Indústrias de pescado reduzem meta de crescimento

Embargo das exportações dos produtos nacionais para países da União Europeia tem impacto direto nos negócios, principalmente das empresas do Nordeste


Por: Rochelli Dantas – Diário de Pernambuco

Entre 2016 e 2017, a indústria nacional de pescados registrou um crescimento de 13%. A meta para este ano era chegar a 15%. Mas os números tiveram que ser revistos nas últimas semanas. E para baixo. Com a recente proibição de exportação dos produtos nacionais para os países da União Europeia, os principais consumidores dos nossos produtos fora do país, o percentual de crescimento esperado despencou para 5%. O Nordeste é a região mais impactada, já que ela é que mais exporta para a Europa. Dos estados nordestinos, com ênfase para Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, os principais produtos que compõem a pauta de exportação são lagosta e atum. Há também negócios relacionados à comercialização da pele de tilápia.

“O bloqueio é internacional. Neste momento, apenas uma interferência da presidência do Brasil conversando com a instância mais alta da União Europeia é que pode reverter o cenário. As indústrias brasileiras não têm problemas sanitários. O embargo é político-econômico”, afirma o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), Eduardo Lobo.

No ano passado, o Brasil exportou 6,5 mil toneladas de produtos de pesca aos europeus. Pelos dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, entre janeiro e abril deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado, as exportações de peixes frescos ou refrigerados tiveram uma redução de 4,13%. Em números absolutos, as movimentações passaram de US$ 594.286, entre janeiro e abril de 2017, para US$ 569.717, no mesmo período deste ano.

De acordo com o presidente da Abispesca, hoje já existe pelo menos 500 toneladas de pele de tilápia e algo em torno de dois milhões de quilos de atum em estoques ainda sem destinação no Brasil. “Pelo menos 50% disto está no Nordeste”, enfatiza. A Associação também diz que o embargo refletirá nos investimentos que irão se instalar na região. “O Nordeste deverá deixar de receber mais de R$ 300 milhões de investimentos de indústrias e embarcações entre 2018 e 2019. São projetos que seriam instalados para produção destinadas à exportação para a comunidade europeia. Pelo menos mil empregos também deixarão de ser abertos”, lamenta Lobo.

Para não perder negócios, muitas empresas estão direcionando os produtos para outros mercados. “A lagosta será direcionada aos mercados asiáticos e norte-americano. O atum vai para as indústrias de enlatado do Brasil e também aos países da América Central”, pontua.

Na pernambucana Noronha Pescados, que este ano inicia a venda de lagosta, os produtos para exportação serão direcionados para Estados Unidos e China. “Já estamos em contato e negociando um contêiner da lagosta para a China em junho”, conta o diretor comercial da empresa, Guilherme Blanke. Antes, a empresa realizava negócios para outros países apenas com um volume pequeno da pele de tilápia. “Vamos agora iniciar com mais força com a lagosta. Mesmo com o embargo aos países da União Europeia, acreditamos que podemos chegar a 20% da operação”, diz. Este ano a empresa espera crescer 12%. No ano passado, a alta nas vendas foi de 7%.

Investindo no mercado interno

A pernambucana Netuno aposta no mercado interno para crescer entre 15% e 18% este ano. No ano passado, o crescimento foi de 15%. Para atingir a meta, uma das apostas está na venda do camarão, produto cuja venda havia sido reduzida. A meta é vender entre 40 e 60 toneladas de camarão no mês. Hoje são vendidas entre 15 e 20 toneladas ao mês.

“Estamos voltando a apostar no camarão. Ano passado, o preço estava proibitivo e agora começa a reagir, então temos margem para apostar nisso”, afirma o CEO da empresa, Christian Becker.

A Netuno é hoje o maior produtor de tilápia do Brasil, representando 52% do cultivo do país. Localizada na região de Paulo Afonso, a estrutura é composta por um centro de alevinagem, fazendas de cultivo, unidades de beneficiamento do pescado, fábrica de farinha e óleo de peixe.

“Os produtos seguem para todo o Nordeste e também para o Sudeste do país. Estamos expandindo, mas sempre analisando as formas de distribuição”, pontua. Segundo ele, a estratégia para o ano é focar no mercado interno. “Temos um bom posicionamento em Pernambuco, Ceará e Bahia, mas o Nordeste como um todo tem uma boa representatividade. Fora isso, temos força no Rio de Janeiro e São Paulo e agora começamos a crescer as vendas em Brasília e no Rio de Janeiro, principalmente de tilápia e camarão”, pontua.

Com relação às exportações,  de acordo com Christian Becker, a empresa realiza apenas a exportação da pele da tilápia e da escama do peixe, ambos utilizados na produção de colágeno. “Não são grandes volumes. A operação ainda está sendo amadurecida”, diz. Os produtos  seguem para a China e Europa.