Maricultura de moluscos em mar aberto:

Um experimento que deu certo no Paraná

Por: Frederico Brandini – Centro de Estudos do Mar,
Universidade Federal do Paraná
e-mail: [email protected]


Um experimento pioneiro de cultivo de mexilhões em mar aberto foi realizado no primeiro semestre de 2004 pelo Centro de Estudos do Mar da UFPR no âmbito do Projeto Recursos Costeiros (RECOS), com apoio do CNPq. Um cultivo piloto de mexilhões em mar aberto já havia sido patrocinado pelo Governo do Estado do Paraná por intermédio do “Edital Paraná 12 meses” da Secretaria de Agricultura do Estado. Nesse projeto anterior foram coletadas nove toneladas de mexilhões em um sistema de long-lines instalados a 3,4 km da costa, sobre a isóbata de 10 metros, em frente ao Balneário do Carmery, em Pontal do Sul. Entretanto, a produtividade poderia ter sido muito maior se não fosse pelo elevado grau de infestação dos organismos cultivados, com cracas, esponjas e parasitas, além do vandalismo e do roubo.

Os experimentos em águas profundas

Para eliminar esses problemas decidiu-se testar a viabilidade de cultivos em áreas mais profundas e afastadas da costa, longe do fouling (incrustação). Em 4 de fevereiro de 2004 foram instaladas a 1,8 e 45 km da costa, pencas experimentais do mexilhão Perna perna. A 1,8 km, as pencas foram instaladas na superfície, do mesmo modo que nos cultivos tradicionais, e a 45 km da costa paranaense (Figura 1), as pencas foram fixadas a 30 metros de profundidade.

Fig.1. Preparação das pencas de mexilhão Perna perna
Fig.1. Preparação das pencas de mexilhão Perna perna

A hipótese do trabalho experimental foi testar a viabilidade de cultivar moluscos de valor comercial (ostras, mexilhões e vieiras) aproveitando-se a produção de agregados orgânicos formados pelo sistema planctônico em sub-superfície. A ocorrência de agregados orgânicos é comum em sub-superfície e é decorrente da sedimentação de células de fitoplâncton, restos de zooplâncton, pelotas fecais, muco produzido por colônias gelatinosas de zooplâncton, etc. Enfim, é aquela “chuva” de matéria orgânica particulada que sedimenta e fornece alimento para os organismos bentônicos. Estudos hidrográficos feitos na plataforma continental rasa do Paraná (<50 m) entre 1998 e 1999 revelaram que no verão ocorre a penetração de águas frias e ricas em nutrientes por baixo da água da plataforma mais quente e empobrecida. O resultado é a formação de camadas sub-superficiais de produção de fitoplâncton, normalmente diatomáceas, na metade inferior da coluna d´água. Esses locais de alta produtividade produzem matéria orgânica que sedimenta e forma os agregados orgânicos, o alimento principal do sistema bêntico da plataforma em áreas afastadas da costa.

Após quatro meses de experimento as pencas foram retiradas e o resultado foi promissor. Em ambos os casos a taxa de crescimento foi semelhante. As sementes com inicialmente 0,6 a 0,8 cm cresceram aproximadamente 4 cm em 4 meses de submersão. O crescimento foi de aproximadamente 1 cm por mês, como recomendado para a viabilidade de cultivos comerciais. Resultados semelhantes foram obtidos nos cultivos do litoral de Santa Catarina. Como era de se esperar, os mexilhões cultivados a 1,8 km (Figura 2) estavam cobertos com cracas e infestados com poliquetas parasitas (Figura 3). Entretanto, a ausência de fouling e de infestação dos mexilhões com parasitas foi visivelmente inferior (para não dizer totalmente ausente) nas pencas instaladas a 30 m de profundidade, distante 45 km da costa (Figura 4). O pouco fouling típico de áreas mais profundas afastadas da costa, juntamente com a abundância de material orgânico particulado oriundo da produção fitoplanctônica sub-superficial, foi o que fez a diferença no rendimento dos cultivos experimentais a 45 km. De cada 100 sementes instaladas a 30 metros de profundidade quase 80% atingiram tamanho comercial, enquanto que no experimento de 1,8 km, onde as pencas foram mantidas na superfície, apenas 60% das sementes atingiram o tamanho comercial, e mesmo assim com muita infestação.

