Jundiá

Universidade gaúcha gera tecnologia e dá apoio aos piscicultores


Nos últimos anos, três professores da Universidade Federal de Santa Maria, bem como seus respectivos alunos de pós-graduação no mestrado em Zootecnia, têm destinado seus esforços ao estudo do jundiá, Rhamdia quelen. Bernardo Baldisserotto, do Departamento de Fisiologia tem pesquisado os aspectos relacionados com a qualidade da água, enquanto que Deodoro A. Brandão, do Laboratório de Ictiopatologia do Departamento de Zootecnia, vem realizando pesquisas de identificação das bactérias patogênicas, e João Radünz Neto, também do Departamento de Zootecnia, estuda aspectos da nutrição de larvas e alevinos desta espécie. Os trabalhos têm sido feitos com o jundiá cinza, criados a partir de alevinos provenientes da piscicultura Água Doce.

Segundo os professores, de acordo com a revisão feita para o gênero Rhamdia pelo sueco Silfvergrip na sua tese de doutorado em 1996, os jundiás amarelos, pretos e cinzas encontrados no sul do Brasil são todos da mesma espécie, Rhamdia quelen. Ainda segundo eles, é bem provável que os três tipos de jundiás, mencionados pelo Gilberto Cielo na edição número 58 da Panorama da AQÜICULTURA, sejam diferentes variedades da mesma espécie, o que explicaria as diferenças relacionadas ao crescimento. Na sua tese, Silfvergrip considera inclusive que Rhamdia hillariRhamdia sapoRhamdia branneri e várias outras, na verdade são sinonímias de R. quelen. Entretanto, alguns sistematas, a exemplo do Dr. Roberto Reis, do Museu de Ciências da PUC-RS, não concordam com a classificação descrita para o gênero Rhamdia feita por Silfvergrip e acreditam que uma nova avaliação do gênero deve ser feita.

Um dos estudos realizados pelo Departamento de Fisiologia da UFSM procurou inicialmente investigar se os alevinos de jundiá sobreviveriam se colocados em água com sal comum (NaCl), já que em alguns casos de doenças recomenda-se adicionar sal à água (dose recomendada: 1 a 3 g/l), como parte do tratamento. Foi verificado que os alevinos suportam a transferência direta da água doce para até 10 partes por mil de água do mar (o que equivale a 1/3 da água do mar) ou até 9 g/l de sal comum, de modo que o tratamento com sal comum pode ser feito sem problemas. Como existe também a recomendação para que seja adicionado de 5 a 8 g/l de sal na água de transporte para diminuir o estresse em alevinos de catfish americano, foi realizado também um experimento onde se colocou 1, 3 e 6 g/l de sal na água de transporte de alevinos de jundiá (sacos plásticos). Segundo Baldisserotto, eram esperados melhores resultados com a colocação do sal, uma vez que os alevinos haviam suportado concentrações até maiores de sal. Para a surpresa dos pesquisadores, o sal revelou-se prejudicial. Após 12 horas, quanto maior a quantidade de sal, maior a mortalidade, e em 24 horas todos os alevinos estavam mortos. Já os alevinos transportados em água sem sal apresentaram uma mortalidade baixa (2%) após esse tempo (figura 1). Aparentemente, a adição de sal aumenta o estresse dos alevinos. Qual seria então a explicação? Segundo os pesquisador, no experimento de sobrevivência, o único agente de estresse foi o sal, enquanto que no experimento de transporte temos outro fator estressante: o manuseio de transporte. A combinação desses dois fatores aumentaria a mortalidade no transporte. Alguns criadores colocam sal comum e gesso (CaSO4) na água de transporte, sem problemas. Experimentos com esta combinação ainda não foram realizados mas, segundo os pesquisadores da UFSM, provavelmente os bons resultados devem-se ao fato de se colocar gesso na água, e não ao sal comum.

Dentre os experimentos da UFSM visando boas condições de transporte de alevinos, foram testadas ainda três temperaturas: 15, 20 e 25ºC (a temperatura inicial da água estava em torno de 26ºC). Foram acondicionados em caixas de isopor com água e gelo para reduzir lentamente a temperatura e mantê-la baixa durante o transporte, um sistema simples que pode ser utilizado por qualquer pessoa que estiver transportando alevinos. Só houve mortalidade de alevinos após 24 horas, na temperatura mais alta (25ºC) e em alta densidade de carga (168 g de alevino por litro de água). Os resultados indicaram que o ideal é que o transporte dos alevinos seja feito em temperaturas mais baixas (15 a 20ºC), de modo que não haja problemas mesmo em alta densidade de carga.

Os alevinos de jundiá (com 60 dias) suportam uma variação de pH de 4,0 a 9,0 em águas moles (com pouco cálcio e magnésio), e a adição de cálcio melhora a sobrevivência se eles forem expostos a águas muito ácidas ou alcalinas (figura 2).

