Nodipecten nodosus

Efeitos da densidade de estocagem no desenvolvimento, produção e sobrevivência do pectinídeo Nodipecten nodosus em cultivo suspenso na Enseada do Sítio Forte, Ilha Grande – Angra dos Reis – RJ

Por: Júlio César L. Avelar e-mail: [email protected]
Coordenador do Programa de Maricultura da Prefeitura Municipal de Angra dos Reis
Luiz Alberto Marques Fernandes, e-mail: [email protected]
Extencionista da FIPERJ – Fundação Instituto de Pesca do Rio de Janeiro

Este artigo é o resumo do trabalho apresentado no último SIMBRAq realizado em Florianópolis, SC


Vários estudos indicam que nas regiões temperadas e boreais, o crescimento dos pectinídeos é mais determinado pela disponibilidade alimentar do que pela temperatura ambiente. Nas regiões tropicais, entretanto, pouco se conhece sobre as relações de crescimento com as condições ambientais, e vários fatores indicam que podem haver relações diferentes das encontradas nas regiões temperadas. Vários autores afirmam que os pectinídeos mantidos em cultivos suspensos em condições ambientais favoráveis, têm suas taxas de crescimento reduzidas devido ao excesso de incrustação nas estruturas de confinamento, provocando redução no fluxo de água, e a competição intra-específica pelo alimento e oxigênio. Outros relacionam a redução de crescimento e deformações dos animais de cultivo com as densidades de acondicionamento. Não resta dúvida que um dos fatores mais importantes no manejo é a densidade com que se mantém confinados os organismos durante as diferentes etapas de cultivo e, sob o ponto de vista de otimização, a densidade é uma variável de decisão que é manejada pelo aqüicultor.

Este estudo buscou conhecer a influência da densidade de estocagem de vieiras Nodipecten nodosus sobre o desenvolvimento e a sobrevivência dos animais cultivados, de maneira a subsidiar um posterior estudo de viabilidade técnico-econômica aplicado a um modelo de cultivo em escala comercial.

ILHA GRANDE

Os experimentos foram realizados na Ponta da Aripeba, na Enseada do Sítio Forte, na parte central da Ilha Grande voltada para o continente. Um local protegido, de baixa energia, com uma profundidade de aproximadamente 15 metros e o fundo constituído de areia e argila. O sistema de cultivo utilizado foi o flutuante do tipo long line de superfície, com a utilização de “lanternas japonesas” de cinco níveis. As lanternas foram dispostas a uma profundidade de aproximadamente 8 metros. As sementes foram obtidas no Laboratório do Instituto de Ecodesenvolvimento da Baía de Ilha Grande – IED-BIG em 22/09/99 e acondicionadas em densidades denominadas alta, média e baixa, sendo que os números iniciais de indivíduos foram 300, 150 e 100, respectivamente. A duração do experimento foi de um ano, encerrando-se no dia 21/09/00, quando todos os animais foram selecionados em classes de tamanho, com um intervalo de 10 mm.

Nos experimentos realizados, simulou-se situações de cultivos comerciais, com realização do processo de desdobre, onde as densidades de estocagens dos animais foram reduzidas mensalmente em 50 % da população. Inicialmente, foram utilizadas lanternas com malha de 4 mm e, após o segundo mês de cultivo, os animais foram transferidos para lanternas de malha 15 mm.

A biometria inicial foi realizada em uma amostragem aleatória de 100 indivíduos e, posteriormente, foram realizadas mensalmente sobre um percentual de 25 % da população existente, para cada classe de densidade. Considerou-se como parâmetros de desenvolvimento o comprimento da concha do animal (eixo antero-posterior), a taxa de sobrevivência e o número final de animais em tamanho comercial, distribuídos por freqüência de classes.

O manejo mensal dos animais consistiu na retirada das lanternas da água, limpeza das conchas com a retirada dos incrustantes, contagem dos animais vivos e mortos, medição do comprimento da concha com um paquímetro, desdobre no número dos animais e conseqüente retorno para novas lanternas. Os desdobres foram realizados até atingir 18, 10 e 6 animais para cada nível de lanterna, considerando as densidades alta, média e baixa, respectivamente.

