O bom desempenho das Chitraladas no Brasil

O avanço da tilapicultura no mundo inteiro está levando a uma intensificação dos cultivos. Um dos sintomas desta intensificação é a busca por linhagens de performance superior. Apesar de atualmente se dispor de diversas populações de tilápias com excelente desempenho zootécnico, uma das mais procuradas no mercado brasileiro é a Chitralada (mais conhecida como Tailandesa), linhagem desenvolvida no Japão e melhorada no Palácio Real de Chitralada, na Tailândia. Esta linhagem foi introduzida no Brasil em 1996 a partir de alevinos doados pelo Asian Institute of Technology (AIT) e nos últimos quatro anos, vem sofrendo processo de melhoramento genético em nosso país. Como os resultados de crescimento desta linhagem ainda são pouco disponíveis na literatura, o objetivo deste levantamento foi de apresentar, de forma simplificada, uma amostra do potencial em termos de ganho de peso, verificado em vinte e cinco pisciculturas localizadas nas três principais regiões produtoras em dois sistemas de cultivo, em viveiros escavados, com águas verdes e em gaiolas flutuantes, com águas transparentes.

Foram selecionadas 25 propriedades onde os aqüicultores receberam as mesmas orientações no manejo dos cultivos e nas biometrias quinzenais. O período dos cultivos foi de 112 a 168 dias, todos tendo início na segunda quinzena de outubro de 1999 e a maioria deles finalizando quando os peixes atingiram de 500 a 650 gramas, em fins de março de 2000. As pisciculturas localizavam-se em três regiões brasileiras: (1) noroeste do Rio Grande do Sul (temperatura média da água no período de cultivo foi de 23ºC+2,5ºC); (2) central e norte de São Paulo (temperatura média da água no período de cultivo de 26ºC+2,0ºC); e (3) região do sertão nordestino (temperatura média da água no período de cultivo foi de 29ºC+1,5ºC). Os sistemas de cultivo utilizados foram dois: (a) sistema extensivo, em viveiros escavados com produtividade natural (águas verdes) e taxas de estocagem de 2 a 3/m2; e (b) sistema intensivo, em gaiolas flutuantes colocadas em locais de águas transparentes.

Por ocasião da estocagem dos animais, foram analisados os principais parâmetros de qualidade de água (alcalinidade, macro e micronutrientes – amônia, nitrato e nitrito, fosfato, potássio, cálcio, magnésio, enxofre total, sódio, ferro, cobre e zinco), com a finalidade de eliminar do estudo aquelas propriedades que apresentassem algum valor extremo, fora do intervalo tolerável às tilápias. Estes parâmetros iniciais permaneceram praticamente constantes ao longo do período nas propriedades selecionadas. Semanalmente, foram realizadas medições do oxigênio dissolvido e do pH ao amanhecer e ao anoitecer de um mesmo dia.

Os animais utilizados no levantamento foram provenientes de um sistema de incubação artificial. As rações e o programa de arraçoamento adotados em todas as propriedades do estudo foram de uma mesma empresa. As biometrias foram feitas com uma amostragem de 1% (nos viveiros) a 2% (nas gaiolas) dos animais de cada unidade experimental, permitindo o cálculo de ganho diário e conversão alimentar em cada biometria. Na última biometria, 10% dos animais de cada propriedade foram pesados antes do abate. A sobrevivência dos animais foi avaliada através de contagens por ocasião da estocagem e da coleta final dos animais. Não houve reposição de animais mortos durante o período de crescimento. Os dados de ganho em peso expresso pela taxa absoluta de crescimento (peso final – peso inicial) e taxa padrão de crescimento (g/dia) foram submetidos à análise da variância através do Sistema de Análise Estatística, SANEST. Os dados de peso do peixe à despesca foram submetidos a análise de regressão obtida pelo Statistical Package Social Sciences (SPSS). Devido ao grande número de propriedades envolvidas no estudo, optou-se por sintetizar as médias de ganho de peso obtidas nas 25 propriedades numa mesma tabela (Tabela 1), com entradas dos dois sistemas de produção e das três temperaturas médias de cultivo.

