Notícias & Negócios Online – edição 127

De: Alexandre Alter Wainberg
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Assunto: Mancha Branca no Nordeste

(em 16/setembro/2011) Após uns dois meses de boataria tive notícias bem seguras de que o vírus da mancha branca alcançou fazendas em Pernambuco, Paraíba e Ceará. Só decidi compartilhar a notícia depois que um dos maiores compradores de camarão da região me confirmou o ocorrido, demonstrando sua preocupação com a falta do produto. Os preços, que estavam em cerca de R$0,80/grama já alcançaram R$0,95/grama. Torna-se tremendamente necessária a confirmação técnica da ocorrência. Estou nesse momento na Colômbia onde o Ceniaqua importou pls do Equador que já vinham sofrendo seleção por muitos anos e aqui fazem os desafios para continuar o trabalho localmente. Com isto, ganharam cerca de oito anos de avanço na obtenção de cepas resistentes. Certamente o IBAMA não nos deixará fazer o mesmo.

(em 18/setembro/2011) …eu sempre tive esta impressão sobre a existência ou não de resistência a vírus em camarões. A realidade é que aqui na Colômbia só se fala nisto e a metodologia que adotaram para reforçá-la faz sentido. Os equatorianos que estão por aqui afirmam que os camarões estão resistentes. Durante o WAS, em Natal, também conversei com o Lugu, que é diretor técnico da Farallon, que me assegurou que trabalham com camarões resistentes. Aliás, se nós fossemos minimamente organizados já estaríamos coletando animais sobreviventes deste primeiro foco, não é? Torna-se necessário lembrar que a síndrome de Taura chegou ao Brasil em 1997 e tive 17% de sobrevivência no primeiro momento. Hoje, ninguém fala mais de Taura.

(em 20/setembro/2011) …o pior que se pode fazer é esconder o problema. Não existe ainda diagnóstico de confirmação oficial apesar da boataria já ter mais de dois meses. Eu mesmo ouvi a primeira vez em Junho. Não sei o que ou quem está tentando esconder o problema, mas se eu não tivesse tomado nenhuma iniciativa de divulgar ainda seria um segredo. Não posso afirmar se é MB, NIM 2, TSV 5 ou vírus novo, mas soa absurdo esta ignorância depois de dois meses. Sei que houveram problemas em Goiana (PE), Baía da Traição (PB) e Canguaretama (RN). Já me comentaram também de Aracatí (CE). De qualquer maneira, acho que este inverno anormalmente frio deve ter contribuído e espero que com a elevação da temperatura eu tenha tempo para estabelecer algum protocolo para minha fazenda até o próximo inverno. O que eu não vou fazer é ficar parado esperando Deus ajudar.

(em 28 de outubro de 2011) Acabo de retornar da reunião no MPA que tratou da sanidade da carcinicultura e que confirmou o diagnóstico da mancha branca no Nordeste. A reunião foi muito interessante. Primeiro eles apresentaram o arcabouço legal e a estrutura da sanidade no ministério. Pudemos constatar que estão no caminho certo, mas deram apenas os primeiros passos para montar a estrutura necessária ao suporte sanitário da aquicultura nacional. Neste momento crucial, no MPA, quase tudo ainda está para ser feito. Apresentaram os diagnósticos das amostras tomadas oficialmente pelos órgãos competentes em 5 de outubro (RN) e 6 de outubro (PE) e cujos resultados saíram no mesmo dia da reunião (27 de outubro) pela manhã (20 dias). Todas as outras amostras anteriores foram consideradas inválidas. No RN deu negativo e em PE deu positivo. Isto vai ser informado a OIE.

(em 29 de outubro de 2011) Eu também achei a iniciativa excelente e inédita. O MPA está formando uma equipe de alto nível. Só estou frustrado porque não tem nada que possa ser feito para sanar o problema da carcinicultura no curtíssimo prazo que temos. Infelizmente, as verbas de sanidade só aumentarão no ano que vem e a operacionalização de tudo poderá chegar tarde demais para a crise atual no Nordeste. Logicamente, o MPA terá um papel fundamental na recuperação e adaptação do setor. Eu gostei muito de ter sido convidado para a reunião e pretendo continuar contribuindo com o MPA sempre que desejarem.

