Notícias & Negócios On Line – Edição 61

De: Diana Gurgel Cavalcanti <[email protected]>
Para: Lista Panorama – L
Assunto: uso do Litopenaeus vannamei com isca-viva </[email protected]>

Aproveitamos esta lista de discussão para solicitar o posicionamento de profissionais relacionados com a aqüicultura/pesca, objetivando reunir informações técnicas-científicas, que venham a subsidiar o IBAMA na questão polêmica que envolve meio ambiente e aspectos sócio-econômicos, no tocante a utilização do camarão marinho, Litopenaeus vannamei. Se por um lado, temos as questões relacionadas com os impactos ambientais, por outro, surge o grande filão na cadeia produtiva da aqüicultura, pois enquanto o camarão destinado à alimentação é comercializado ao preço de R$ 12,00/kg, para isca viva chega a custar R$ 50,00/kg. Seu cultivo em gaiolas flutuantes pode vir a se tornar uma alternativa para aumento da renda dos produtores de comunidades litorâneas, porém, a “liberação” direta de uma espécie exótica no mar pode causar danos irreversíveis ao ambiente.

De: Philip C. Scott <[email protected]>
Para: Lista Panorama – L
Assunto: Re: uso do Litopenaeus vannamei com isca-viva </[email protected]>

Cara Diana, o L. vannamei está longe de ser exótico. De norte a sul é o que se produz nas fazendas de camarão marinho.Recentemente, chuvas em Natal, liberaram grandes quantidades desta espécie para o mar costeiro do país. Não obstante, não tenho notícias de estudos de impactos ambientais dos efeitos da liberação desta espécie no meio ambiente natural, empreendidos por qualquer instituição. É muito natural que o preço do camarão vendido como isca viva seja muitas vezes superior àquele do comércio, pois as quantidades negociadas são infinitamente menores, além do que o camarão tem que estar vivo, e em condições a suportar horas ao sol, ao lado do pescador amador e sua cerveja….

De: Luís André Sampaio <[email protected]>
Para: Lista Panorama – L
Assunto: Re: uso do Litopenaeus vannamei com isca-viva </[email protected]>

A discussão sobre espécies exóticas é uma constante na aqüicultura. A princípio deveria ser evitado o lançamento de uma espécie exótica no ambiente, mas quando se pensa em justiça social a coisa pode mudar de figura. Quando um fazendeiro deixa seus camarões (milhões) escapar para o ambiente, justifica-se dizendo que foi um acidente. Já quando um pescador libera sua isca (centenas) no mar, é acusado de criminoso (mais ou menos como aconteceu com o rapaz que tirou a casca de uma árvore para fazer chá). O ideal seria que o pescador que vende a isca não necessitasse usar este artifício, mas como não vivemos em um país ideal, temos que tolerar alguns problemas. Uma opção ecologicamente mais justa seria oferecer camarões nativos. Mas quem trabalha com peneídeo nativo no Brasil? Que eu saiba, só a FURG produz PL de paulensis, portanto, é pouco provável que o pessoal do Paraná ou de São Paulo possa usufruir desta produção. Sou professor universitário e trabalho principalmente com espécies nativas, mas reconheço que sem as espécies exóticas a aqüicultura praticamente não existiria no Brasil…

De: Antonio Ostrensky [email protected]
Para: Lista Panorama – L
Assunto: Re: uso do Litopenaeus vannamei com isca-viva 

Quanto à questão da isca viva, acho que os seguintes pontos precisam ser considerados: 1- Os custo de produção em tanques-rede são maiores que em viveiros e os riscos idem. Assim, não se pode estabelecer termos de comparação da produção total alcançada nesses dois sistemas. Mas, como a previsão para a produção de camarões cultivados chega a 14.000 toneladas e considerando um peso médio de abate de 13 gramas, chega-se à conclusão que o número de camarões a ser despescado dos viveiros esse ano deva superar 1 bilhão de unidades. 2- Considerando que 0,5 % desse total escape dos viveiros, por excesso de chuvas, problemas na despesca etc., teríamos um escape de quase 5.400.000 camarões. 3- Considerando um povoamento médio de 500 camarões/m2 e tanques-redes de 9 m2, o volume de camarões que escapa para o ambiente seria suficiente para povoar 1.200 tanques-rede de 9 m2, seguramente, mais do dobro da quantidade total de tanques-rede “clandestinos” existente hoje no país. Portanto, penso que há um imenso equívoco em escolher a produção de iscas vivas como a vilã da carcinicultura. Antonio Ostrensky – Grupo Integrado de Aqüicultura-UFPR

