Notícias & Negócios On-line – Edição 162

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Custo de produção de peixes também caiu?

Estudo da Embrapa informa que, do custo de produção de aves e suínos caiu 30%. Da produção total, a alimentação representa 66% em aves e 73% em suínos. Esta faixa de 60-70% do custo total está compatível com o patamar geralmente considerado para peixes em cultivo semi-intensivo ou intensivo. O custo caiu em peixes também? Grande parte da produção brasileira de gado é bovino criado a pasto, com menor custo e a atual imagem de ser mais natural e puro. E quanto aos peixes? Há potencial para comercializar um peixe “vegan”, só alimentado com vegetais? Por exemplo, a carpa capim e a tilápia rendalli, que podem ser criados com capim.

De: Delgado Jr
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Assunto: Re: Custo de produção de peixes também caiu?

Já tem saca de milho a 16 reais, e havia chegado a mais de 45. Já havia pensado numa criação de peixe mais “natural”. Alguém já viu algum estudo nesta área?

De: Luiz Claudio de Paula Costa
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Assunto: Re: Custo de produção de peixes também caiu?

Aqui em São Paulo, na região de Paraibuna o preço da ração de 32% de proteína já está abaixo de 39 reais o saco de 25 kg já colocado na piscicultura, uma queda de quase 15% no preço antes praticado, reflexo desta baixa do milho. Tristeza para o produtor de milho, alegria para o piscicultor.

De: Manoel Xavier Pedroza Filho
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Assunto: Re: Custo de produção de peixes também caiu?

Envio em anexo um documento elaborado por mim e colegas da Embrapa Pesca e Aquicultura onde apresentamos custos de produção das principais espécies aquícolas do Brasil. Para responder sua pergunta sobre o peso da alimentação nos custos, com relação as 3 principais espécies (camarão, tambaqui e tilápia) a ração representa em média 75-80% dos custos de produção (ver tabela da página 8 do documento). Ou seja, o peso da ração é maior na piscicultura se comparado com aves e suínos. Mais informações sobre custos de produção da aquicultura podem ser obtidos no website da Embrapa: https://www.embrapa.br/pesca-e-aquicultura/publicacoes/ativos-da-aquicultura

De: Jean Schuller
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Assunto: Re: Custo de produção de peixes também caiu?

Segue os custos de produção de alguns lotes e a média dos custos relacionados a produção. Tilapicultura em viveiros escavados com densidade media 6 peixe/m². Lote 1 – 62,49%; Lote 2 – 65,72%; Lote 3 – 66,38%; Lote 4 – 62,91%; Lote 5 – 63,18%, Lote 6 – 64,13%.

De: Jorge de M. Casaca
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Assunto: Re: Custo de produção de peixes também caiu?

Segue uma análise do custo de produção de três sistemas de cultivo praticados aqui no Oeste de Santa Catarina (policultivo integrado, monocultivo de tilápia e Peixe verde). Existe sim um sistema com base somente no uso de vegetais. (documento disponível em goo.gl/TCcAKH).

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: Custo de produção de peixes também caiu?

O Brasil vem passando por mudanças drásticas não só em política e na depressão econômica, mas também pela ocorrência de fatores climáticos com mudanças radicais geradas por um dos mais intensos fenômenos El Niño da história. E agora, a geada nos Estados do Sul. A oscilação imprevisível nas tendências do mercado agropecuário é consequência direta da interação daqueles fatores. O fato de a ração estar avançando no custo de produção, do patamar de 60-70% para 80% (em alguns casos) torna este fator ainda mais crítico para o progresso do setor. Qualquer modificação no clima ou no preço dos insumos de ração pode ditar a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma determinada modalidade de cultivo.

De: Wagner Camis
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Assunto: Re: Custo de produção de peixes também caiu?

Não vejo como problema o custo da ração ser de 80% ou mais, desde que este custo seja competitivo. Entendo que com este nível, os acessórios/complementares (mão de obra, juvenis, alevinos, depreciação, etc.) estão menos impactantes. O que precisamos é saber os custos nas várias regiões e sistemas produtivos, pois, vejo muito produtor calculando errado e estragando o mercado.

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: Custo de produção de peixes também caiu?

