INSUMOS QUÍMICOS na piscicultura paulista

Por: 
Ruy Bessa Lopes 

Ecotox Consultoria, [email protected]
Paulo Sérgio Cecarelli
CEPTA/IBAMA, [email protected]
Valdemar Luiz Tornisielo 
CENA/USP, Laboratório de Ecotoxicologia, [email protected]


A expansão da piscicultura brasileira desenvolveu-se vertiginosamente na última década, à demanda exercida por uma vertente da pesca esportiva conhecida como “pesque-pague”. Nos últimos anos, esta alavancagem possibilitou a ampla adoção do uso de pesticidas, por parte dos piscicultores, devido à adoção de um modelo mais intensivo de produção. Assim sendo, torna-se indispensável a disponibilização de xenobióticos, entendidos aqui como insumos químicos, para viabilizar operações de piscicultura.

O estímulo à piscicultura, provocou uma verdadeira revolução nas práticas de manejo até então empregadas pelos aqüicultores. A passagem de sistemas de produção extensivos e semi-intensivos para sistemas mais intensivos exige investimentos, métodos e assistência técnica dirigida ao monitoramento de tais mudanças. Entretanto, a carência destes três quesitos interligados tem levado a piscicultura paulista a agregar problemas como baixa qualidade de água e falta de conforto animal devido à alta densidade de estocagem – 100 a 300 kg/m3, o que representa a alocação de 400 a 900 peixes/m3 – atualmente praticada favorecendo deste modo, o estabelecimento de patologias e doenças.

O Estado de São Paulo ocupa hoje o segundo lugar no ranking da produção de peixes cultivados do Brasil com uma produção de 20.537,5 toneladas/ano atrás apenas do Estado do Rio Grande do Sul (IBAMA, 2004). Entre os insumos químicos utilizados na piscicultura paulista podemos destacar fertilizantes, desinfetantes, algicidas, promotores de crescimento, antibióticos, coagulantes, anestésicos, hormônios e pesticidas.

Entretanto, vale a pena lembrar que os insumos químicos empregados como quimioterápicos pela piscicultura não são produtos desenvolvidos especificamente para mitigar patologias de organismos aquáticos. Estes produtos são originariamente desenvolvidos para controle de patógenos em organismos terrestres e seus efeitos e riscos sobre o recurso pesqueiro (peixe vivo) estocado e sobre o pescado (peixe abatido), são ainda pouco conhecidos nos países de clima temperado e desenvolvidos. Tratando-se de países tropicais e em desenvolvimento que não dispõem de recursos regulares para a pesquisa, os efeitos deletérios destas drogas e de seus resíduos são praticamente desconhecidos.

Geralmente, os produtos em uso pela piscicultura podem ser categorizados em três grupos. O primeiro consiste de produtos que possuem significativo nível de risco tanto ao ambiente como à saúde pública, incluindo pesticidas organofosforados com finalidade quimioterápica, como por exemplo, o alsystin (malation), neguvon (triclorfon) e folidol (metil-paration). Produtos com essas propriedades devem ser usados de forma extremamente criteriosa. O segundo grupo inclui drogas que podem ser utilizadas com segurança, desde que os padrões de precaução sejam observados. Antibióticos como a acriflavina, oxitetraciclina e o clorafenicol, bem como, os benzoiluréia diflubenzuron (dimilin) e triflumuron inserem-se neste grupo. Porém, se mal administradas tais drogas podem constituir-se em risco ambiental e até trazer prejuízos à saúde pública. O terceiro grupo inclui produtos como fertilizantes (superfosfato triplo, super fosfato simples), insumos para a calagem (calcáreo agrícola e hidratado) e coagulantes (sulfato de cálcio e sulfato de alumínio) os quais são seguros na maioria das situações. Entretanto, podem apresentar algum risco ambiental, como por exemplo o aporte excessivo de nutrientes ao corpo d’ água situado à jusante dos sistemas produtivos. É importante salientar, que os produtos dos dois primeiros grupos são alvos para a imposição de barreiras sanitárias, por parte dos países importadores de pescado brasileiro, quanto ao Limite Máximo de Resíduos (LMRs) encontrados no músculo ou na pele do pescado.