(em 3 de novembro de 2011) Sinto informar-lhes que já tem uma fazenda na lagoa de Guaraíras com camarões morrendo com sintomas semelhantes aos observados mais ao sul. Infelizmente, agora é só uma questão de tempo até alcançar minha empresa.

(em 4 de novembro de 2011) Aproveito a mensagem para dar um depoimento sobre a gravidade da operação abafa que foi promovida para tentar esconder o surto da mancha branca. Há cerca de duas semanas um produtor do distrito de Cabeceiras observou camarões com os sintomas de MB e despescou sem avisar os vizinhos, que se infectaram também. Esta semana foi uma fazenda no município de Georgino Avelino que fez o mesmo. Não seria muito melhor se a ABCC tivesse sido mais transparente e dado um alerta sanitário geral? Não seria melhor que os produtores soubessem o que fazer antes de ter o estuário irremediavelmente contaminado? Todos os produtores do estuário da lagoa de Guaraíras estão em polvorosa. Tem a maior boataria, mas não apareceu nenhum responsável para informar o risco sanitário e com alguma estratégia de defesa. Os responsáveis, em vez de se antecipar, agora vão ter que correr atrás do prejuízo. Na lagoa de Guaraíras estamos formando uma estratégia coletiva para tentar manter baixo o nível de contaminação do estuário de modo a tentar continuar produzindo adotando BMPs apropriadas para convivência com a MB. Hoje tivemos a primeira reunião de sensibilização com a presença de mais de 40 produtores. Esta estratégia vai buscar orientar os produtores sobre os controles dos principais vetores, larvas e água, além de outros detalhes. Vamos tentar regionalizar o máximo possível respeitando a especificidade do estuário, propondo regimes coletivos de renovação de água, despesca, monitoramento sanitário (prof. Pedro Martins) e, principalmente, alerta de “despesca de emergência” para que os vizinhos interrompam o abastecimento de água. A temperatura pela madrugada já passou dos 27ºC, e isto talvez nos dê uma folga para organizar tudo até o inverno de 2012. Agradeço se alguém da lista tiver algum material prático sobre protocolo de manejo sobre a MB para ajudar na formulação da nossa cartilha regional.

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Ênfase no bem-estar…peixe “criado harmoniosamente”

O consumidor mundial se preocupa atualmente com o bem-estar animal e com a sustentabilidade do cultivo do alimento que lhe é ofertado para compra. Tal preocupação passa a ser aliviada, com o novo produto salmão “criado harmoniosamente”, lançado por uma das principais empresas chilenas de cultivo de salmão. Constatei esta tendência também muito clara nas atividades da AquaNor 2011, realizada há duas semanas na Noruega. Assim, neste mundo culturalmente globalizado, é bom os produtores brasileiros começarem a despertar para o assunto, mesmo que seja para manter a sua atuação no mercado interno. Aviso: até o pangasius produzido no Vietnam já conta com padrões ambientais elaborados e aprovados pelo WWF e pelo Banco Mundial.

De: Ana Silvia Pedrazzani
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Assunto: Re: Ênfase no bem-estar…peixe “criado harmoniosamente”

Os poucos profissionais que se aventuram a trabalhar com bem-estar de peixes no Brasil não têm ou têm poucas condições de desenvolver suas pesquisas e acabam migrando para outras áreas. Eu mesma tive esta experiência. É uma triste realidade quando nos deparamos com o método de abate de peixes mais utilizado no Brasil, por exemplo, que é a termonarcose através de insensibilização pelo gelo. Este método é completamente condenável do ponto de vista de bem-estar animal, principalmente pelos países europeus, pois os peixes demoram a perder a consciência. Mais triste ainda é saber que existe o interesse por parte dos frigoríficos em promover um abate humanitário, mas não há equipamento disponível no mercado brasileiro. Tampouco existe interesse pelas instituições financiadoras de pesquisa em patrocinar este estudo.

