Jundiá: Um Grande Peixe para a Região Sul

Por: * Paulo C. F. Carneiro
e-mail: [email protected],
Fabiano Bendhack, Jorge MikosMarianne Schorer e
Paulo Oliveira Filho
** Bernardo BaldisserottoJaqueline I. GolombieskLenise V. F. Silva e
Denise Miron
***Betina Muelbert EsquivelJuan Ramon Esquivel Garcia 


Este artigo traz informações obtidas através de observações práticas e trabalhos científicos com o jundiá Rhamdia quelen, reunidas pelos grupos de pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR* e da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM/RS**, juntamente com a Piscicultura Panamá***, localizada no município de Paulo Lopes, SC. São abordados alguns assuntos relacionados à reprodução, larvicultura e alevinagem desta espécie, através de dados valiosos compartilhados por profissionais que atuam nos três estados do sul do Brasil, que servem tanto para piscicultores quanto para pesquisadores que desejam iniciar seus estudos com o jundiá.


O Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, os três estados que compõem a Região Sul do País, muito têm contribuído para o desenvolvimento da piscicultura nacional. O oeste do Estado do Paraná é um bom exemplo de pioneirismo, com um grande número de piscicultores envolvidos, principalmente na produção da tilápia.

Uma característica singular desses estados é a predominância de baixas temperaturas durante alguns meses do ano, o que diminui significativamente o crescimento dos peixes, muitas vezes causando mortalidade em espécies menos tolerantes a estas condições. A maior parte dos piscicultores destes estados adota a metodologia de criação utilizada pelos produtores da região do oeste paranaense, provavelmente em função do sucesso da atividade naquela região e também pela falta de um modelo adequado às diferentes condições. Em decorrência, o mesmo sucesso não é observado em muitas regiões de clima mais frio.

A tilápia-do-Nilo, espécie muito utilizada na Região Sul, é um peixe muito rústico e amplamente criado em vários países do mundo, porém é originária de locais quentes e, portanto, pouco tolerante a baixas temperaturas, não sendo indicada para regiões de clima frio, sob o risco de crescimento reduzido, enfermidades e mortalidade. O aumento no ciclo de produção, por si só, já é um aspecto importante para ser considerado por diminuir a competitividade dos produtores destas regiões, se comparados aos que utilizam o mesmo modelo de piscicultura em climas mais quentes.

Antes da chegada da tilápia ao sul do País, a espécie que predominava nos viveiros e açudes era a carpa comum Cyprinus carpio. Porém, devido a alguns fatores, como o hábito desta espécie em cavar buracos nas laterais dos viveiros e a popularização de que sua carne apresenta sabor desagradável e cheia de espinhos, sua substituição pela tilápia-do-Nilo foi inevitável, principalmente pelo fato de não haver outra opção mais adequada.

Fato curioso é notar que ambas as espécies são exóticas, originárias de outros continentes. É compreensível a escolha por tais peixes, uma vez que são as espécies mais estudadas e conhecidas mundialmente. Por outro lado, o mais racional e ambientalmente adequado seria intensificar os estudos sobre o desempenho produtivo de nossas espécies nativas e criar modelos de criação condizentes às condições de cada região.

Jundiá

O jundiá Rhamdia quelen é um bagre que ocorre desde o centro da Argentina até o sul do México, sendo uma espécie adaptada a diferentes ambientes e que vem apresentando bons resultados em viveiros de piscicultura, principalmente no sul do país. Além disso, é uma espécie que apresenta excelente aceitação pelo mercado consumidor, tanto para a pesca esportiva quanto para a alimentação. Dados empíricos, obtidos através de piscicultores e pescadores, confirmam que o jundiá é uma espécie rústica, de rápido crescimento e que suporta bem as baixas temperaturas ocorridas na região sul do País, inclusive alimentando-se durante o inverno.

