NOTÍCIAS & NEGÓCIOS ON-LINE | Edição 164

 

De: Guilherme Campos
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Assunto: S. agalactiae em peixes
Estudo recentemente publicado no periódico Scientific Reports demonstrou que no Brasil há três diferentes grupos genéticos de Streptococcus agalactiae acometendo tanto a tilapicultura como a produção de pintado-da-amazônia no país. Essa diversidade é geograficamente distribuída, sendo dois grupos identificados principalmente na região Nordeste, enquanto que o outro grupo é predominante na região Centro-Sul do país, sendo que este último também diverge de qualquer outro padrão genético identificado em outros países do mundo. Além disso, o estudo também revelou a transmissão desses grupos genéticos entre as Regiões (Nordeste e Centro-Sul), associado com a comercialização de peixes.

De: Luiz Claudio de Paula Costa
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Assunto: Re: S. agalactiae em peixes
Quando começamos, usávamos pasta de alho com a ração para tratamento de infecções bacterianas nas tilápias, mas com o crescimento da piscicultura tornou se mais econômico e eficaz o tratamento com oxitetraciclina do que com o alho.

De: Paulo Rocha
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Assunto: Re: S. agalactiae em peixes
Já está mais do que comprovado que o uso de extratos naturais (óleos essenciais) associado a ácidos orgânicos, potencializa a ação contra Streptococcus. Usar antibiótico antes e depois da vacinação, a meu ver, só debilita mais o animal. Usar de forma preventiva e constante óleos essenciais mais ácidos orgânicos de forma correta pode mudar completamente o perfil de uma propriedade. A pasta de alho não pode ser comparada a óleo essencial associado a ácido orgânico.

De: Arthur Fernandes
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Assunto: Re: S. agalactiae em peixes
Uma pergunta de validade para os produtores seria sobre o quão diferente são esses três grupos de S. agalactiae. Por mais que o estudo tenha identificado grupos geneticamente diferentes, algo importante que não é abordado seria sobre diferenças funcionais. Ou seja, as diferenças se encontram em genes que estão relacionados à patogenicidade das cepas classificadas em cada grupo? Ou estariam relacionadas à resistência das mesmas cepas a específicos antibióticos ou vacinas? Ou são simplesmente diferenças que surgiram devido a separação geográfica e ao acaso, sendo de importância biológica, mas sem importância comercial? Essas perguntas práticas de interesse dos produtores podem ser respondidas por estudos que deem sequência aos seus resultados Guilherme. E eu imagino que o Carlos (Leal) e o restante do grupo (da UFMG) estejam realizando esse estudo ou pelo menos planejando.

De: Guilherme Campos
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Assunto: Re: S. agalactiae em peixes
Eu tenho lido artigos sobre estreptococose em peixes há pelo menos seis anos e claro, li artigos demonstrando a eficiência de óleos essenciais de plantas, ácidos orgânicos e probióticos que aumentam a resistência da tilápia ou outros organismos aquáticos à infecção por Streptococcus agalactiae. Dentre estes, li artigos bons e outros infelizmente com falhas, pois usam isolados obtidos de outros hospedeiros, como S. agalactiae obtido de ser humano ou bovino, por exemplo, que geralmente (dentro de tudo que já foi publicado até a presente data) não causam doença em peixes. Ou, quando testam um isolado obtido de peixe, não é uma cepa bem caracterizada, com uma dose letal média definida, que poderia sim evidenciar uma diferença entre um grupo controle e um testado. Mas mesmo assim, com o uso de fitoterápicos, antibióticos e vacinas, será que nossos peixes estarão protegidos de uma população de S. agalactiae tão diversa? O trabalho que eu citei, que inclusive sou co-autor, e que realmente acredito que deve ser divulgado para todos os produtores e profissionais da área, devido a importância que este patógeno tem na produção nacional de tilápia, demonstrou uma ampla diversidade do patógeno, e olha que esses são dados de apenas um laboratório, dentre os muitos presentes no Brasil. A realização do ensaio de MLST, também conhecido como sequenciamento de Multilocus, poderia permitir a comparação dos genótipos entre os laboratórios, e realmente demonstrar o quão diversa é a população de S. agalactiae no Brasil. Mas é uma metodologia infelizmente cara, o que dificulta tal comparação.

