Nova Zelândia e Brasil

Boas parcerias comerciais para cultivo de mexilão

A Diretoria de Desenvolvimento de Aqüicultura da SEAP – Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca da Presidência da República, com o apoio da New Zealand Trade and Enterprise, do Consulado Geral da Nova Zelândia, organizou a agenda de visitas que foi cumprida em abril passado na Nova Zelândia por representantes brasileiros do governo e da iniciativa privada. O intuito da visita foi o de conhecer de perto a indústria neozelandesa de mexilhões. Entre os objetivos da missão, coordenada por Felipe Suplicy, Coordenador Geral de Maricultura da SEAP, destaca-se a negociação para a montagem, em águas brasileiras, de unidades demonstrativas do sistema neozelandês de cultivo mecanizado. Da mesma forma, a missão brasileira procurou identificar as oportunidades de parcerias comerciais entre os dois países, tanto na área de equipamentos como na de cultivo e processamento. Da missão fizeram parte Francisco Oliveira Neto, responsável pela área de desenvolvimento da maricultura na Epagri – SC; Carlos Bressan, Diretor Técnico do Sebrae-ES; Apolinário Miranda, Gerente de Marketing e Produto do Grupo Mazzaferro; e, Klaus Bernauer, presidente da Bernauer Aquacultura, com sede em Blumenau – SC.

Membros da comitiva brasileira em visita a fábrica de cordas Donaghys na cidade de Christchurgh, NZ
Membros da comitiva brasileira em visita a fábrica de cordas Donaghys na cidade de Christchurgh, NZ
Laboratório de larvicultura de mexilhão da Fundação Cawthron
Laboratório de larvicultura de mexilhão da Fundação Cawthron
Bóias características do cultivo neozelandês, sustentando simultaneamente dois long-lines
Bóias características do cultivo neozelandês, sustentando simultaneamente dois long-lines

Tanto a Epagri como o Sebrae mostraram-se interessados na tecnologia neozelandesa e a sua possível utilização pelos maricultores catarinenses e capixabas. Durante a visita, os representantes dessas instituições negociaram com representantes da indústria local para viabilizar as parcerias entre empresas brasileiras e neozelandesas visando a implantação no litoral brasileiro de unidades demonstrativas do sistema contínuo neozelandês de cultivo de mexilhões. As perspectivas de que isso venha a ter sucesso são promissoras, se levarmos em consideração que a Epagri é hoje a instituição responsável por coordenar, em parceria com outras instituições, a implementação das pesquisas e da extensão rural que permitiu o envolvimento dos pescadores artesanais catarinenses no cultivo de mexilhões, o que permite que o Estado produza hoje 97% da produção nacional de mexilhões.

Os representantes da iniciativa privada aproveitaram a oportunidade para conhecer de perto cada detalhe da indústria de insumos que dá suporte ao sistema neozelandês de cultivo. Klaus Bernauer, da Bernauer Aquacultura, já está iniciando a produção de equipamentos plásticos para a maricultura utilizando a tecnologia de rotomoldagem. Segundo Bernauer, a visita foi uma grande oportunidade para parcerias comerciais visando a produção de bóias para a malacocultura brasileira. Da mesma forma a Mazzaferro, representada na missão por Apolinário Miranda espera que os contatos feitos durante a visita transformem-se em parcerias para que a empresa possa representar e produzir equipamentos para dar suporte ao promissor crescimento da maricultura brasileira.

Nova Zelândia

A Nova Zelândia possui 17.000 km de costa banhada pelas correntes frias do Oceano Pacífico sul, que possuem as condições ideais para o cultivo do mexilhão de concha verde Perna canaliculus, que aí crescem e alcançam uma produtividade média anual de 27 toneladas por hectare. Existem atualmente 3.000 ha de cultivo, de onde saem 90.000 toneladas anuais – 85% das quais destinadas ao mercado internacional, onde os EUA consomem cerca de 50% do total exportado. As exportações neozelandesas passaram de US$ 25 milhões anuais em 1988 para US$ 210 milhões em 2000. Segundo dados do setor, as condições ideais para o crescimento já permitem prever que as exportações deverão atingir US$ 550 milhões em 2010, e US$ 1 bilhão no ano 2020.

Cerca de cinco grandes empresas respondem pela maior parte da produção de mexilhões, com volumes entre 8.000 e 12.000 toneladas anuais cada. Entretanto, nos últimos cinco anos, o setor tem enfrentado uma moratória na cessão de novas áreas de cultivo, principalmente em áreas abrigadas. Apesar disto, novas áreas para cultivo em mar aberto estão sendo planejadas, com previsão de aumentar de 3.000 para 20.000 ha nos próximos anos. Cada 50 toneladas de mexilhão produzido na Nova Zelândia gera um emprego integral e com a previsão de expansão das áreas de cultivo são previstas a criação de novos 1980 postos de trabalho. A indústria provê atualmente 1.600 empregos e aporta cerca de NZ$ 31.5 milhões em salários (cerca de R$61,8 milhões). O custo médio de produção por tonelada é de NZ$ 600 (cerca de R$1.177,55) e somado o custo de transporte e processamento este valor sobe para NZ$ 4.000 (R$7.850,32) por tonelada de mexilhão em meia concha.

