Notícias & Negócios Online – edição 132

No dia 19/07/2012 um participante da Lista de Discussão Panorama-L postou uma reportagem da revista Exame, intitulada “Por que os ambientalistas odeiam a tilápia”, http://exame.abril.com.br/meio-ambiente-e-energia/noticias/por-que-os-ambientalistas-odeiam-a-tilapia?page=1 que fala sobre o “lado obscuro pouco conhecido” desse peixe que é admirado pela sua carne branca e suave. O artigo se refere à tilápia como um peixe “invasor cuja produção está longe de ser sustentável, o que explica a repulsa que gera nos defensores das causas ambientais”. Fala também que “uma série de estudos associa a criação de tilápia à riscos potenciais ao meio ambiente, que vão desde a deterioração da qualidade das águas à disseminação de parasitas”. A seguir a opinião de alguns participantes da Lista.

De: Léo Carlos de Hildebrand e Grisi
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Assunto: Re: Porque os ambientalistas odeiam a tilápia

Os ambientalistas me recordam meus tempos de faculdade. A guerra do Vietnã estava no auge. Terminadas as aulas, já no fim da tarde, os grupos de universitários se reuniam para o que hoje se chama “happy hour”. As discussões eram sempre acaloradas, mas, de qualquer forma, lá pelo terceiro ou quarto chope nós já havíamos resolvido o problema da guerra do Vietnã e estávamos em condições de discutir temas mais sérios. Parece-me que há pelo menos dois tipos de ambientalistas. De um lado, aqueles com formação sólida a respeito do tema, que estudam e ponderam, que colocam os problemas em perspectiva aberta, que procuram soluções adequadas a cada caso. Infelizmente, trata-se de esmagadora minoria. Por outro lado, temos aquela interminável legião de palpiteiros, formados nos bares do calçadão de Copacabana (ou similares). Ouviram o galo cantar, mas não sabem direito onde. Resolvem todos os problemas ambientais em menos de quatro chopes. Revoltam-se, por exemplo, quando ouvem um “atirei o pau no gato-to” com a mesma veemência com a qual protestam contra a construção de uma usina nuclear. O pior é que falam bobagens de boca cheia – geralmente frases de efeito ou chavões que guardam pouca relação com a realidade. Alguns deles conseguem impressionar de tal maneira pessoas desavisadas que chegam a ocupar posições de comando dentro do governo. Aí mora o perigo: eles começam a ditar normas e suas ordens têm força de lei. Nesta situação, o desastre está à vista. O melhor exemplo é de um cidadão que chegou a Ministro do Meio Ambiente: Carlos Minc. Ele assinou uma resolução do CONAMA em que classificava os animais em nativos e exóticos. Simples assim. Sem meios termos. Ou é nativo, ou é exótico. E dá-lhe regulamentação: animais exóticos só poderiam ser criados – mediante licença dos órgãos ambientais, claro – em condições de estrito confinamento, com exigências brutais para impedir que eles invadissem a natureza verde-amarela e cor de anil. Exemplos de animais exóticos, cuja invasão causaria estragos de enormes proporções à fauna nativa: o lambari, o pardal (originário da Áustria), as abelhas (que vieram da Europa e da África) e o gado bovino (proveniente da Índia, da Holanda, das Ilhas Jersey, etc.). A lista era interminável. Imaginem os senhores a barbaridade ambiental que aconteceria se algum louco, ávido por dinheiro, soltasse na natureza um pardal. Ou a tragédia em nossos rios se, mesmo por acidente, lambaris criados em cativeiro escapassem dos tanques rede e proliferassem em nossas águas. E o que dizer se vacas e bois – de qualquer raça – invadissem os pastos, sem qualquer controle ambiental? E, acreditem ou não, há irresponsáveis que produzem mel a partir de abelhas europeias ou africanas – ou pior, a partir de uma miscigenação delas – sem qualquer consideração com as consequências dramáticas que adviriam se elas escapassem para nossos campos. Graças a Deus, temos estes ambientalistas para preservar o que é nosso e defender a natureza. Tudo isso, antes do quinto chope. No caso específico das tilápias, uma série de “estudos” associa sua criação à deterioração da qualidade da água o que, evidentemente, não acontece com a criação de espécies nativas. Claro: sabe-se que as espécies nativas não defecam, só para citar um diferencial que salta à vista de todos. Mais: para turbinar a criação, tilápias são alimentadas com ração, coisa que ninguém sensato pensaria em fazer com espécies nativas – que devem se alimentar de vento, segundo a visão ecológica dos “ambientalistas”. E – pecado mortal – estas rações são feitas à base de soja e de milho. Se a moda pega, daqui a pouco teremos plantações extensas de soja e milho degradando as áreas destinadas a esta praga chamada agricultura. Peixes nativos, muito mais conscientes, jamais comeriam soja ou milho – não só por respeito ao meio ambiente, mas também por formação religiosa: eles veneram Jaci, Anhangá e Mairiporã. Não aceitam crenças cristãs, exóticas, introduzidas em nosso ambiente natural por jesuítas, origem provável e nefasta da chamada bancada ruralista. A multiplicação dos peixes é um milagre alheio à cultura tupiniquim. E depois da digestão? Valha-me, saci Pererê! “…restos de ração, fertilizantes e excretas dos animais levam ao acúmulo excessivo de resíduos que aumentam o aporte de nitrogênio e fósforo na água, podendo desencadear o processo de eutrofização – quando corpos d´água adquirem uma coloração turva ficando com níveis baixíssimos de oxigênio pela proliferação de algas, comprometendo, assim, a estabilidade do ecossistema aquático.” Fenômenos assim não ocorrem com peixes nativos, pelo visto. Será que foi isto mesmo que o pesquisador quis dizer? “A sedimentação da água também pode dar ao peixe um gosto ou sabor indesejável.” Este sabor indesejável é o principal motivo pelo qual ninguém come tilápia. Submetido às mesmas condições, peixes nativos não desenvolvem este sabor, típico de espécies exóticas como a tilápia. Como se resolve isto? Com regulamentações, claro. Como se sabe, não existe regulamentações para criação de peixes. Qualquer um pode fazer o que quiser. A ADASA, o IBAMA, o Ministério do Meio Ambiente, as Secretarias Estaduais e órgãos correlatos não produzem regulamentação suficiente para o gosto dos ambientalistas. Há necessidade premente de aumentar o emaranhado de normas e produzir um cipoal burocrático indevassável para o criador. Isto é urgente, porque o pessoal já está criando tilápias “em regiões como o semiárido, as próprias comunidades dependem dessa água para consumo próprio”. É o fim da picada! No Brasil não temos terremotos, nem vulcões. Não ocorrem tsunamis por aqui. Não há nevascas que cubram tudo com camadas de neve de um metro de espessura. Em compensação, temos os ambientalistas. Nada que não se resolva com quatro ou cinco chopes.