No caso das larvas, o melhor pH para sobrevivência e crescimento está na faixa de 8,0 a 8,5. As larvas são, no entanto, mais sensíveis ao pH, podendo ocorrer grande mortalidade mesmo em pH 5,5 ou 6,0. Essa diferença de sensibilidade também é observada com relação à dureza: alevinos de jundiás resistem sem problemas a até 600 mg/l CaCO3 (não testaram águas mais duras), mas as larvas recém eclodidas não. Muitas morrem em água com dureza de 150 mg/l CaCO3. Como o crescimento das larvas pode ser feito em ambiente fechado sem muito investimento, o ideal é usar uma dureza em torno de 50 mg/l CaCO3. Os experimentos foram feitos adicionando cloreto de cálcio di-hidratado (CaCl2.2H2O) para aumentar a dureza mas, segundo os pesquisadores, pode-se utilizar calcário agrícola (CaCO3) sem problemas, devendo o criador apenas cuidar para manter o pH nos valores recomendados. Na prática, só vale a pena aumentar a dureza se ela for muito baixa (menos de 20 mg/l CaCO3). Se a dureza da água for alta (pode ocorrer quando se usa água de poço artesiano), é recomendável a utilização de outra fonte para as larvas.

No caso do crescimento de alevinos, os pesquisadores ainda não sabem qual a melhor dureza, mas recomendam aumentar a dureza com calcário até 150 ou 200 mg/l CaCO3 se os viveiros estiverem apresentando problemas de pH. Desse modo, ajudam a estabilizar o pH e ao mesmo tempo aumentam as chances de sobrevivência dos alevinos.

Mesmo que estejam adaptados a águas quentes, os alevinos de jundiá não podem ser expostos a águas com mais de 33ºC, para evitar mortes. Contudo, se a temperatura ficar abaixo desse valor crítico, eles podem resistir sem problemas a um aumento rápido de temperatura. Por exemplo, se a temperatura da água subir de 16 para 33ºC em 5 horas, eles resistem. Do mesmo modo, se a temperatura cair de 30 para 15ºC ou de 16 para 9ºC em 3-5 horas, também irão suportar sem problemas. Segundo Bernardo Baldisserotto, o jundiá resiste bem às variações de temperatura, pois em condições de cultivo dificilmente existirão variações mais rápidas que as mencionadas. Naturalmente, na transferência dos jundiás para águas com temperaturas muito diferentes, deve-se observar o que se recomenda para qualquer outra espécie: transferência de forma gradual. A temperatura mínima que o jundiá sobrevive depende de sua adaptação prévia. Não é tão fixa como a temperatura superior. No inverno, se a temperatura diminui gradualmente, os alevinos de jundiá podem resistir a temperaturas de até 2ºC. Segundo o especialista, trata-se de uma espécie perfeitamente adaptada ao clima frio do Rio Grande do Sul, o que não acontece com as tilápias e pacus, que apresentaram grande mortalidade neste último inverno. E acrescenta: “se o criador tiver condições, é melhor colocar os alevinos ou larvas de jundiá em tanques com alta densidade de estocagem (450 alevinos/m3), sempre cuidando para manter uma boa oxigenação e baixos níveis de amônia e nitrito”. Quando em alta densidade, os alevinos não formam territórios dentro dos tanques e não gastam energia em brigas. Os alevinos também crescem mais quando estão no escuro. Portanto, quanto mais tempo o criador puder manter os jundiás nessa condição, melhor (figura 3).

Alimentação de larvas e alevinos

Outros trabalhos com os jundiás, também conduzidos dentro da Universidade Federal de Santa Maria, estão relacionados à nutrição das larvas utilizando alimentos artificiais e já demonstraram a viabilidade do uso de rações secas preparadas com fígado bovino ou fígado de aves e levedura de cana, permitindo alta taxa de sobrevivência e bom crescimento. Além disso, o uso de matérias-primas como farinha de peixe, farinha de carne e ossos, concentrado protéico de soja, hidrolisados de peixe ou de fígado de aves e mesmo farinha de fígado, entre outras, não foram eficientes como substitutos das frações de fígados crus usados na preparação de rações granuladas.

Além dos experimentos realizados com fontes protéicas, os pesquisadores também avaliaram os efeitos de suplementação vitamínica na fase inicial de desenvolvimento desta espécie. A inclusão de pré-mistura vitamínica comercial, em níveis de até 10 vezes a recomendação do fabricante em rações para peixes, mostrou-se bastante eficiente na larvicultura do jundiá.

Em relação à avaliação de fontes de lipídios a serem incorporadas em alimentos para as larvas, ficou demonstrado nos trabalhos da UFSM, a importância da lecitina de soja (2 %) como fonte de fosfolipídeos, por mostrar-se mais eficiente que as demais fontes de lipídios testadas (óleos de girassol, canola, soja e milho). Esses estudos vêm sendo conduzidos em instalações experimentais, com a recirculação de água oriunda de poço artesiano para eliminar possíveis fontes alimentares externas (plâncton) que pudessem vir a mascarar os resultados.

