Jundiá: Uma Espécie Nativa com Tecnologia Dominada

A Universidade de Passo Fundo – UPF, no Rio Grande do Sul, com o apoio do IBAMA e das Secretarias de Ciência e Tecnologia e de Agricultura e Abastecimento, tem como meta desenvolver a piscicultura na área do Conselho de Desenvolvimento da Região da Produção – CONDEPRO, que compreende trinta e cinco municípios na região norte do estado. Entre as ações, destaca-se o treinamento de produtores e técnicos na produção de pescados em pequenos e médios açudes com o seu posterior aproveitamento na industrialização.

Desde abril de 1995, a Universidade está conveniada com o Instituto TEHAG, da Hungria, que acolheu no ano passado dois técnicos da UPF para um curso de especialização. Atualmente, o convênio mantém na universidade gaúcha um técnico húngaro, doutorando em piscicultura, assessorando também o projeto desenvolvido nos municípios do CONDEPRO.

A seguir, os resultados recentes das pesquisas com a alevinagem do jundiá, peixe nativo da região, realizada por Rosmari Mezzalira, Irineu Fiorese, ambos da Estação de Piscicultura da UPF, e István Ittzés do Convênio UPF/TEHAG.

A produção de alevinos de jundiá no Rio Grande do Sul

No norte do Rio Grande do Sul o jundiá – Rhamdia sp. é um peixe promissor entre as espécies cultivadas, além de ser o preferido nas mesas da região. O nome jundiá é a designação de muitos peixes siluriformes da família dos pimelodídeos e, talvez entre os indígenas significasse o mesmo que bagre. Segundo o Catálogo de Gosline para toda a América do Sul e Central, o gênero Rhamdia conta com 66 espécies.

Um dos jundiás mais conhecidos é o Rhamdia quelen. Vive nas lagunas e nos poços fundos dos rios, escondido entre as pedras e troncos, de onde sai à noite a procura de pequenos peixes, insetos, larvas e vermes, que constituem sua alimentação. Na Argentina existe outra espécie que vem ao mercado com o nome de “bagre-de-las-piedras” ou “bagre-sapo-de-piedra”, nome aliás que cabe ao Rhamdia sapo, de porte bem menor que o Rhamdia quelen.

A procura por alevinos de jundiá tem aumentado nos últimos anos, mas a oferta ainda é pequena pois são poucos os produtores que se dedicam a produzir alevinos dessa espécie, cuja produção deve ser incentivada já que é sempre vantajoso estimular o cultivo de espécies nativas, ao invés de se introduzir espécies exóticas. Mesmo porque, o jundiá além de ser utilizado na produção em viveiros, pode vir a ser necessário no repovoamento dos rios e barragens.

Matrizes de Jundiá Rhamdia quelem utilizadas para ensaios na Estação de Piscicultura da Universidade de Passo Fundo no Rio Grande do Sul
Matrizes de Jundiá Rhamdia quelem utilizadas para ensaios na Estação de Piscicultura da Universidade de Passo Fundo no Rio Grande do Sul

Planos

Os trabalhos com jundiá fazem parte de um projeto da Universidade de Passo Fundo, buscando ampliar as tecnologias de produção de espécies nativas, principalmente o jundiá Rhamdia quelen e a traíra Hoplias malabaricus, para colocá-las à disposição dos produtores.

As atenções dos pesquisadores da Estação de Piscicultura da UPF estão voltadas para os aspectos ligados a reprodução e alevinagem e ainda não contemplam os aspectos ligados a engorda. Atualmente, a área total de viveiros da Estação é de 0,5 ha, dos quais 0,2 ha se destinam a alevinagem e o restante a manutenção de matrizes. Na atual safra foram produzidos cerca de 500.000 alevinos, sendo a metade de jundiás e os restantes de carpas e traíra.

O Laboratório da Estação de Piscicultura da UPF está sendo ampliado e, para o próximo ano, suas instalações serão capazes de abrigar um maior número de incubadoras num total de 50 do tipo Zoug de vidro com 7 litros cada, que servirão para incubação dos ovos destas espécies. Além disso, está prevista a ampliação da área de viveiros, que totalizarão 5 ha, produzindo alevinos para a venda e para as pesquisas com as espécies nativas.