Se a ração responde por 80% ou mais do custo total de produção, pode resultar numa situação de lucro. Mas significa que o produtor está absolutamente sem controle. A margem de operação com lucro é muito pequena e arriscada. É uma condição similar àquela tradicional orientação de não colocar os ovos numa única cesta. Se o fabricante aumenta o preço e praticamente todo o custo de produção está concentrado na ração, o produtor fica sem alternativa para se manter viável. Bem antes de quebrar, é melhor pensar nas alternativas ao modelo extremamente concentrado na ração, ou na energia elétrica (que também tende a subir). O “peixe verde”, equivalente ao gado a pasto, poderia ser um nicho específico para abastecer o grande número de pessoas que estão se tornando vegetarianas (“vegans”) na sociedade urbana. Se o animal de criação garantidamente só come plantas frescas, ele também se torna “vegetal” na sua constituição orgânica, e pode ser ingerido sem receio por vegans. Além do fator saudável, de que um animal criado só com vegetais sem industrialização, também não terá risco de ter recebido os supostos aditivos deletérios de ração industrial (hormônios, antibióticos, promotores de crescimento, etc.) que os spams teimam em criar fantasia, e os urbanos acreditam. E se a forragem vegetal for produzida na propriedade, como o capim elefante ou napier, o custo é controlável pelo produtor, que também acumula a margem de lucro desta etapa de fornecimento de alimentação. Em microeconomia clássica, o produtor estaria até subindo de status, por estar “verticalizando” o seu negócio. Outras complementações seriam o processamento e a venda independentes de atravessadores, e que os órgãos de extensão rural incentivam há anos.

De: Léo Grisi
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Assunto: Tilápia rendalli

A tilápia rendalli pode ser criada apenas com capim. Sei que houve – há tempos – uma tentativa de criação comercial, que acabou abandonada, não sei exatamente a razão. Talvez seja uma alternativa para o momento. Alguém da lista saberia me informar onde encontro alevinos dela? Ou até mesmo peixes adultos, a partir dos quais eu possa produzir os alevinos?

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: Tilápia rendalli

A tilápia rendalli ou vermelha foi a primeira introduzida no Brasil; em 1954, se não me engano. Naquela época, não existia ração comercial para peixes (ou mesmo para os outros animais domésticos), e o boi vivia solto e comia capim, de modo que a tilápia introduzida foi a espécie que se alimentava sozinha de capim e outros vegetais. Tanto que, nos anos 60 a 80, a pescaria de tilápia era feita com isca de capim amarrado no anzol e a ceva era um chumaço de capim na ponta de uma vara; alguns brotinhos como eu devem se lembrar. Sim, na natureza ela come basicamente vegetais. Tem dentes faringianos capazes de triturar e cortar o caule dos vegetais tenros; a carpa capim também. A tilápia rendalli tem uma imensa capacidade adaptativa, e sob condições de escassez de alimento, pode atingir rapidamente a maturação sexual e se reproduzir. Ou seja, sob situação de risco de sobrevivência para a população, ela antecipa e otimiza a propagação da espécie, de modo a que pelo menos alguns dos muitos indivíduos gerados consigam sobreviver ao evento causador do estresse ambiental. O resultado é que, sem manejo, a rendalli se torna abundante mas predominantemente de indivíduos pequenos. Assim, a rendalli pode atingir 1,5 kg de peso, mas é comumente pescada com cerca de 200g em tanques de pesca recreativa. Ou em tanques superlotados, com poucos cm. Seria necessário testar formas de manejo de produção de rendalli geneticamente estéril (triplóide) ou em população monosexo (reversão ou supermacho YY). Creio que isto nunca foi tentado, por ter surgido depois a tilápia nilótica. Por isso, o cultivo da rendalli ainda careceria de desenvolvimento. Já outra espécie herbívora de valor comprovado e pronta para cultivo é a carpa capim, ou Amur Branco – por ser originária do Rio Amur na Rússia. Vai bem desde clima frio ao tropical. Cresce muito rápido, o corpo tem o formato de um torpedo, chegando a quase 1,5 m de comprimento e 50 kg de peso. Seria um correspondente ao pirarucu da Ásia, mas diferindo do pirarucu nos atributos aquícolas de ser herbívora e facílima de reproduzir aos milhões (somente por reprodução induzida, sem a superpopulação da tilápia). É um peixe magro, formado por um bloco de músculo branco – que pessoalmente considero ser uma das espécies mais saborosas de peixe. Pena que, por ser da família ciprinidae, a mesma da carpa comum, ganhou no ocidente o nome pejorativo de “carpa capim” – que representa um anticlimax para o seu marketing. Uma vantagem extra de cultivar peixes herbívoros como a tilápia rendalli e a carpa capim é que, para poder digerir a matéria vegetal num prazo não muito longo, e a absorção dos nutrientes sendo parcial, uma parte dos nutrientes é liberada nas fezes. Com isso, estas espécies se transformam em adubadoras naturais do viveiro, transferindo para a cadeia alimentar, nutrientes de plantas que não seriam aproveitáveis por outras espécies de peixes. E por esta razão, os chineses criaram a integração de espécies de nichos alimentares distintos numa mesma criação. E que nesta era pós-moderna é chamada de cultivo multitrófico – como gostava de lembrar o saudoso Alexandre Wainberg. A criação de peixes em Santa Catarina está muito calcada neste princípio, adaptado com sucesso no Brasil pela EPAGRI.

De: Léo Grisi
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Assunto: Re: Tilápia rendalli

Há um problema aqui em Brasília. A carpa (qualquer variedade) não é bem aceita. Não tem comprador – nem no atacado, nem no varejo.

