Mitilicultores e ostreicultores catarinenses necessitam de mais informação para tornarem-se competitivos no mercado

Diversas questões motivaram a pesquisadora e bibliotecária Simone da Silva Conceição, a escolher o tema “Informação para negócios” para a sua tese de mestrado. Seu estudo, desenvolvido com o objetivo de identificar e caracterizar os tipos de informação que atenderiam as necessidades das comunidades pesqueiras do Estado de Santa Catarina, mostrou que há carência de conhecimento para que esses maricultores se tornem competitivos. Cerca de 90 associados da AMASI (Associação dos Maricultores do Sul da Ilha) e da AMANI (Associação dos Maricultores do Norte da Ilha) foram observados pela pesquisadora, que colheu dados por meio de entrevistas. Os resultados deste estudo indicam que, embora instituições federais e estaduais venham dando apoio e condições para o desenvolvimento da maricultura catarinense, há ainda necessidades básicas de informação que ainda não foram atendidas. O estudo conclui também que os serviços de informação existentes atualmente (boletins técnicos, documentários, acesso a Internet, etc.) são voltados à indústria, de forma que as comunidades pesqueiras têm dificuldades para absorver esses serviços.

Por: Simone da Silva Conceição
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Em qualquer setor produtivo é preciso ter domínio da informação e da tecnologia para manter-se competitivo no mercado. Em um mundo de mudanças rápidas a informação ocupa um papel importante na tomada de decisões das empresas, entretanto, para ser segura e precisa, a informação depende de fontes fidedignas merecedoras de crédito (Montalli 1996).

A informação é a base do desenvolvimento das nações, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento científico e tecnológico. No Brasil, informação para negócios é uma área ainda nova e pouco explorada, com poucos profissionais que detenham o conhecimento em relação ao assunto.
No setor pesqueiro, através de estudos e apoio das instituições de ensino, órgãos federais, estaduais e municipais, entidades privadas e organizações não governamentais, a maricultura catarinense vem se desenvolvendo mais a cada dia. Porém, a ausência da informação para negócios direcionada aos produtores, faz com que esses indivíduos tenham que se afastar do seu ambiente de trabalho, para que possam buscar informações atualizadas.

Características do ambiente de estudo

O estudo foi realizado em comunidades pesqueiras da região da grande Florianópolis, sendo selecionados 120 membros das comunidades pesqueiras do Ribeirão da Ilha (Sul da ilha) associados da AMASI, e 96 membros das comunidades de Cacupé, Sambaqui, Santo Antônio de Lisboa (Norte da ilha) associados da AMANI, totalizando 216 participantes. Para a aplicação da entrevista, foram selecionadas 90 pessoas. O estudo buscou detectar as fontes de informação formais e/ou informais utilizadas pelos maricultores a fim de qualificar o seu negócio. Na entrevista, observou-se o quanto é difícil para os produtores trabalhar em comunidades, mesmo fazendo parte de uma Associação, já que esta é uma exigência para ter direito a uma área de cultivo. Teoricamente, a Associação serve para unir os maricultores e acima de tudo fazer com que discutam, gerenciem seus problemas e definam as prioridades para o crescimento da atividade. Na prática constatou-se que a Associação é um espaço político e que a grande maioria dos associados pensa em seus interesses próprios. Há, porém, a consciência coletiva quanto à importância de manter a praia limpa, de não jogar o esgoto no mar, de preservar as áreas próximas ao cultivo, de não jogar óleo das embarcações no mar, do repovoamento, pois essas são as condições imprescindíveis para manutenção do negócio de todos e, consequentemente, do retorno financeiro.

A atividade é predominantemente familiar, conforme já constatado por Rosa (1997), em estudo realizado sobre o tema. No entanto, na entrevista, constatou-se que os mitilicultores e ostreicultores utilizam-se, quando necessário, da mão-de-obra de parentes e vizinhos.
Quanto ao tipo de produtos cultivados 81,11% dos produtores cultivam mexilhões e ostras, enquanto que 5,56% dos produtores cultivam apenas mexilhões e 13,33% dos produtores cultivam apenas ostras, conforme mostra a tabela.