Eu também já li que no final do ano passado, outro grupo de pesquisa do Estado do Paraná isolou esta bactéria de tilápias cultivadas no Estado do Piauí, com um perfil genético diferente aos já identificados no Brasil (sorotipo III, e no país era predominante o sorotipo Ib em peixes) e que é multirresistente aos antibióticos, entretanto nesse trabalho (https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0044848617304982) os autores não realizaram o MLST, o que seria importante, pois isolados sorotipo III pertencente ao genótipo ST283 tem sido considerado zoonótico em Singapura. Respondendo ao Arthur Fernandes, você está certo, estudos já estão sendo realizados para encontrar as principais diferenças, tanto genotípicas (presença e/ou ausência de genes relacionados com virulência, adaptação e metabolismo), como fenotípicas (resistência aos antibióticos, se causam hemólise ou não) destes 3 grupos, além de avaliar a eficácia de uma vacina frente a eles. Até então, o interessante que achamos foram genes/proteínas presentes em todos estes grupos que viabilizam a sobrevivência da bactéria em ambiente aquático, o que poderia potencializar o número de animais infectados em um determinado lote, já que esta bactéria pode ser transmitida indiretamente via água. E em ensaios in vivo (testamos até então dois isolados) uma cepa obtida de um peixe doente na Região Nordeste foi mais virulenta (causa maior mortalidade em tilápias) quando comparada com a cepa do Centro-Sul. Estamos tentando responder todas essas perguntas, inclusive avaliar a diferença entre cepas obtidas de tilápia e de pintado da Amazônia.

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: S. agalactiae em peixes
Adicionando uma questão às formuladas pelo Arthur: o S. agalactiae já impacta e causa mortalidade a peixes de ordens tão distintas como Perciformes (tilápia) e Siluriformes (pintado da Amazônia). Significa que este patógeno tão mutável (=adaptável) representa grande risco para uma grande variedade dos peixes existentes no país, incluindo as espécies nativas? Situação equivalente à de índios isolados da civilização, ao serem expostos às enfermidades comuns da sociedade humana.

De: Guilherme Campos
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Assunto: Re: S. agalactiae em peixes
Essa bactéria também foi isolada em curimba e cará em sistema de policultivo com tilápias no sul de Minas Gerais, demonstrando a sua capacidade de colonizar diferentes espécies de peixes. Entretanto ainda não se sabe se S. agalactiae causa doença nestes hospedeiros, pois ainda não foram realizados ensaios de virulência. Cabe ressaltar também que ainda não se tem relato dessa bactéria causando doença em peixes redondos, como pacu e tambaqui.

De: Marcos Domingues de Oliveira
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Assunto: Automatização
Gostaria que compartilhassem a opinião ou experiência com relação aos tratadores automatizados. Minha principal atividade hoje é relacionada com a agricultura que tem um emprego de tecnologia bastante grande e percebo na piscicultura (que tenho como atividade secundária) bastante resistência ainda de muitos produtores. O tema que gostaria de discutir especificamente hoje é com relação à automatização do arraçoamento. Por favor, compartilhem suas experiências ou opiniões.

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: Automatização
A minha opinião é de que o uso de alimentadores automatizados ainda tem baixa aplicação no Brasil. Por ser uma atividade recente no país a aquicultura ainda está se desenvolvendo, tateando o seu caminho, e contrasta com atividades da agricultura e pecuária que têm grande tradição e porte (massa crítica para investir, planejar e obter seguro). E como o porte da grande maioria de empreendimentos de aquicultura é pequeno, com manejo artesanal, o produtor individual ainda não tem certeza dos procedimentos “corretos” do setor e nem capital disponível para investir com confiança em aporte de tecnologia. Ou seja, falta convencer que efetivamente vale a pena investir neste ponto.

A água do tanque de cultivo esconde o que acontece lá submerso, em contraste a uma cultura de soja ou ao gado no pasto, os animais aquáticos permanecem invisíveis ao seu criador e não produzem nenhum som. Podem estar doentes ou inclusive terem morrido no fundo do tanque, por excesso de nitrito, sem que se possa perceber ao olhar a bela superfície refletora da água. Por isso, a prática padrão (SOP) do aquicultor é observar atentamente os seus animais no momento em que ministra o alimento, para verificar se o comportamento está normal, se há sinal de lesões no corpo, e se a quantidade ingerida nos primeiros minutos está normal. Qualquer coisa estranha neste momento é um alarme para ação.

