MAR DAS BANANEIRAS

Dra. Yocie Yoneshigue-Valentin – Bióloga do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira – IEAPM.


Há muito tempo atrás, ao longo do litoral Sul do Estado do Espírito Santo, os pescadores locais já coletavam frequentemente, presas aos seus apetrechos de pesca, formas vegetais de grande porte (aproximadamente 5 m de comprimento por 0,50 m de largura), semelhantes às folhas de bananeira. Essa região, rica em peixes de primeira qualidade, foi denominada por este motivo de “ Mar das Bananeiras”. Na realidade, essas plantas são algas macroscópicas de cor marrom pertencentes ao gênero Laminária, com ciclo de vida heteromórfico composto de um estágio microscópico (gametófito) e outro macroscópico (esporófito).

O seu esporófito é utilizado nas múltiplas finalidades na nossa vida cotidiana. Das paredes celulares dessa alga extrai-se o ácido algínico (alginato quando combinado a um sal) de alto valor comercial, em virtude de seus numerosos usos e aplicações em vários segmentos da indústria alimentícia, farmacêutica, têxtil, material de construção, cosmética, fotográfica, etc. O consumo de alginato no Brasil está baseado na sua importação.

Os dados da CACEX mostram que, em 1986, o Brasil importou 150 t/alginato/ano, no valor de US$ 1.500.000,00. Assim, do ponto de vista estratégico, uma carência dessa matéria-prima importada paralisaria as atividades de um número surpreendente de indústrias brasileiras. Laminária abyssalis é endêmica no litoral Sudeste do Brasil e foi descoberta em 1967 ao largo de Macaé, no Estado do Rio de Janeiro. Sua ocorrência constitui, de certo modo, uma anomalia na distribuição mundial do gênero, restrito sobretudo às águas frias e temperadas do Hemisfério Norte. O determinismo dessa distribuição sob latitude tropical permanece uma incógnita, porque a planta mostra fortes indícios de que vive em temperaturas e intensidade luminosas baixas. Além disso, a própria extensão do banco, situado nas isóbatas de 40 a 100 m de profundidade ao longo das coordenadas de 19º23’S – 38º28’W e 22º54’S – 42º13’W, e o seu potencial em termos de biomassa explotável continuam pouco conhecidos. Devido às coletas nos bancos naturais serem árduas e onerosas pela alta profundidade, seria o cultivo de em águas rasas viável técnico-economicamente? Essa pergunta é, por ora, de difícil resposta.

O Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira, em Arraial do Cabo, desenvolve estudo sobre a ecofisiologia (interação dos fatores temperatura, luz e nutrientes) dessa planta. O ciclo de vida da L. abyssalis foi completado em laboratório no período de sete meses, sendo estabelecidas as exigências de luz e temperatura em todas as fases do desenvolvimento. Os gametófitos tornaram-se férteis entre oito e nove dias expostos a 1,2 ± 0,3 µEm-2s-1 de luz e à temperatura de 18ºC, mas não sobrevivem a 23ºC. Esses gametófitos, primeira fase do desenvolvimento da alga, podem ser estocados na completa escuridão, interrompendo assim o desenvolvimento. Transferindo-os para a luz após 19 meses de estocagem, as experiências mostraram a retomada do desenvolvimento. Essa habilidade de estocagem constitui uma característica de valor para iniciar futuras operações na maricultura. Quanto aos esporófitos, segunda fase do ciclo da alga, os melhores resultados foram obtidos na temperatura de 18ºC e 15 µEm-2s-1 de luz, enquanto que a 23ºC e 20 µEm-2s-1 de luz o crescimento foi deficiente. Entretanto, submetendo esses esporófitos a 23ºC, por um curto período sob luz de 15 µEm-2s-1 estes tornaram-se férteis. Os resultados do cultivo conferem com as observações “in situ”.

Os bancos naturais de Laminaria em Macaé estão sob a influência das águas frias (16-23ºC) conseqüentes da ressurgência da Água Central do Atlântico Sul. Esses estudos sugerem que a Laminaria aabyssalis“in vitro” necessita de águas frias durante a maior parte do seu ciclo de vida, tendo o mesmo comportamento que as outras espécies de Laminaria do Hemisfério Norte, mas podendo resistir a temperatura mais alta (23ºC ) por um curto período para tornar-se fértil. Embora despertando o interesse industrial e a “curiosidade científica” pelas suas peculiaridades ecológicas, nada se conhece quanto a resistência dos bancos naturais de Laminaria a um possível impacto causado por uma super-explotação (taxa de reposição da biomassa desconhecida). Além disso, o custo elevado das coletas, comparativamente ao preço do alginato, pode tornar o empreendimento inviável. O cultivo dessa alga pode ser uma solução, porém, deve passar obrigatoriamente por numerosas pesquisas básicas, sobretudo em ecofisiologia. Uma delas seria a seleção de cepas capazes de se desenvolverem em águas rasas sem perder suas qualidades como fonte de alginatos. Dra. Yocie Yoneshigue-Valentin – Bióloga do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira – IEAPM.