Morcego pescador pode trazer grandes prejuízos aos piscicultores

Por: José Patrocínio Lopes
Athiê Jorge Guerra Santos2 e
Ruy Albuquerque Tenório3
1 – CHESF; 2 – Docente da UFRPE; 3 – Programa Xingó


O que até pouco tempo não passava de uma mera suspeita, tornou-se um fato; estudos recentes confirmaram a presença do “morcego pescador”, Noctilio leporinus, na Estação de Piscicultura da CHESF em Paulo Afonso – BA. O mamífero voador vinha trazendo grandes prejuízos aos técnicos da Estação ao reduzir a produção de alevinos em até 50%. Quem “pagava o pato” pelas perdas eram sempre os socós, os bem-te-vis e as garças brancas. No entanto, eram eles, os “inofensivos” morcegos, que durante o dia se deleitavam com o resultado das suas grandes noitadas.

A presença de aves piscívoras na Estação de Piscicultura da CHESF, em Paulo Afonso é bastante expressiva. Aqui, já por muito tempo, existem o bem-te-vi Pitangus sulphuratus, martim-pescador Ceryle sp., socó Ardeidae e a garça branca Egretta thula. É por isso que medidas de prevenção contra os ataques desses predadores são constantes na Estação, principalmente nos tanques e viveiros de primeira alevinagem.

Com a implantação do Programa Xingó, esforços foram direcionados para aumentar a produção de alevinos na Estação. No entanto, para surpresa dos técnicos, o número de peixes produzido não vinha correspondendo aos valores esperados, apesar de tomadas todas as medidas preventivas contra os predadores mais comuns da região. Vários morcegos, entretanto, eram vistos realizando vôos rasantes sobre os tanques de alevinagem, mais efetivamente a partir do pôr do sol, um fato que, aliado a queda da produção dos alevinos, trouxe à tona uma antiga suspeita da participação desses mamíferos alados na predação dos peixes. Após exaustivas observações, essa suspeita foi confirmada.

Um pouco sobre os morcegos

Os morcegos pertencem a ordem Chiroptera (aqueles que têm suas mãos transformadas em asas) e são os únicos mamíferos com capacidade de vôo verdadeiro. A importância biológica dos morcegos é imensurável, pois além de serem de grande utilidade na medicina experimental, são controladores de insetos, polinizadores e dispersores de sementes e, fornecedores do adubo guano. Por outro lado, os morcegos podem também transmitir a raiva por meio da sua saliva, principalmente os da espécie Desmodus rotundus, vulgarmente conhecida como “morcego vampiro”. Além da raiva, os morcegos podem também provocar outros tipos de enfermidades como a histoplasmose, causada por um fungo que vive no solo das cavernas e nas fezes dos morcegos e, a cromoblastomicose causada pelo Wangiella dermatidis, sendo esta última enfermidade mais freqüente no Brasil.

Das 986 espécies de morcegos existentes no mundo, somente três são hematófagas. Elas pertencem a família Desmodontidae e estão distribuídas entre os gêneros Diphylla, Diaemus e Desmodus, que são transmissores da raiva.

Os morcegos que não são exclusivamente hematófagos se caracterizam por possuírem uma grande membrana na sua parte posterior, denominada de bombacha. É uma membrana que está ligada ao corpo e que também se estende por entre as pernas do animal. Outros morcegos não hematófagos apresentam um alongamento do dorso, assemelhando-se a uma cauda.

Em geral, eles se alimentam de insetos que são prejudiciais à lavoura, e aqueles que vivem perto de corpos d’água, alimentam-se tanto de peixes como de insetos. Estes se caracterizam por possuírem os pés bastante desenvolvidos, para melhor capturar as suas presas. Pertencem a família Noctilionidae e são considerados de grande porte, pois o seu peso médio gira em torno de 65 gramas.

