João Manoel Cordeiro Alves: da Guabi para o mundo!

Promover encontros. Essa será a próxima etapa da bem sucedida carreira do zootecnista João Manoel Cordeiro Alves, gerente de produtos para aquicultura da Guabi que está se aposentando após 20 anos naquela fábrica de ração. É bom que se diga: se aposentando desse trabalho, porque seus desafios profissionais parecem estar apenas começando. 


Por: Tânia Neves
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Cheio de energia aos 64 anos, João Manoel se despede da Guabi para montar uma consultoria própria e seguir contribuindo com o setor: “Tudo o que eu não conseguir fazer por um negócio da aquicultura, eu conheço gente que é capaz de fazer. Então eu quero trabalhar usando os meus conhecimentos técnicos, mas também os meus relacionamentos. Eu quero aproximar pessoas para que o negócio cresça, para que a aquicultura cresça” – idealiza ele, entendendo que o crescimento da aquicultura como atividade leva junto uma fileira de parceiros: cresce a sua consultoria e crescem também as indústrias, os produtores, o mercado consumidor e a economia, em última análise.

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O que pode parecer um dilema – se aposentar ou permanecer na ativa – na verdade é apenas uma correção de rumo para esse sujeito com 40 anos de atuação como zootecnista, 30 deles na aquicultura. Avisa que vai continuar trabalhando com a mesma paixão de sempre, mas agora de outro jeito, dividindo-se entre vários clientes e reservando parte de seu tempo para um convívio de mais qualidade com a família: “Não abro mão de continuar trabalhando, mas agora eu quero relaxar um pouco também”, esclarece. 

Planos de atuação no exterior

Para essa nova fase de consultorias, ele já foi informalmente convidado a contribuir com várias empreitadas do ramo, mas só pretende analisar esses convites após concluir as formalidades de sua saída da Guabi, que é uma empresa do grupo Alltech Brasil. Enquanto isso, deu um pulo em outubro passado no Egito e na Arábia Saudita a convite da Alltech do Oriente Médio para conhecer dois projetos por lá e propor melhorias para eles. Na Arábia, o foco é a fazenda Naqua Seafood que, apesar de moderníssima e muito bem equipada, tem alguns entraves nos processos que podem ser melhorados, na sua visão. E no Egito trata-se da Companhia Nacional de Pesca e Aquicultura (NCFA, na sigla em inglês), onde o desafio engloba melhorar o manejo de seus megaprojetos de aquicultura como um todo, aperfeiçoando as práticas de produção, organizando a logística para comportar diversos ciclos paralelos e aumentando a densidade dos tanques, entre outras questões: “O presidente do Egito quer tornar o país autossuficiente em pescado. Eles produzem já um milhão e quatrocentas mil toneladas de diversos peixes de cultivo, sendo o principal a tilápia, e querem ir além disso”, explica João Manoel.

A NCFA é um complexo que reúne diversos megaprojetos de aquicultura, cada um contando com tanques terrestres e/ou gaiolas marinhas; fábricas de embalagens, gelo, espuma e pó de peixe; centro de processamento de pescado; incubadora de peixes marinhos; centros de pesquisa e desenvolvimento e laboratório para a qualidade da água e do peixe; além de barcos para a pesca marinha e lagos de pesca comercial. Os olhos brilham quando João Manoel avalia o tamanho do desafio: “Tem muita coisa para a gente desenvolver. Tem um monte de gente com mestrado e doutorado trabalhando lá, mas que não tem experiência prática quase nenhuma. Eles têm a experiência do que eles fazem lá, mas não do que existe fora, como fazer altas densidades, que é como eu sempre acreditei que a aquicultura tem que ser. Ou uma bastante tecnológica, com altas densidades, ou uma bastante extensiva para não provocar muito impacto ambiental”, desenha.

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Se a proposta de desenvolver esses primeiros projetos internacionais vingar, João Manoel já faz cálculos de passar pelo menos uns dois a três anos na ponte aérea internacional, alternando períodos lá fora com outros em sua casa em Jaboticabal. O que se encaixaria perfeitamente em sua nova filosofia de trabalho: “Se eu for lá fora para trabalhar, levo a Lúcia junto” – planeja, já pensando na companhia da esposa para curtir o tempo livre que tiver depois de vencida cada batalha: “O desafio técnico profissional lá é enorme, eu adoraria pegar pra resolver. Seria fantástico”, diz. Mas, se o desejo não se realizar, vai ficar por aqui mesmo promovendo os tais encontros entre os produtores que têm problemas e os profissionais que podem oferecer as soluções.

