Marimbá e Pargo Rosa

Peixes Brasileiros no Rumo da Maricultura

Por: Gianmarco Silva David 
Depto. de Hidrobiologia da UFSCar
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Tendo em vista o sucesso alcançado em várias regiões do mundo na criação de peixes da família dos esparídeos (Sparidae), neste artigo são avaliadas as potencialidades para a maricultura de espécies pertencentes a este grupo nativas do Brasil. Duas espécies destacam-se como viáveis para o cultivo: o pargo rosa (Pagrus pagrus) e o marimbá (Diplodus argenteus), sendo esta última especialmente interessante por ser omnívora e estar muito bem adaptada às condições hidrográficas normalmente encontradas nas zonas costeiras das regiões Sudeste e Sul do Brasil.

O cultivo comercial de peixes marinhos no Brasil é ainda incipiente. A pesquisa científica sobre a maricultura de peixes foi iniciada há quase trinta anos, porém sem que tenha havido a continuidade necessária para que o conhecimento migrasse do ambiente acadêmico para o setor produtivo. Com isso, o quadro que se observa atualmente no país é de carência de tecnologias aplicáveis em escala comercial. A partir do final da década de 90, foram retomados esforços visando identificar espécies com potencial para cultivo e obter informações científicas que possam vir a viabilizar o funcionamento de empreendimentos comerciais, através do desenvolvimento de uma base sólida de conhecimentos zootécnicos. Este esforço vem sendo aplicado principalmente pelo setor público, motivado pelo reconhecimento de que a piscicultura marinha já demonstrou ser uma atividade economicamente viável em diversas regiões do mundo e que a produção de pescados marinhos, em uma base exclusivamente extrativista, não é sustentável a longo prazo.

Os principais estoques pesqueiros do mundo – incluindo também os brasileiros – atualmente mostram sinais claros de que a exploração está sendo feita em um ritmo superior à capacidade de reposição natural. As capturas de espécies de maior interesse econômico e melhor qualidade para consumo estão se tornando progressivamente mais escassas, a despeito do contínuo aumento do esforço de pesca, associado ao emprego de tecnologias de captura mais eficientes. Até 1960, a produção mundial de pescados marinhos era quase exclusivamente extrativista. Desde então, a maricultura passou por um notável processo de desenvolvimento, contribuindo atualmente com cerca de 20% da biomassa de pescados marinhos consumidos no mundo. Ainda em escala mundial, o cultivo de peixes é a modalidade de maricultura com maior volume de produção e também a que mais vem crescendo – outras modalidades importantes são os cultivos de crustáceos, moluscos e algas. Neste contexto, é importante que o cultivo de peixes marinhos no Brasil se desenvolva como uma opção segura e sustentável para o suprimento da demanda por estes produtos.

Por prudência ecológica, deve-se evitar a introdução de espécies exóticas para cultivo, uma vez que estas podem servir como vetores de doenças e parasitoses ou serem acidentalmente liberadas no ambiente natural, provocando impactos imprevisíveis nos ecossistemas marinhos locais. Entretanto, ao selecionar as espécies com potencial para maricultura, pode-se adotar uma abordagem comparativa com as experiências desenvolvidas em outras regiões, procurando espécies nativas que possuam características ecológicas e biológicas semelhantes àquelas que já vêm sendo cultivadas com sucesso.

Peixes marinhos de diversas famílias têm sido cultivados ao redor do mundo e certamente os salmonídeos (salmões e trutas), constituem o principal grupo cultivado, com sua produção, de cerca de 1.000.000 ton/ano, concentrada na América do Norte e Chile. Nacosta brasileira não existem as condições hidrográficas necessárias para seu cultivo e nem ocorrem espécies representantes desta família. O mesmo acontece com o “milkfish” (Chanos chanos) uma espécie cultivada há centenas de anos no sul da Ásia, cuja produção em cultivo atinge atualmente 400.000 ton/ano. Outras famílias de peixes marinhos como os Carangidae (Seriola sp.) e os Lutjanidae (Lutjanus sp.), presentes na fauna nativa do Brasil, também são promissoras para o cultivo, sendo ainda necessárias pesquisas científicas que avaliem objetivamente estas possibilidades. Os robalos (Centropomidae), linguados (Pleuronectidae), tainhas (Mugilidae) e o peixe-rei (Atherinidae) são atualmente objetos de pesquisas básicas e aplicadas, desenvolvidas no Brasil por grupos altamente qualificados, gerando a expectativa de que brevemente se viabilize o cultivo destas espécies.

