Macrobrachium rosenbergii: um “gigante” ainda adormecido

Desde a sua introdução no Brasil, em 1978, o camarão de água doce Macrobrachium rosenbergii vem gerando polêmicas. Inicialmente, pela forma clandestina como os primeiros exemplares foram trazidos do Havaí, e posteriormente, com as várias comparações desta espécie com os camarões marinhos. Essas comparações não se detiveram apenas na proporção cabeça-cauda, que é desfavorável ao M. rosenbergii, mas estenderam-se também ao maior tempo de cultivo das fases de larvicultura e de engorda; às baixas produtividades; à falta de uniformidade no tamanho dos animais cultivados; ao sistema de despesca com redes de arrasto; à textura e paladar de sua carne, entre muitas outras.

Por: Marco A. de C. Mathias
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O M. rosenbergii foi apresentado ao mercado consumidor de forma totalmente inadequada. A mídia, ao explorar o termo “camarão gigante da Malásia” criou na ocasião uma falsa expectativa de um negócio de grande e rápido retorno financeiro, o que incentivou muitos despreparados a se arriscarem a cultivá-lo sem a devida orientação técnica, favorecendo o abate e a conservação dos camarões de forma inadequada, o que ocasionou inúmeros prejuízos e frustrações para muita gente.

Da mesma forma, muitos consumidores foram levados a acreditar que ao comprar essa espécie estariam adquirindo, tão somente, camarões de grande porte. A falta de orientação quanto as diferenças deste camarão com relação aos de água salgada, em termos de paladar e textura da carne, bem como no que se refere ao seu preparo, levaram à rejeição do produto por parte do consumidor final, fazendo com que os produtores do M. rosenbergii encontrassem grande dificuldade de comercialização de seus produtos, principalmente nas regiões litorâneas, onde é forte o consumo do camarão marinho.

Diante deste desfavorável contexto, o cultivo comercial do camarão de água doce no Brasil declinou vertiginosamente a partir do final dos anos 90, culminando com o fechamento de inúmeros laboratórios de larvicultura e de grandes projetos de engorda. Atualmente, no Brasil, restam em funcionamento apenas alguns poucos laboratórios, e em termos de engorda, somente um pequeno número de fazendas opera produzindo camarões de água doce, em sua maioria em policultivo com peixes, onde os camarões atuam como espécie secundária.

Apesar do inigualável sabor de sua carne, a triste e rápida trajetória do camarão M. rosenbergii no Brasil, faz com que o cultivo dessa espécie esteja quase extinto em nosso país, sendo freqüentemente desaconselhado, principalmente por ex-produtores que não conseguiram superar as dificuldades de cultivo ou de comercialização

Aprendendo com os outros

A tilápia no Brasil, assim como o catfish americano nos EUA, no entanto, são exemplos clássicos de espécies outrora rejeitadas para o cultivo comercial e pelos próprios consumidores. Porém, após o desenvolvimento de técnicas adequadas de cultivo, bem como do estabelecimento de estratégias eficientes de divulgação e de comercialização, passaram a representar uma forte e crescente indústria geradora de alimentos, empregos e renda para um contingente cada vez maior de pessoas envolvidas direta e indiretamente com essas atividades.

O cultivo do M. rosenbergii em outros países como, Filipinas, Malásia, Índia e Tailândia, vem crescendo nos últimos anos, e novas estratégias de criação vêm sendo desenvolvidas e aplicadas, tornando a atividade competitiva e sustentável. Na Índia, por exemplo, com o colapso da carcinicultura marinha, o cultivo do M. rosenbergii vem crescendo rapidamente. Nos anos de 2003-2004, ocorreu um incremento de 48% da produção com relação ao período de 2001-2002, alcançando o volume total de 35.870 toneladas, das quais aproximadamente 9.040 toneladas, avaliadas em cerca de US$ 89 milhões, foram exportadas, com o restante sendo consumido pelo mercado interno. No Estado de Andhra Pradesh, responsável por 90% da produção de M. rosenbergii da Índia, novas práticas de cultivo vêm sendo adotadas pelos aqüicultores, e a mais recente tendência é o cultivo monosexo desses camarões, cujos resultados preliminares indicam um lucro cerca de 60% maior que o obtido com o cultivo convencional, com a engorda de ambos os sexos. Nessa prática, são utilizados juvenis machos, separados manualmente após a fase de berçário (15 Pls/m2 durante dois meses, para atingir entre 4 – 5g de peso médio).

Adicionalmente, em alguns locais no nordeste da Índia, o cultivo do M. rosenbergii tem sido implantado em vastas extensões de terra antes utilizadas para a agricultura, e que se tornaram impróprias para cultivos agrícolas, viabilizando desta forma, a utilização produtiva dessas áreas que se tornaram inadequadas para outros usos.

No Brasil, a simples adoção do policultivo de peixes com camarões de água doce, a exemplo do que já vem ocorrendo de forma tímida, seria suficiente para reativar a criação comercial do M. rosenbergii, em virtude da comercialização do camarão cobrir boa parte das despesas do cultivo dos peixes. O cultivo de camarões de pequeno porte, do tipo “sete barbas de água doce”, é outra estratégia de produção que pode ter sucesso ao atender o mercado interno com um produto direcionado, principalmente, para a elaboração de molhos e recheios.

Apesar de não existirem sinais que apontem para uma efetiva retomada dos cultivos comerciais do camarão da Malásia, é grande o potencial da atividade para assumir o seu papel no agronegócio sustentável, assim como acontece em outros países, principalmente em função do desenvolvimento de novas tecnologias e estratégias de produção que permitem maiores índices de produtividade, além da existência de boas oportunidades no mercado internacional, principalmente o europeu. Isso, sem contar com a imensa quantidade de viveiros de água doce existentes no Brasil, com potencial para o policultivo de peixes e camarões.

Certamente escutaremos ainda por um bom tempo que a criação de trutas não é um bom negócio, por ser um peixe de difícil comercialização, e que o mercado para a carne de rã também é bastante restrito. Mas, será que no final das contas, o que está faltando para esses cultivos, bem como para o cultivo do camarão de água doce, não está relacionado ao uso de criatividade, pesquisa e trabalho sério, buscando aprender com os erros, tal como aconteceu com a tilápia?