Impressões da Piscicultura em 2005

Por:


Fernando Kubitza, Ph.D.
(Acqua & Imagem, Jundiaí-SP)
[email protected]


Obviamente que não fui capaz de testemunhar todos os acontecimentos que marcaram a piscicultura em 2005. Vocês nem imaginam como este nosso país é imenso. Imenso não apenas em sua extensão, mas também na diversidade de espécies, de recursos naturais, empreendimentos, experiências pessoais e condições sociais e políticas que moldam o cenário da piscicultura no Brasil. Infelizmente sou apenas um. Gostaria de poder ser mais quando o assunto é sair por aí conhecendo as genialidades e equívocos, sucessos e tropeços, persistências e rendições dos personagens e empreendimentos que dão forma e cor à face da piscicultura brasileira. Mas mesmo assim, dentro dos limites do que pude presenciar ou apreender da piscicultura no ano que passou, deixarei registradas aqui as minhas impressões.

A virada de página da tilapicultura no Brasil

O início de 2005 me pegou em meio à safra de alevinos da Indústria Brasileira do Peixe (IBP Ltda), sediada em Itupeva-SP. A IBP começou a ser idealizada em 2003 e desde seu princípio se espelhou em um modelo de integração semelhante ao adotado pela avicultura. Considero-me um privilegiado por ter, junto a um grupo competente de empresários e técnicos, contribuído com a estruturação da produção de alevinos e do sistema integrado de produção de tilápias vermelhas, além do prazeroso trabalho de capacitação da equipe de técnicos e funcionários da IBP. Privilégio ainda maior foi quando percebi que a IBP, mesmo ainda modesta em sua proporção, somava esforços a outros empreendimentos de São Paulo com foco na tilapicultura industrial no país e na abertura de novos mercados para os produtos da tilápia. Uma virada de página no setor, impulsionada pela atuação de empresas como a Tilápia do Brasil (ressaltada na edição 91 da Panorama da AQÜICULTURA), da Geneseas e do Frigorífico Santa Cecília, todos em São Paulo. Da Mar & Terra, no Mato Grosso do Sul e da Netuno Pescados, em Pernambuco, além de muitas outras empresas país afora. Registre-se o salto nas exportações brasileiras de filés de tilápia para os Estados Unidos e se reconhecerá a dimensão destes esforços. De modestas 8 toneladas exportadas em 2001 para 323 toneladas em 2004 e, seguramente, mais de 900 toneladas de produtos exportados em 2005, particularmente na forma de filés.

Tanque com alevinos de tilápia vermelha da Indústria Brasileira do Peixe Ltda. (Itupeva, SP)
Tanque com alevinos de tilápia vermelha da Indústria Brasileira do Peixe Ltda. (Itupeva, SP)
Baixo São Francisco I – Seminário de Marketing da Tilápia em Propriá-SE

Reafirmando que a importância da tilapicultura não é restrita ao Sudeste e Sul do país, em março de 2005 foi realizado o primeiro seminário sobre qualidade e marketing da tilápia do Baixo São Francisco, região que se estende do reservatório de Xingó à foz do Rio São Francisco (áreas da Bahia, Alagoas e Sergipe).

Além da apresentação de palestras sobre qualidade e processamento da tilápia, associativismo e dos resultados preliminares do contrato de trabalho firmado entre a INFOPESCA e a CODEVASF, um dos destaques do seminário foi o anúncio por parte da empresa Netuno Pescados de que entraria no mercado da tilápia, particularmente visando a exportação. De fato, a Netuno consolidou sua intenção inicial e vem comprando tilápia em praticamente todo o Nordeste.

I Encontro Nacional dos Piscicultores em Águas Públicas

Realizado em Buritama-SP, o encontro reafirmou a consolidação da tilapicultura industrial em tanques-rede nos grandes reservatórios do oeste paulista.

