Macrobrachium em Taiwan

Luiz Antonio Gomes, aqüicultor, após estudar, fazer pesquisas e trabalhar em centros de aqüicultura por 5 anos em diversos países como Taiwan, Filipinas, Japão, Tailândia, Indonésia e Bahamas, fala de suas experiências internacionais para os leitores do Panorama da AQÜICULTURA. Luiz nos relata o sucesso de Taiwan no cultivo do camarão da Malásia – Macrobrachium rosenbergii.

Tendo convivido por um ano com diversos setores da aqüicultura em Taiwan, fica fácil compreender porquê esta ilha pequena do Leste Asiático de apenas 35.900 km2, coberta em grande parte por montanhas e florestas, é consagrada internacionalmente como líder mundial em aqüicultura.

Taiwan tem uma história de mais de 300 anos de práticas em aqüicultura e já nos anos 30 atingia uma produção anual de cerca de 20 mil t. No ano de 1987 a criação de organismos aquáticos alcançava a marca de 300 mil t oriundas de 67 mil ha e avaliadas em US$ 1.3 bilhão. Atualmente, mais de 60 espécies são cultivadas em Taiwan.

O camarão de água doce, Macrobrachium rosenbergii, conhecido no Brasil como camarão da Malásia, foi introduzido em Taiwan em 1970, mas sua produção comercial só se tomou popular a partir dos anos 80.

Até o final de 1989 quando deixei Taiwan, a ilha possuía mais de 200 laboratórios de larvicultura produzindo mais de 1,5 bilhão de pós-larvas deste crustáceo. Os viveiros de engorda cobriam uma extensão de 3,5 mil ha atingindo uma produção de mais de 5 mil t e colocando Taiwan como maior produtor mundial. A despesca diária para venda de camarões vivos no mercado local variava de 12 a 20 t, dependendo da estação do ano. A maioria dos viveiros hoje utilizados para engorda de camarões de água doce já vinha sendo usada previamente para outras espécies como carpas, tilápias, catfish, enguias, percas etc. e até mesmo empregados como terras agrícolas.

A troca se deveu, em grande parte, ao preço atrativo do camarão no mercado interno (US$ 11.30 a 15.00/kg). Os aqüicultores de Taiwan, além de dedicados e diligentes são reconhecidos pela grande flexibilidade, adaptando-se e mudando para novas espécies de acordo com a situação do mercado. Esta flexibilidade me parece hoje como uma das chaves para o sucesso a longo prazo de uma fazenda de aqüicultura.

PRODUÇÃO DE PÓS-LARVAS

Larvas recém-eclodidas do camarão de água doce são geralmente obtidas de fêmeas ovadas compradas a quilo dos donos de viveiros de engorda ou então através de laboratórios especializados em manter plantéis de reprodutores. O preço do milheiro de larvas em estágio I oscilou entre US$ 0,06 e 0, 48, entre 1988 e 89.

Diversas técnicas são utilizadas para criar larvas de Macrobrachium. Em termos gerais existem dois métodos básicos de produção de pós-larvas, dependendo se o laboratório se situa próximo ou afastado do mar. No caso de laboratórios costeiros, o método utilizado foi adaptado do manejo de larvas de camarões marinhos. Normalmente os tanques de larvicultura são de concreto e têm capacidade de 25 mil a 40 mil litros. A densidade inicial de larvas oscila entre 50 a 150/litro.

As larvas são alimentadas com grandes dosagens de rações artificiais, rações a base de ovo, pequenos camarões secos macerados, carne de bivalves, etc, conjuntamente com náuplios de Artemia. A água dos tanques só é renovada, em pequenas quantidades, a partir de 10 a 12 dias de cultivo, de forma a criar e manter um microecossistema equilibrado entre larvas, bactérias, microorganismos, algas, partículas de alimento, etc. A cor e a viscosidade da água são muito observadas pelos larvicultores.

Laboratórios distantes da costa compram água salgada de caminhões especiais e costumam usar uma série de pequenos tanques de fibra, plástico ou concreto de 500 a 2 mil litros. As larvas são estocadas em altas densidades (300 a 1000/litro) nos menores tanques e vão sendo transferidas para os tanques maiores conforme o crescimento. Neste caso, a água é renovada com freqüência desde início e o fundo do tanque é sifonado.