De: Fábio Sussel
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Assunto: Re: Porque os ambientalistas odeiam a tilápia

Uma pequena contribuição da minha parte é: Além de exóticos e nativos, também os híbridos. Do ponto de vista produtivo, penso que os três têm potencial e os três necessariamente devem ser trabalhos. De ponto de vista ambiental, critérios sensatos devem ser adotados em relação aos exóticos e híbridos. Eu disse critérios SENSATOS! Ambientalistas passam uma imagem para a sociedade que híbridos e exóticos são seres “extra-terrestres”, frutos de uma mutação genética ocorrida com espécies ao redor de Varginha-MG, após a visita e pouso de alguns discos voadores nesta região. O exemplo que citou do mel é bem interessante. Um produto doce por natureza, só traz benefícios para a saúde, não necessita de ração, poliniza as plantas…, porém, exótico! O brasileiro tem a opção de consumir três tipos de meis: da abelha europeia, da abelha africana e abelha africanizada, sendo esta última, fruto do cruzamento natural durante o vôo nupcial da rainha europeia com o zangão africano (maior e mais ligeiro). Ou seja, o mel que consumimos é híbrido e exótico ao mesmo tempo, já que as abelhas africanizadas são mais produtivas e respondem por 80% da nossa produção nacional de mel. Será que em breve teremos uma campanha do tipo: “Não consuma mel, pois, é fruto de produto híbrido e exótico!”