O evento contou com a participação de produtores e técnicos de diversos estados (notadamente São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, e alguns participantes do Nordeste), de diversos fabricantes de rações e algumas empresas de equipamentos. O objetivo central do encontro foi o de buscar soluções para o impasse em torno do licenciamento ambiental das pisciculturas em águas públicas, particularmente em tanques-rede. Além disso, um dos grandes destaques foi a visita ao frigorífico e a uma das unidades de tanques-rede da empresa Tilápia do Brasil.

Tilápias oriundas de Alagoas sendo descarregadas no Mercado do Carlito, em Fortaleza, um importante endereço da tilápia cultivada no Estado do Ceará
Tilápias oriundas de Alagoas sendo descarregadas no Mercado do Carlito, em Fortaleza, um importante endereço da tilápia cultivada no Estado do Ceará
Mais um pouco de tilápia, desta vez no Ceará

Posso mesmo dizer que se ainda não me tornei um cidadão cearense foi por mera incompetência de minha parte. Do Ceará é onde estou escrevendo agora. Desde julho tenho mantido uma rotina freqüente de viagens a Fortaleza, que merece ser distinguida como a Capital Nacional do “Cará” Tilápia. Não há em qualquer parte deste país um povo tão comedor de tilápia como o cearense. Como dizem meus colegas do Nordeste, “pense num peixe gostoso…”. A gôndola do Hipermercado Extra no Shopping Iguatemi abarrotada com tilápias, a maioria acima de quilo. Seguramente, mais de 50% da quantidade dos peixes ali expostos eram tilápias, o que demonstra o poder da aqüicultura na oferta de pescado no Estado. É tilápia que não acaba mais.

A Associação Cearense de Aqüicultura (ACEAq) fala em cerca de 25.000 toneladas/ano. Técnicos e produtores do estado acreditam em números mais modestos, entre 10 e 15 mil toneladas/ano.

Além da oferta dos produtores cearenses, tilápias de praticamente todos os estados do Nordeste chegam ao mercado de Fortaleza. Assim, o volume de tilápia comercializado no estado seguramente ultrapassa as previsões de produção. E com o potencial de produção no açude do Castanhão e a possibilidade de cultivo de tilápias em águas de salinidades moderadas em algumas fazendas de camarão marinho, esta produção poderá ser rapidamente ampliada. Seguramente vai faltar cearense para tanta tilápia. O resultado desta chuva de tilápia no mercado não poderá ser outro, que não a redução nos preços pagos aos produtores. O que já ocorreu em outros estados.

Loja especializada na venda de tilápia viva em Forlateza, CE, recebe um carregamento pexies
Loja especializada na venda de tilápia viva em Forlateza, CE, recebe um carregamento pexies

Certamente sobrará pouco espaço para aqueles produtores que não se aprimorarem na gestão técnica e econômica dos seus cultivos. Serão necessários esforços para ampliar o mercado local, atingir outros grandes mercados no país e seguir rumo à exportação. E isso demandará organização do setor e investimentos na industrialização da tilápia, a exemplo do que vem acontecendo na região Sudeste do país. Algumas empresas do Brasil e do Exterior já estão atentas a esta necessidade e oportunidade. Uma delas é a Pecém Agroindustrial (do grupo Ypioca), que já intensificou sua produção de alevinos e juvenis para atender a demanda dos produtores do Ceará e de estados vizinhos. Além disso, está se preparando para investir na industrialização da tilápia no Ceará, de olho em outros nichos do mercado local e na exportação.

A Pecém Agroindustrial também consolidou com a Nutron Alimentos Ltda. um contrato de operação de sua moderna fábrica de rações no município de Pecém. Além da Nutron Alimentos, outros fabricantes de rações também já estão se preparando para investir no estado. Sinais de novos tempos na aqüicultura cearense!

Vista geral da fazenda de produção de alevinos da BRFISH (Pecém, CE)
Vista geral da fazenda de produção de alevinos da BRFISH (Pecém, CE)
A aqüicultura continua na mira dos fabricantes de rações

A indústria de ração continua atenta e apostando no crescimento da aqüicultura no país. Além das já consagradas empresas do setor, em 2005 dois fabricantes do Mato Grosso, dois de São Paulo, um de Minas Gerais e um do Mato Grosso do Sul colocaram à disposição dos piscicultores linhas de rações específicas para piscicultura, apostando na oferta de rações de alta qualidade. Três destas empresas contaram diretamente com meu suporte no desenvolvimento de seus produtos.