De: Alexandre Alter Wainberg <[email protected]>
Para: Lista Panorama – L
Assunto: Re: uso do Litopenaeus vannamei com isca-viva </[email protected]>

Prezada Diana, gostaria de informa-la que o IBAMA tem um documento no DEPAQ que trata sobre os impactos ambientais da carcinicultura, incluindo a introdução de espécies exóticas. Este documento foi preparado para uma discussão sobre o uso de manguezais. Os riscos estão associados a 4 possibilidades de interações: 1- Camarões cultivados de espécies nativas cruzarem com camarões selvagens da mesma espécie, podendo resultar na redução da variabilidade genética das populações naturais; 2- Camarões cultivados de espécies exóticas cruzarem com camarões selvagens, com o mesmo resultado acima mencionado; 3- Camarões cultivados de espécies exóticas se estabelecerem em um nicho ecológico ocupado por espécies nativas deslocando-as de seu habitat natural; 4- Camarões cultivados de espécies nativas ou exóticas transmitirem organismos patogênicos a espécies nativas. No caso específico do uso de juvenis de L.vannamei para isca viva deve ser dito que a carcinicultura moderna tem mais de 30 anos e não existe nenhum registro de espécies exóticas se estabelecerem em áreas geográficas diversas de seu habitat natural.As diferenças na fisiologia e etologia reprodutiva tornam tremendamente improvável que ocorra em ambientes naturais. O risco de transmissão de organismos patogênicos é real, uma vez que existem estudos que comprovam a transferência de doenças entre áreas geográficas distintas via transporte de pós larvas ou reprodutores para fins de cultivos comerciais. Recentemente, o white spot virus foi introduzido no continente americano provavelmente via camarões congelados para consumo humano, de modo que não é necessário que o vetor esteja vivo. Já foram feitos diagnósticos confirmando a presença deste vírus em populações naturais de L.vannamei no Equador, Panamá e Honduras. No entanto, deve ser ressaltado que estas contaminações patogênicas foram resultado de operações comerciais de cultivo ou industrialização que envolveram milhares de toneladas de camarão e que as populações naturais contaminadas não apresentaram redução na sua produção pesqueira conforme pode ser comprovado nas estatísticas do Equador ou Golfo do México. No caso de L.vannamei usado com isca viva para pesca artesanal o risco é insignificante dado que: 1- As quantidades são ínfimas quando comparadas as operações de aquacultura comercial para consumo humano; 2- O pescador usa de todos os artifícios para que o camarão seja ingerido na captura do peixe; 3- A fixação do camarão no anzol trás injurias físicas que tornam quase impossível a sua sobrevivência caso este se solte do anzol; Esta minha opinião também é compartilhada pelo governo dos EUA, uma vez que a produção de iscas vivas de L.vannamei é uma indústria bem estabelecida e legalizada. Entretanto, um boa política para coibir esta prática seria o IBAMA liberar e treinar os pescadores a capturar pós larvas de espécies nativas para engorda para isca viva. Se não existem laboratórios comerciais deL.vannamei no Sudeste e no Sul e se a UFSC produz uma pequena quantidade disputada a tapa pelos engordadores da região, de onde viriam as sementes para a indústria da isca viva? Com relação ao cultivo comercial em redes flutuantes, além do risco de escape para natureza ser muito maior que nos cultivos em terra, jamais ouvi falar de nenhum que fosse bem sucedido. O cultivo em redes flutuantes requer rações nutricionalmente completas uma vez que a utilização de alimento natural é muito pequena nesta modalidade de cultivo. O cultivo em viveiros, ao contrário, para produção de juvenis é bem simples pois nesta idade os camarões são resistentes e podem ser facilmente cultivados na densidade de 100/m² até 2 gramas em 50 dias com rações comerciais. Espero ter contribuído para enriquecer as discussões.

