LABOMAR/UFC avança na pesquisa da reprodução do Ariacó

Espécies de peixes demersais da família Lutjanidae, como o ariacó, pargo, cioba, dentre outros, vêm sendo exploradas pela pesca comercial na costa norte/nordeste do Brasil, desde a introdução das linhas pargueiras pelos portugueses1 nas décadas de 50 e 60.

No início dos anos 60 foram realizadas com sucesso algumas pescarias na costa dos Estados do Maranhão, Piauí e Ceará e, também nos bancos oceânicos do Ceará, Caiçaras e Atol das Rocas. O ano de 1961 pode ser considerado como aquele em que se iniciou efetivamente a pesca comercial dos estoques da família Lutjanidae, que passou por períodos de elevada produção, com tendência de declínio a partir do final dos anos 80.

Atualmente, os Lutjanídeos continuam sendo capturados desde águas costeiras até a plataforma externa, bancos e ilhas oceânicas do Nordeste, contribuindo com 12,5% dos desembarques totais controlados nos Estados do Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Para os pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar – LABOMAR/UFC, reproduzir e manejar estas espécies é o desafio mais relevante na preservação da diversidade dos estoques e, sobretudo, da atividade pesqueira, que além de sua relevância cultural, representa o principal sustento de muitas populações costeiras nas regiões onde esses peixes ocorrem.


Cultivo

Os Lutjanídeos são considerados peixes com potencial para a aquicultura comercial e várias espécies, dentre elas a cioba e o ariacó, têm mostrado boas condições para cultivo, pois aceitam alimentos peletizados; podem ser mantidos em tanques-rede sem apresentar um comportamento agressivo; apresentam bom desempenho de juvenis alimentados com dietas contendo substituição de proteína de origem marinha por ingredientes protéicos de origem vegetal2 e, é possível controlar sua reprodução.

O Instituto de Ciências do Mar – LABOMAR/UFC, em parceria com a empresa Technoacqua Serviços de Consultoria Ltda., iniciou os trabalhos no Centro de Estudos Ambientais Costeiros (CEAC-LABOMAR/UFC), localizado no município de Eusébio-CE, para desenvolver um protocolo de produção de peixes marinhos do gênero Lutjanus em cativeiro. Atualmente, já foram conseguidas quatro desovas, a nível laboratorial, de ariacó, Lutjanus synagris, através de indução hormonal.

Reprodutor de ariacó L. synagris

Esse peixe possui hábitos demersais e vive em águas quentes, estando frequentemente associado a fundos rochosos e coralinos, entre a zona costeira e a profundidade de 400m. Sua distribuição geográfica ocorre desde a Carolina do Norte, EUA (onde é conhecido como lane snapper) até o Sudeste do Brasil. Destaca-se por sua carne saborosa e pele avermelhada, que o valoriza economicamente.

Os reprodutores foram capturados no ambiente natural e levados para o CEAC/LABOMAR, onde passaram por uma quarentena. Foram alimentados com sardinha e lula, e a cada mês o estado de maturidade das gônadas era avaliado3. Para isso, nas fêmeas um tubo de polietileno de 0.75 mm de diâmetro interno era introduzido no poro genital (canulação), e o conteúdo ovariano aspirado suavemente, a procura da presença de ovócitos vitelogênicos. Nos machos, massagens suaves no abdômen eram feitas à procura da liberação de sêmen.

Dois machos e uma fêmea maduros foram separados em um tanque de reprodução, para a realização da indução hormonal. Antes da primeira aplicação de hormônio, os peixes foram anestesiados, pesados, banhados em água doce por três minutos para eliminar ectoparasitas, e injetados intramuscularmente no final da nadadeira lateral (Figura 1).

Figura 1 - Aplicação da dose hormonal no reprodutor de Ariacó
Figura 1 – Aplicação da dose hormonal no reprodutor de Ariacó

Após a primeira injeção, os peixes permaneceram no tanque de desova, onde foi observado o movimento de corte pelos dois machos, que conduziam a fêmea reproduzindo os seus movimentos. Após 24 horas, a fêmea foi submetida a uma segunda injeção de hormônio, retornando ao tanque de desova. Na medida em que a fêmea desova, os machos fecundam os ovos naturalmente, registrando-se a presença dos ovócitos na superfície da água.
Uma hora após, se iniciam as fases embrionárias e, cinco horas após, é possível observar embriões na forma de “C”. A seguir acontece a eclosão e início do desenvolvimento larval, onde é visível à presença da gota de lipídio dentro do saco vitelino. A figura 2 apresenta as principais fases de desenvolvimento embrionário/larval, desde o ovócito fertilizado até a abertura da boca, onde se observa a pigmentação dos olhos, momento em que se inicia a alimentação externa.

O próximo passo da pesquisa consiste em aperfeiçoar: (a) o sistema de recirculação visando a melhoria da qualidade da água; (b) a produção de alimento vivo para melhorar os primeiros dias de alimentação das larvas e obter melhores índices de sobrevivência; e (c) o protocolo para manutenção dos reprodutores visando à obtenção de ovos e larvas de melhor qualidade.

Figura 2 – Principais fases do desenvolvimento embrionário e larval do Ariacó (Lutjanus synagri)

(A) Ovos fertilizados
(A) Ovos fertilizados
(B) Embrião em forma de C (Formação prematura do corpo embrionário)
(B) Embrião em forma de C (Formação prematura do corpo embrionário)
(C) Larva eclodida (24 horas)
(C) Larva eclodida (24 horas)
(D) Larva após 48 horas
(D) Larva após 48 horas
(E) Larva com abertura da boca e olhos pigmentados (60 horas)
(E) Larva com abertura da boca e olhos pigmentados (60 horas)
(F) Larva após 72 horas
(F) Larva após 72 horas

Segundo os pesquisadores, os trabalhos ainda estão no início, mas os resultados são bastante animadores, na direção de um protocolo para produzir esses espécimes em cativeiro, e em escala comercial. O desenvolvimento deste projeto só foi possível, graças à parceria pública privada com a empresa Technoacqua, e de incentivos de instituições de fomento como Ministério da Pesca e Aquicultura–MPA, Banco do Nordeste do Brasil–BNB, PAPPE–Inovação/FUNCAP–FINEP e CNPq.


1 Baseado em Resende et. al.. A pesca de lutjanídeos no nordeste do Brasil:histórico das pescarias, características das espécies e relevância para o manejo. Bol. Técn. Cient. CEPENE, v. 11, n. 1, p. 257 – 270, 2003.

2 Luiz Eduardo Lima de Freitas. Crescimento da cioba, lutjanus analis, alimentada com rações
contendo fontes protéicas vegetais em substituição a ingredientes de origem marinha. Dissertação de Mestrado. Instituto de Ciências do Mar, 62 pp. 2009.

3 Baseado em Sousa Jr et. al.. Análise ovariana do Ariacó, Lutjanus synagris, e considerações sobre sua reprodução no estado do Ceará. Arq. Ciên. Mar, Fortaleza,, 41(1): 90 – 97.2008.


Mais informações sobre a pesquisa com o ariacó podem ser obtidas com: Luís Parente Maia ([email protected]), Coordenador Acadêmico – LABOMAR; Manuel Antônio de Andrade Furtado Neto ([email protected]), Diretor do LABOMAR; José Renato César ([email protected]), Coordenador Piscicultura CEAC/LABOMAR e, Rossi Lelis Muniz Souza ([email protected]), Technoacqua Serviços de Consultoria Ltda.