LAQUASIG viabiliza o cultivo de camarões ornamentais marinhos

A criação de camarões marinhos no Brasil, já caminhou muito desde seu início, no começo da década de 70. Hoje, os índices zootécnicos alcançados pelos carcinicultores espalhados de Santa Catarina ao Maranhão estão entre os melhores do mundo. Com a crescente competição entre fabricantes de ração, a qualidade melhora a cada dia. Hoje, mais de 65 mil toneladas de camarão branco – Litopenaeus vannamei são produzidas anualmente no Brasil. De acordo com a ABCC, cerca de 36 larviculturas tinham laboratórios ativos no período 2004-2005. No entanto, a lucratividade desta atividade vem decrescendo ano após ano com a crescente oferta de um commodity que se estabiliza no cenário agropecuário brasileiro e internacional.

Mesmo assim, ainda há espaço no mercado para camarões. Especialmente se eles forem camarões ornamentais marinhos! Estes têm alto valor econômico, e atualmente provêem exclusivamente da captura realizada nos costões rochosos e arrecifes de coral da costa brasileira, o que já preocupa conservacionistas, aquariofilistas, pesquisadores, bem como comerciantes.


Por:
Raul F. Marinheiro Neto[email protected]
Helio Laubenheimer[email protected]
Philip C. Scott [email protected]


Atualmente, por força da legislação que proíbe a importação, o mercado nacional é abastecido unicamente com espécimes coletados em seus habitats naturais. Mesmo em outras partes do mundo, o número de camarões ornamentais marinhos criados em cativeiro ainda é insignificante. Ainda são poucos os estudos que podem dimensionar o impacto que a coleta/pesca predatória pode causar nos ecossistemas onde ocorrem. Poderiam técnicas modernas de maricultura/carcinicultura serem empregadas para não apenas preservar este recurso bem como torná-lo uma alternativa viável de negócio?

Para responder a essa pergunta é necessário conhecer um pouco mais sobre os camarões marinhos que possuem status de ‘ornamental’. São espécies do grupo conhecido como Carídea, uma infraordem dos crustáceos que inclui alguns camarões marinhos e de água doce como o Macrobrachium rosenbergii. Os carídeos diferem dos peneídeos, por apresentarem um cefalotórax mais robusto; o 2º somito do abdômen mais largo, recobrindo parte do 1º e 3º; o 2º par de pereópodes é mais desenvolvido e, o corpo possui maior angulação. Resumidamente, os carídeos de interesse para a aquariofilia são aqueles que exibem colorações vibrantes, capazes de mimetizar o ambiente onde vivem, possuem comportamento simbionte com peixes e anêmonas e, aparência bastante peculiar ou mesmo, exótica. São camarões de pequeno porte, se adaptam muito bem à vida em aquário, vivendo em harmonia com outros peixes e invertebrados marinhos. As famílias Stenopodidae, Hippolitydae, Rhynchocinetidae, Palaemonidae, Alpheidae, Gnathophyllidae são todas encontradas no Brasil e são consideradas ornamentais.

No presente artigo, apresentamos os resultados de nossas experiências e algumas dificuldades encontradas na reprodução e larvicultura da espécie Lysmata intermedia. Acreditamos que camarões ornamentais podem ser um novo ramo da carcinicultura com potencial comercial. Hoje, os carídeos marinhos já possuem alguma importância econômica, e podem ser cultivados em cativeiro.

Hábitos de vida

A espécie L. intermedia está inserida no grupo de camarões conhecidos como “bailarinos”, devido ao comportamento de se moverem graciosamente de um lado para o outro. L. intermedia é capaz de controlar pestes em aquários, como certas anêmonas do gênero Aiptasia. Sendo assim, é muito procurada e mantida em aquários marinhos (Figura 1). De modo geral, esses camarões marinhos ornamentais vivem em grupos maiores que três indivíduos e são encontrados em fendas de rochas em águas rasas e calmas de todo o litoral brasileiro. No Brasil, seu comércio ainda é reduzido. A espécie mais freqüentemente encontrada nas lojas é o Stenopus hispidus ou “camarão palhaço” (Figura 2). Esta espécie possui coloração viva com listras brancas e vermelhas à semelhança dos peixes palhaços. Vivem em casais e são simbiontes facultativos com peixes, alimentando-se de seus ectoparasitas. Outra espécie que ocorre em nossa costa, e com mesmo hábito de vida é o Lysmata grabhami, ou “camarão limpador” (Figura 3).