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: Porque os ambientalistas odeiam a tilápia

Eu não pretendia entrar neste tópico, pois discordo da ideia simplista de que os ambientalistas odeiem a tilápia. Note que aquele artigo da Exame se baseou na opinião de técnicos na área, inclusive relacionados ao setor produtivo. O problema é que, para a publicação numa revista de grande circulação, em que cada palavra publicada custa caro, as informações dos técnicos são condensadas ao máximo, sendo truncadas e distorcidas por redatores que são leigos na área. E para a matéria se tornar atrativa ao público geral, o texto deve carregar nas cores para ter destaque. A mídia vive de um pouco de exagero nas matérias. ÁGUA é atualmente a grande preocupação dos cidadãos do mundo. Pois a sociedade humana se deu conta de que é muito escasso o tipo de água necessário à sobrevivência humana – tem que ser [água doce] + [sem contaminantes] + [perto de onde cada um de nós vive]. E isso é ensinado desde a escola básica, de modo que cada cidadão se torna um ambientalista preocupado com o que está sendo feito com a água de sua localidade, país ou pelo mundo afora. É uma preocupação legítima, de um público generalista, que não tem tempo ou oportunidade de se especializar nos milhares de assuntos que aparecem diariamente na mídia. Tal público só pode absorver as informações limitadas e rápidas divulgadas pela mídia, o que resulta às vezes em confusão e viés. O setor de aquicultura acaba sendo muito cobrado pela sociedade, por ser uma atividade agrícola nova (comparada com as tradicionais) e que ao mesmo tempo atua justamente sobre a água e suas terras adjacentes. Sempre existiram interesses múltiplos sobre a água (como água de beber, esportes, irrigação, industrial, e outros), de modo que a chegada de um novo uso com potencial de poluir a água (e de afetar a biodiversidade) previsivelmente atrairá a atenção do público, nesta era de preocupação ambiental. A aquicultura pode ser mais ou menos impactante ao ambiente, conforme os métodos e sistemas usados. No Brasil, salvo raríssimas exceções, ainda estamos bem longe de alcançar os padrões observados nos países mais evoluídos no setor. Mas isso é só questão de tempo. Estão em fase de finalização, os padrões internacionais de produção sustentável na aquicultura, para os setores de camarão, pangássio, salmonídeos e outros peixes. Tão logo sejam adotados tais padrões de sustentabilidade, o enquadramento neles significará um alívio ao criador quanto às críticas ambientais. Havendo normas, que estejam sendo cobradas e respeitadas, o público volta a sua preocupação para outros assuntos que justifiquem matéria na mídia. Um exemplo recente aqui no Brasil foi a pecuária extensiva na região amazônica. Com a forte campanha ambientalista, muita gente no país e pelo mundo afora ficou indignada com a derrubada e queima da floresta para criar gado por alguns anos, para depois abandonar a terra nua esgotada. A partir daquela pressão, foi criado um sistema de monitoramento e registro. As vendas de carne bovina foram restabelecidas e o público ficou tranquilo com a solução. A adoção de medidas de padronização ambiental também será o caminho para a aquicultura nacional. E ficará difícil argumentar que isso é exigência de país rico, e que inviabilizaria a cadeia produtiva local. Pois já está em implantação sob condições mais pobres do que no Brasil – como no pangássio do sudeste asiático. A tilápia é a mais bem sucedida espécie da aquicultura nacional. Por isso, acaba sendo o alvo das críticas que seriam voltadas para a piscicultura como um todo. Se, ao invés da tilápia, o pacu ou o pirarucu estivessem sendo criados na mesma escala de cultivo, densidade nos tanques rede, e com dispersão geográfica igual à da tilápia, tenho certeza de que também apareceriam nas notícias ruins. Em conclusão, na minha modesta avaliação, a tilápia é só o exemplo de preocupação que a sociedade tem hoje com a expansão da piscicultura nas bases atuais. E efetivamente existe telhado de vidro no setor. Que se não for tecnicamente solucionado, vai cristalizar uma pecha ruim tal como ocorreu anteriormente com a carcinicultura.