Figura 2. – Mexilhões coletados no cultivo experimental realizado a 1,8 km da costa paranaense
Figura 2. – Mexilhões coletados no cultivo experimental realizado a 1,8 km da costa paranaense

Figura. 3 - Detalhe do “fouling” (incrustações) dos mexilhões cultivados por 4 meses a 1,8 km da costa 
Figura. 3 – Detalhe do “fouling” (incrustações) dos mexilhões cultivados por 4 meses a 1,8 km da costa
Figura 4. Mexilhões com ausência de incrustações coletados após 4 meses de submersão a 30 metros, a 40 Km da costa
Figura 4. Mexilhões com ausência de incrustações coletados após 4 meses de submersão a 30 metros, a 40 Km da costa
Análise dos resultados

Os resultados desse experimento revelam que a plataforma continental da Região Sul do Brasil possui áreas potencialmente promissoras para o cultivo de moluscos. Se forem bem aproveitadas as condições hidrográficas da plataforma rasa, com tecnologia apropriada de cultivo em mar aberto, sistemas comerciais podem ser instalados com bom rendimento e produtividade. Esta poderá ser uma boa solução para eliminar conflitos tradicionais provocados pelos long-lines de moluscos nas áreas costeiras. Do ponto de vista ambiental, o mar aberto tem capacidade de suporte muito maior devido a maior circulação e rápida dispersão do material excretado (que não é pouco), causando impacto mínimo no sistema bêntico, ao contrário do que ocorre nos cultivos em baias e áreas com pouca circulação. Além disso, cultivos em mar aberto têm a vantagem da distância da poluição costeira, aumentando a qualidade do produto.

Conflito

Entretanto, a pesca de arrasto é um problema a ser resolvido antes de desenvolver sistemas em mar aberto. No Paraná, para evitar o conflito com os arrasteiros e diminuir o risco de perder o experimento, as pencas foram instaladas em uma área de fundo rochoso, naturalmente excluída do arrasto demersal. Também pode-se criar artificialmente áreas de exclusão de arrasto destinadas ao cultivo, com sistemas anti-arrasto. Do ponto de vista ambiental, mata-se dois coelhos com uma cajadada só: 1) elimina-se o arrasto que destrói o sistema bêntico e compromete a biodiversidade marinha e 2) desenvolve cultivos longe dos conflitos tradicionais na zona costeira.

 

Invasões silenciosas

Os mexilhões Perna perna distribuídos ao longo da costa brasileira estão sendo ameaçado pela presença do Isognomon bicolor, um mexilhão natural do Caribe, cuja ocorrência no Brasil foi relatada pela primeira vez em 1989, no litoral catarinense. Segundo o biólogo André Breves, pesquisador colaborador do Laboratório de Benthos da UFRJ, a chegada do molusco invasor ao Brasil aconteceu, provavelmente, entre as décadas de 70 e 80, tendo sua expansão populacional ocorrida durante a década de 90. André avalia que o invasor tenha sido introduzido acidentalmente no país por plataformas de petróleo, cascos de embarcações ou através da água de lastro dos navios. No novo ambiente, diz André, as espécies invasoras geralmente estão livres de inimigos naturais que poderiam normalmente controlar a sua abundância, um dos fatos que explica o porquê das densidades extremamente altas em que o Isognomon bicolor vem sendo encontrado. Em Arraial do Cabo, RJ, de 1996 a 2004, houve um aumento de mais de 30% na abundância de I. bicolor, já sendo considerada uma espécie bem estabelecida. Estudos realizados em 2003 em diferentes costões do Estado do Rio de Janeiro mostraram uma concentração média de 800 indivíduos por 100 cm2, considerada extremamente alta, havendo locais onde o mexilhão invasor já ocupa 38% da zona entre marés. O estudo de André mostra também que pode ser muito grande a interferência do molusco invasor sobre as populações naturais, principalmente a do mexilhão Perna perna, uma espécie até pouco tempo considerada nativa para os brasileiros.

Seria o nosso mexilhão (Perna perna) também uma espécie exótica?

Tudo leva a crer. Ao menos esta é a conclusão da pesquisa realizada pela bióloga Rosa Cristina Corrêa Luz de Souza para a sua tese de mestrado em biologia marinha na UFF, orientada por Flávio da Costa Fernandes. Rosa Cristina pesquisou conchas de sambaquis (depósitos de conchas de milhares de anos) ao longo da costa brasileira e não encontrou a da espécie Perna perna, o que fortalece a hipótese de que esse mexilhão talvez seja uma espécie exótica, podendo ter sido introduzida no Brasil há muitos anos atrás, possivelmente junto com o advento do desenvolvimento do comércio marítimo extensivo à época do tráfico de escravos.

O pesquisador James T. Carlon, do Programa de Estudos Marítimos (EUA), sustenta que o ambiente aquático segue convivendo diariamente com as introduções. Segundo seus estudos, cerca de 2.000 espécies são transportadas diariamente de um canto a outro do planeta através da água de lastro dos navios. As introduções, portanto, estão ocorrendo o tempo todo, e pelos mais diferentes meios.
As introdução de espécies com objetivos zootécnicos, entretanto, são atacadas de forma crônica pelos ambientalistas contrários à aqüicultura, e esse estigma o setor produtivo provavelmente terá que carregar ainda por muito tempo, apesar do fato de que as espécies exóticas já representam cerca de 20% de todo pescado produzido pela pesca e aqüicultura somadas. O Brasil não pode abrir mão delas, ainda mais se pensarmos que o consumo per capita de pescado no país é pouco mais da metade da quantidade mínima recomendada pela FAO, que é de 13 kg/habitante/ano.