Outros fabricantes de diversos estados também me consultaram com o interesse de iniciar a produção de rações para peixes em 2006. Fico feliz, primeiro em ver o desenvolvimento do setor, onde quem ganha com isso é o produtor. Segundo, por ter acompanhado todo o desenvolvimento deste setor e contribuído com o crescimento de diversos fabricantes de rações na área de aqüicultura. Um grande salto, se considerarmos que no início da década de 90 havia um único fabricante de ração extrusada para peixes no país.

Um breve registro da aqüicultura no Acre

Em maio/2005 fui convidado a ministrar um curso para técnicos e piscicultores em Rio Branco. O curso foi tão bem aceito que em julho repetimos o treinamento, desta vez, em Cruzeiro do Sul.

Galpão da futura fábrica de ração da Pecém  Agroindustrial (Grupo Ypioca) em Pecém, CE
Galpão da futura fábrica de ração da Pecém  Agroindustrial (Grupo Ypioca) em Pecém, CE

Foi nessas duas oportunidades, de iniciativa do Sebrae/AC, que conheci um pouco da ainda modesta piscicultura acreana. No treinamento em Cruzeiro do Sul realizamos uma manhã de campo em Mâncio Lima, a cidade mais ocidental do Brasil, praticamente na fronteira com o Peru. Mâncio Lima estava sob a sombra da malária. Mais de mil casos registrados no município até aquele momento do ano. Por conta disso, as pisciculturas do município estavam sendo pulverizadas sob a suspeita de serem focos de proliferação do mosquito.

Fui agraciado duplamente com estes dois treinamentos. Primeiro por ter tido a oportunidade de conhecer um pouco do Acre, estado que, juntamente com Roraima, ainda não havia entrado no meu mapa de viagens. Segundo por ter conhecido o extremo ocidental do Brasil, distante cerca de 4.300km da Ponta dos Seixas, na Paraíba, que conheci em 1985 enquanto participava da Agronomíades Nacional em João Pessoa. Visto os dois extremos horizontais do país, aumentou minha vontade de conhecer os extremos verticais, Oiapoque e Chuí. Não foi muita surpresa de minha parte constatar que, além das espécies nacionais tradicionalmente cultivadas, a tilápia estava presente em diversas pisciculturas do Acre.

O interesse dos piscicultores acreanos pela tilápia é expressivo, o que reflete a boa aceitação do mercado por este peixe. Isso confirma a preferência, de freqüentadores de um pesque-pague em Manaus (que visitei em 1998), pela tilápia em comparação ao tucunaré, outro campeão em gostosura. Alevinos de tilápia são produzidos por produtores locais e mesmo providos por produtores de outros estados. Há muito que se ponderar em relação às restrições ao cultivo de tilápias nos estados da Região Norte, enquanto se permite o cultivo de espécies nativas da Bacia do Pantanal e do Prata (como o piauçu) e o híbrido tambacu. Isso é, no mínimo, um grande contra-senso. As tilápias foram introduzidas há muitos anos no Acre e em outros estados da Região Norte (Amazonas, Amapá, Rondônia e Pará). No entanto, não há registro de estabelecimento de populações deste peixe em ambientes naturais, nem sequer registro de danos a elas atribuíveis sobre os ecossistemas e ictiofauna local.