Programa de monitoramento das áreas de cultivo

Um dos grandes diferenciais do cultivo de mexilhões na Nova Zelândia é um programa de monitoramento de qualidade da água que atende às mais restringentes exigências de mercado internacional. A indústria dá máxima prioridade a este programa e NZ$ 17 por tonelada colhida (cerca de R$33,36) são destinados ao seu custeio, que é operacionalizado por uma instituição privada mantida pelo Conselho Neozelandês das Indústrias de Cultivo de Mexilhão. O programa envolve duas análises semanais das águas de todas as áreas de cultivo, cujos resultados são atrelados a um acurado controle pluviométrico. Existem medidores de precipitação instalados em toda região onde se concentra o cultivo de mexilhão e cada área é mapeada de acordo com a relação pluviometria/presença de coliformes fecais. Os mestres dos barcos de colheita recebem faxes nas embarcações a cada meia hora para verificar se a área passou a ser considerada fechada em função das chuvas. Na prática, existe uma tolerância de uma hora após o fechamento temporário de uma área de cultivo e em caso de dúvida, o lote colhido é retido até que seja analisado e liberado para o processamento e comercialização. Caso seja confirmada a contaminação, o lote é destruído. Uma vez fechada uma área em função das chuvas, esta passa por um período de indisponibilidade para colheita, controlado pelo índice pluviométrico. Para cada 20 mm de chuva a área ficará fechada por um determinado intervalo de tempo. Uma vez cessada a chuva, a área permanecerá fechada por tempo proporcional ao volume precipitado, e o tempo de indisponibilidade é gradativamente reduzido enquanto a chuva não recomeçar. Se a chuva recomeçar antes da liberação da área, o volume de precipitação é adicionado ao volume prévio, aumentando o tempo de indisponibilidade para colheita. Cada lote de moluscos é identificado com a área de cultivo e esta identificação o acompanha ao longo de todo o processo de beneficiamento e comercialização, garantindo a rastreabilidade do produto.

Além de um extenso programa de monitoramento dos níveis de coliformes nas áreas de cultivo, a indústria neozelandesa mantém um programa de monitoramento de algas tóxicas, também conhecidas como marés vermelhas.

Principais problemas

A indústria também enfrenta seus problemas. A falta de uma legislação adequada para a maricultura, particularmente no tocante à cessão de áreas para cultivo, se constitui em um grave problema para as indústrias desse país, e o Conselho Neozelandês das Indústrias de Mexilhão tem solicitado que o governo faça uma profunda atualização da legislação pertinente à cessão de áreas para cultivo, visando a definição de regras claras e que ofereçam segurança aos investidores.

A falta de mão-de-obra é também um grande empecilho para as empresas, que não estão operando em sua capacidade máxima, devido à falta de funcionários. O custo de mão-de-obra onera bastante o custo de produção e se reflete no preço final do produto.

Outro problema enfrentado pelo setor diz respeito à valorização do dólar americano em relação à moeda neozelandesa. A alta do dólar tem colocado o setor em crise e as indústrias têm recebido cerca de 50% a menos do que recebiam há dois anos atrás. No momento as empresas têm operado no limite de suas margens de lucro e o foco quase que exclusivo no mercado externo tem criado grandes dificuldades.

Empresas Visitadas

A delegação brasileira rodou cerca de 900 km entre as cidades de Dunedin, Christchurch, Blenhein e Nelson, visitando dez empresas em seis dias. Entre elas se destacam a Donaghys e a Quality Equipment, ambas fabricantes de cordas especiais para a coleta de sementes e engorda de mexilhões; a Pacifica Seafoods, que processa cerca de 300 toneladas semanais de mexilhões; a Skellerup Rotomoulding, especialista na fabricação de máquinas e moldes para rotomoldagem; a Marlborough Sounds, empresa que opera diversas, fazendas ocupando uma área de 300 ha onde produz cerca de 10.000 toneladas anuais; a Sanford, empresa voltada para o mercado externo, para onde exporta 90% da sua produção; a Marine and General, uma das principais fabricantes de máquinas para classificação, semeadura, colheita e processamento de moluscos; a Cawthron, uma fundação sem fins lucrativos que realiza pesquisas em suporte ao desenvolvimento da indústria; e, a New Zealand Sea Farms, empresa de consultoria em cultivo de mexilhões, interessada em articular acordos entre indústrias neozelandesas e brasileiras para fazerem o marketing conjunto dos mexilhões Perna perna e Perna canaliculus.

Momento em que os long-lines são suspensos pela embarcação para a despesca das cordas
Momento em que os long-lines são suspensos pela embarcação para a despesca das cordas
Mexilhões são retirados das cordas para serem limpos, selecionados e armazenados a bordo
Mexilhões são retirados das cordas para serem limpos, selecionados e armazenados a bordo
Limpeza e classificação a bordo, dos mexilhões despescados
Limpeza e classificação a bordo, dos mexilhões despescados
despescados Mexilhões limpos e classificados prontos para serem armazenados a bordo
Mexilhões limpos e classificados prontos para serem armazenados a bordo
Mexilhões armazenados e bolsas apropriadas
Mexilhões armazenados e bolsas apropriadas
Vista geral dos mexilhões armazenados a bordo
Vista geral dos mexilhões armazenados a bordo
Processamento industrial do mexilhão na empresa Sealord, pertencente ao gruo Sanford, na cidade de Nelson
Processamento industrial do mexilhão na empresa Sealord, pertencente ao gruo Sanford, na cidade de Nelson
Processamento industrial do mexilhão na empresa Sealord, pertencente ao gruo Sanford, na cidade de Nelson
Processamento industrial do mexilhão na empresa Sealord, pertencente ao gruo Sanford, na cidade de Nelson
Embalagem de comercialização do mexilhão em meia concha
Embalagem de comercialização do mexilhão em meia concha