Reprodução induzida

É surpreendente a facilidade de manejar o jundiá em condições de laboratório e induzi-lo artificialmente à desova. Apesar de relatos sobre sua capacidade de reprodução natural em viveiros de piscicultura, optou-se pela reprodução induzida em condições laboratoriais para aumentar a eficiência do processo. Surgiram então, muitas curiosidades que certamente inspirarão vários trabalhos científicos, como as diferentes respostas do peixe em relação ao tipo de hormônio utilizado para indução. O uso do extrato hipofisário, segundo o protocolo utilizado para a maioria das espécies, apresentou resultados altamente positivos. Mesmo as fêmeas com aspectos morfológicos externos questionáveis para a desova, como abdome pouco flácido e papila urogenital nada avermelhada, apresentaram aumento surpreendente do volume abdominal algumas horas após a indução hormonal, expelindo óvulos férteis 7-9 horas após a aplicação da segunda dose, à 25oC. Algumas informações importantes sobre o processo de reprodução estão reunidas no quadro.

A maturação sexual destes peixes é precoce, ainda dentro do primeiro ano de vida. Durante a seleção das matrizes para indução hormonal é recomendado suspender o fornecimento de ração por 24 horas, para evitar confusões entre as fêmeas que apresentam o abdome grande, devido ao volume dos ovários, e outras devido ao volume do estômago.

A identificação dos machos durante o processo de seleção dos reprodutores é um trabalho fácil devido à diferença morfológica das papilas genitais entre os sexos. Os machos apresentam uma protuberância característica e facilmente percebida, além de expelir sêmen após massagem ventral no sentido céfalo-caudal. Outra característica observada, e que facilita a identificação dos sexos, é o crescimento reduzido dos machos em relação às fêmeas.

É comum peixes com menos de 200 gramas liberarem sêmen logo no início da primavera. Muitos piscicultores, inclusive, dispensam a aplicação de hormônio para induzir a liberação de sêmen devido à facilidade de sua obtenção sem a necessidade de indução. Porém, foi possível notar um aumento significativo no volume de sêmen expelido (cerca de 5 vezes) pelos machos que receberam 0,5 mg/kg de extrato hipofisário no momento da 2a aplicação das fêmeas. Esta observação, juntamente com a comprovação da eficácia deste sêmen para a fertilização dos óvulos, contribui para o seguinte questionamento: não seria economicamente mais interessante submeter os machos à indução hormonal e, com isso, diminuir o número de machos do plantel de reprodutores, reduzindo, portanto, os custos de produção?

Questões como esta, além de todas as informações aqui reunidas serão testadas nos próximos períodos reprodutivos através de trabalhos científicos que serão desenvolvidos pela PUCPR em parceria com a UFSM/RS e a Piscicultura Panamá. Porém, a antecipação da divulgação destas informações tem a finalidade principal de estimular outros grupos de pesquisa a contribuir no desenvolvimento de trabalhos com o jundiá.

O período de atividade dos espermatozóides, após contato com a água, é de aproximadamente 40-50 segundos, o que enfatiza os cuidados com a sua coleta e mistura com os óvulos, antes da adição de água para fertilização e hidratação. Porém, constatou-se que os espermatozóides permanecem viáveis por várias horas após coletados e mantidos em temperatura ambiente, e por pelo menos 24 horas quando mantidos sob refrigeração. Esta particularidade é semelhante ao observado para outras espécies de peixes e facilita muito o manejo durante o processo reprodutivo, permitindo a coleta antecipada do sêmen de vários machos e seu acondicionamento para uso posterior. Com isso, no momento em que as fêmeas começam a desovar, toda a atenção pode ser voltada a elas, sendo possível reduzir o número de funcionários no laboratório e melhorar a organização do trabalho.

Larvicultura e alevinagem

As pós-larvas aceitam a ração farelada assim que ocorre a abertura da boca, antes mesmo de absorver todo o saco vitelino ou encher a bexiga natatória, o que permite a sua permanência nas incubadoras por um período de pelo menos 5 dias após a eclosão. Com isso, há mais tempo para o preparo dos viveiros, principalmente quando se tem alguns dias nublados durante o processo de reprodução, o que atrasa a produção de alimento natural em abundância.