Um gaúcho perspicaz na piscicultura de Rondonópolis

Foi uma grande satisfação e um aprendizado ainda maior ter conhecido o Sr. Oswaldo e a forma como ele conduz sua piscicultura em Rondonópolis-MT. O Oswaldo, gaúcho em sua origem, desafiou as práticas convencionais de condução de uma piscicultura. Eu mesmo, se não tivesse visto, acharia seu relato impossível. E foi numa tarde de campo em sua piscicultura, juntamente com produtores e técnicos do Mato Grosso, que eu não só vi, como ouvi o testemunho do Sr. Jailton, proprietário de um pesque-pague em Rondonópolis e principal comprador dos peixes do Oswaldo: “Quando passa a rede em um pequeno canto do tanque, a quantidade de peixes que pega não cabe no caminhão. Tem que devolver um monte pra água”. Agora, caros leitores, “Pensem num viveiro abarrotado de peixes…” Uma produção anual de 40 toneladas de peixes redondos. Não parece muito, realmente, não fosse a área de 5.000m2 de tanques escavados e uma vazão de água apenas suficiente para renovar 3% do volume ao dia. É um “Baita Monte de Peixes”! Obviamente que não há milagres. Há muita disciplina na condução do cultivo, muita atenção ao comportamento dos peixes, intervenções oportunas no controle de parasitos, ração de boa qualidade e o uso de aeradores para garantir o oxigênio.

Uma questão intrigante: com tamanha biomassa de peixes, altas taxas de alimentação e baixa renovação de água, como o sistema se mantinha livre de problemas com a amônia tóxica ou excessiva proliferação de fitoplâncton? A resposta: mantendo a água turva, com argila em suspensão, que controlava o desenvolvimento do fitoplâncton e, assim impedia a elevação do pH devido a fotossíntese. Com o pH baixo (entre 6,0 e 6,5) praticamente não havia amônia tóxica na água. O Oswaldo, prático na sua experiência, desconhecia essas interações na qualidade da água. No entanto, conduzia como ninguém o sistema de cultivo que ele mesmo montou. Pois esta experiência ficou registrada junto aos participantes do curso e quem quiser ver isso de perto vai ter que agendar uma visita à piscicultura do Oswaldo em Rondonópolis.

E aproveitando o gancho, os piscicultores de Rondonópolis também estão enfrentando restrições quanto às espécies de peixes que podem ser cultivadas. Há pressão contra o cultivo do tambaqui e do híbrido tambacu em áreas que drenam para a Bacia do Pantanal. De outro lado, pressão contra o cultivo de tambacu e pacu em áreas que drenam em direção ao Rio Araguaia. Também sentem a dificuldade de expandir a piscicultura através do cultivo exclusivo de peixes nativos, devido às restrições de mercado da maioria destas espécies. Muitos externam o interesse de investir no cultivo de tilápias, visto a expansão do cultivo e mercado deste peixe no Brasil e no mundo. No entanto, o cultivo de tilápias no Mato Grosso no momento está proibido. Essas limitações de espécies para cultivo empunham a bandeira de uma pretensa necessidade de preservação da integridade da ictiofauna nos ecossistemas aquáticos do estado e da região. Pois é só trafegar pelas estradas do estado e verificar a situação de degradação dos rios (assoreamento, destruição de matas ciliares, águas extremamente turvas e a poluição com o esgoto doméstico), que não é diferente do que está acontecendo em quase todo o país. Isso tudo, mais a pressão da pesca profissional sobre os já dizimados estoques remanescentes e, aí sim, a ictiofauna do Pantanal, do Araguaia ou de qualquer outro ecossistema aquático do país estará arrasada.

Assim, é preciso que os órgãos ambientais e os ambientalistas de plantão, ao invés de adotarem uma postura impeditiva ao avanço da piscicultura no país, concentrem esforços sobre os agentes e ações que de fato estão impactando e dizimando os recursos hídricos, os ecossistemas aquáticos e a ictiofauna no nosso país. Também é necessário que a SEAP/PR e outras instituições encarregadas de ordenar, estimular e fomentar o desenvolvimento tecnológico e a produção da piscicultura em âmbito federal e estadual sejam mais eficazes na priorização de recursos para desenvolvimento e difusão de tecnologias que viabilizem o cultivo em escala comercial de peixes nativos de maior alcance e apelo de mercado. Dentre eles os surubins (com tecnologia de reprodução ainda restrita a poucos empreendimentos privados no país); os grandes bagres amazônicos, como a dourada e a piraíba, que já desfrutam de mercado consolidado em praticamente todo o Brasil, oriundas exclusivamente da pesca extrativa na Amazônia.

