Meio século da truta no Brasil

Às 16:50 hrs. do dia 24 de abril de 1949 um avião Constelation da SAS – Scandinavian Airline System pousava no então Aeroporto do Galeão no Estado da Guanabara, ainda Distrito Federal, com uma carga extremamente delicada, embarcada com recomendações extremas e transportada com cuidados especiais. A aguardá-la um obstinado naturalista, o médico veterinário Ascânio de Faria, que cumpria determinações do Sr. Daniel de Carvalho, então Ministro da Agricultura.

Na preciosa carga, cinco mil ovos embrionados de trutas, vindas diretamente da cidade de Esberg na Dinamarca para “fazer a primeira ecogênese dessa espécie, nas águas dos nossos altiplanos, começando-se pela Serra da Bocaina.”, conforme relatou Ascânio de Faria em matéria publicada na revista Seleções Agrícolas de outubro de 1951.

Após estudos encomendados pelo Ministro visando descobrir o porquê da “inexistência de quaisquer espécies de peixes nos rios de nossas regiões montanhosas”, a Divisão de Caça e Pesca recomendou a introdução da truta Arco-Íris, uma espécie nativa dos EUA, curiosamente importada da Dinamarca.

Classificadas à época como Salmo gardneri irideus e atualmente como Oncorhynchus mykiss, foram levadas à região da Bocaina e incubadas em cocho para arraçoamento de gado onde deram “origem a 3.500 trutinhas, providas de vesícula vitalina” (sic) que resultaram em 2.500 alevinos levados por rio abaixo por “violenta e inesperada enchente”.

Primeira Piracema

A experiência no entanto, animou Ascânio de Faria que no ano seguinte importou outros 50 mil ovos embrionados que, desta vez, já foram incubados no Posto de Biologia e Criação de Trutas, construído à margem do rio Jacú Pintado, em local próximo a sua nascente.

Em 1o de julho de 1951, as trutas introduzidas por Ascânio de Faria fizeram um espetáculo particular para os residentes do Sertão da Bocaina “subindo do rio Bonito para as cabeceiras do Jacú Pintado, verificando-se uma verdadeira piracema, com características próprias. Inúmeros casais desovaram em vários pontos dos rios acima citados”, relatava Ascânio de Faria em sua matéria.

Cinquenta anos se passaram e populações de trutas hoje habitam inúmeros rios da região da Bocaina ao mesmo tempo que o país despesca ao redor de 2.000 toneladas anuais nas dezenas de truticulturas espalhadas por diversos estados.

Esses precisos e preciosos dados só puderam ser obtidos graças ao maior garimpador de informações da história recente da nossa ictiologia, o veterano ictiólogo Jorge Alves de Oliveira, a quem nós da Panorama da AQÜICULTURA expressamos nossa admiração pela sua dedicação e empenho para preservar a memória do importante acervo da antiga Divisão de Caça e Pesca do Departamento Nacional de Produção Animal do Ministério da Agricultura, extinta em outubro de 1962 e agora sob os cuidados do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O telefone de Jorge Alves é: (021) 568-8262 r. 249.