Três décadas de experiência e um caderninho de contatos 

João Manoel adianta que não se trata necessariamente de fazer coisas mirabolantes, grandes projetos. Na maior parte das vezes, segundo ele, as ações poderão ser até bem simples. Aí você se pergunta – “Ora, se é coisa simples, por que precisa dele?” – e a resposta também não é complicada: o problema pode ser simples, mas chegar ao diagnóstico, não. E o segredo nesse caso está na riqueza do caderninho de contatos e na capacidade que 40 anos de experiência de campo deram ao zootecnista para saber fazer as perguntas certas e encontrar as respostas exatas. “Eu posso até não saber como resolver o problema da pessoa, mas certamente sei quem sabe.  Eu conheço os maiores cobras do Brasil que podem prestar os melhores serviços nessa área. E é esse o tipo de coisa que eu gostaria de fazer: colocar as pessoas juntas”.

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Quer exemplos de como seria essa atuação? Imagine uma criação com animais inadequados para o ambiente onde estão sendo cultivados. João Manoel conta que já viu diversos empreendimentos definharem por esse motivo, sem que o produtor sequer tenha desconfiado que o problema era esse: “A solução seria trocar os animais, e eu conheço um monte de gente que pode sugerir um animal mais adaptado para ele”, diz. Outro exemplo seria o de um produtor que padece por só conseguir vender seu produto a preços que não compensam: “Posso ajudá-lo a achar um nicho. Ele não precisa vender tudo bem vendido, mas se ele começa a vender 10% ou 20% em um nicho, ele recebe um pagamento melhor pelo trabalho dele”. Mais um exemplo? Uma doença persistente: “Eu não entendo praticamente nada de doença, mas entendo bastante de nutrição e conforto, e isso previne doença. Se tiver que ir além disso, eu não posso ir, mas sei quem pode”, completa.

Enfim, o zootecnista acredita muito nas perguntas como matéria-prima para desenvolvimento. E o tempo lhe mostrou que as pessoas mais simples têm as perguntas mais interessantes: “Todos nós temos um monte de conceitos na cabeça que nos bloqueiam de ver outras coisas. Eu vou da minha casa para o banco e vou sempre pelo mesmo caminho, e pode ser que tenha um caminho mais agradável, onde more alguém que eu vá gostar de encontrar, não sei. E é assim na vida da gente, na profissão da gente: tem algumas coisas que eu já tenho como certas e outras pessoas têm dúvidas sobre elas, e esses caras que expõem as dúvidas me fazem muito bem” – diz, lembrando que fez muitas palestras ao longo da carreira e foi muito feliz por ouvir diversas perguntas interessantes, dúvidas que o ajudaram a avançar na produção de novos conhecimentos: “O mundo é movido por perguntas, as respostas são apenas consequência das perguntas”.

Falta de planejamento, um mal de todos

Sobre as diferentes dificuldades que grandes e pequenos produtores enfrentam atualmente, João Manoel acredita que o principal mal que os atinge é algo comum aos dois grupos: falta de planejamento. Segundo ele, nenhum se planeja considerando cenários variados; não se organizam financeiramente e usam o dinheiro dos fornecedores para sustentar seu negócio: “Eu acho muito estranho uma empresa comprar ração para pagar com 30, 60 e 90 dias. E se oferecer prazo de 180 dias eles querem também” – critica, destrinchando a forma como essa prática mina as finanças de uma empresa: ao comprar a prazo, somente na primeira compra o produtor teria a vantagem de ficar 30 dias sem fazer qualquer pagamento; a partir daí, como terá que sempre refazer o pedido e assumir parcelas futuras a pagar, chegará um momento em que ele sempre estará pagando por mês o valor completo da compra, pois terá que honrar ainda a parcela da compra anterior junto com a parcela da nova compra: “Se o produtor disser que vai pagar à vista e pedir desconto, o vendedor certamente vai dar, então o valor será menor. Eu às vezes chamo a atenção sobre isso e o cara diz: ‘ah, mas eu não tenho condições’. O problema é falta de planejamento, porque eles crescem sem planejar. Se planejassem, teriam o dinheiro para a compra inicial e a partir daí estariam sempre comprando por um valor mais baixo”.

