Notícias & Negócios Online – edição 136

De: Andres Wakeham
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Assunto: Netuno (Notícia traduzida da Seafood Newsletter) 

Nippon Suisan acaba com joint venture no Brasil
Nippon Suisan pode estar cortando seu programa “Global links”, conforme anúncio de que estava fechando sua joint venture com a Netuno do Brasil e assumindo um prejuízo ¥ 8 bilhões (US$ 84 milhões). A Netuno relatou perdas extraordinárias, devido a alta nos preços das rações para tilápia e ainda enfrentou um surto de doença em suas fazendas de camarão. Nippon Suisan entrou com 50% em uma joint venture chamada Netuno Internacional em 2010, mas considerou o negócio muito complexo.

De: Ricardo Y. Tsukamoto
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Assunto: Re: Netuno

Então a Netuno deu um prejuízo de R$ 190 milhões para a Nippon Suisan (uma gigante do setor pesqueiro do Japão). A notícia indica que o custo da ração de tilápia se tornou inviável mesmo para quem cultiva a espécie em tanque-rede nos reservatórios do Nordeste (com condições favoráveis de água quente e abundante o ano todo). Como isso, a minimização no uso da ração se torna obrigatória, possivelmente ao adotar o cultivo multitrófico ou o consorciado (nos moldes do MAVIPI).

De: Alexandre Alter Wainberg
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Assunto: Re: Netuno

Segundo as últimas notícias, temos então um buraco de R$ 190 milhões na Netuno, mais a notícia recente de que 60% dos carcinicultores que tomaram um total de R$ 710 milhões no BNB estão inadimplentes. Fica difícil acreditar que a aquicultura está realmente crescendo no Brasil. Não consigo nem imaginar qual seria o tamanho do buraco que estamos nos metendo. Será que já não passou da hora de discutir o modelo que estamos escolhendo para desenvolver a nossa aquicultura? Será que os sistemas de monocultivo arraçoado têm a capacidade de atender a necessidade de implementar o desenvolvimento sustentável? O Tsukamoto foi muito feliz em citar o modelo MAVIPI, baseado no conceito do enfoque ecossistêmico aplicando o cultivo multitrófico integrado. Tanto a FAO como a Convenção da Biodiversidade já concluíram ser este o modelo mais apropriado e até a China está adotando. Basta ver as fotografias e reportagens sobre a maricultura chinesa para observar que eles estão cercando as fazendas de peixe com fazendas de algas e bivalves. Os chineses usam as fazendas de algas para mitigar a poluição urbana no golfo de Bohai, onde fica Beijing (Pequim). A aquicultura brasileira ainda está no berçário e ainda é tempo de alterar seu rumo.

De: Francisco Leão
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Assunto: Re: Netuno

Pode ser que eu esteja enganado, mas parece que a prioridade do MPA é a aquicultura familiar e a pesca extrativista. Para médios produtores não existe nada e para grandes existe muita grana que, ao que tudo indica, não está resolvendo o problema porque tem notícia ruim envolvendo os grandes todos os dias (Tilápia do Brasil, Netuno e outros que a gente sabe que estão no “bico do corvo” ou salvos por contratos mirabolantes, mas que não vão muito longe). Também parece que a criação do MPA, até agora, parece que não acrescentou muita coisa neste assunto. E aí? Para onde vamos? Ao que tudo indica, criar boi é fácil! Aquicultura são outros quinhentos!

De: Felipe Suplicy
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Assunto: Re: Netuno

Tenho visitado muitos empreendimentos de aquicultura pelo Brasil afora e na minha opinião podemos contar nos dedos de uma mão os projetos que reúnem os principais preceitos para um negócio aquícola bem sucedido. Escolha criteriosa do local, planejamento extra cauteloso à prova de erros (como o das grandes viagens de Amyr Klink), emprego da melhor tecnologia disponível mundialmente (testada e reconhecida), aliada a um gerenciamento impecavelmente técnico, impessoal e responsável. Notícias como esta e como a do encerramento das atividades da Aqualider, Atlantis, entre outras, são uma grande bandeira vermelha para investidores (públicos e privados), que não conhecem os detalhes que levaram a estes vários desfechos infelizes. Somente quem vivencia pessoalmente estes episódios pode aprender lições que não precisarão ser repetidas no futuro. Eu tenho certeza que o melhor de todos os empreendimentos da aquicultura brasileira ainda está por vir, assim como tenho certeza de que ainda existem pessoas por aí com capacidade para fazer isto acontecer. Lamento pelos nossos clientes e colegas que conheço na Netuno pela decisão da Suisan, decisão esta que não se restringe a suas operações no Brasil, mas que envolve vários outros empreendimentos no setor de pescados (pesca, cultivo, processamento e distribuição) em diversos países como Alemanha, Argentina, Coréia, entre outros, em uma mudança de estratégia do grupo, que agora é muito mais conservadora no tocante a sua internacionalização.

