricardo, alertando também para as licenças dos cultivos em águas federais: “Estão vencidas e não estão sendo renovadas”.

A Poli-Nutri promoveu um almoço para convidados em torno de Iwan Sutanto, produtor de camarão na Indonésia, dono de uma rede de restaurantes na cidade de Jacarta, um dos principais fornecedores de camarão para o Carrefour e, fundador e presidente do SCI (Shrimp Club Indonesia), um seleto clube de criadores que operam com altas densidades (para fazer parte do mesmo, o produtor tem que criar no mínimo 100 camarões/m2). No almoço, Santana Junior, da Poli-Nutri, fez a apresentação dos dados colhidos na viagem que fez a Indonésia, ocasião em que foi ciceroneado por Iwan Sutanto. O país possui atualmente 380 mil hectares em produção, dos quais 65% operam no sistema tradicional (< 1 ton/ha), 20% semi-intensivo (2 a 4 ton/ha) e 15% no sistema intensivo (7 a 15 ton/ha) e super-intensivo (> 20 ton/ha). Iwan Sutanto apresentou o chamado sistema Mixotrófico (autotrófico + heterotrófico), em que praticamente nenhuma água é renovada, nenhum antibiótico é usado e muitas regras de biossegurança são utilizadas, tais como cercas de proteção para evitar a entrada de animais e redes de pássaro. O país exporta 150 mil toneladas anuais (50% para EUA, 30% para Japão e 20% para EU) e o restante segue para a China, Coreia e Oriente Médio.

Em nome da Poli-Nutri, Santana Junior presta uma homenagem a Iwan Sutanto, em evento organizado pela empresa
Em nome da Poli-Nutri, Santana Junior  presta uma homenagem a Iwan Sutanto,  em evento organizado pela empresa