Importância das rações com altas concentrações proteicas na formação de larvas, alevinos e juvenis

Peixes cultivados carecem,  ao longo da vida, de diferentes proporções de nutrientes em sua dieta. Essa necessidade ocorre para todos os animais, em especial nas fases iniciais, quando estão em formação das estruturas musculares e ósseas, sistemas circulatório e de defesa, entre outros. Os peixes, devido a semelhança das vias metabólicas com outros animais, exigem uma alta demanda de proteína com intenso valor biológico durante as fases iniciais dos alevinos.

Por:  Sérgio Malavazi  Gerente da linha de Aquicultura da Alisul
Por: Sérgio Malavazi
Gerente da linha de Aquicultura da Alisul

Nutrição de larvas e alevinos

 As larvas são peixes recém eclodidos que ainda se alimentam de fontes endógenas (saco vitelino). Neste estágio o índice de mortalidade pode ser muito grande devido a inabilidade da larva em se adaptar ao alimento externo, pela baixa qualidade da proteína oferecida na dieta, ou ainda pelos baixos teores proteicos (inferiores a 50%). 

Outro fator que contribui para o sucesso do desenvolvimento das larvas é a qualidade dos ovos e a alimentação de seus reprodutores, especialmente quando são mantidos em cativeiro. Isso pode ser comprovado a partir de testes comparativos realizados com tilápias do Nilo, em estudos conduzidos em larviculturas comerciais, quando foi observado um aumento significativo de 50% a 80% na sobrevivência das larvas e alevinos até 10 gramas, a partir do aumento de 40% para 56% no teor da proteína bruta na dieta. Esses dados foram obtidos a campo em condições brasileiras a partir do material genético disponível no Brasil.

A necessidade dessa ingestão de proteína, nessa fase tão importante, justifica-se pela mudança metabólica que as larvas sofrem para se adaptarem ao fim da absorção do saco vitelínico (endógena) e início da ingestão exógena. Para que se obtenha bons resultados durante esse período, recomenda-se uma alimentação que seja compatível e completa com níveis acima de 56% de proteína de fácil digestão e alta digestibilidade. É durante essa fase que ocorrerá o maior aumento de peso das tilápias, e isso contribuirá para as próximas etapas de crescimento, terminação e abate. Por isso, se ocorrer um déficit proteico e valor biológico da primeira dieta exógena, a tilápia jamais irá recuperar essa perda de peso e, consequentemente, terá um comprometimento em todo o seu crescimento.

A maioria dos peixes necessita de uma ração de no mínimo 56% de proteína bruta em sua composição além da alta digestibilidade, para suprir a intensa atividade dos sistemas fisiológicos que estão envolvidos durante essa fase em desenvolvimento. A digestibilidade dos diferentes tipos de proteína também é um fator de extrema importância. Estudos indicam que a digestibilidade de proteína na farinha de peixe para algumas espécies aquáticas é de 92% a 95%, enquanto que os farelos de soja e milho apresentam valores na faixa de 80% e 70%, respectivamente. Essa diferença se justifica devido ao desenvolvimento do estômago e das mucosas, que aumentam a secreção das enzimas digestivas, e o lúmen assume um importante papel durante a transição das larvas para os peixes.

Portanto, destacam-se as razões para que todas as larvas zooplanctófogas sejam dependentes das altas taxas de proteínas digestivas e absorvíveis aproveitadas pelo animal. Outra importante atividade metabólica é a alteração das enzimas proteolíticas, que aumentam entre a segunda e a quarta semana de vida, na maioria dos alevinos de peixes. Essa transformação acompanha o desenvolvimento do estômago, porém a atividade da amilase não é alterada significativamente ao longo do desenvolvimento larval.

Na prática, observa-se que a maioria das empresas de rações foca somente no grau de moagem dos ingredientes e ignoram esses fatores importantes do crescimento dos peixes, onde cada etapa demanda uma necessidade particular.

Nutrição de juvenis

Considera-se peixes juvenis aqueles maiores de 10 a 20 gramas, e a passagem de alevino para juvenil é um processo de metamorfose. Nesse período os peixes adquirem características de adultos desenvolvidos, como a presença de raios das nadadeiras mais aparentes e pigmentos na superfície do corpo e no sangue.

As rações para os peixes juvenis são partículas extrusadas de tamanho pequeno e apresentam menores teores de proteína e energia, em relação às rações para larvas e alevinos, no caso das tilápias nilóticas, cerca de 46 e 42%.

Durante o desenvolvimento dessa fase, além da importância da genética, uma variável que contribuiu para o seu crescimento é a temperatura da água, que impacta diretamente nas taxas de conversão alimentar, velocidade da natação, digestão e evacuação, bom como na demanda metabólica. De forma indireta, a temperatura da água afeta mais os juvenis por interagir com os teores de oxigênio dissolvidos na água, além dos florescimentos fitoplanctônicos. Um aumento significativo da temperatura da água pode contribuir com uma metamorfose mais rápida, desde que acompanhado de um aumento nutricional de boa qualidade.

Destaca-se que, ao final dessa fase, os animais aproveitam os carboidratos para a obtenção de glicose e outros açúcares, devido ao amadurecimento gradativo de todo o aparelho digestivo. Porém, nessa fase de intenso crescimento, teores de proteína bruta inferiores a 42%, como no caso da tilápias do Nilo, poderão ter um comprometimento em seu ganho de peso.

O manejo dos organismos aquáticos de interesse zootécnico precisa, ao longo do ciclo produtivo, de diferentes níveis de nutrientes em suas dietas. As fases de desenvolvimento dos peixes são bem definidas, e cada uma delas apresenta características funcionais e metabólicas específicas que determinam suas exigências nutricionais. No caso das larvas e alevinos, uma dieta adequada deve apresentar uma elevada digestibilidade compatível com sua composição e limitação corporal. Enquanto nos animais em crescimento o foco está no fornecimento de proteína, que servirá como depósito corporal para as suas funções energéticas.

Em suma, além de fatores externos, como a temperatura adequada da água para cada fase de crescimento do animal, uma alimentação específica de alta qualidade e em quantidade compatível com os objetivos que se deseja alcançar, definirá a sobrevivência e crescimento durante todas as etapas.