De: Aparicio Dorneles
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Assunto: Re: Netuno

Enquanto não houver o reconhecimento das atividades com a liberação das águas e emissão dos respectivos títulos os bancos não financiam e sem financiamento, somente com recursos próprios ou captação no mercado, não são viabilizados os grandes empreendimentos. Apesar de essa empresa deter tecnologia de produção, contar com águas com temperaturas ideais, mostrando um bom produto, devemos também lembrar que seu fornecimento de ingredientes para as rações é distante, provavelmente a origem dos grãos seja o centro-oeste.

De: Nakassima
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Assunto: Re: Netuno

As prioridades do MPA são a aquicultura familiar e a pesca extrativista por quê?
A aquicultura familiar é quase subsistência, é um feliz proprietário com um buraco cheio de água com peixe, que vende o peixe em pequena escala. A sua produção não cresce, pois não há quem inclua a tecnologia na criação. A pesca extrativista está fadada a acabar, os estoques pesqueiros mundiais estão completamente esgotados! Mas em vez de ensinar o pescador a cultivar alga, mexilhão… é melhor fazer uma inclusão digital de pescadores! Essas duas prioridades do MPA são formas de o setor não crescer e são formas de investir em coisas que não vão dar em nada! E é uma forma de fazer o dinheiro sumir. O Brasil precisa de uma rede de assistência técnica direta ao produtor. Isso engloba pequenos, médios e grandes produtores.

De: João Manoel Alves
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Assunto: Re: Netuno

Mais uma vez estamos batendo nas rações. Mais uma vez injustamente. A Netuno e a Nippon Suisan começaram a trabalhar juntas em 2010, se minha memória não me trai, portanto há 3 anos e poucos meses, se tudo tivesse iniciado em janeiro de 2010, quarenta meses para arredondar. Se dividirmos os 190 milhões de reais pelos meses, temos aproximadamente R$ 5 milhões por mês, ou mais ou menos 1000 toneladas de tilápias a preço de vendas e não de produção. O negócio de (produção) tilápias deles não é desse tamanho, e o de produção de camarão também não é tão grande. Teriam que ter perdido toda a produção durante os 40 meses para acumular os R$ 190 milhões de prejuízos nos cultivos. Não sei dizer qual proporção, mas o negócio deles é muito mais de comprar pescado do que de cultivar. Não tenho pretensão de apontar o problema que tiveram estando de fora, mas o custo da ração e a doença do camarão não são os culpados, podem, no máximo terem contribuído deixando a operação menos rentável do que previam. Mas estas duas atividades são rentáveis, apesar das dificuldades. Ao invés de minimizar o uso de ração, se torna obrigatório (já deveria ser há muito tempo) otimizar o uso da ração, rações adequadas à cada fase e à espécie cultivada, quantidades visando eficiência e não máximo ganho em peso, e tantas outras coisas muito discutidas nesta lista. Também a doença no camarão não pode ser a única culpada. O Brasil não teve diminuição na produção de camarões por causa da Mancha Branca no ano passado. A produção de tilápia com ração e o cultivo de camarão estão crescendo no Brasil, apesar dos aumentos globais nas commodities que levaram a aumentos importantes nas rações para todos os animais e não apenas na aquicultura. Sistemas como o MAVIPI são boas opções para algumas regiões. Espero que a Netuno encontre um caminho para se recuperar e voltar a crescer.