Tabela 1 – Ganho de peso médio em tilápias tailandesas da linhagem Chitralada em 25 propriedades com viveiros em sistema semi-intensivo (2-3 peixes/m2) e gaiolas flutuantes (250 a 300 peixes/m3) em três temperaturas de água predominantes.
Tabela 1 – Ganho de peso médio em tilápias tailandesas da linhagem Chitralada em 25 propriedades com viveiros em sistema semi-intensivo (2-3 peixes/m2) e gaiolas flutuantes (250 a 300 peixes/m3) em três temperaturas de água predominantes.

É possível observar de forma clara a influência da temperatura e do sistema de cultivo no crescimento dos animais. O tempo necessário para as tilápias atingirem o peso comercial (400 gramas) foi menor nas temperaturas mais elevadas e no sistema de cultivo praticado em viveiros escavados em águas verdes. Pode-se notar que, no intervalo de temperaturas deste estudo, a cada três graus que a temperatura da água aumentou, diminuiu de 3 a 4 semanas o período de cultivo, e que o sistema de cultivo em viveiros igualmente apresentou uma diminuição de 1 a 2 semanas quando comparado às gaiolas.

A temperatura de cultivo, a qualidade de água e a nutrição são os três fatores que mais afetam o crescimento dos peixes. A taxa de crescimento de um organismo aquático não só é influenciada pelo seu histórico recente de temperatura, mas também por suas condições nutricionais prévias. Em situação de privação de alimentos, mesmo durante um curto período de tempo, poderá haver modificações na morfologia intestinal e na atividade enzimática, influenciando o consumo subseqüente de alimentos e a taxa de crescimento. Esta situação não ocorreu, mas é muito comum em tilapiculturas brasileiras. Portanto, uma tentativa de comparar os resultados obtidos neste levantamento com o desempenho de tilápias de outras populações seria muito precipitada, pois a maioria dos cultivos conduzidos no Brasil não apresentam os cuidados na qualidade de água, estratégia de alimentação ou qualidade genética dos peixes avaliados neste estudo. Sobre o desempenho da linhagem em diferentes temperaturas ambientais, existem muitos outros ajustes metabólicos que lembram a aclimatação, como a diminuição da taxa metabólica de diversas espécies quando se encontram próximas ou enterradas no lodo devido a situações ambientais desfavoráveis, ou o equivalente a febre dos mamíferos (modificação metabólica utilizada para combater doenças, detectada em peixes infectados que apresentam preferência por temperaturas mais elevadas que os peixes saudáveis ), situações que não puderam ser avaliadas neste tipo de estudo mais amplo. Outro fator a se considerar numa comparação da linhagem Chitralada com as demais tilápias é que o peixe tailandês vem sendo intensamente manipulado (domesticado) há mais de 30 anos. Como conseqüência, suas taxas de alimentação também são mais elevadas, o que explica em parte que a docilidade e a avidez pelo alimento serem observados de forma muito mais intensa entre a população Chitralada quando comparada às demais, mesmo lado a lado em gaiolas flutuantes.

Vários modelos de crescimento bioenergético já foram desenvolvidos para examinar os efeitos integrados da fertilização, densidade de estocagem e desovas no crescimento da tilápia-do-Nilo, Oreochromis niloticus, em viveiros de cultivo. As águas fertilizadas (eutrofizadas, verdes) produzem os melhores resultados porque na maioria das vezes criam ambientes mais favoráveis ao crescimento (diminuem o estresse, freqüentemente melhoram a qualidade de água e até servem como suplemento alimentar). O incremento na densidade de estocagem das gaiolas freqüentemente está ligada à diminuição da qualidade de água e aumento do estresse. Por outro lado, as desovas nos viveiros de crescimento possuem efeitos muito grandes no crescimento dos peixes, portanto, outro fator positivo para a técnica de incubação artificial empregada neste estudo e mais uma razão para não se tomar os valores apresentados como inerentes da população Chitralada per si, mas de um conjunto de decisões favoráveis aos bons resultados obtidos.

Considerações Finais

Pela natureza ampla deste estudo, a simples sintetização das médias de ganho de peso de 25 diferentes propriedades numa mesma tabela, com entradas dos dois sistemas de produção e das três temperaturas médias de cultivo, se mostrou bastante elucidativa e de fácil entendimento. Os resultados demonstraram uma forte influência da temperatura da água e do sistema de cultivo na velocidade de crescimento das tilápias da linhagem Chitralada. O tempo necessário para estas tilápias atingirem o peso comercial foi de 12 a 21 semanas, sendo 3 a 4 semanas menor nas temperaturas mais elevadas e 1 a 2 semanas menor em águas verdes.