Vista aérea da Estação de Pisicultura de Itiúba – CODEVASF, sede do CERAQUA-SF em Porto Real do Colégio, AL
Vista aérea da Estação de Pisicultura de Itiúba – CODEVASF, sede do CERAQUA-SF em Porto Real do Colégio, AL

O gigante de escama pirarucu, que mesmo após significativa pesquisa realizada pelo DNOCS nos anos 50, ficou mais de cinco décadas de castigo no canto da sala da nossa aqüicultura. Só agora, e ainda muito timidamente, foram destinados modestos recursos federais para desenvolvimento de pesquisas que viabilizem o cultivo comercial deste peixe que seguramente será a principal estrela da piscicultura no país e no mundo.

Mais recursos financeiros e humanos devem estar envolvidos no desenvolvimento de tecnologia para o cultivo do pirarucu, particularmente na Região Norte do país, onde há uma maior facilidade de coleção de exemplares adultos na natureza para agilizar os estudos sobre sua reprodução controlada em cativeiro.

Ibama repassa aos estados a responsabilidade do licenciamento ambiental

A boa nova deste final de ano foi a transferência – do IBAMA aos órgãos estaduais de meio ambiente – da competência de emissão de outorga de uso da água e licenciamento ambiental paras as atividades aqüícolas. Com isso, alguns empreendimentos de cultivo de peixes em tanques-rede já conseguiram obter suas licenças ambientais para operação. Os grandes beneficiários disso tudo: a aqüicultura do país, que contará com um processo mais ágil de licenciamento de seus empreendimentos e o meio ambiente, que contará com uma fiscalização mais criteriosa por parte das agências ambientais estaduais, que conta com funcionários e escritórios espalhados em diversas regionais de cada estado.

Baixo São Francisco II – desta vez em Penedo-AL

Penedo-AL é uma pérola colonial na margem esquerda do Rio São Francisco em seu baixo trecho rumo ao Atlântico. Nascida sobre as remanescências do Forte de Nassau, Penedo mescla influências culturais dos portugueses, holandeses e franceses. Seus imponentes casarões, igrejas e conventos lhe asseguram o título de “Ouro Preto” de Alagoas. Penedo também é a terra do Marciano, poeta e repentista que propaga os encantos da cidade e de seu grande rio. Foi o segundo Marciano que conheci em toda a minha vida. O primeiro deles, conheci já criador de peixes, em Piracicaba-SP. O segundo participou dos cursos que ministrei este ano em Penedo e pretende ser piscicultor. Não tenho mais dúvidas de que Marte já não tem mais água. Os “Marcianos” estão invadindo a Terra para criar peixes.

O Baixo São Francisco, na minha mais modesta opinião, é uma das regiões de maior potencial para a piscicultura no país. E por sorte, este potencial é reconhecido por instituições federais e pelos governos estaduais. Eu me sinto extremamente orgulhoso por ser um persistente colaborador junto a estas instituições na promoção da piscicultura na região. Assim sendo, em setembro de 2005, a convite do SEBRAE-AL, estive novamente em Penedo ministrando um curso de capacitação de técnicos multiplicadores dentro do Arranjo Produtivo da Piscicultura do Baixo São Francisco. Nas duas semanas do treinamento tivemos a oportunidade de conduzir as aulas práticas nas instalações do muito idealizado e pretendido Centro de Referência em Aqüicultura do São Francisco (o CERAQUA-SF).

O CERAQUA de nome, mas ainda não de direito, utiliza a parcialmente reformada Estação de Piscicultura de Itiúba da CODEVASF, em Porto Real do Colégio-AL. Durante o ano de 2002 eu e mais 5 profissionais da ACQUA IMAGEM estivemos na região por nove meses auxiliando a CODEVASF na concepção e planejamento do CERAQUA e no acompanhamento das obras de reforma da Estação de Itiúba. Na ocasião ministramos diversos módulos de capacitação dos técnicos envolvidos com a piscicultura na região.