De: Fábio Sussel
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Assunto: Re: Netuno

Perfeito João Manoel! Pactuo em gênero e grau com tudo que escreveu! Conforme já escrevi há muito tempo atrás nesta lista, alguém tem que ser culpado pelo insucesso dos sistemas produtivos. Regra geral, a ordem dos culpados é: ração, fornecedor de alevino, governo… e, se for preciso, o taliban, Al Qaeda, o MST e até mesmo o Papa Francisco que, apesar de ter assumido recentemente, merece uma parcela de culpa também. E NUNCA, absolutamente nunca, a culpa é de quem gerencia e administra a produção.

De: Alexandre Alter Wainberg
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Assunto: Re: Netuno

João Manoel, muito pertinentes as suas observações. A viabilidade do empreendimento está ligada a todos os fatores a ele associados: administração, legislação, mercado, sanidade, insumos, etc. Além disto, estes fatores estão em contínua mutação requerendo estratégias de curto, médio e longo prazo para o desenvolvimento do negócio. Cabe ao empresário ter o conhecimento, experiência e sensibilidade relacionadas ao seu negócio. Afinal, ele é quem corre os riscos. Eu já tive ocasião de apresentar planos de negócio a diversos tipos de investidores, desde individuais (angels) até fundos de investimento (venture capital) e a aquicultura esbarra, na maioria das vezes, na dificuldade de avaliar os riscos. São tantas variáveis absolutamente fora do controle do empreendedor! Apesar da afirmação do Peter Duker de que a aquicultura será o negócio deste século, por enquanto, pelo menos neste Brasilzão, está mais para os apaixonados.

De: João Manoel Alves
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Assunto: Re: Netuno

Alexandre, já tivemos oportunidade de conversar sobre isso e você sabe que eu acredito em duas aquaculturas: uma bastante tecnificada, em sistema fechado, pouco impactante, de alta produtividade, biossegura, etc. e outra parecida com a que você faz – baixo impacto, multitrófica, de menor risco sanitário, com os pés em várias canoas, etc. Mas esta aquacultura que temos aqui é de muito risco. Queremos altas produtividade com design de semi-intensivo (se for), acreditamos que aeração e trocas de água são os únicos investimentos a serem feitos, que rações podem mudar o destino do negócio, que densidades mais altas produzem mais lucros. Precisamos repensar tudo, como você diz em outra mensagem a nossa aquacultura está engatinhando. O que salva e paga tantos riscos é que produzir pescados neste país ainda é muito rentável, por isso tanta gente ainda está investindo. Atualmente, o camarão deve estar deixando margens maiores que as que deixava nos áureos tempos. Produzir tilápias em tanque-rede não é tão rentável quanto produzir camarão, mas é um excelente negócio quando bem conduzido e os riscos sanitários são muito menores que os do camarão. Peixes redondos em viveiros escavados também deixam margens interessantes e apresentam o menor risco. Acho que tem razão quem afirma que Deus é brasileiro. A produção de camarões na Ásia está seriamente ameaçada e já tem produtor brasileiro sendo consultado para exportar (nos preços do mercado doméstico) para lá para que consigam cumprir os contratos. Eu ando bastante pelo Brasil todo e tenho visto crescimento por todos os lados e concordo com Peter Duker, além de ser um apaixonado. Costumo dizer que sou um otimista com fundamentos.

De: Flávio Lindenberg
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Assunto: Re: Netuno

Se haviam estes e outros milhões aqui já comentados para o empreendimento e a ração é composta por commodities, eles poderiam produzir a própria ração, a preços e qualidade internacionais, certo? Portanto esta inviabilidade pelo aumento do custo da ração não tem haver com nosso “Brazil”, mas é internacional, certo?

De: João Manoel Alves
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Assunto: Re: Netuno

Flávio, seu pensamento faz sentido, o aumento do custo da ração não é um fato brasileiro. Vamos torcer para que se recuperem. Esta notícia não faz bem para o setor.

De: Felipe Matias
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Assunto: Re: Netuno

Que bela discussão. João Manoel, sua análise foi perfeita. Se o problema foi a ração (e é óbvio que houve um aumento forte neste item, todos sabem), por que todos não quebraram, inclusive os pequenos? E Fábio, concluiu como eu também sempre costumo citar. A culpa é sempre dos outros…