De: Alexandre Borges
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Assunto: Re: Ênfase no bem-estar…peixe “criado harmoniosamente”

Sou da sua linha de raciocínio e a favor do abate humanitário de qualquer animal. Além de ser uma prática humanitária (o animal que não sofre), há também fatores tecnológicos, pois o estresse que o animal sofre consome as reservas de glicogênio muscular nas alterações pós-mortais. Quanto mais tempo durar o rigor mortis, mais tempo o peixe conservará sua qualidade e, sob o ponto de vista econômico, se evita algumas condenações por hematomas. O abate do peixe que normalmente faço é por choque térmico. O animal é colocado em um tanque com água e gelo (proporção de água:gelo = 1:1) e mantido lá até a sua insensibilização. É importante que o gelo usado seja de boa qualidade (feito a partir de água potável), porque isto refletirá na qualidade do peixe final. A morte por hipotermia deve ser realizada o mais breve possível após a despesca do peixe. Este processo evita que o peixe fique se debatendo, pois a temperatura baixa anestesia o pescado e promove a morte quase instantânea, sem agonia. Retiram-se então as escamas do peixe, com o uso de facas ou lâminas próprias para a tarefa, e removem-se em seguida suas vísceras. Faz-se uma lavagem final para retirar os resíduos aderidos ao peixe, com água potável clorada. Já bati boca com muita gente graúda por defender o meu ponto de vista acima descrito. Infelizmente muito me disseram “que é bobeira, perda de tempo, os seus argumentos não valem nada”, mas, faço a minha parte.

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: Ênfase no bem-estar…peixe “criado harmoniosamente”

Com o nobre objetivo de abate humanitário, o Alexandre adota o método de insensibilização pré-abate mais comum no país, tanto para peixes como para camarão – o choque frio, pela imersão em água com gelo. Porém, conforme citou a Ana Sílvia, tal tratamento produz sofrimento. Dá a falsa impressão de que o peixe não sofre, simplesmente porque em baixa temperatura os seus movimentos são inibidos. Pelo sofrimento ocasionado, o choque térmico é atualmente considerado internacionalmente como inapropriado para a insensibilização na eutanásia de organismos aquáticos. As melhores formas de eutanásia seriam a concussão (como em gado) ou anestésico (seguro ao ser humano que se alimentará do peixe, mas ainda não disponível).

De: Ana Silvia Pedrazzani
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Assunto: Re: Ênfase no bem-estar…peixe “criado harmoniosamente”

Como muito bem explicado pelo Ricardo, o método de abate por choque térmico não é humanitário. Durante o meu mestrado estudei o tempo para insensibilização em tilápias na proporção de 1:1, e em média é de 10 minutos para perda da consciência. O maior agravante é que se o animal é retirado da água com gelo e demora para ser processado, a sua consciência retorna, pois o gelo não abate e sim promove a insensibilização. O método que sugeriria como mais adequado é o choque elétrico. Este é menos susceptí­vel a variações de, por exemplo, afiação de equipamento e experiência de manipulador. O ideal seria a construção de uma máquina na qual os peixes são sugados ainda em contato com a água, sofram o eletrochoque no interior do equipamento em alguns segundos, e posteriormente saem abatidos do outro lado, já na mesa de processamento do frigorífico. No entanto, ainda não temos as especificações técnicas da corrente para aplicação em peixes abatidos no Brasil, como tilápias, por exemplo. Por isso a importância da pesquisa em desenvolvimento de protocolos e máquinas que apliquem a corrente correta para promover morte rápida, porém sem alterações na carcaça.

De: Luciano Kellner
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Assunto: Re: Ênfase no bem-estar…peixe “criado harmoniosamente”

No processamento artesanal, geralmente feito por mão de obra familiar e, portanto, de pouco poder aquisitivo, qual seria a saída? O guilhotinamento seria uma saída viável? Você já fez algum estudo sobre o tempo do aparecimento de rigor-mortis nos vários processos de abate, já que sabemos que a qualidade do filé depende também deste fator?

De: Ana Silvia Pedrazzani
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Assunto: Re: Ênfase no bem-estar…peixe “criado harmoniosamente”

O guilhotinamento seria uma saída viável se fosse feito de forma precisa e rápida. Fizemos um estudo com secção de medula através do uso de facas. Apesar de ter sido bem mais rápido que a termonarcose, não foi considerado humanitário devido ao não sucesso imediato em alguns casos, principalmente pela afiação do instrumento, que foi perdendo sua eficácia ao longo do procedimento. Se for a decapitação completa a chance de acerto é muito maior, mas o local do corte deve ser preciso (logo após o final da cabeça). Neste trabalho não obtivemos diferença significativa entre os rigor mortis e pH da carne dos peixes abatidos pela secção de medula e pelo choque térmico. Segue o link do artigo publicado: http://revistas.ufba.br/index.php/rbspa/article/view/1643/778