De: Alexandre Alter Wainberg
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Assunto: Re: Porque os ambientalistas odeiam a tilápia

A reportagem expõe dois fatos indiscutíveis, embora o tom seja inadequado como enfatizou o Tsukamoto. É indiscutível que o segundo maior motivo para extinção de espécies é a introdução de espécies exóticas. O primeiro é a destruição do habitat. O segundo fato, também indiscutível, é que a aquicultura descarta nutrientes para o meio ambiente circundante. Eu concordo com a avaliação sobre os ambientalistas de botequim, mas considero imprescindível que nossa atividade reconheça seus problemas e trabalhe na sua resolução. Notem, que apesar das mensagens na lista, a reportagem não relaciona a emissão de nutrientes com o fato da tilápia ser exótica. Qualquer espécie cultivada sem o manejo responsável pode emitir nutrientes acima da capacidade de suporte do meio ambiente. Obviamente, pela tilápia ser uma das espécies cujo cultivo mais se expande no país e no mundo, ela seja alvo de críticas. Cabe a nós aquicultores demonstrar que a espécie é de baixo nível trófico e que a reversão sexual com hormônios são fatores de redução de risco ambiental. A tecnologia para seu cultivo de maneira responsável e amigável ao meio ambiente já existe e deve ser aplicada. Mensagens raivosas contra ambientalistas são contraprodutivas. Temos que obrigá-los a parar de dizer NÃO e forçá-los a dizer COMO. Chamo a atenção do Tsukamoto que a certificação citada é do WWF e é privada. O WWF lutou 20 anos contra a aquicultura, principalmente a carcinicultura e a salmonicultura. Neste período a atividade multiplicou-se e tornou-se a principal fonte mundial de proteína de pescado. Ao verificar a inocuidade de sua luta, preferiu aderir e apontar as práticas que considera responsáveis. A metodologia anterior revelou-se perdedora. Vamos ver a nova. A propósito, a indústria de certificação é uma das que mais cresce no mundo.

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Para: [email protected]
Assunto: Re: Porque os ambientalistas odeiam a tilápia

Alexandre, algumas ONGs ambientalistas estão se tornando mais pragmáticas, como você mencionou. Ao invés de se oporem totalmente à atividade, passam a ajudar a transformar a atividade agrária em sustentável. O que eu considero altamente benéfico.
O caso do WWF é um exemplo. Foram eles que criaram a campanha contra a devastação da floresta amazônica para criar gado extensivamente. O resultado foi altamente positivo para o Brasil, pois a chacoalhada forçou a soluções que tornaram o nosso boi mais “verde” e sem restrições de ordem ambiental para a exportação.
Na área da aquicultura, estão fomentando a concepção de modelos sustentáveis em vários cultivos. Só para ficar na tilápia, o link a seguir permite baixar alguns materiais interessantes, como o manual de melhores práticas no cultivo da tilápia: http://www.worldwildlife.org/what/globalmarkets/aquaculture/sustainability-standards-tilapia.html. E a mesma página traz a posição atual da instituição, representada pelo seu diretor do programa de aquicultura, Jose Villalon: “O peixe cultivado é uma excelente fonte de proteína e, quando bem produzida, ajuda a proteger o ambiente. Estou totalmente convencido de que a aquicultura é a forma mais sustentável de alimentar o mundo.” E se o WWF – que é a mais combativa instituição ambientalista do mundo – expressa tal opinião, ela é obviamente muito mais amiga da aquicultura, do que muitos de nossos próprios governos estaduais. Está na hora de reconsiderar quem pode nos ajudar, e quem realmente está nos atrapalhando. Um outro ótimo exemplo, mas pouco conhecido no Brasil, é o Freshwater Institute (www.freshwaterinstitute.org), dos EUA. É a instituição de pesquisa que mais tem desenvolvido a tecnologia de recirculação em aquicultura no mundo! Pois este instituto foi criado em 1987 e é inteiramente financiado pela ONG ambientalista The Conservation Fund (www.conservationfund.org). Para quem adora denegrir ONGs como únicos símbolos do mal, saiba que há 25 anos tal ONG ambientalista criou um instituto especificamente para impulsionar a aquicultura – numa época em que muitos dos que hoje somente protestam ainda chupavam o dedo. Chega de por a culpa nos outros. Se há uma falha de comunicação com outros setores da sociedade, cabe aos profissionais da aquicultura procurar esclarecer com humildade, e não com confrontação.