Ação predatória de morcegos na piscicultura

Uma vez detectada a presença de morcegos sobrevoando os tanques e viveiros de alevinagem na Estação de Piscicultura da CHESF, procurou-se detectar a sua ação predatória sobre os alevinos, bem como a identificação da espécie envolvida.

A investigação foi realizada no período entre 21/07 e 21/08/1999, onde foram utilizados seis tanques experimentais, cada um medindo 50 m2. Nestes tanques foram estocados 10.000 alevinos de Tilápia do Nilo, Oreochromis niloticus, condicionando-os assim numa densidade de 200 indivíduos por m2. Dos seis tanques, três deles foram cobertos com uma rede de multifilamentos com malha de 20 mm entre nós, enquanto os demais ficaram expostos ao ar livre (Figura 1).

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Figura 1: Tanques utilizados no exeperimento, com e sem cobertura. (Estação de Piscicultura da CHESF em Paulo Afonso – BA)

O comprimento e peso médios dos alevinos usados na investigação foram de 5,0 cm e 3,5 g, respectivamente. Para evitar a interferência de outros predadores, os tanques experimentais eram vigiados constantemente. Ao término das observações, eles foram esvaziados e os peixes contados minuciosamente. Os morcegos capturados durante a investigação foram fixados em formol e preservados em álcool a 70% e a seguir enviados para o Departamento de Biologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde foram identificados. Alguns exemplares foram dessecados para o estudo de conteúdo estomacal. Dados como dia, hora, local de captura, envergadura (distância entre as extremidades das asas), peso e sexo, também foram registrados.

A confirmação

Diariamente os morcegos eram vistos realizando vôos rasantes sobre os tanques de alevinagem. Iniciavam seus vôos logo após o pôr do sol, se intensificavam durante a madrugada e terminavam somente pela manhã, por volta das cinco horas. Especialistas do Departamento de Biologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro os identificaram como sendo da espécie Noctilio leporinus, vulgarmente conhecido como “morcego pescador” (Figura 2). Um dos exemplares capturados durante a investigação apresentava o ventre bastante distendido. Ele era do sexo masculino e pesava em torno de 56 gramas, com uma envergadura de 59 cm.

Figura 2: José Patrocínio, mostrando um exemplar de Morcego Pescador, Noctilio leporinus
Figura 2: José Patrocínio, mostrando um exemplar de Morcego Pescador, Noctilio leporinus

A análise do conteúdo estomacal nesse exemplar mostrou o limbo volumoso e pastoso, que após diluído em água e filtrado, revelou a presença de pequenas escamas, certamente oriundas dos alevinos ingeridos. Em uma busca ao redor dos tanques experimentais que permaneceram descobertos foram encontrados ainda alguns peixes mortos, em geral descabeçados.

O índice médio de sobrevivência nos tanques que permaneceram cobertos foi de 91,96%, enquanto que naqueles expostos aos ataques dos morcegos foi de apenas 48,33%. (Tabela e Figura 3).

tabela

Figura 3: Percentual de sobrevivência dos alevinos nos tanques cobertos (Tc) e nos descobertos (Td)
Figura 3: Percentual de sobrevivência dos alevinos nos tanques cobertos (Tc) e nos descobertos (Td)

Estas parecem ser as primeiras informações sobre a predação do morcego pescador em Paulo Afonso e conforme as experiências demonstradas, tais morcegos podem causar estragos significativos aos produtores de alevinos ou de ‘alevinões’ da região. Durante toda a investigação, não se constatou a presença de aves nem de outros animais predadores nos tanques experimentais, exceto os morcegos. Exorta-se, portanto, que estes animais sejam inseridos entre aqueles predadores de elevado potencial e que medidas de prevenção sejam tomadas imediatamente, ao primeiro sinal de sua presença.

Embora não tenha sido alvo da investigação, acredita-se que uma simples cobertura com cabo de nylon monofilamento, disposto em forma de “zig-zag” sobre o viveiro, poderá também diminuir satisfatoriamente a ação predatória desses mamíferos voadores.