Fenacam atrai produtores e mostra a organização da carcinicultura no país

A Fenacam, realizada de 3 a 7 de fevereiro no Centro de Convenções de Natal, reuniu os principais expoentes da carcinicultura brasileira. O evento foi, na verdade, a realização da sexta versão do Simpósio Brasileiro para o Cultivo de Camarão, que aconteceu pela primeira vez também em Natal, em 1981, quando a atividade ensaiava seus primeiros passos. Desta vez, o evento veio acompanhado de um festival gastronômico de grande porte, que funcionou paralelamente ao evento, atraindo não somente os aqüicultores mas também o público em geral.

Na abertura, Itamar Rocha, presidente da ABCC e um dos organizadores da conferência, afirmou que finalmente agora, com as exportações brasileiras chegando a 226 milhões de dólares anuais, a carcinicultura já pode deixar de usar o seu rótulo de atividade promissora para se transformar definitivamente numa realidade que já modifica radicalmente o perfil econômico de muitos municípios brasileiros.

A importância econômica da atividade atraiu para a capital potiguar dois ministros do governo Lula – José Fritsch da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca e Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Furlan teve a oportunidade de ver de perto o desenvolvimento da carcinicultura no Rio Grande do Norte, visitando diversas fazendas produtivas. Antes da abertura oficial do evento, o ministro Furlan visitou a feira de produtos e serviços na companhia da governadora do Estado do Rio Grande do Norte, Wilma Faria. A seguir, em sua fala na abertura, encorajou os carcinicultores a persistirem no caminho que estão trilhando na busca de uma produção associada à qualidade, para que possam continuar suprindo o mercado internacional. Na sua opinião de empresário do setor de alimentos, o consumidor está cada vez mais ávido por carnes brancas. Colocou ainda a Apex – Agência de Promoção das Exportações Brasileiras, órgão ligado ao seu ministério, à disposição das empresas que necessitarem de pesquisas e desenvolvimento de novas embalagens. Por fim, prometeu todo o apoio da sua pasta para que os aqüicultores brasileiros venham a ter êxito no embate jurídico das acusações de dumping por parte dos pescadores norte-americanos.

Ainda na abertura, o prefeito de Natal, Carlos Eduardo Nunes Alves, falou da tradição vinda dos índios potiguares – comedores de camarão, e na importância do Rio Grande do Norte ter sido também o berço da carcinicultura nacional. Aos presentes manifestou seu desejo de que o evento venha a se tornar uma data fixa no calendário da cidade, a exemplo de outras festas nacionais que atraem milhares de pessoas de todo o país, como a festa da uva, do boi no rolete, da Oktoberfest, entre outras. Seu desejo parece ter tudo para ser realizado e a próxima Fenacam já tem data mercada, e acontecerá de 15 a 19 de março do próximo ano.

A Finep – Financiadora de Estudos e Projetos, está apoiando, através da Recarcine – Rede de Pesquisa em Carcinicultura do Nordeste, a formação de núcleos de pesquisa e desenvolvimento nas universidades e instituições de pesquisa de forma a aumentar o envolvimento da comunidade científica no desenvolvimento da carcinicultura. Durante a Fenacam, Arnaldo Magnavita, representante da Finep, reuniu 45 pesquisadores e empresários do setor, que apontaram os temas prioritários no direcionamento dos R$ 1.500.000,00 aprovados pela FINEP para a Recarcine. A formação da Rede abordará temas importantes como: qualidade de água, sedimento e solo; manejo de cultivo; efluentes; estudos nutricionais; enfermidades; melhoramento genético; sustentabilidade ambiental e, finalmente, estruturação de um serviço de informação e gestão de pesquisa, todos intimamente ligados às necessidades atuais da carcinicultura. Em 4 de março encerraram-se os prazos para envio das propostas de qualificação, que passarão por uma pré-análise. Posteriormente, ocorrerá uma reunião visando a elaboração dos projetos, os quais serão submetidos a uma apreciação dos especialistas do setor.

Os congressistas tiveram oportunidade de assistir palestras de especialistas nacionais e estrangeiros. A patologia foi um tema bastante abordado por conta da Síndrome da Necrose Idiopática Muscular, presente em algumas regiões brasileiras, causando sérios prejuízos a muitos produtores. O tema foi apresentado em duas palestras distintas pelo Cristian Graff, consultor da Aqualider e por Donald Lightner do Laboratório de Patologia de Camarões da Universidade do Arizona. Em seu laboratório, Lightner identificou o vírus causador da doença, cujas fotos, feitas com a ajuda de microscópio eletrônico, foram apresentadas em primeira mão aos carcinicultores brasileiros. Mesmo podendo contar com a colaboração de centros de pesquisa no exterior, fica claro que a indústria nacional não pode deixar de ter à mão um centro de patologia de crustáceos capaz de diagnosticar e identificar novas patologias sem que seja preciso enviar amostras para laboratórios no exterior.

 

As informações acerca do mercado externo também foram alvo de interesse dos produtores presentes. As pendengas jurídicas decorrentes da ação anti-dumping foram explicadas pelo advogado Alexander Sierck do Cameron & Hornbostel, escritório que cuida dos interesses brasileiros na questão. O mercado Europeu, outro tema que encheu o plenário, foi abordado pelo francês Hervé Lucein Brun, da Aqua Techna. Ao fim de suas palestra, no entanto, o último slide mostrou que os atuais preços, por ele considerados baixos na Europa, se devem a grande oferta de camarões cultivados provenientes da América Latina e que, na sua visão, não há indicações de que um aumento de preços venha a ocorrer num futuro próximo.