Figura 2 - Stenopus hispidus ou “camarão palhaço”, espécie mais freqüentemente encontrada nas lojas de produtos para aquariofilia
Figura 2 – Stenopus hispidus ou “camarão palhaço”, espécie mais freqüentemente encontrada nas lojas de produtos para aquariofilia
Biologia Reprodutiva

Diversas espécies de carídeos marinhos possuem télico fechado, ou seja, só podem copular pouco tempo após a muda (até 48 horas depois para S. hispidus). Essas espécies diferem do camarão branco na maneira de incubar os ovos. Enquanto L. vannamei realiza a fecundação e libera seus ovos na massa d’água, Lysmata, após a fecudação, incuba seus ovos, protegendo-os nos pleópodes, na realidade muito semelhante a outros carídeos de água doce como o Macrobrachium rosenbergii, M. acanthurus e M. carcinus. As larvas eclodem no período entre mudas, e já eclodem na fase avançada conhecida como zoea, não passando pela fase inicial de náuplio, característica dos peneídeos. Adicionalmente, carídeos marinhos como Lysmata não passam pela fase mysis, realizando sua metamorfose após o último estádio larval de zoea. Os estádios larvais, porém, são mais numerosos.

Uma diferença entre carídeos e peneídeos é o hábito de viver em casais ou em ternos ou até mesmo em grupos maiores. Essas comunidades possuem uma proporção ainda desconhecida entre machos e fêmeas. Algumas espécies do gênero Lysmata possuem uma característica curiosa em seu sistema sexual, classificada como Hermafroditismo Protândrico Simultâneo (HPS), ou seja, na primeira fase da vida se apresentam como macho funcional, passando, posteriormente, a ser uma fêmea funcional, retendo algumas características masculinas, sendo capazes de fecundar ao mesmo tempo que serem fecundados.

Pesquisa

Para investigar o potencial de criação comercial desses camarões marinhos o LAQUASIG – Laboratório de Aqüicultura e Sistemas de Informações Geográficas do Instituto de Ciências Biológicas e Ambientais, da Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, empreende experimentos de reprodução e larvicultura com o gênero Lysmata.

Inicialmente, exemplares de Lysmata intermedia foram adquiridos em lojas especializadas e mantidos em aquário com capacidade de 200L, equipado com filtro biológico de areia, protein skimmer, aquecedor de 300W, e um filtro mecânico externo.

Para manutenção dos adultos, foram oferecidos uma vez ao dia, de forma alternada, pedaços de lula e camarão além de ração peletizada INVE Shrimp Breed-STM. Neste período foram feitas observações gerais com intuito de entender a biologia reprodutiva. As matrizes e reprodutores geraram larvas, as quais foram transferidas para um sistema de larvicultura onde passaram seu ciclo planctônico até realizarem a metamorfose.

Figura 3 – Lysmata grabhami, também conhecida como "camarão limpador"
Figura 3 – Lysmata grabhami, também conhecida como “camarão limpador”
Larvicultura

Como delicados organismos dos recifes de coral, as larvas desses camarões ornamentais possuem frágeis estruturas, especialmente o 5º par de longos pereópodes característico do gênero Lysmata (Figuras 4 e 5), e o longo rostro apresentado em espécies do gênero Stenopus, facilmente danificados em larviculturas usando equipamentos e métodos tradicionais para cultivo de larvas de peneídeos. Caso fossem utilizados, esses métodos certamente acarretariam em altas mortalidades e no desenvolvimento lento em função do esforço energético que as larvas desprenderiam na regeneração de tais apêndices.

Figura 4 – Estádio larval Zoea II de Lysmata intermedia
Figura 4 – Estádio larval Zoea II de Lysmata intermedia

Uma característica marcante da espécie em questão, é o fenômeno de “mark-time molting”, que é a habilidade da larva realizar a muda, porém permanecendo no mesmo estádio larval, conseqüentemente atrasando o desenvolvimento até a metamorfose. Em decorrência dessas dificuldades, até o momento, pesquisadores em diversas partes do mundo têm alcançado baixas taxas de sobrevivência com as espécies mais valorizadas no mercado mundial tais como L. debelius, L. amboinensis, e L. grabhami. Uma companhia pioneira neste setor é a empresa LUSOREEF (www.lusoreef.com) do Algarve, Portugal, que já cria e reproduz comercialmente a espécie Lysmata seticaudata.