Resultados e Discussão

O comprimento médio dos animais no início do experimento foi de 15,91 mm. Após um ano de cultivo, os valores médios foram de 83,53 mm, 91,94 mm e 93,58 mm para os animais que se encontravam em densidades alta, média e baixa, respectivamente. Com isso, obteve-se uma taxa de crescimento de 67,62 mm para as animais com densidade alta, 76,03 mm em densidade média e 77,67 mm em densidade baixa, obtendo-se uma taxa de crescimento diário final de 0,1863 mm, 0,2094 mm e 0,2140 mm, respectivamente. As tabelas 1,2 e 3 apresentam os resultados estatísticos obtidos nas biometrias mensais.

Tabela 1 – Resultados estatísticos das biometrias mensais (em mm) –Densidade Alta / C.M. - Crescimento médio entre biometrias subseqüentes T.C. – Taxa de crescimento diário no período
Tabela 1 – Resultados estatísticos das biometrias mensais (em mm) –Densidade Alta / C.M. – Crescimento médio entre biometrias subseqüentes T.C. – Taxa de crescimento diário no período

 

Tabela 2 – Resultados estatísticos das biometrias mensais (em mm) –Densidade Média
Tabela 2 – Resultados estatísticos das biometrias mensais (em mm) –Densidade Média
Tabela 3 – Resultados estatísticos das biometrias mensais (em mm) –Densidade Baixa
Tabela 3 – Resultados estatísticos das biometrias mensais (em mm) –Densidade Baixa

Observa-se que as taxas de crescimento entre os experimentos com densidades médias e baixas são muitos próximas (1,64 mm), indicando que os efeitos destas densidades são muito pouco significativos, porém, quando comparados com o experimento de alta densidade, verifica-se diferenças de 8,41 mm e 10,05 mm para os experimentos de média e baixa densidade, respectivamente. Ao final do experimentos com alta, média e baixa densidade, encontramos, respectivamente, 256, 135, e 84 animais sobreviventes, e taxas de sobrevivência de 85,3 %, 90 % e 84 %. Curiosamente, os animais que encontravam em menor densidade é que apresentaram menor taxa de sobrevivência, apesar das diferenças serem pequenas.

A Tabela 4 nos dá a distribuição de freqüência por classes de tamanho, considerando o intervalo entre classes de 10 mm de comprimento e sua equivalência percentual. Considerando que o tamanho comercial é acima de 80 mm, os resultados percentuais para as densidades altas, médias e baixas foram de 58,2 %, 83,7 % e 86,9 % respectivamente. No experimento com alta densidade, verificou-se a presença de animais atrofiados, embora com um baixo percentual (2,3 %).

Tabela 4 – Distribuição de freqüência por classe de tamanho
Tabela 4 – Distribuição de freqüência por classe de tamanho

Não foram realizados os testes de significância entre os valores médios obtidos, uma vez que objetivou enfocar os resultados de modo a subsidiar uma posterior análise econômica, chegando a um modelo que permita ao produtor auferir maiores lucros através do aumento de sua produtividade. Cabe lembrar que apesar dos animais cultivados sob condições de alta densidade terem seu desenvolvimento reduzido, isto significa utilizar um menor número de lanternas, o que resulta um menor custo no sistema produtivo. Por outro lado, animais maiores possuem um maior valor de mercado, possibilitando compensar um maior investimento em lanternas.

Conclusão

Os resultados obtidos no presente estudo indicaram que quanto maior a densidade de estocagem menor é a taxa de crescimento dos animais cultivados, provavelmente relacionada à competição intra-específica pelo alimento.

Esta mesma relação não foi observada quanto à sobrevivência dos animais, uma vez que os animais sob menores densidades apresentaram relativamente maior índice de mortalidade, embora muito próximo aos dos animais que se encontravam sob alta densidade. A distribuição dos animais em classes de tamanho demonstrou um maior percentual de animais em tamanho comercial nos tratamentos com média e baixa densidade.

A priori, os melhores resultados conjunturais, levando-se em conta o crescimento, sobrevivência e percentual de animais em tamanho comercial, foram encontrados no experimento relativo à densidade média, ou seja, iniciada com 150 animais por nível de lanterna.

Ressalta-se, entretanto, que para se obter a melhor densidade de cultivo em escala comercial, há que considerar os parâmetros econômico-financeiros, assim como os demais fatores inerentes à atividade.