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Outro problema que João Manoel identifica é que muitas empresas estão inchadas, têm mais gente do que precisam, “muito cacique para pouco índio”, em suas palavras: “Você vai encontrar gente com mestrado, doutorado, um monte de publicações científicas, mas sem vida prática. Na Guabi, por exemplo, eu tinha dificuldade de contratar gente por esse motivo. Recebia currículos excelentes, gente que era muito boa, mas que eu precisava pagar para ela aprender o que eu precisava que ela fizesse”. Tudo isso impacta nos resultados. E são coisas que, segundo ele, acontecem por falta de planejamento: “Estou pintando um cenário ruim, mas infelizmente é assim que acontece. Tem produtor que vai bem? Tem! Eu conheço vários que vão super bem, que são controladinhos com dinheiro, mas a grande maioria sofre com essa falta de planejamento”.

Nos momentos de crise, ele diria que os grandes passam por mais dificuldades do que os médios e os pequenos – que, por não terem grandes expectativas, se resolvem bem vendendo seus produtos de forma local: “Eles têm fregueses e não compradores. Gente que pensa: eu vou comprar dele agora porque quando estava caro ele vendia mais barato pra mim”. Uma vantagem que os grandes têm é que costuma ser mais fácil negociar volumes maiores: “Não é o melhor preço, mas é mais fácil de vender”, diz. Ele defende que os pequenos deveriam se organizar em sociedades – não necessariamente cooperativas – para comprarem juntos os seus insumos e venderem juntos a sua produção, pois assim conseguiriam negociar valores melhores: “Mas, infelizmente, o produtor de aquicultura no Brasil age como concorrente do vizinho dele, quando na verdade o concorrente dele é a pesca, é o frango, é o boi, não o outro aquicultor. Esse deveria ser aliado”.

João Manoel diz que dá esses toques há muitos anos, mas não é ouvido. Acredita que agora terá mais chances de ter seus pontos de vista analisados e considerados: “Estando ao lado do produtor como um funcionário dele e não da fábrica de ração, como um prestador de serviços para ele, espero poder convencer mais gente de que esse é o melhor caminho”, diz.

Tecnologias embarcadas nos produtos Guabi

Embora fosse desde sempre um apaixonado pela aquicultura, João Manoel começou a vida profissional atuando em outras frentes: “Quando saí da faculdade, em 1982, querer trabalhar com peixe ou camarão era pedir para passar fome”, diz. Então foi mexer com outras coisas que também lhe agradavam, como nutrição, mas permaneceu participando dos eventos de aquicultura durante o período. Após 13 anos, vendo que o mercado de aquicultura ensaiava uma expansão, tratou de voltar à universidade para encarar um mestrado e se preparar para esse novo momento. E funcionou. Pouco tempo depois já assumia o posto de gerente de produtos para aquicultura na Fri-Ribe. Enfim envolvido com sua paixão! “Sempre me encantei por economizar recursos: nutrição, espaço, oxigênio. Acho que está no meu DNA”. Na esteira dessa filosofia, a primeira de suas grandes realizações no ramo – a maioria feita em equipe, com ajuda de muita gente, ele gosta de frisar – foi a redução do teor de proteína nas rações para cultivo de tilápias em tanques rede de 40% para 32%. “E eu ainda luto para baixar mais, mas as pessoas não entendem, gostam de comprar proteína. E isso é assim no Brasil e no resto do mundo”, avalia.

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Com esse perfil, não é surpreendente que seu grande sonho fosse trabalhar na Guabi, àquela altura já consolidada como uma empresa de referência em inovação e pesquisa na fabricação de rações de qualidade.  Sonho realizado em 2002: “Eu encontrei na Guabi um terreno fértil. O DNA da empresa, o Dr. Thor Haaland, era um cara que gostava que a gente estudasse, que a gente viajasse, que a gente fosse pra frente. E nunca eu ouvi um não da Guabi nesses 20 anos que fiquei lá”. Entre as principais contribuições que João Manoel deu à Guabi com sua curiosidade e seu desejo de inovar estão as rações com probióticos, com microminerais orgânicos e ração extrusada para camarão.