O sistema de larvicultura é composto por uma série de incubadoras cilíndrico-cônicas em fibra de vidro (volume = 13L), especialmente desenhadas para manter as delicadas larvas de Lysmata, bem como seu alimento vivo – náuplios de artêmia – em suspensão contínua. O sistema não possui aeração suplementar de modo a não danificar mecanicamente os frágeis apêndices das larvas. Para assegurar a alta qualidade da água, o sistema conta com filtro biológico do tipo dry-wet, um protein skimmer, filtro ultra-violeta e filtro com carvão ativado. A água é constantemente recirculada e a temperatura é mantida constante com auxílio de um resfriador de 1/3HP. A água salgada utilizada nos dois sistemas foi feita com a diluição do sal sintético Red Sea em água doce passada por filtro de osmose reversa. Semanalmente foram trocados 20% da capacidade total de cada sistema.

Os parâmetros indicativos da qualidade da água de cultivo foram monitorados semanalmente e permaneceram nos seguintes níveis: amônia < 0.25mg L-1; nitrito < 0,3mg L-1, nitrato < 12mg L-1, pH: 8,0-8,5, salinidade: 30-33 PSU, e temperatura: 27-28oC. O fotoperíodo foi ajustado para 14h/dia e 10h/noite, controlado por um temporizador analógico.

Para alimentar as larvas, foi administrado diariamente três náuplios de artêmia/mL (oriundos de cistos de artêmia INVETM). As incubadoras foram sifonadas todos os dias para retirar os restos de alimento, as ecdises das larvas e as larvas mortas. A cada dez dias todas as larvas foram contadas e transferidas para incubadoras limpas de modo a manter a qualidade da água.

Figura 5 – Estádio larval Zoea X de Lysmata sp
Figura 5 – Estádio larval Zoea X de Lysmata sp

Ao completar o ciclo larval, as pós-larvas foram transferidas das incubadoras para os aquários das matrizes a fim de passar por uma fase de crescimento até o tamanho comercial (3-4 cm). Nesta fase, foram alimentadas uma vez ao dia com pedaços de camarão e lula, além da ração INVE Shrimp Breed-STM.

Resultados

L. intermedia foi observado como sendo de fato um carídeo do tipo “HPS”, confirmando uma das principais características do gênero. Os espécimes utilizados nos ensaios, produziram aproximadamente 800 ovos por fêmea e sua larvicultura foi concluída em apenas 21 dias, com as larvas passando por nove estádios de zoea. A larvicultura foi repetida três vezes, obtendo-se uma animadora taxa média de sobrevivência de 72%. Foram 24 horas de duração do 1º ao 2º estádio larval, e 48 horas para os demais estádios larvais. As pós-larvas alcançaram 3-4 cm em 90 dias. Neste período, foi possível observar a mudança de sexo de macho para fêmea. Os resultados obtidos são apresentados na Tabela I, comparando-os aos obtidos com o Litopenaeus vannamei.

Tabela I – Comparação da Larvicultura de L. vannamei com a espécie ornamental, L. intermedia/Rv – Reservas vitelínicas; Ma – Micro-algas; Ss – Spirulina seca; Np – Náuplio de artêmia; Me – dieta microencapsulada; Mp – dieta microparticulada; Ba – biomassa de artêmia, Ra – Ração artificial INVE Shrimp Breed-STM. Fonte: AQUANORTE para L. vannamei; LAQUASIG para dados de L. intermedia.
Tabela I – Comparação da Larvicultura de L. vannamei com a espécie ornamental, L. intermedia/Rv – Reservas vitelínicas; Ma – Micro-algas; Ss – Spirulina seca; Np – Náuplio de artêmia; Me – dieta microencapsulada; Mp – dieta microparticulada; Ba – biomassa de artêmia, Ra – Ração artificial INVE Shrimp Breed-STM. Fonte: AQUANORTE para L. vannamei; LAQUASIG para dados de L. intermedia.
Discussão