Insumos químicos

A avaliação de riscos do uso de insumos químicos na piscicultura é complicada pela falta de dados quantitativos sobre seu uso em nossos habitats. Grande número de países não dispõe de dados que contabilizem o uso de pesticidas dentro de suas fronteiras. Convém ressaltar, que a maior parte das informações sobre eficiência, metabolismo e caminho ambiental de tais drogas é oriunda de países temperados; estas informações podem ou não balizar parâmetros a serem aplicados aos nossos cultivos, pois notadamente, fatores ambientais e de produção são peculiares e distintos. É interessante citar que o risco do uso de insumos não é apenas conferido aos aspectos do sistema de produção, aqui entendidos como manejo sanitário, mas também da contaminação provocada pelo indissociável compartilhamento das bacias hidrográficas. As bacias são veículos para contaminantes ambientais tais como, organoclorados, PCBs e outros resíduos que tendem a acumular-se na matéria orgânica.
Quanto à persistência, ou seja, o tempo que um produto pode ficar acumulado no organismo, os resíduos químicos são altamente dependentes das condições ambientais. De modo geral, resíduos na água possuem uma persistência menor devido à características físico-químicas, diminuindo sua biodisponibilidade para o ecossistema dos viveiros de produção de peixes (Murty, 1986). Entretanto, resíduos incorporados ao sedimento tendem a persistir por um período mais longo, principalmente se este sedimento apresentar um ambiente anaeróbico como habitualmente ocorre quando da instalação de tanques-rede ou mesmo quando se excede a relação biomassa/área em viveiros de produção convencionais.

Deste modo, o uso de insumos químicos, utilizados pela piscicultura, pode resultar na disponibilidade de resíduos à fauna silvestre, ou seja, aos organismos não cultivados. Por exemplo, alimentos não digeridos ou excretas contendo resíduos, proporcionam rotas pelas quais a fauna silvestre local e microorganismos na base da cadeia alimentar podem ingerir e incorporar resíduos.
No entorno das operações de piscicultura, ocorrem muitos animais bêntonicos como moluscos, que são particularmente vulneráveis ao uso de insumos químicos resultando assim, em espécies não alvo, mas que podem ser atingidas.

Entre os produtos que podem oferecer efeitos tóxicos sobre a fauna de invertebrados estão os organofosforados, como o triclorfon, e seu metabólito diclorvos, que atuam como ectoparasiticidas. Os organofosforados são aplicados em piscicultura de três formas mais comuns: banhos rápidos, com a exposição dos peixes à elevada concentração do xenobiótico por curto período; banhos prolongados, com baixa concentração por períodos mais longos e, finalmente, tratamento por tempo indefinido, durante os quais os peixes são expostos a baixas concentrações do xenobiótico por tempo indeterminado. Estes procedimentos, são empregados em viveiros de maior área, escavados em terra e sem qualquer revestimento, muito comuns entre os piscicultores.
Lembramos, que o tratamento mediante banhos com produtos organofosforados resulta na liberação de material tóxico ao ecossistema do viveiro de produção podendo afetar particularmente formas larvais de crustáceos. No Estado de São Paulo as aplicações de organofosforados com fins terapêuticos ocorrem pela forma de tratamento por tempo indeterminado, ou seja, transformando os viveiros de produção em verdadeiras banheiras de insumos químicos. Infelizmente, hoje em dia se tem tido pouca ou nenhuma preocupação com os efluentes liberados pelos sistemas de produção de peixes que utilizam insumos químicos.