Além dos estudos com dietas artificiais, também foram realizados experimentos com suplementação de alimento vivo. A inclusão de náuplius de Artêmia franciscana como suplementação alimentar durante os primeiros 3 dias de alimentação mostrou grande eficiência sobre o crescimento das larvas de jundiás ao longo de três semanas experimentais. Atualmente os pesquisadores se debruçam sobre os efeitos de diferentes fontes protéicas na criação de alevinos de jundiá (dietas práticas), e dietas semi-purificadas (à base de caseína, albumina ou gelatina, além de dextrina), visando a obtenção de dietas que venham a permitam a realização de trabalhos sobre os requerimentos nutricionais. Até o momento, contudo, os trabalhos vêm sendo conduzidos no âmbito experimental, sem parceria com alguma indústria de ração.

Doenças

Um primeiro levantamento pela equipe do pesquisador Deodoro A. Brandão, do Laboratório de Ictiopatologia do Departamento de Zootecnia da UFSM, identificou, em jundiás obtidos de criadores de Santa Maria e arredores, as seguintes bactérias consideradas patogênicas: Aeromonas hydrophilaPlesiomonas shigelloidesFlavobacterium sp.Vibrio sp.Pasteurella sp.Micrococcus sp.Acinetobacter sp.Yersinia ruckeriPseudomonas sp. e Edwardsiella tarda. Estas bactérias foram isoladas tanto em lesões externas, como do rim dos mesmos. Dos peixes examinados, 32,46% deles apresentavam algum tipo destas bactérias patogênica. A maior parte dos peixes examinados tinha um comportamento normal e não apresentavam lesões externas sendo, portanto, portadores sem manifestações clínicas destes organismos patogênicos. Quaisquer fatores estressantes tais como: baixa concentração de oxigênio na água, elevação do nível de amônia (NH3) , variações bruscas do pH , variações bruscas de temperatura, má nutrição ou manejo impróprio, certamente provocaria a manifestações clínicas das doenças. Dos organismos encontradas nesse primeiro levantamento, a bactéria Yersinia ruckeri, causadora da doença conhecida como “doença da boca vermelha”, é classificada como uma doença de notificação obrigatória nos principais países produtores de peixes, pela sua grande patogenicidade e pelo difícil tratamento.

Após este levantamento preliminar, foram feitas inoculações da bactéria Aeromonas hydrophila em jundiás mantidos em caixas d’água sem contaminação bacteriana, com a finalidade de verificar as manifestações clínicas que esse organismo provoca no peixe. Além das lesões externas (úlceras), que já eram esperadas, os peixes inoculados apresentaram, ascite (acúmulo de líquido na cavidade abdominal), exoftalmia (saliência exagerada do globo ocular), nadadeiras destruídas, órgãos internos pálidos e flácidos e, rim em degeneração. Quanto ao comportamento, foi observada a perda do equilíbrio, movimentos respiratórios lentos, ficando a grande maioria parados no fundo da caixa e, quando se alimentavam, utilizavam somente ração que ficava depositada no fundo. Jundiás inoculados com solução salina e que foram mantidos junto com os inoculados com bactérias, apresentaram, também, contaminação por A. hydrophila. A água esterilizada em que foram mantidos os peixes durante o experimento também apresentou grande contaminação bacteriana pelas fezes e pelas lesões externas que os peixes inoculados apresentaram.

Os pesquisadores do Laboratório de Ictiopatologia da UFSM também realizaram um levantamento do perfil de sensibilidade das bactérias patogênicas já encontradas em jundiás, onde foram testados os agentes antimicrobianos mais comumente utilizados nos tratamentos. Foi possível então verificar que, mesmo sem haver criação intensiva de jundiá, onde normalmente são empregados antibióticos sem um controle mais restrito, já pode ser observada resistência a um ou mais agentes antimicrobianos testados. A presença de resistência a colistina, penicilina e ampicilina foi a de maior freqüência. Segundo Deodoro Brandão, com o uso indiscriminado de antibióticos, corre-se o risco de, além da contaminação das águas e do homem, enfrentarmos seríssimos problemas nos tratamentos à enfermidades bacterianas em peixes cultivados. No momento estão sendo testadas dosagens de vitamina C na ração como meio preventivo e curativo à enfermidades bacteriana em jundiás, para que possa ser evitado o uso de antibióticos.

Os pesquisadores da UFSM estão cientes que ainda existem muitas questões a serem resolvidas com relação ao cultivo de jundiás como, por exemplo, os melhores rendimentos possíveis de serem obtidos em viveiros e as conversões alimentares. Além disso, problemas como o ictio, também tem afetado o cultivo desta espécie e causado mortalidades difíceis de serem combatidas. A tendência, segundo eles, é que a longo prazo os jundiás sejam criados em ambientes confinados e mais controlados, onde os rendimentos zootécnicos poderão ser muito maiores.