Novo Sistema de Depuração pode agregar mais valor aos produtores de moluscos de Santa Catarina

Por: Carlos Rogério Poli, PhD


No litoral catarinense a maricultura encontrou grande potencial para seu desenvolvimento e, prova disso, foi o crescimento observado nos últimos dez anos, destacando-se o cultivo de moluscos, que confere ao Estado o título de maior produtor nacional. Segundo dados da Epagri/SC o Estado produziu em 2005, 1.941,6 toneladas de ostras do pacífico Crassostrea gigas, sendo que 40% dessas foram produzidas no município de Florianópolis. Foram produzidas ainda, 12.234,1 toneladas de mexilhão Perna perna.

A maricultura, inicialmente proposta como uma opção para complementação da renda de pescadores artesanais, tornou-se hoje a principal fonte de rendimentos dessas comunidades. O desenvolvimento da mitilicultura (cultivo de mexilhões) e da ostreicultura (cultivo de ostras), além do fato que a pesca extrativa está estagnada
há vários anos, fizeram com que gradativamente os pescadores artesanais passassem a pequenos empresários. No entanto, para sua prática racional, a maricultura exige uma verificação assídua da qualidade da água, já que os moluscos, por possuírem um grande poder de filtração, podem acumular em seu trato digestivo, parcelas de contaminantes relacionados principalmente à atividade do homem. Com isto, a magnitude da acumulação na carne pode ser muitas vezes superior àquela encontrada originalmente na água.

No caso específico de microrganismos patogênicos, considera-se basicamente as bactérias e vírus como os potenciais causadores de doenças transmitidas ao homem pela ingestão de organismos contaminados, tais como a febre tifóide e a paratifóide,
a cólera, a hepatite tipo A, salmoneloses e, a gastrenterite viral, entre outras.

Para servir de alimento ao homem, os moluscos contaminados por estes microorganismos precisam necessariamente passar por um processo de depuração, que consiste na colocação das ostras contaminadas em locais apropriados por onde circula água esterilizada por 36-48 horas. A atividade alimentar dessas ostras durante este período remove naturalmente os microorganismos através das fezes.
A eficiência deste processo depende basicamente das taxas de alimentação, temperatura e salinidade.

O monitoramento do número de  contaminantes dos moluscos bivalves na carne é mais um dado importante para se ter uma definição da qualidade do produto que será distribuído no mercado consumidor brasileiro. Assim, buscando atender as exigências da legislação sanitária pertinente a qualidade de pescados e produto da
pesca (Portaria N.º451 de 19/09/1997 SVS/MS), acaba de ser lançada no mercado uma unidade de depuração de moluscos que permite aos produtores oferecer ao consumidor a ostra depurada.

Sistema de depuração

Em síntese, o sistema é constituído por um tanque de depuração com capacidade de 1.000 litros de água do mar, capaz de abrigar 200 dúzias de ostras, organizadas em 19 caixas plásticas. O tanque é acoplado a um sistema de bombeamento, filtragem e esterilização por ultravioleta, que constitui o sistema de depuração propriamente dito (Figura 1) e, um sistema de resfriamento para evitar a desova dos organismos. Ai são realizadas as ações de esterilização da água e  conseqüentemente das ostras, que ficam em gavetas, que permitem a circulação da água filtrada e esterilizada. Trata-se de um sistema fechado, onde a água é permanentemente filtrada e esterilizada. O conjunto forma uma pequena unidade portátil que pode ser instalada em qualquer cooperativa ou fazenda de cultivo de moluscos. As figuras 2, 3 e 4 mostram detalhes que explicam melhor seu arranjo
arquitetônico e funcional.

Figura 2 - Vista geral do sistema de purificação
Figura 2 – Vista geral do sistema de purificação

 

Figura 3 - Tanques de depuração
Figura 3 – Tanques de depuração

Figura 4 - Equipamento completo para depuração de ostras
Figura 4 – Equipamento completo para depuração de ostras
Tese de Mestrado

Para avaliar a eficiência desse sistema de depuração desenvolvido pela Blue Water Aquaculture Ltda. foram feitos testes em parceria com o Laboratório de Virologia da UFSC, que gerou a tese de mestrado “Estudo sobre a dinâmica de depuração de ostras de cultivo (Crassostrea gigas) artificialmente contaminadas com Salmonella enterica sorovar Typhimurium”, de Adriana de Abreu Correa. Este trabalho foi orientado pela Drª Célia Barardi do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia na Universidade Federal de Santa Catarina.

A pesquisa visou avaliar a eliminação de Salmonella enterica sorovar Typhimurium por ostras da espécie C.gigas imersas na unidade depuradora. Para isso foi padronizada uma metodologia de detecção molecular sensível, capaz de detectar baixos níveis de S. Typhimurium em tecido de ostras (0.1UFC/g). Simultaneamente
aos trabalhos de depuração, um dos pontos de cultivo de ostras do litoral de Santa Catarina foi monitorado, no período entre março e outubro de 2005, em relação à qualidade microbiológica da água e da carne dos moluscos ali cultivados. Como resultado, foi observado em alguns sítios, uma contaminação fecal nas águas e
presença de Salmonella spp. nas ostras, enfatizando ainda mais esta necessidade de validação de um sistema de depuração, pois esta contaminação impossibilita a venda deste produto no mercado, como medida de precaução.

O sistema de depuração utilizado foi um sistema fechado, no qual 1000 L de água recircularam por 24h. Parâmetros como o tempo de depuração e o tratamento da água utilizada na recirculação foram também avaliados. Durante a recirculação, a água foi esterilizada com luz ultravioleta, cloro e associação dos dois tratamentos. Para a validação do sistema de depuração, ostras cultivadas foram inicialmente
contaminadas com S. Typhimurium. As ostras foram amostradas após 0, 6, 12, 18 e 24h para avaliar a dinâmica de depuração. Após cada coleta, as amostras foram analisadas por métodos clássicos de microbiologia para quantificar as bactérias viáveis na carne das ostras.

A pesquisa mostrou que o sistema de depuração foi eficiente para a purificação de ostras artificialmente contaminadas por S. Typhimurium. Em todos os ensaios de depuração, as primeiras 12h apresentaram uma alta taxa de eliminação de bactérias, ocorrendo uma eliminação diferencial de acordo com o andar. Os ensaios de depuração com água tratada por UV e Cloro (1 ppm), separadamente, mostraram uma crescente eliminação de bactérias viáveis durante os períodos de depuração, com 90% da contaminação eliminada em 24h. Entretanto, a associação destes dois tratamentos (Figura 5) mostrou a total eliminação das bactérias em 12h, possibilitando uma depuração efetiva, sendo essa a alternativa ideal para utilização pelos maricultores.

Figura 5 - Dinâmica de eliminação de S. Typhimurium por ostras submetidas a um processo de depuração com água simultaneamente tratada com radiação Ultra Violeta e 1 ppm de Cloro
Figura 5 – Dinâmica de eliminação de S. Typhimurium por ostras submetidas a um processo de depuração com água simultaneamente tratada com radiação Ultra Violeta e 1 ppm de Cloro