Reprodução

Um estudo recente foi realizado na Estação de Piscicultura da Universidade de Passo Fundo no período de outubro de 1996 a março de 1997 utilizando matrizes de jundiá (Rhamdia quelen) com aproximadamente quatro anos de idade, com o objetivo de conhecer a performance da alevinagem a partir da observação de 14 viveiros de terra medindo cada um 100 m2 e profundidade de 80 cm.

A temperatura da água, no período das observações, oscilou entre 20 e 27 ºC e, para obtenção das larvas, foi feita a reprodução artificial com aplicação de hormônio de hipófise de carpa comum e Ovopel.

Nas fêmeas foram aplicadas duas doses do hormônio e nos machos uma única dose. O ovo do jundiá tem coloração amarela, não é aderente e hidrata-se fortemente. Dependendo da temperatura a eclosão acontece entre 40 e 72 horas após a fecundação e a sobrevivência do ovo até a larva é alta. Depois da eclosão, a mortalidade geralmente é baixa e os primeiros estágios de desenvolvimento das larvas (2 a 4 dias) ocorrem no laboratório, onde são mantidas alimentadas.
As larvas de jundiá aceitam rapidamente o alimento natural proveniente do zoobentos (chironomidae) e do zooplâncton (copépodes e cladóceras).

Viveiros

Para o experimento, os viveiros de terra foram preparados de 3 a 6 dias antes do povoamento, com a aplicação de adubo (orgânico e químico) e calcário para a correção da alcalinidade. Todos foram desinfectados antes da aplicação dos insumos com 30 g de cal hidratada por m2.

Já que os Siluriformes (bagres) têm capacidade de capturar alimentos com maior tamanho se compararmos com as carpas, não é aconselhável selecionar o plâncton. Sendo assim, os viveiros não foram tratados com produtos organofosforados.

Os períodos de alevinagem duraram em média 27 dias, com variação entre 20 a 35 dias. As populações de larvas, utilizadas nos viveiros, calculadas com base na percentagem de fecundação dos ovos e nos resultados da eclosão, foram entre 20.000 a 40.000 larvas por viveiros de 100 m2.

Durante o período do desenvolvimento do trabalho, foi monitorada a qualidade da água, permanecendo o pH da mesma entre 6,7 e 7,8. O oxigênio dissolvido na água pela manhã, variou entre 3 e 4 mg/litro e, entre 14 e 15 horas, variou entre 9 e 13 mg /litro.

Em cada tanque, no final do período de alevinagem, foram analisados os seguintes parâmetros: percentagem de sobrevivência (analisando a população inteira do viveiro), peso médio dos alevinos (em cada viveiros foram pesados cem alevinos selecionados ao acaso) e, comprimento médio dos alevinos (em cada viveiros foram medidos 100 alevinos selecionados ao acaso).

Resultados

Através do manejo e da técnica descrita acima, a sobrevivência das lavras variou de 30 a 62,5% (média 47,65%) e foi razoável, se comparada com a dos Cyprinídeos (carpas). Os valores máximos demonstram que, com maiores cuidados de manejo que diminuam os fatores prejudiciais, esses resultados de sobrevivência poderão ser melhorados.

Durante a alevinagem, em alguns viveiros, foram encontrados numerosos insetos predadores que podem explicar as menores sobrevivências.

Ao final do período de alevinagem, os peixes atingiram um comprimento médio de 39,2 mm (35-46 mm) e um peso médio de aproximadamente 0,5 g/peixe (0,33 – 0,79 g).

A significativa variação no peso médio dos alevinos despescados, conforme é mostrado no gráfico e na tabela, seguramente foi causada pela maior quantidade de zooplâncton e de zoobentos por peixe.

Após 3 a 5 semanas de duração da alevinagem foram produzidos, em média 15.089 alevinos por 100 m2, com variação entre 6.300 e 25.000.

A partir da observação das características dos hábitos do jundiá Rhamdia quelen e das informações dos piscicultores que já o engordam, podemos concluir que é um peixe que se adapta bem nos policultivos, podendo também ser produzidos em sistemas de monocultivo, em condições intensivas.