De: Luis Vinatea <[email protected]>
Para: Lista Panorama – L
Assunto: Re: uso do Litopenaeus vannamei com isca-viva </[email protected]>

Caros aquanautas: devo reconhecer que a colocação do Prof. Sampaio é acertadíssima e eu concordo plenamente com todos os seus pontos.O Brasil é um país com profundos problemas sócio-ambientais. Os problemas ambientais decorrem dos problemas sociais e, os sociais, dos ambientais. Perguntar qual problema originou o outro seria o mesmo que a história do ovo e a galinha; entretanto, quando se trata de populações humanas, uma relação parece ser verdadeira: os problemas ambientais decorrem da crise social existente numa determinada nação, seja esta rica ou pobre. Enquanto os ricos saqueiam o meio ambiente, na maioria das vezes movidos pela ganância ou para se manter num sistema tão insustentável como é o modelo econômico dominante, os pobres o fazem para não morrer de fome ou porque acariciam, como todos nós, sonhos de consumo. Já que se trata de cortar ou não o “direito” dos pescadores (leia-se marginalizado ou excluído social) de lutar pela sua própria sobrevivência/sonho de consumo, acredito seja oportuno repetir aqui as palavras do professor da UNICAMP Daniel Hogan: “em uma situação de pobreza extrema, o indivíduo marginalizado pela sociedade e pela economia nacional não tem nenhum compromisso de evitar a degradação ambiental, uma vez que a sociedade não impede sua degradação como ser humano”. Portanto, é obvio que impacto ambiental pode haver. Embora o suposto impacto não tenha sido demonstrado (ainda), isto não significa que ele não possa vir a ocorrer algum dia. Afinal, a Lei de Murphy existe e, se há a possibilidade do pior acontecer, este fatalmente acabará acontecendo… Porém, eu não teria coragem (nem moral) de impor mais um fator (Lei de proibição) de exclusão às pessoas que se “viram” com o comércio de isca viva baseada em L. vannamei. Abraços, Luis Vinatea

De: Newton José Rodrigues da Silva <[email protected]>
Para: Lista Panorama – L
Assunto: Re: uso do Litopenaeus vannamei com isca-viva </[email protected]>

Prezada Diana, o que me motiva a entrar nessa discussão é questionar mais uma vez a forma como os órgãos governamentais que tratam da questão ambiental atuam. Entendo que os aqüicultores do Estado de São Paulo são enormemente prejudicados quando comparados aos de outros estados, o que impulsiona a ilegalidade. E o mais impressionante é que dentro do Estado de São Paulo há regiões em que os aqüicultores são mais prejudicados do que em outras. Creio que é necessário estudar essa questão e fazer as propostas necessárias para que haja uma maior uniformização da atuação desses órgãos. Não sugiro a uniformização da ação pelo “liberou geral”, mas pela responsabilidade e compromisso com o desenvolvimento sustentável. Cito exemplos como: 1) Um pequeno projeto de piscicultura (2,18 ha) no município de Peruíbe, para obter a autorização do DPRN- Departamento de Proteção dos Recursos Naturais para construção de viveiros em uma área ocupada por um bananal estava desde agosto de 1999 nesse órgão e recentemente foi para o Instituto Florestal para ter parecer para então retornar ao DPRN. Ainda não saiu a autorização. 2) Um outro no Município de Itanhaém, construído em área de pastagem ocupada por búfalos, só teve autorização do DPRN após ter sido remetido ao CONDEPHAAT e ter parecer favorável desse órgão. Esse processo demorou quase um ano. 3) Um colega seu do IBAMA já avisou: “me posiciono de forma contrária ao teste de tilápia do Nilo em tanques rede no rio Preto em Itanhaém” ou “ao uso do Litopenaeus vannamei em teste em água doce no mesmo município, mesmo que acompanhado por pesquisadores e extensionistas de órgãos oficiais”. Essas dificuldades, entre tantas vivenciadas por técnicos de São Paulo, me faz crer que esse estado foi “premiado”… Newton José Rodrigues da Silva – Zootecnista – Extensionista/CATI/SAA