Treinamento para manejo

A utilização de compostos químicos oferece um risco potencial para a saúde de trabalhadores que atuam na piscicultura. Aos operadores de viveiros devem ser disponibilizados treinamento adequado e equipamentos de segurança. Alguns pesticidas como os organofosforados atuam como uma enzima respiratória deletéria e devem, portanto, ser manejados com cuidado, especialmente quando na forma concentrada. Se a adoção de precauções com a saúde e segurança no manuseio destes produtos forem observadas, os riscos serão significativamente minimizados. Portanto, sempre que se fizer uso de compostos químicos nas operações de piscicultura é essencial que empregadores e empregados considerem os riscos associados a estas operações.

A despeito de não existirem regras que regulem o uso de produtos químicos, na piscicultura, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) propõe ações responsáveis que sejam factíveis, práticas e destinadas especificamente à produção de organismos aquáticos. A própria FAO (1999) através de seu código de conduta responsável para a piscicultura, recomenda a integração de fabricantes e usuários na expedição de licenças de insumos químicos para utilização pela piscicultura, assim como a formulação de instrumentos normativos eficazes sobre a produção, distribuição e uso destes produtos químicos.

Seria ideal, que as embalagens das drogas químicas, especialmente aquelas utilizadas no controle e combate, incluíssem informações e recomendações tais como: região geográfica, ambiente biofísico (água doce, salobra e salgada), estágio de vida das espécies cultivadas, rota e estratégia de tratamento, período de carência (com referência a espécies e temperatura), prejuízos potenciais para o meio ambiente e saúde pública (incluindo tratamento no caso de ingestão acidental ou por contato), observação quanto à armazenagem do produto, prazo de validade e métodos de descarte para produtos não utilizados. Estas informações seriam disponibilizadas para os usuários em linguagem acessível.

No que diz respeito ao monitoramento dos LMRs, seria de grande interesse que fosse observada a presença de resíduos na carcaça dos peixes cultivados. Um significativo bioindicador da saúde ambiental e do peixe cultivado seria a contagem de micronúcleos (aberração citogenética). Um outro bioindicador interessante, especialmente quando do emprego de organofosforados, pois estes inibem a acetilcolinesterase, uma enzima que atua no sistema nervoso, seria a dosagem da atividade de algumas enzimas. Estas estratégias isoladas ou combinadas permitiriam propor níveis mínimos de perturbação para o organismo frente a estressores químicos. Essas ações, auxiliariam a manter tanto a qualidade do recurso estocado como do ambiente no entorno, e assegurariam a qualidade do produto e sua segurança alimentar.

Conclusão

O emprego de pesticidas ou antibióticos com fins quimioterápicos é relevante como ferramenta para obter-se uma maior otimização do sistema produtivo em face de sua demanda. Entretanto, no atual cenário da piscicultura paulista devemos, em curto prazo, enfatizar aos técnicos, empresários do setor e trabalhadores, maior cautela e racionalidade no uso destes produtos. Em médio prazo, recomendar-se-ia implantar um sistema para o controle da qualidade do produto pesqueiro frente ao uso de insumos químicos. 

Referências Bibliográficas:

Estatística da pesca 2003: Brasil grandes regiões e unidades da federação. IBAMA, 2004, 98 p.
FAO – Desarollo de la aquicultura. Orientaciones técnicas para la pesca responsable. n.5. Roma. 1999. 54 p.
LOVSHIM, L. L., CYRINO, J. E. P. Critérios para a avaliação da viabilidade técnico-economica de projetos de piscicultura comercial no Brasil. In.: IIIo Workshop internacional de aquicultura. Ed. Coelho, S. R. São Paulo. 1999. p 1-17, 39 p.
MURTY, A. S. Toxicity of pesticides to fish. CRC. Inc. Boca Raton. 2 ed. v. 1, 1986, 178 p.

Os autores agradecem ao Prof. Dr. Jayme da Cunha Bastos (UERJ), pela revisão do texto e sugestões oferecidas ao artigo.