Notícias da Ranicultura

Tiramos a rã do Brejo: e agora?

As principais causas da mortalidade dos rãs ao longo do desenvolvimento da ranicultura foram identificadas pelo médico veterinário Marcio Hipólito, pesquisador do Instituto Biológico (e-mail: [email protected]). Na fase inicial, diz ele, as principais causas estavam relacionadas com a limpeza e a higienização do ranário, onde o pensamento comum era de que a rã-touro poderia ser criada confinada como se estivesse em um brejo, onde faltavam os princípios básicos de limpeza, higienização e qualidade da água, e onde se manifestavam constantemente as septicemias pela presença de bactérias, que encontravam no ambiente sujo um local propício para seu desenvolvimento. Segundo Hipólito, este tipo de criação somente se tornou viável a partir das ações de limpeza, circulação da água, diminuição de resíduos orgânicos nos tanques e a utilização de desinfetantes, que conseguiram minimizar, em muito, os casos de mortalidade.

Na segunda fase, já com a limpeza sendo bem aplicada, surgiram os casos de mal-formação e defeitos associados à consangüinidade, que foram posteriormente resolvidos através de um pleno manejo zootécnico.

Na fase seguinte, segundo o pesquisador, a maior parte dos casos de mortalidade estava associada às condições de abrigo e espaço para os animais, onde predominavam lesões de pele, fraturas e traumatismos. Com o desenvolvimento de sistemas de criação mais voltados para as rãs do que para os ranicultores, foi possível propiciar ambientes saudáveis e acolhedores para os animais, favorecendo o seu pleno desenvolvimento.

Na quarta fase, atual, houve uma súbita diminuição de mortalidades decorrentes das falhas no manejo higiênico, onde a mortalidade por bacteremia foi praticamente descartada. Da mesma forma, os casos de traumatismo e lesões de pele são mínimos, em decorrência do desenvolvimento de novas propostas de instalações, além do reconhecimento da importância da qualidade da água. Com os avanços das atividades higienizadoras e de manejo reprodutivo/zootécnico, as atenções voltaram-se para as lesões localizadas e freqüentemente associadas aos aspectos alimentares. Para Marcio Hipólito, atualmente o que mais chama a atenção são as graves alterações que afetam a textura, tamanho, cor e forma do fígado, havendo também comprometimento do coração, rins e intestinos. Essas lesões estão associadas a processos de intoxicação, envenenamento, micotoxicoses (aflatoxinas), deterioração da ração e deficiência protéica.

A ração pronta veio para ficar, mas muito ainda deve ser feito para minimizar ou evitar estes casos atuais de mortalidade, diz Hipólito. Cuidados básicos com a qualidade da matéria-prima, produção, transporte e conservação devem ser sempre, e rigorosamente seguidos para não fazer do alimento um grave agente agressor. Hipólito chama a atenção ainda para o fato da rã-touro cultivada, um carnívoro por excelência, estar se transformando num onívoro por conta dos manejos zootécnicos. Isso pode estar trazendo agressões decorrentes da grande presença de proteína vegetal na composição das rações. Os animais estão sendo selecionados pelo porte e precocidade, diz ele, indagando até que ponto não deveriam também estar sendo selecionados pela eficiência das suas funções hepáticas. Na moderna ranicultura, diz Hipólito, o alimento está sendo o principal entrave sanitário. Tiramos a rã do brejo, demos casa, água e família, mas ainda não acertamos o menu.

Inauguração – Está prevista para março a inauguração do entreposto da Coopercramma – Cooperativa Regional dos Piscicultores e Ranicultores do Vale do Macacu e Adjacências, localizado em Japuiba, distrito de Cachoeiras de Macacu, no Estado do Rio de Janeiro. Luiz Roberto Mendes de Moraes, diretor financeiro da cooperativa, está otimista com o início do funcionamento do empreendimento, cujas obras, iniciadas em julho do ano passado, deverão custar cerca de R$ 800 mil quando seus 300 m2 de área operacional estiverem concluídos. Para a realização do projeto, os associados contaram com a importante ajuda de R$ 579 mil provenientes da Fundação Banco do Brasil. O entreposto da Coopercramma será o segundo abatedouro de rãs a operar com SIF no Estado do Rio de Janeiro e, além dele, somente a Rander, em Brasília, tem certificação federal para também abater peixes e rãs. A cooperativa possui atualmente 64 associados, sendo 26 deles ranicultores. Segundo Izolda Martins Viriato, presidente da cooperativa, um acordo de cooperação está sendo preparado junto ao governo estadual e será fundamental para o sucesso do empreendimento, na medida que permitirá que haja o compromisso da compra, por parte da cooperativa, de 50% da produção de todos os produtores dos municípios da baixada litorânea do Rio de Janeiro e região metropolitana que vierem a tomar recursos do Programa Moeda Verde Multiplicar, do Governo do Estado. São recursos bastante atrativos, com juros de 2% ao ano. A logística de funcionamento está montada e para isso a Coopercramma já conta com dois caminhões; um para transporte de peixes vivos nas fazendas e um segundo baú frigorificado para o transporte e distribuição dos pescados e rãs processados ao mercado consumidor.

Sopa Instantânea – Além das pesquisas com o couro das rãs, de onde extrai substâncias valiosas como a queratina – em pó e em lâminas, e o colágeno, a Associação Oisca-Brasil está desenvolvendo uma sopa em pó instantânea feita com as partes descartadas ao longo do processamento das rãs. Segundo Maria de Lurdes de M. Velly, coordenadora de pesquisa da Associação, a composição cuidadosa da sopa já está praticamente definida, com testes sendo realizados através de médicos associados ao projeto. A sopa é destinada a atender, principalmente, pessoas alérgicas ou HIV positivas, sendo também uma excelente opção para alimentação infantil. O endereço eletrônico da pesquisadora é: [email protected]

Fotoperíodo – Acaba de ser defendida a primeira tese de mestrado com a rã-touro no Instituto de Zootecnia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ. O trabalho “Efeito do Fotoperíodo no desenvolvimento de girinos de rã-touro, Rana catesbeiana SHAW, 1802”, defendido em 01/03/2002, foi realizado pela zootecnista Andréa Ceccecheto Bambozzi ([email protected]) e teve como professor-orientador o biólogo José Teixeira de Seixas Filho.

Tiroxina e girinos – A ranicultura vem ganhando espaço entre os jovens pesquisadores. No próximo XIII Encontro de Biólogos (XIII CRBIO) que acontecerá em março, em São Paulo, a ranicultura estará representada pela recém formada zootecnista Fernanda Menezes e bióloga Danielle Dias, que apresentarão um trabalho sobre “O uso da tiroxina em girinos de rãs-touro” recentemente realizado no Instituto de Pesca – SP. Mais informações sobre o tema, bem como sobre os cursos “Introdução a ranicultura”, realizado pelo Instituto de Pesca para a formação de novos produtores que queiram ingressar na área, podem ser obtidas no IP através do telefone (11) 3871-7548. As datas agendadas para este ano são: 9/03/2002, 8/06/2002 e 21/09/2002.

Universidade de Leon – O interesse sobre a criação de rãs e as técnicas de criação desenvolvidas no Brasil continua despertando a curiosidade de pesquisadores estrangeiros. O Instituto de Pesca receberá, em setembro próximo, a visita da pesquisadora espanhola Mônica Real da Universidade de Leon. O objetivo será o de aprofundar os conhecimentos na área de ranicultura, trocar informações e abrir portas de comunicação e contatos para futuras parcerias.