A maior parte dos laboratórios controlam a temperatura da água, que podem chegar a 33 °C, e as larvas são alimentadas 5 a 6 vezes ao dia, entre 06:00 e 22:00 horas. Os tanques são mantidos iluminados através de telhas translúcidas e/ou lâmpadas especiais.

Quando as larvas sofrem metamorfose e atingem cerca de 0,02 g. são vendidas para as fazendas de engorda ao preço de US$ 9,40 a 22,60 por milheiro.

FASE DE ENGORDA

Os viveiros de engorda variam entre 0,1 e 1,0 ha e têm lâmina d’água de 0,9 a 1,2 metro. Todos os criadores bombeiam água de poços artesianos de forma a obter uma água de condições estáveis e, de certo modo, ausente de competidores e predadores. Aeradores tipo ‘ ‘paddle wheel” de 1,0 HP são comumente empregados visando aumentar a quantidade de oxigênio dissolvido na água, permitindo uma maior densidade de camarões nos viveiros, além de criar condições mais estáveis, naturais e homogêneas nos viveiros. O uso de, ‘paddle wheels” é considerado um requisito essencial na aqüicultura de Taiwan.

Boa parte das fazendas de Macrobrachium utilizam métodos mais intensivos e nunca empregam substratos ou proteções nos fundos dos viveiros, por entenderem que estes resultam em crescimento heterogênio, além de dificultar as constantes despescas e transferências entre viveiros.

Existem dois estilos principais de cultivo de Macrobrachium em Taiwan: o sistema tradicional com um único viveiro e o sistema seqüencial ou segmentar. No primeiro caso, são efetuadas despescas intermediárias no viveiro, seguidas por uma ou mais novas estocagens de pós-larvas. O segundo sistema usa uma seqüência de viveiros que são estocados de forma rotacional. Idealmente, 5 a 7 viveiros devem ser preparados para um manejo mais eficiente mas, devido à escassez e o alto custo da terra em Taiwan, 3 a 4 viveiros são mais encontrados. As pós-larvas compradas dos larvicultores são aclimatadas em viveiros berçários com densidade entre 100 e 200/m2. Depois de atingido um certo período e biomassa, os pequenos camarões de tamanhos similares são selecionados periodicamente, usando redes de arrasto, e transferidos para outro viveiro. O princípio é manter só camarões de tamanhos aproximados no viveiro para reduzir o risco de canibalismo e de inibição de crescimento dos camarões menores pelos maiores. A densidade também não deve ser muito alta após a fase juvenil, para evitar estes males.

Quando todos os camarões de um viveiro são transferidos ou despescados, o viveiro é drenado, secado ao sol e preparado para nova. estocagem. Este último método permite uma produção contínua e intensiva de camarões de tamanho comercial. E devido aos curtos períodos de cultivo e freqüentes drenagens, o acumulo de matéria orgânica no fundo pode ser minimizada, criando um ambiente mais favorável e conseqüentemente camarões mais saudáveis.

Uma alimentação rica, variada e bem controlada é tida como fundamental para o sucesso do projeto. Para isto, rações balanceadas, peixes, camarões, gastrópodos de baixo valor comercial, mistura de cereais com peixe, ovos de pato ou galinha, bolo de soja e outros alimentos são fornecidos aos camarões nos diferentes estágios do cultivo. O alimento é normalmente distribuído 2 a 3 vezes por dia e a quantidade é controlada com base em biometrias, bandejas de alimentação, características da água, condições climáticas etc. Como regra geral, a água é renovada de O a 10% ao dia, variando conforme a cor, viscosidade, hora do dia, densidade de estocagem, estágio do cultivo, situação climática etc. Este método empregado com atenção e dedicação possibilita uma produção mensal de 360 a 420 kg/ha., com uma produção anual que pode alcançar 4 a 5 mil kg/ha. Produções mais elevadas poderiam ser atingidas não fossem os meses de inverno em Taiwan.