Perfil produtivo dos entrevistados

Mitilicultores e ostreicultores

A ostra serve como atrativo para vender mexilhões, uma vez que o comprador tem mais interesse pelas ostras. Em função disto, os produtores acabaram optando por cultivar mexilhões e ostras ao mesmo tempo. Através do incentivo dado pelas instituições (UFSC e EPAGRI) o cultivo de ostras popularizou-se e criou condições econômicas para todos os produtores.

Perfil dos maricultores

As comunidades pesqueiras caracterizam-se por sua economia baseada na pesca, que representa 71,20% da atividade principal dos produtores. O que se percebe através dos dados coletados é que tanto nas comunidades pesqueiras do Sul quanto nas do Norte da Ilha, os produtores mostram-se preocupados em assumirem outras atividades profissionais. Isso se dá por conta do incentivo financeiro dado pelo governo para ser aplicado no cultivo, e também pelo fato de que os produtores que assumem a pesca como atividade principal têm seus empréstimos liberados com facilidade. A faixa etária dos maricultores catarinenses se concentra entre 31 e 50 anos de idade e 76,66% dos produtores têm no mínimo 1º grau completo. Apenas 14 deles possuem curso superior, com formação em áreas diversas.

Na atividade, em toda a Ilha, predomina o sexo masculino, correspondendo a 92,22% dos maricultores. As mulheres, entretanto, já encaram a atividade pesqueira como profissão, dedicando-se especialmente ao desenvolvimento e ao comércio de alimentos congelados semi-prontos, aproveitando na culinária os produtos que não alcançam o tamanho preestabelecido para a venda “in natura”.

É importante registrar que a visão das mulheres tem influenciado na gestão dos negócios. A postura feminina no gerenciamento das dificuldades domésticas contribui sobremaneira à atividade, podendo conferir um diferencial competitivo na industrialização do produto.

Necessidade de informação

Embora os maricultores já possuam o conhecimento tradicional de como cultivar, comercializar e negociar o produto, afirmam que sem a informação baseada na literatura e sem a ajuda de especialistas na área, é muito complicado competir, uma vez que hoje, seus concorrentes não são apenas os pescadores nativos, mas empresários de outras áreas que estão investindo nesse mercado.

Os produtores recebem por parte dos especialistas da UFSC e da EPAGRI todo o treinamento técnico para instalação de seus negócios, mas ressentem-se de que não há uma assistência contínua que torne o gerenciamento e a execução mais competitivos. Querem estar mais informados no que tange ao setor, e os interessa todo assunto que atender as necessidades para alavancar seus negócios. Conhecimentos sobre mercado, finanças, estatísticas, legislação, produtos similares, fornecedores, além de tecnologia são aspectos que devem ser considerados. Segundo os produtores existem necessidades de informação em todas as esferas. Desde dados estatísticos de produção e informações sobre cultivo, até gestão de negócios, técnicas de manejo, aquisição de materiais e assistência técnica.

Dessa forma, a pesquisa concluiu que os produtos e serviços de informação que atenderiam às necessidades das comunidades pesqueiras de mitilicultura e ostreicultura em Santa Catarina e que se constituem no objetivo geral desta pesquisa, são:

• A produção de documentários em vídeo com relatos de experiências dos maricultores;
• Disponibilidade na Internet de relatos de experiências, uma vez que os filhos dos produtores já utilizam computadores para auxiliar os pais neste tipo de busca em redes de informação;

• A produção de Programa interativo pela TV local voltado ao setor, onde os produtores possam levar seus problemas, discuti-los e trocar experiências junto com especialistas;

• Programa interativo pelo rádio, um meio de comunicação que acompanha mitilicultores e ostreicultores e faz parte de suas vidas. O rádio permite que os maricultores se mantenham atualizados sem que precisem parar o trabalho e faz parte da cultura dos produtores, que ouvem e participam dos programas comunitários.

Por fim, em vista na formação biblioteconômica e área de atuação técnica que a pesquisadora exerce fica evidente a sugestão da implementação também de um Núcleo ou Centro Referencial de Informação de Mitilicultura e Ostreicultura, com toda a informação na área existente no país, organizada e com recursos tecnológicos disponíveis sem valor agregado, para que o pescador artesanal sinta-se realmente motivado a buscar informações que lhe auxiliem a manter o seu negócio num mercado altamente competitivo. 


As referências bibliográficas deste artigo poderão ser solicitadas ao autor através de e-mail.