De: Ricardo Bristot Borges <[email protected]>
Para: Lista Panorama – L
Assunto: Re: uso do Litopenaeus vannamei com isca-viva </[email protected]>

Aproveito para tecer alguns comentários: 1- Somos produtores de camarão marinho em cativeiro, em viveiros de terra, tendo utilizado camarões de espécies nativas, o que resultou tecnicamente viável, porém economicamente inviável. 2- Após um processo de translocação de espécies, com base na Portaria Ibama 119, iniciamos o cultivo de vannamei. 3- Informo que dispomos de competente Licença de Operação emitida pelo IAP-Instituto Ambiental do Paraná específica para o cultivo de Litopenaeus vannamei. Atualmente compramos pós-larvas da UFSC, bem como o fazem os mais de 200 ha de cultivos em Santa Catarina, devidamente licenciados e em operação, dentro de um Programa Estadual de fomento específico. Em breve o CPPOM – Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos da PUC-PR, em Guaratuba, iniciará a produção de pós-larvas de vannamei também. Desta forma, o termo “clandestinamente” não deveria ser aplicado regionalmente, mas talvez individualmente. 4- Fomos visitados pelo Sr. Luiz Frosch, do IBAMA-SP, que estava cumprindo determinação do Ministério Público de SP de responder a uma série de quesitos em relação a potenciais danos causados pelo cultivo do vannamei para fins de isca-viva, no litoral de SP. 5- Segundo informação dele, o Ministério Público recebeu uma Ação Civil Pública de uma tal de Pastoral do Pescador, acusando um produtor de iscas vivas de SP de estar lhes causando um prejuízo econômico, já que os pescadores esportivos/amadores do litoral de SP preferem as iscas de vannamei por serem mais resistentes e de melhor desempenho, em detrimento às iscas de espécies nativas, ganha-pão tradicional das comunidades de pescadores, através da pesca predatória. 6- Ao receber esta informação respondi que neste “problema” eu via uma solução para estas comunidades de pescadores, para ele e para o Ministério Público de SP: a) em primeiro lugar, só por milagre o vannamei poderia fechar seu ciclo reprodutivo no Sul/Sudeste do Brasil, caso escapasse de algum tanque-rede, ou mesmo que algum pescador esportivo o soltasse no final do dia (normalmente, um camarão que custa R$50,00/Kg não é solto, mas levado pra casa !!!), pois ele precisa de temperaturas altas em mar aberto (28 a 29ºC), condição esta que nós sabidamente não temos nem no verão!!! Mesmo assim, jamais conseguiu-se provar cientificamente qualquer dano desta espécie às nativas, quando de alguma introdução. b) A solução que vejo, nesse caso, é dos pescadores e sua Pastoral iniciarem o cultivo de vannamei em tanques-rede ou gaiolas, satisfazendo seus clientes ricos, resolvendo um problema grave social, gerando emprego e renda e, ainda por cima, diminuindo a pressão pela pesca, esta sim repito, predatória, sobre as espécies nativas. Creio que será de pouca valia social a tentativa de se impor leis ambientais que exigem suporte de país rico, em nossa realidade. Além do mais, gostaria que a preocupação do IBAMA-SP fosse canalizada também para o gravíssimo problema de introdução de espécies de qualquer organismo vivo (inclusive fito e zooplâncton e vannamei!!!) através do lastro de navios. Para finalizarmos, pergunto: de que adianta tentar proibir o cultivo em São Paulo para fins de isca viva, se ninguém poderá garantir que o vannamei venha por correntes marinhas do Nordeste , do Sul e até, como já citamos, em lastros de navios de Guayaquil no Equador, trazendo as temidas enfermidades que nós ainda não temos no Brasil?