O ato de alimentar os peixes e camarões é como se fosse uma consulta diária do psicanalista ao paciente, para “sentir” o espírito do vivente naquele momento e antecipar “imprevistos” previsíveis. Outro fator muito distinto entre agricultura/pecuária da aquicultura está na mera existência do oxigênio para aquele ser continuar vivo. Isto nem passa pelo pensamento de um agricultor/pecuarista, pois o oxigênio está sempre disponível – 21% do ar. Já em água, o oxigênio pode ser considerado praticamente insolúvel, alcançando a concentração máxima de 7 a 8 mg O2 por litro sob as nossas condições climáticas (mas na prática, está geralmente bem abaixo disto no tanque).

E as toneladas de peixe ou camarão dentro do tanque dependem daqueles poucos mg de oxigênio para sobreviver – a cada minuto, de cada hora, de cada dia do ano. Se faltar durante uma hora que seja, pode morrer, de repente, todo o esforço e investimento de meses.  Mas o que tem isso a ver com a pauta inicial de distribuição do alimento? É que a disponibilidade versus falta de oxigênio na criação é controlada pelo alimento ministrado. A ração faz com que o metabolismo dos animais consuma oxigênio, e os restos de ração não ingeridos e o resíduo do processamento do alimento no animal (fezes) constituem alimento para toneladas de bactérias crescerem e consumirem muito mais oxigênio da água. Nada disso é sequer imaginado na criação de animais domésticos tradicionais, mas faz a diferença entre sobreviver ou falir na aquicultura – no transcorrer de cada noite de verão. Além disso, o sonho maior do setor produtivo – intensificar o cultivo pelo aumento de densidade dos animais – tem seu gargalo exatamente neste ponto de manejo do alimento versus a consequente disponibilidade de oxigênio dissolvido. Aumentar artificialmente o oxigênio dissolvido em sistemas intensivos, como recirculação, raceways e bioflocos, depende de elevar bastante o consumo de energia elétrica comprada da rede pública, versus o preço de venda possível do produto gerado. Em resumo, a atividade prosaica de um aquicultor ministrar ração aos seus animais aquáticos define o futuro daquele ciclo de cultivo – sucesso ou fracasso.

Ministrar a ração constitui o momento de tomar o pulso de seus animais. Curiosamente, o uso de sensores e automação da alimentação poderão ajudar muito neste sentido. Mas além do capital necessário, num desenvolvimento ainda de fronteira de conhecimento neste setor, tais equipamentos não cobrem ainda os vários fatores que estão sendo avaliados in loco ao se fazer a alimentação dos tanques por gente. Isto lembra o ensinamento recebido do diretor operacional de um grande empreendimento urbano. Tal empreendimento é destaque mundial em tecnologia de ponta e estratégias ambientais na área de saneamento.

O esgoto coletado em um bairro escorre por gravidade até onde é possível pelo nível do terreno, e neste ponto existe uma torre de carga com bombas para bombear o esgoto para adiante, até o local do tratamento. Com isso, a área urbana tem várias torres de carga dispostas nos locais adequados para coletar e levar o esgoto no trajeto desejado. Como o esgoto transporta detritos e objetos [impensáveis], podem ocorrer problemas, como entupimento e travamento das bombas – o que requer monitoramento. Este diretor era indagado porque não automatizava o monitoramento, e ainda mantinha motoboys que percorriam as torres, registrando em cada uma, a checagem feita. Ele respondia que, ao automatizar, se passa toda a responsabilidade ao “sistema”, e isto leva a deixar frouxo o monitoramento real de ocorrências; com gente de verdade indo ao local, ele conseguia até detectar vazamento de esgoto na rua, que não seria detectável por automação tradicional. Assim, talvez o ato de ministrar a ração tenha um significado bem mais profundo na aquicultura do que em outros setores agropecuários, e por isso, uma resistência maior à automatização.

De: Wagner Camis
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Assunto: Re: Automatização
A presença humana no tratar é imprescindível. Estamos em fase final de testes de um equipo que “orienta o tratador na quantia a ser fornecida, mas não dispensa a sua presença”. Visitei várias pisciculturas automatizadas, mas que tinham a supervisão de um profissional para cortar ou continuar o fornecimento de ração. Com este procedimento de orientar o trato estamos com uma economia na ordem de 20 % na ração sem prejudicar o seu crescimento.