E o conceito quorum sensing, que é um capítulo à parte: “Eu fui num simpósio da Alltech e ouvi um cara falar de ‘alteração da expressão gênica’. Caramba, pra mim eu nascia com os meus genes e eles iam assim até o fim da minha vida. Mas não, eles podem ter a sua expressão alterada em função da nutrição, problemas ambientais, um monte de coisas”, conta João Manoel sobre o momento que o inspirou a pesquisar e criar uma linha de produtos voltados para oferecer proteção natural a peixes e camarões que vivem sob constante risco de adoecerem, fazendo prevenção e controle de doenças. “Esse foi, talvez, o lançamento que mais tenha causado efeito. E, por incrível que pareça, as pessoas usam ainda muito antibiótico e acham que os produtos quorum sensing são caros. Isso é uma frustração enorme para mim”.

Outro marco importante de sua trajetória profissional foi a criação de um produto análogo à farinha de peixe, mas que ainda não foi para o mercado: “Não é apenas um substituto para a farinha de peixe, o que nós fizemos foi formular uma farinha de peixe artificial, um produto análogo, que tem tudo o que uma farinha de peixe tem, não somente proteína e gordura” – diz, ressaltando que todas essas realizações só foram possíveis porque a Guabi acreditou nele e lhe deu liberdade para trabalhar. 

Alltech chega para melhorar o que já era bom

Com a chegada da Alltech – que em 2016 comprou metade da Guabi e três anos depois arrematou a outra metade – tudo melhorou ainda mais, pois a multinacional americana era fornecedora de muitos ingredientes de qualidade que entravam na formulação das rações da Guabi. A junção foi perfeita: “Hoje os nossos produtos têm muita tecnologia embarcada, muita. Mas nós estamos num momento delicado para a Guabi por causa de tanta tecnologia embarcada, porque o valor do peixe e do camarão não está bom e as pessoas correm para produzir com menor custo. O que é um erro, porque as pessoas se preocupam muito mais com o preço da ração do que com o preço de um quilo de peixe produzido ou de um quilo de camarão produzido”, critica.

 “Temos clientes que não trocam nossa ração, e nem por isso estão perdendo dinheiro”, garante João Manoel. E a explicação é meramente matemática: uma ração que resulta em melhor conversão alimentar, mas que também protege contra doenças e reduz a quantidade de resíduos na água, entre outras coisas, proporciona mais economia ao produtor do que o tanto a mais que ela custa em comparação às outras que não entregam todas essas vantagens. Além disso, com uma ração melhor, o ciclo de cultivo encurta, porque a velocidade de crescimento é maior: “Em uma fazenda de camarão em que você tem vários ciclos por ano, se você ganhar uma semana ou duas em cada ciclo, vai ter mais ciclos no final” – calcula, elencando mais uma vantagem de pagar mais caro por uma ração de alta qualidade.

Sigad – o ponto alto da carreira

João Manoel acredita que o produtor precisa se desvencilhar da ideia de que apenas cuidar da base da produção animal – nutrição, genética e manejo do ambiente – é suficiente para manter o negócio. Outros cálculos precisam ser feitos, e foi pensando em ajudar nisso que ele e André Lit, diretor comercial da Guabi, idealizaram o Sigad (Sistema Guabi de Alto Desempenho), um programa que ajuda a olhar para a fazenda de forma holística: “Nutrição, genética e manejo do ambiente são a base da produção animal, mas não a base do negócio. Porque eu posso produzir com a melhor conversão alimentar do mundo, com a melhor genética, nenhuma doença, mas gastando muito mais do que vale o quilo do que eu produzi”. Ele propõe que, sem desprezar essas bases, o produtor inclua em seu horizonte outros três temas que batizou de viabilizadores:  infraestrutura, gestão e biossegurança: “Se eu não tiver infraestrutura, se eu não tiver balança para pesar, se eu não tiver um caderno ou um computador para fazer minhas anotações, deixar só na minha cachola, não vai funcionar. Se eu não tiver biossegurança, já era. E se eu anotar tudo isso aí num bruta de um computador e não olhar o que eu anotei para fazer gestão, eu não estou fazendo bom negócio”, resume. 

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O programa é de adesão gratuita. Trata-se de um questionário com diversas perguntas relacionadas aos três temas básicos e aos outros três propostos por ele, com quatro níveis de resposta para cada pergunta. O instrumento permite esquadrinhar a situação do negócio e propor mudanças de rumo em cada ponto analisado, para alcançar o melhor desempenho possível. “O objetivo é analisar a fazenda, encontrar os gargalos na produção e começar a resolvê-los. Quando você identifica o problema, cria na hora um plano de ação e vai em frente” – explica João Manoel, que considera o Sigad a cereja do bolo de sua carreira na Guabi.