Entre os meses de outubro e janeiro, a temperatura média dos viveiros de alevinagem oscilou entre 22 e 28oC. A fertilização, feita basicamente pela adição de esterco de galinha poedeira, resultou em expressiva quantidade de fito e zooplâncton após 3-7 dias. Uma vez estocados com as pós larvas, é possível a obtenção de alevinos com cerca de 5 cm em menos de vinte dias, período mais rápido que para muitas outras espécies. As pós-larvas podem ser alimentadas exclusivamente com ração, mas aparentemente seu crescimento é um poucomais lento. Não há trabalhos comparando ração versus alimentação natural em viveiros, mas segundo trabalho do Dr. João Radünz Neto (UFSM) e seus colaboradores, pós-larvas alimentadas com Artemia crescem mais que as alimentadas só com ração.

Um grande problema enfrentado pelos criadores de jundiá, principalmente os produtores de alevinos, é a infestação por ictio (Ichthyophthirius multifiliis), um parasita externo facilmente reconhecido pela presença de pontos brancos na pele. O melhor tratamento é colocar os jundiás em água com sal comum (4 g/L) tão logo sejam observados os sinais e manter a alimentação normalmente. Os peixes devem ser mantidos na água com sal até o desaparecimento dos pontos brancos, o que pode levar 15 dias. Se a detecção da doença for feita no primeiro dia, é provável que todos os peixes sobrevivam. Se o tratamento com sal for feito mais tarde, ainda é eficiente, mas a mortalidade é grande. Esse tratamento é mais barato e mais seguro para os peixes e para os funcionários que o uso do verde malaquita (que é cancerígeno) e da formalina.

A variabilidade de tamanhos durante a alevinagem tem sido observada e dados preliminares mostram que, quando mantidos nas densidades de 30 e 60 alevinos/m², os alevinos apresentam-se bem homogêneos durante os primeiros 30 dias. Porém, quando mantidos nestas densidades por 60 dias é possível notar grande heterogeneidade no lote, com tamanhos variando entre 3,5 e 16 cm.

O transporte de alevinos de 1 grama em sacos plásticos com água e oxigênio, pode ser feito a temperatura de 25oC em densidades de até 126 alevinos por litro de água, mas é indicado que não ultrapasse 6 h devido aos altos níveis de amônia, gás carbônico e baixos níveis de oxigênio dissolvido. Recomenda-se que ao transportar alevinos na temperatura de 25oC, ou mais, e tempo de transporte de 24h, que o número não ultrapasse a 76 alevinos/L a fim de não ocorrer mortalidade. Alevinos maiores devem respeitar a mesma proporção de peso, ou seja, se pesarem 2 g, máximo de 38 alevinos por litro, para não prejudicar a qualidade de água. Em temperaturas entre 15 e 20oC os alevinos suportam transporte por período superior a 24 horas. Todas as recomendações e cuidados que evitem o choque térmico durante o transporte dos demais alevinos também são válidas para os de jundiá. É importante salientar que o uso do sal na água de transporte, muito recomendado para a maioria das espécies, não traz benefícios para os alevinos desta espécie.

Sendo inevitável a comparação do jundiá com o catfish americano, Ictalurus punctatus, seguem algumas observações importantes entre estas espécies realizadas na Piscicultura Panamá. O jundiá produz uma quantidade de ovos muito superior ao catfish americano. Os ovos do jundiá não são aderentes e não precisam de incubadoras especiais, podendo ser incubados nas tradicionais incubadoras cônico-cilíndricas, utilizadas para a maioria dos peixes. O período de reprodução do jundiá é muito maior, estendendo-se de setembro a abril, quando são registradas temperaturas da água entre 18 e 28oC. Além disso, o crescimento do jundiá, alimentado com ração com 28% PB, tem sido superior ao do catfish americano no primeiro ano de criação.