As pesquisas em andamento no LAQUASIG/USU visam principalmente entender melhor a reprodução destas delicadas espécies de camarões, buscando-se encontrar técnicas apropriadas para sua larvicultura de modo a tornar a atividade comercialmente viável. Para tanto, é necessário alcançar maiores taxas de sobrevivência.
Para as espécies de camarões ornamentais atualmente mais valorizadas, sobrevivências de até aproximadamente 30% já podem ser consideradas suficientemente boas, tornando sua comercialização viável para o mercado nacional. No entanto para as espécies menos valorizadas, como Lysmata intermedia, é necessário alcançar uma alta taxa de sobrevivência para fazer face à concorrência representada pelos coletores-mergulhadores. Assim sendo, os preços oferecidos no mercado poderão ser mais atrativos para o consumidor, e ao mesmo tempo um desestímulo para coletores dos habitats nativos, uma tendência já seguida no exterior para muitas espécies ornamentais desde peixes até aves.

São encorajadores os trabalhos recentes realizados pelo pesquisador Andrew Rhyne do Instituto de Tecnologia da Flórida, que alcançou 90% de sobrevivência até pós-larva com espécies similares do gênero Lysmata, utilizando rações artificiais e alimento vivo. Segundo ele, as larvas são estimuladas a se alimentar de presas vivas, mas acabam ingerindo a ração, que contém altos valores nutricionais.

Existem impasses com a manutenção das matrizes desses camarões que dificultam a sua criação comercial. Pôde-se observar que quando a água é de baixa qualidade, e chega o momento da muda, os ovos ficam aderidos à esta, já descartada da matriz, e portanto inviabilizando a conclusão do desenvolvimento embrionário por falta dos cuidados necessários. Outro aspecto que deve ser melhor estudado é em relação ao crescimento das pós-larvas. Informações sobre condições adequadas onde estas possam crescer saudáveis e em menor tempo ainda são escassas. Para isso, é necessário investigar o tipo de alimentação mais adequada e entender a importância da estrutura social, especialmente a proporção entre machos e fêmeas no grupo de juvenis recém metamorfoseados, considerada um fator de influência direta no crescimento.

O longo tempo de larvicultura encontrado para espécies de maior valor (75 dias para L. debelius, L. amboinensis e L. grabhami), pode ser desanimador para os que estão acostumados aos resultados mais rápidos e prolíficos obtidos com L. vannamei, e mesmo com carídeos como M. rosenbergii. Por outro lado, resultados encontrados no LAQUASIG/USU (21 dias para L. intermedia) podem significar uma alternativa de atividade profissional para um mercado em fase de expansão. No entanto, cabe ressaltar que o mercado nacional ainda é bastante limitado, pois a aquariofilia marinha no país ainda é um hobby pouco difundido e relativamente caro. O preço de um exemplar do camarão Lysmata intermedia adulto alcança no atacado R$3,00 e de R$15,00 a R$20,00 no varejo no eixo Rio-SP, enquanto que algumas espécies como L. grabhami podem ser encontradas nos atacadistas e lojas com valores de R$70,00 a R$250,00. A popularidade desses camarões ornamentais marinhos ainda vem crescendo significativamente dentro do hobby e, portanto, é um estímulo aos estudos em decurso.

A compreensão das condições ideais para se obter sucesso em todas as fases de vida destas espécies de camarões ornamentais marinhos é essencial numa criação comercial. O esforço em resolver os impasses atuais na propagação destas espécies poderá refletir em maior disponibilidade de animais criados em cativeiro para o comércio ornamental, colaborando assim com a diminuição do impacto negativo que a pesca predatória vem causando sobre os ambientes naturais e as comunidades a que estão associados. A conscientização “ecológica” do público consumidor aquariofilista é de suma importância, pois uma vez que ele decida comprar apenas camarões obtidos de forma a não ocasionar impactos negativos ao meio ambiente, ou seja apenas aqueles criados em cativeiro de “origem controlada”, passa a ser um “protetor da natureza” não fomentando a pesca predatória em recifes de coral.

Concluindo, para se alcançar a independência máxima possível do meio ambiente para obtenção de camarões ornamentais marinhos é necessária pesquisa em diversas áreas afins como a etologia, ecologia, e biologia reprodutiva bem como a busca de inovações tecnológicas que permitam o cultivo mais eficiente.

Os autores agradecem a CAPES, pelas bolsas de pesquisa do programa de pós-graduação em Ciências do Mar; às empresas AQUANORTE, FULLGAUGE, INVE e ONDA pelo apoio material, e ao laboratório de Oceanografia Química da Universidade Santa Úrsula.