Uma das equipes de técnicos de Alagoas e Sergipe que participaram de treinamento ministrado pelo equipe da Acqua Imagem nas instalações do CERAQUA-SF (Estação de Piscicultura de Iitiúba - CODEVASF)
Uma das equipes de técnicos de Alagoas e Sergipe que participaram de treinamento ministrado pelo equipe da Acqua Imagem nas instalações do CERAQUA-SF (Estação de Piscicultura de Iitiúba – CODEVASF)

Meu sentimento foi de grande realização ao retornar à Estação de Itiúba, três anos depois. Apesar das obras de reforma não terem sido concluídas como planejado e os laboratórios de suporte do CERAQUA ainda não terem sido equipados por falta de recursos, a equipe de técnicos e funcionários da Estação de Itiúba resgatou a importância daquele centro na produção de alevinos para o peixamento de lagoas e para o atendimento de produtores da região.

Os viveiros estão pouco a pouco sendo recuperados e, caminhando pela estação foi fácil perceber a retomada da produção. O que não dá pra entender é a morosidade e timidez dos governos estadual e federal em finalizar a implantação do CERAQUA e implementar ações complementares concretas que estimulem o desenvolvimento e a consolidação da piscicultura na região. Se há de existir um plano estratégico para o zoneamento e desenvolvimento da aqüicultura, o Baixo São Francisco não pode estar em outro lugar, senão no topo da lista das regiões com real vocação para a aqüicultura no Brasil.

O sucesso do Simpósio Internacional de Nutrição de Peixes

Quando parecia que 2005 iria passar em branco sem um evento técnico-científico de peso na área de nutrição de organismos aquáticos (como nos anos anteriores), Botucatu-SP acolheu, em novembro, na minha melhor estimativa, algo entre 250 e 300 profissionais e estudantes para o Io Simpósio de Nutrição e Saúde de Peixes. O evento foi fruto de esforços da equipe de professores e pesquisadores da UNESP (Dra. Margarida Barros e Dr. Luiz Edivaldo Pezzato), da ESALQ-USP (Dr. José Eurico Cyrino) e da UEM (Dr. Wilson Furuya) e de outros colaboradores, aos quais peço desculpas pela falta de lembrança do nome de todos. Além das brilhantes palestras proferidas por profissionais de renome no Brasil, o simpósio contou com a participação de palestrantes do exterior, entre eles o Dr. Chorn Lim, do Laboratório de Pesquisa de Organismos Aquáticos do USDA (Auburn, Alabama).

Wilson Furuya, em nome dos organizadores do o Iº Simpósio de Nutrição e Saúde de Peixes, homenageia o Dr. Newton Castagnolli pela sua contribuição na formação de muitos profissionais da aqüicultura brasileira
Wilson Furuya, em nome dos organizadores do o Iº Simpósio de Nutrição e Saúde de Peixes, homenageia o Dr. Newton Castagnolli pela sua contribuição na formação de muitos profissionais da aqüicultura brasileira

A ausência do Dr. Delbert Gatlin, da Texas A&M University foi muito sentida, embora seu tempo de apresentação tenha sido brilhantemente preenchido pela esmerada palestra do Dr. Wilson Furuya. Um dos pontos merecedores de destaque, durante o encontro, foi o reconhecimento feito ao Engenheiro Agrônomo, Professor e empresário, Dr. Newton Castagnolli. Uma homenagem modesta, porém impecavelmente justa pela sua imensurável contribuição na formação de um grande número de profissionais de destaque, nas áreas de pesquisa e produção em aqüicultura. Modesta, diante da sua inigualável trajetória profissional, com mais de 40 anos de trabalho dedicados à promoção e ao desenvolvimento da aqüicultura no Brasil.

Finalizo aqui o registro dos acontecimentos mais relevantes que presenciei em 2005, que na minha opinião saiu com um balanço do ano muito positivo. Acredito que 2006 será ainda melhor para todos que têm participado do aqua-negócio. Certamente um Feliz Ano Novo.