Mesmo sabendo que algumas das informações contidas neste artigo são ainda empíricas, há fortes indícios positivos sobre o potencial do jundiá como uma espécie promissora para a aqüicultura nacional e, especialmente, para a região sul do país. Neste sentido, gostaríamos de incentivar outros grupos de pesquisa a trabalhar com esta espécie e compartilhar seus resultados para que possamos aumentar nossos conhecimentos científicos de forma ágil e organizada.

Fêmea de jundiá apta para reprodução
Fêmea de jundiá apta para reprodução
Detalhe do abdome de uma fêmea de jundiá antes da retirada dos óvulos
Detalhe do abdome de uma fêmea de jundiá antes da retirada dos óvulos
Exemplar macho de jundiá adulto (notar tamanho inferior ao da fêmea) 
Exemplar macho de jundiá adulto (notar tamanho inferior ao da fêmea)
Indução hormonal de um reprodutor 
Indução hormonal de um reprodutor
Retirada dos óvulos de uma fêmea de jundiá após indução hormonal
Retirada dos óvulos de uma fêmea de jundiá após indução hormonal
Coleta de sêmen para posterior fertilização dos óvulos
Coleta de sêmen para posterior fertilização dos óvulos
Mistura dos gametas
Mistura dos gametas
Fertilização e hidratação dos ovos
Fertilização e hidratação dos ovos
Ovos fertilizados e início do desenvolvimento embrionário
Ovos fertilizados e início do desenvolvimento embrionário
Desenvolvimento embrionário e larval em incubadoras convencionais
Desenvolvimento embrionário e larval em incubadoras convencionais
Acompanhamento do desenvolvimento e taxa de fertilização
Acompanhamento do desenvolvimento e taxa de fertilização
Pós-larva com três dias
Pós-larva com três dias
Pós-larvas com cinco dias prontas para serem transferidas para o viveiro de alevinagem
Pós-larvas com cinco dias prontas para serem transferidas para o viveiro de alevinagem
Alevino com sete dias em viveiro adubado e recebendo ração farelada
Alevino com sete dias em viveiro adubado e recebendo ração farelada
Alevino pronto para comercialização.
Alevino pronto para comercialização.
PUC-PR e o Patronato Santo Antônio

O Patronato Santo Antônio é uma instituição filantrópica fundada em 1949, localizada no Município de São José dos Pinhais, a 15 km de Curitiba, dirigida pelas Irmãs Salvatorianas. O Patronato Santo Antônio está voltado à educação e assistência social, desenvolvendo várias atividades educativas e profissionalizantes, que tem como objetivo principal a formação de crianças e adolescentes órfãos, abandonados ou carentes.

Dentre as atividades oferecidas atualmente para cerca de 380 crianças podemos listar: reforço escolar, formação humana e cristã, artesanato, teatro, esporte, música, informática, culinária e cursos profissionalizantes de marcenaria, mecânica, jardinagem, horticultura e piscicultura. Esta última está sendo realizada em uma área com 27 viveiros de diversos tamanhos, adequados tanto para atividades de engorda quanto para reprodução e produção de alevinos, contando para isto com o apoio de um completo laboratório de reprodução artificial de peixes, construído em 1996 com recursos da Misereor, instituição alemã sem fins lucrativos, que atende projetos assistenciais voltados a população carente. Desde sua implantação, o laboratório passou por muitas dificuldades técnicas e financeiras até que, em 2001, foi firmado um convênio entre o Patronato Santo Antonio e a Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR, que transfere para esta última todo o gerenciamento das atividades da piscicultura do patronato, incluindo a produção de peixes e o envolvimento de alunos dos cursos de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas em atividades de produção, ensino, pesquisa e extensão.

A arrecadação vinda da venda dos alevinos, e eventualmente de peixes adultos, é utilizada para cobrir as despesas da piscicultura e o lucro repassado para a manutenção dos programas educacionais e assistenciais das crianças e jovens atendidos pelo Patronato Santo Antonio.