GTCAD Pretende Revigorar o Cultivo de Camarões de Água Doce

A assembléia geral do GTCAD – Grupo de Trabalho em Camarões de Água Doce, reunida durante o XI SIMBRAq, elegeu o Prof. Wagner C. Valenti – Caunesp, SP, como o novo coordenador, tendo como vice-coordenador Hélcio Luis de A. Marques do Instituto de Pesca, SP, secretariados por Marcel J. M. Santos e Patricia M. C. Moraes Riodades, ambos da CAUNESP, SP.

O GTCAD, que estava sediado no Centro de Tecnologia em Aqüicultura em Vitória, ES e vinha sendo coordenado por Humberto Kerr de Andrade, passa agora a ter como sede o Centro de Aquicultura da UNESP em Jaboticabal, SP.A principal proposta da nova coordenação é organizar e difundir as informações desse setor, que vem apresentando um grande crescimento no exterior, mas que está estagnado no Brasil.

Segundo o novo coordenador do GTCAD, a criação de camarões de água doce é um dos setores da aquicultura que mais cresceu em todo o mundo nos últimos anos. Em 1998, foram produzidas cerca de 190.000 toneladas, movimentando um montante superior a US$ 1 bilhão (Fig. 1), correspondente a mais de 20% do volume total produzido pelo setor de camarões marinhos.Historicamente, esse percentual sempre foi ao redor de 5%, acrescenta Valenti.

Fig.1 - Receita anual de alguns dos principais setores da aqüicultura mundial
Fig.1 – Receita anual de alguns dos principais setores da aqüicultura mundial

Considerando apenas os dados reportados à FAO referentes a Macrobrachium rosenbergii, a produção foi de 130.000 toneladas, vendidos a um preço médio superior a US$ 6,00/kg. Entre 1989 e 1998, o volume produzido passou de 17.600 para 130.000 toneladas, o que corresponde a um crescimento de 660% (Fig. 2).

Fig.2 - Produção mundial de Macrobrachium rosenbergii. *Inclui apenas dados reportados à FAO especificados como sendo da espécie Macrobrachium rosenbergii
Fig.2 – Produção mundial de Macrobrachium rosenbergii. *Inclui apenas dados reportados à FAO especificados como sendo da espécie Macrobrachium rosenbergii

Deve-se destacar, no entanto, que a produção da China apareceu nas estatísticas oficiais a partir de 1996 e a de Bangladesh, a partir de 1997. Ainda assim, o volume produzido saltou de 109.000 toneladas, em 1997, para 130.000 toneladas, em 1998, o que representa um crescimento de 18,6%. Aos dados de M. rosenbergii, devem ser acrescentadas 15.000 toneladas de M. niponsense, produzidos pela China e não declarados e 48.000 toneladas, reportados à FAO por Bangladesh, Vietnã e Cuba como “Outros Camarões e Crustáceos de Água Doce”, pois sabe-se que a quase totalidade é de Macrobrachium.

Wagner Valenti destaca que este crescimento recente está associado ao grande avanço na tecnologia de produção de camarões de água doce observada nos últimos anos e ao uso de técnicas de despesca, abate e conservação que preservam a qualidade da carne, evitando o “mushness”.Paralelamente, houve uma abertura dos mercados internacionais dos países do primeiro mundo para os camarões de água doce. As importações por países da Comunidade Européia, EUA e Japão vem aumentando continuamente.

Para o novo coordenador do GTCAD, a carcinicultura de água doce é uma atividade estável, que não está sujeita a grandes oscilações repentinas de produção, como ocorre com a carcinicultura marinha, além de não sofrer o efeito de patógenos e de não acarretar problemas ambientais. Além disso, a carcinicultura de água doce pode ser praticada com lucro em empreendimentos pequenos, médios ou grandes. Adapta-se muito bem aos sistemas familiares de produção, sendo adequada aos programas de desenvolvimento social e econômico. Somente em Bangladesh, mais de 200.000 pessoas vivem dessa atividade que é reconhecida como uma forma lucrativa de produzir crustáceos, com baixo impacto ambiental e com ganhos sociais e desse modo, adapta-se perfeitamente aos conceitos modernos da aquicultura sustentável.

No Brasil, ao contrário do que ocorreu em termos mundiais, houve um declínio na atividade. Atualmente, são produzidas apenas cerca de 400 toneladas de camarões de água doce.Uma pesquisa recente mostrou que a principal causa do abandono da atividade por produtores foi a falta de pós-larvas. Mais de 80% de ex-produtores apontam a falta ou a dificuldade de obtenção de pós-larvas como a principal causa da saída da atividade. Menos de 20% mencionaram problemas de mercado. Sabe-se também que a atividade tem sido muito prejudicada pela má imagem do produto criada pela expectativa de lucro exagerado e pela distribuição de camarões de péssima qualidade, com sabor e textura alterados (“mushness”) nos anos 80 e 90. Infelizmente, a maioria dos produtores brasileiros não aplicam os novos conhecimentos disponíveis e continuam trabalhando com técnicas ultrapassadas.

Ainda segundo o coordenador do GTCAD, há um potencial imenso para o policultivo com peixes. A introdução do camarão na tilapicultura, por exemplo, aumenta significativamente a rentabilidade, a um custo muito baixo. Análises econômicas completas mostram claramente que os indicadores de rentabilidade, tanto no monocultivo como no policultivo, são bastante atrativos para o investidor. Com relação ao problema da disponibilidade de pós-larvas, Valenti acredita que pode ser resolvido com a organização dos produtores e/ou com a instalação de larviculturas de fundo de quintal, cuja tecnologia está totalmente dominada. É necessário que os técnicos, extensionistas e produtores assimilem as novas tecnologias disponíveis, para que a atividade volte a crescer no Brasil, seguindo a tendência internacional, conclui Valenti.