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: Tilápia rendalli

Sim, a carpa comum, Cyprinus carpio, tem historicamente imagem ruim em quase todo o Brasil, à exceção de SC e RS, pela sua tradição culinária européia. E segundo um trabalho do Prof. Petrere, a rejeição à carpa comum também ocorre no Lago Paranoá. Em contraste, a carpa prateada, Hypophthalmichthys molitrix, pescada no mesmo Lago Paranoá, é considerada especial e está dentre os peixes localmente mais caros: “Species such as the silver carp, tambaqui, piapara and African catfish are considered special as they are the most expensive on the market”. Exatamente por esta razão é que eu fiz questão de frisar anteriormente, que a designação “carpas chinesas” degrada a imagem das três saborosas espécies de peixes que pertencem à família dos ciprinídeos, mas são muito distintas da carpa comum: a carpa capim, a carpa prateada e a carpa cabeça-grande (a primeira herbívora e as outras duas filtradoras de plâncton). Me permita colocar esta situação de imagem em perspectiva. Existem dois grandes grupos de peixes de escama de água doce no mundo: os peixes Cypriniformes e os Characiformes. Os peixes cipriniformes são nativos da Europa e Ásia (exemplos: zebrafish/paulistinha, carpa, kinguio, dojoos, etc.), e seus descendentes originaram os peixes caraciformes nos continentes Americano e Africano (exemplos: lambari, dourado, tambaqui, traíra, curimbatá e grande parte dos peixinhos e peixões de escama de nossos rios e lagos). Ciprini e Caraci são grupos irmãos de peixes, ambos com uma tremenda capacidade de adaptação para explorar cada fonte de alimento do ambiente. E graças a tal capacidade adaptativa, evoluíram formando numerosas famílias e espécies que aproveitam nichos ecológicos muito específicos. Por exemplo, no Brasil, existem espécies de piranha especializadas em se alimentar exclusivamente de escamas de outros peixes. Para isso, elas evoluíram tamanho pequeno, grande agilidade e atuação solitária, para chegar perto da presa e dar uma bicada nele, arrancando a escama e fugindo. Outra piranhinha faz o mesmo tipo de assalto, mas da ponta da cauda dos peixes incautos. Outras são os conhecidos predadores carniceiros que atacam em cardume. Mas, na mesma família de peixes, temos o tambaqui, um pacífico e lento peixe que cresce até 30 kg, herbívoro, com uma mandíbula forte para quebrar coquinhos; e por precaução, tem uma rede de plâncton nas brânquias para os momentos difíceis nos lagos.

De: Léo Grisi
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Assunto: Re: Tilápia rendalli

Não concordo com a afirmativa:  “Species such as the silver carp, tambaqui, piapara and African catfish are considered special as they are the most expensive on the market.” A carpa prateada e o bagre africano não são bem aceitos aqui no DF. Muita gente acha o tambaqui muito gorduroso e poucas pessoas conhecem o piapara. O resumo é que, juntando as quatro espécies calculo que não dá nem 30% do consumo de tilápia. E o preço da tilápia é maior que o preço das quatro espécies citadas. Em tempos de crise, o consumo de carne de peixe caiu verticalmente e a preferência da parcela da população que ainda consome migrou para peixes do mar, muito mais baratos. Por isso me interessei pela rendalli, já que a carpa não tem aceitação por aqui. O sistema de policultivo integrado (MAVIPI) é proibido pelo IBRAM no DF (e, pelo que sei, em todo o país, à exceção de SC, onde foi autorizado pela Justiça Estadual, em ação movida por dois criadores). Mas, mesmo autorizado, só seria viável com a suinocultura associada, o que é um problema.

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: Tilápia rendalli

Considero que tanto a observação do Léo sobre a aquisição das quatro espécies como a constatada no trabalho do Prof. Petrere sejam válidas, pois talvez o universo das observações seja diferente. Os pescadores artesanais vendem localmente, e quem na comunidade já aprecia o sabor delas acaba comprando. Já no universo do Léo, de vender no mercado tradicional, vale o que é mais conhecido do público, especialmente a tilápia, que representa 85% da captura pelos pescadores do Paranoá, segundo o trabalho do Petrere, coincidindo com a sua avaliação. Os restantes 15% da pesca seriam das outras espécies, em captura incidental, sem que elas sejam o alvo da pescaria. Impressionante o peixe do mar barato ter substituído os de água doce aí no Planalto Central durante esta grave crise no país. Daqui de fora de Brasília, a gente só recebe notícia dos jantares e hotéis apreciados pelos políticos nos conchavos.

De: Alexandre Honczaryk
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Assunto: Re: Tilápia rendalli

Na Flórida já há 30 anos é permitida a produção e liberação de carpa capim nos canais das terras baixas, desde que geneticamente modificadas para não ocorrer reprodução na natureza e manter os canais livres de plantas aquáticas indesejáveis.