Os esparídeos

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A produção mundial em maricultura de peixes da família Sparidae, ou esparídeos, é de cerca de 100.000 ton/ano, constituída em sua maior parte por espécies de excelente qualidade para consumo e bom valor comercial. Conhecidos como “seabreams” (ing.), são importantes na maricultura de diversos países, com pelo menos 12 espécies cultivadas comercialmente ao redor do mundo e outras seis cultivadas ainda em escala experimental. Na costa européia do Mediterrâneo, a principal espécie cultivada é a “dorada” (esp.) ou “gilthead seabream” (ing.), ou ainda Sparus aurata, com produção anual de 30.000 ton.. Pelo menos mais três espécies de sargos (gênero Diplodus sp.) são cultivadas em menor escala, geralmente como uma opção de diversificação para produtores da dorada.

No Japão, a segunda espécie de peixe com maior produção em maricultura (75.000 ton/ano) é também um esparídeo, Pagrus major, também chamado “red seabream” (ing.). Outras seis espécies de esparídeos são atualmente produzidas com fins comerciais tanto no Japão como em outros países do Sudeste asiático – Taiwan, China e Coréia do Sul – com produções da ordem de 2.000 a 5.000 ton/ano. Podemos citar ainda duas espécies de esparídeos produzidas comercialmente no Kuwait e duas cultivadas experimentalmente nos EUA. Em todos os casos é comum o uso de alevinos capturados no ambiente natural, devido ao fato de que, para boa parte dessas espécies, as técnicas de reprodução em cativeiro e larvicultura não estão ainda dominadas ou, como é o caso do red seabream no Japão, os alevinos selvagens são preferidos por serem mais resistentes e mostrarem resultados superiores em cativeiro aos daqueles produzidos artificialmente.

Na costa brasileira, a família Sparidae está representada por 7 espécies, sendo duas as que possuem valor comercial: o pargo rosa (Pagrus pagrus) e o marimbá (Diplodus argenteus).

O pargo rosa

É o esparídeo mais comercializado no mercado interno, com capturas relativamente abundantes sobre a plataforma continental da costa sudeste e sul do Brasil. São peixes exclusivamente marinhos e carnívoros, que ocorrem em áreas de plataforma continental de todo o Atlântico Subtropical e Mediterrâneo.

Desde a década de 80, a biologia do pargo rosa já vem sendo estudada no Brasil e em diversas outras regiões, havendo atualmente uma boa base de conhecimentos sobre sua reprodução, alimentação e crescimento no ambiente natural. Atinge até cerca de 4 kg de peso e sua carne é considerada excelente, de cor branca e sabor suave. A aceitação no mercado consumidor interno é muito boa e eventualmente são exportados, principalmente para o Japão, onde são consumidos simbolizando a boa sorte em ocasiões festivas.

No Brasil, raramente é encontrado próximo à costa e quando isto acontece, são observados exemplares pequenos que se aproximam acompanhando o avanço esporádico de massas de água fria sobre a plataforma continental até a zona costeira. O habitat natural dos exemplares maiores e de maior valor comercial, são águas bastante frias (<18oC) e profundas. A principal limitação para o cultivo desta espécie no Brasil parece ser a dificuldade em se encontrar áreas costeiras onde as condições hidrográficas – principalmente temperatura – sejam adequadas às suas necessidades, visto que nas águas superficiais de regiões costeiras e protegidas, onde seria possível instalar tanques-rede para cultivo, raramente se observam temperaturas inferiores a 20oC.

As possibilidades situam-se em alguns locais do estado do Rio de Janeiro (região de Cabo Frio) e do estado de Santa Catarina, onde sazonalmente pode-se observar eventos em que águas frias atingem a região costeira. Fazendo um paralelo com o cultivo da espécie do mesmo gênero no Japão, onde o red seabream (Pagrus major) é cultivado com muito sucesso, vale lembrar que as necessidades quanto à temperatura da água para as duas espécies podem ser consideradas semelhantes, mas as condições oceanográficas na costa japonesa são bastante diferentes, com águas muito mais frias, em parte devido à maior latitude em que o Japão se localiza e também porque – ao contrário da costa brasileira – o arquipélago japonês possui uma plataforma continental bastante estreita onde são mais comuns os eventos de ressurgência de águas frias na região costeira.

O cultivo experimental do pargo rosa já vem sendo realizado na região do Mediterrâneo, sem ainda atingir escala comercial. Ainda que as etapas de reprodução em cativeiro e larvicultura para esta espécie não sejam conhecidas satisfatoriamente, as técnicas empregadas para o cultivo do red seabream no Japão podem vir a ser adaptadas para o pargo rosa, pois são espécies do mesmo gênero e bastante semelhantes. São ainda necessários estudos que avaliem, de forma objetiva, a viabilidade de cultivar o pargo rosa nas condições encontradas nas águas costeiras do litoral brasileiro, principalmente no que diz respeito ao crescimento e engorda.

