Mancha Branca em SC o que está sendo feito pelas autoridades

A coordenação das ações de prevenção, controle e combate da mancha branca dos camarões cultivados no Estado de Santa Catarina, continua sob a responsabilidade do Ministério da Agricultura (Delegacia de SC), da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural e da Agricultura e, da Companhia Integrada de Desenvolvimento de Santa Catarina – CIDASC. Para a discussão e formulação de estratégias de controle da enfermidade, a CIDASC tem envolvido técnicos da FATMA – Fundação do Meio Ambiente, Universidade Federal de Santa Catarina -UFSC e da Epagri – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina.

A evolução da doença no estado tem sido o foco principal das reuniões realizadas pela equipe. Até o início de maio 19 fazendas permaneciam interditadas nos municípios que compõem o Núcleo Sul da ACCC-Associação Catarinense de Criadores de Camarões. Cerca de 60% das fazendas dessa região apresentaram mortalidades relacionadas com o Vírus da Mancha Branca (WSSV, na sigla em inglês). O Núcleo Norte da ACCC conta com sete fazendas, sendo uma de reprodutores e não há registro da presença do vírus. Na fazenda experimental Yakult/UFSC, localizada na Região Norte do Estado, os camarões já passaram por diversas provas de resistência e não há ocorrência de WSSV. Lá, todas as análises de PCR e os excelentes resultados das recentes despescas demonstram que não há vírus até o momento. No Núcleo Centro da ACCC há apenas uma fazenda de cultivo interditada e continua o monitoramento em sete outras fazendas de cultivo.

Para os produtores do Núcleo Norte do estado, o assunto da mancha branca foi deixado de lado, pelo menos por um tempo. A maior dificuldade que eles enfrentam no momento está relacionada com os baixos preços de comercialização, puxados pela super safra de camarão-rosa na Lagoa dos Patos – RS, cujos camarões de 50-60 peças/kg foram comercializados a R$ 4,50/kg. Uma vez que o custo de produção dos camarões cultivados está entre R$ 6,00 e 7,00, os produtores ficaram com a corda no pescoço.

Atualmente a região conta com dois laboratórios para análises de PCR. O da UFSC, voltado para o monitoramento interno das suas instalações, e o LARA-Laboratório Regional de Apoio Animal do Ministério da Agricultura, em Porto Alegre-RS, para validação e certificação dos laudos. O custo médio de cada análise é de 30 dólares.

Algumas particularidades sobre o comportamento do vírus no Estado de Santa Catarina merecem destaque. Através de métodos presuntivos ou do uso de PCR, tem sido possível detectar a presença do vírus a tempo de evitar a ocorrência de mortalidade. Isso tem permitido realizar despescas de camarões antes de ocorrer a enfermidade.

Outra particularidade é que a enfermidade não ocorreu de forma generalizada, não se manifestando em algumas fazendas que apresentaram alcalinidades acima de 150 ppm. O fato foi constatado a partir de uma fazenda cuja água possuía essas características e, apesar de estar numa região bastante afetada, seus camarões não desenvolveram a enfermidade. Esse aspecto merecerá atenção da equipe técnica nos próximos cultivos, no sentido de utilizar mais o manejo utilizando a cal hidratada para diminuição dos víbrios, tidos como porta de entrada para o vírus.

A questão da temperatura parece não estar sendo o gatilho para o desenvolvimento da doença. Nos primeiros dias de maio, já outono ao sul de Santa Catarina, a temperatura na água oscilava ao redor de 16oC dentro da região do foco, e nenhum registro de mortalidade foi detectado nas fazendas. Poucos camarões, porém, estavam sendo cultivados no sul do Estado, já por conta das despescas que atenderão ao vazio sanitário, estipulado pela portaria nº 5/2005, de 14 de março de 2005.

Começa em 1o de junho e vai até 30 de agosto o período de vazio sanitário para as fazendas de camarão do Estado de Santa Catarina. Segundo os especialistas, todos os países que combateram o vírus com sucesso estabeleceram períodos de vazio sanitário. Com o vazio é possível reduzir a carga viral, uma vez que não há mais ambiente para multiplicação do vírus. Após o vazio sanitário, a carga viral pode até voltar a incrementar, mas numa proporção que possibilita o cultivo até o tamanho comercial. É a forma que os produtores têm de realizar o cultivo sem problemas de mortalidade. Com o aperfeiçoamento das técnicas de PCR, hoje torna-se possível identificar três estágios de desenvolvimento da doença. Até o segundo estágio, que depende do número de partículas virais nos camarões, não há mortalidade massiva dos camarões, e os animais não são disseminadores da enfermidade. No terceiro estágio iniciam as mortalidades e a liberação da carga viral na água do cultivo. Neste estágio a enfermidade torna-se mais contagiosa. Conhecendo os estágios da enfermidade através do monitoramento por PCR, torna-se possível evitar a disseminação rápida da mesma.

Medidas sanitárias, de biossegurança e de manejo estão sendo elaboradas por um grupo de trabalho composto por técnicos da CIDASC, UFSC, Ministério da Agricultura e FATMA. A adoção dessas medidas implicará numa forte mudança no sistema de cultivo, e a expectativa é a de que isso incrementará o custo de produção. Os sistemas deverão ser mais fechados, bem como serão repensadas as densidades de povoamento utilizadas.

Dos quatro laboratórios produtores de pós-larvas, somente o Laboratório de Camarões Marinhos (LCM) da UFSC possui plantéis de reprodutores livres de WSSV. Desta forma, continuará a produzir náuplios e larvas a curto e médio prazo. Os demais, a medida que voltarem a produzir pós-larvas, utilizarão náuplios produzidos no LCM, que para isso já desenvolveu um sistema onde mantém um plantel de reprodutores livres do vírus, mantidos em sistema fechado e em alta densidade, com a utilização de flocos bacterianos.

Passado o primeiro momento pode-se dizer que inicialmente houve muita resistência por parte dos produtores quanto a aceitação do diagnóstico de WSSV. Muitos acreditavam que se tratava mesmo de agrotóxicos na água. Após algumas mortalidades massivas, esse comportamento mudou e atualmente há uma conscientização por parte dos produtores que não oferecem mais resistência para adotarem as medidas sanitárias e de manejos sugeridas.