O marimbá

O marimbá é um peixe exclusivamente marinho, que habita costões rochosos e bancos de algas na zona costeira desde o Caribe até o norte da Argentina. O gênero Diplodus está presente em praticamente todo o Atlântico subtropical e Mediterrâneo, onde ocorrem cinco espécies, das quais quatro são cultivadas comercial ou experimentalmente.

Na costa brasileira, ocorre apenas uma espécie deste gênero – o marimbá ou Diplodus argenteus – que possui menor importância pesqueira que o pargo rosa, talvez porque o volume de capturas é reduzido e seu habitat é limitado à zona muito estreita próxima da costa, onde é capturado artesanalmente. É um peixe muito semelhante aos “sargos” do Mediterrâneo (Diplodus sargus e D. puntazzo, entre outros), muito apreciados por sua carne de excelente qualidade e cultivados para fins comerciais. O valor comercial dos exemplares maiores é próximo ao do pargo rosa e atinge até 3 kg de peso, porém seu consumo não é muito difundido no Brasil, pois as capturas relativamente pequenas dificultam a sua comercialização nos mercados de maior porte, no Rio de Janeiro e São Paulo. O consumo se dá predominantemente pelas populações próximas aos locais de pesca, que apreciam especialmente sua suavidade e sabor, indicando seu consumo para crianças e pessoas convalescentes.

Atualmente a mais lucrativa via de comercialização do marimbá é a exportação para os mercados exigentes dos países mediterrâneos, especialmente a Itália, restringindo-se aos exemplares de peso maior que 600 g e alcançando preços bastante compensadores.

No final da década de 90 foram produzidas as primeiras informações científicas sobre a biologia desta espécie e atualmente estão sendo desenvolvidos estudos sobre diversos aspectos biológicos e ecológicos do seu ciclo de vida, que podem ser úteis para avaliar seu potencial para maricultura. Estão sendo estudados sua distribuição, alimentação, reprodução, recrutamento e crescimento no ambiente natural, não existindo ainda estudos sobre o cultivo do marimbá.

A primeira maturação gonadal se dá com cerca de 200 mm de comprimento total, o que corresponderia a uma idade de 2 a 3 anos, considerando as taxas de crescimento dos sargos do Mediterrâneo. A reprodução ocorre preferencialmente em águas de temperatura entre 18 e 21oC, de forma parcelada por um período bastante extenso que vai desde o final do inverno até meados do verão. Densas concentrações de pós-larvas são facilmente encontradas em enseadas rasas e protegidas, podendo servir como fonte de alevinos para cultivos experimentais, enquanto a reprodução em cativeiro e a larvicultura desta espécie não estejam satisfatoriamente desenvolvidas. Esta prática é amplamente difundida em cultivos de esparídeos ao redor do mundo, porém a recomendação correta para garantir sua sustentabilidade é que os alevinos sejam produzidos em laboratório, através de técnicas de reprodução artificial.

O marimbá dificilmente é encontrado em profundidades superiores a 20 metros, estando portanto adaptado a completar seu ciclo de vida em águas costeiras, onde é possível a instalação de empreendimentos de aqüicultura. Nos estágios iniciais, as larvas são planctônicas e assentam-se em enseadas rasas, quando alimentam-se principalmente de larvas de crustáceos e copépodes planctônicos, já sendo então bastante resistentes ao manuseio. Conforme crescem, sua dentição torna-se progressivamente mais forte e passam a se alimentar também de invertebrados planctônicos e bentônicos, até que sejam capazes de triturar algas e organismos incrustantes (mexilhões e cracas) com seus fortes dentes. O espectro alimentar desta espécie é bastante amplo e por ingerirem habitualmente algas, fica aberta a possibilidade de que sejam alimentados por fontes de proteínas vegetais, o que constituiria uma vantagem em relação às espécies exclusivamente carnívoras. A exemplo da dorada, o hábito de consumir organismos incrustantes pode ser bastante conveniente para sua criação em tanques-rede, o que ajudaria a manter as estruturas de cultivo limpas.

Vale notar que as espécies do gênero Diplodus são biologicamente muito próximas à dorada (Sparus aurata), existindo doenças e parasitas capazes de atacar facultativamente a dorada e Diplodus sp., além de existirem registros de hibridização interespecífica entre elas, em cativeiro. Por outro lado, as diversas etapas do cultivo da dorada já foram bastante estudadas, podendo servir como ponto de partida no desenvolvimento de tecnologias para o cultivo do marimbá.

Como conclusão, podemos ressaltar o bom potencial destas duas espécies de esparídeos brasileiros para a maricultura. O pargo rosa é a espécie de melhor valor de mercado, ainda que seu cultivo dependa da adaptação às condições normalmente observadas na região costeira. O marimbá destaca-se por possuir hábito alimentar omnívoro e por ser um habitante natural das zonas costeiras, onde podem ser viabilizados os empreendimentos de maricultura.