O Camarão Rosa nos Cercados do Sul do Brasil

Por: • Wilson Wasielesky Jr 
Ronaldo Cavalli 
Marcos Henrique Santos 
Sílvio Peixoto Fundação Univ. Fed.
do Rio Grande
e-mail: [email protected]


O camarão rosa Farfantepenaeus paulensis é uma importante espécie capturada no Sudeste/Sul do Brasil. Na primavera e verão, as fêmeas desta espécie, após copularem, desovam seguido da eclosão de larvas planctônicas que completam seu desenvolvimento em águas sobre a plataforma continental. Completado o ciclo larval, já como pós-larvas, penetram nos estuários levadas pelas correntes, onde crescem até atingirem a fase sub-adulta, quando retornam para o oceano, completando seu ciclo de vida.

No estuário da Lagoa dos Patos-RS a pesca desta espécie atinge uma produção média de 3.500 toneladas/ano. Entretanto, nos últimos anos, as capturas vêm sofrendo diminuições significativas devido à pesca predatória sobre os juvenis no próprio estuário e sobre os adultos, na plataforma continental. Em decorrência, 6.500 famílias de pescadores artesanais que dependem da pesca no estuário, vêm enfrentando severas dificuldades financeiras.

Captura anual de camarões no estuário da Lagoa dos Patos - RS
Captura anual de camarões no estuário da Lagoa dos Patos – RS
As estruturas alternativas

De maneira geral, os cultivos convencionais de peixes e camarões são normalmente realizados em viveiros escavados, com gastos relativamente elevados. Entretanto, em alguns países asiáticos, entre eles a Tailândia, Filipinas, Singapura e Índia, métodos alternativos de cultivo têm sido utilizados por populações de baixa renda, como é o caso dos cultivos em gaiolas (tanques-rede) e cercados, construídos em lagunas, baías e enseadas. O emprego destes métodos permite que o custo final de produção seja significativamente reduzido, possibilitando que pescadores artesanais possam também cultivar peixes e camarões.

A Estação Marinha de Aquacultura “Prof. Marcos Alberto Marchiori” (EMA), do Departamento de Oceanografia da FURG- Fundação Universidade Federal do Rio Grande, desenvolve estudos sobre o cultivo do camarão-rosa Farfantepenaeus paulensis. A EMA foi construída em 1989 com o objetivo básico de produzir pós-larvas para o repovoamento de camarões no estuário da Lagoa dos Patos. Nos primeiros cinco anos, muitas metodologias foram desenvolvidas através de experimentos de campo e de laboratório,visando otimizar os sistemas de maturação, desova, larvicultura e berçário. Na seqüência destes trabalhos, várias liberações de pós-larvas de F. paulensis foram realizadas, através dos cultivos intermediários no ambiente, para posterior liberação de juvenis mais bem adaptados às condições ambientais. Nos últimos oito anos, com a ajuda do CNPq, FAPERGS, Pólo Pesqueiro-RS, os trabalhos foram guiados no sentido de produzir pós-larvas em laboratório e posteriormente colocá-las em estruturas alternativas de baixo custo, entre elas as gaiolas (tanques-rede) e os cercados, com objetivo de criar oportunidades para a que as comunidades pesqueiras locais possam gerar, dessa forma, uma renda adicional.

Anualmente, no período de primavera os reprodutores de F. paulensis são capturados no litoral do Estado de Santa Catarina e transportados para a EMA, Rio Grande, RS. Após a chegada, as matrizes são induzidas à maturação gonadal e desova. Na seqüência as larviculturas são realizadas, sendo as pós-larvas destinadas a pesquisas e aos cultivos no ambiente.

Cultivo em gaiolas

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Para desenvolver tecnologias de cultivo, vários experimentos com a engorda e crescimento de camarões em gaiolas e cercados foram realizados na região estuarina da Lagoa dos Patos, em parceria com os pescadores artesanais. Paralelamente, diversos testes de laboratório também foram realizados para avaliar os efeitos dos parâmetros ambientais sobre a espécie. Foram realizados cultivos do camarão-rosa em cercados e gaiolas fixas e flutuantes, testando-se diferentes tamanhos, formas e materiais.

Foram realizados testes para que pudessem ser avaliados os crescimentos dos camarões em densidades de estocagem variando entre 15 e 120 camarões/m2. As gaiolas de cultivo possuíam área total de fundo variando desde 6 a 25 m2 , e altura de 1,4 m. A panagem mais utilizada nas gaiolas foi a de poliéster revestida de PVC. Nos testes em gaiolas, os camarões foram alimentados com rejeito de pesca – 70% de peixe e 30% de siri – utilizando-se uma taxa de arraçoamento inicial de 20%, diminuindo até 5% no final dos experimentos. Estocando-se camarões com peso de aproximadamente 0,8 gramas, os melhores resultados obtidos foram em densidades de estocagem variando entre 15 e 30 camarões/m2, nos quais F. paulensis atingiu peso médio de 9 e 11g, com sobrevivência acima de 80%. O tempo médio de berçário em gaiolas é de 45 dias e o período de engorda varia entre 80 e 100 dias.

De maneira geral, podemos concluir que os resultados atingidos nos cultivos de F. paulensis em gaiolas não foram satisfatórios já que a produção obtida é pequena em relação aos custos fixos e variáveis.

Cultivo em cercados

Após a análise de mais de 150 unidades de cultivo em cercados, os resultados indicaram que o cercado circular com aproximadamente 30 metros de diâmetro (área de 0,31 hectares) e altura de 2 m, construído com panagens de poliéster revestidas PVC (malha 5 mm) e estruturadas com bambus, como sendo a ideal para a região. Dentro deste, é construído outro cercado circular de 8 metros de diâmetro (200 m2), utilizando o mesmo tipo de panagem, porém com malha de 1-1,5 mm, para servir de berçário.

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Foram realizados testes para que pudessem ser avaliadas as densidades de estocagem ideais de cultivo entre 5 e 120 camarões/m2. Os melhores resultados foram obtidos nos cercados com densidades de estocagem variando entre 20 e 30 camarões/m2 (peso médio inicial após berçário = 0,35gramas), nos quais F. paulensis atingiu peso médio de 10 a 12 g, com sobrevivência acima de 80%. O tempo médio de berçário é de 30 dias e o período de engorda varia entre 60 e 90 dias.

Crescimento em peso de F. paulensis em diferentes densidades de estocagem (de 5 a 120 camarões por m2).
Crescimento em peso de F. paulensis em diferentes densidades de estocagem (de 5 a 120 camarões por m2).

Em relação à alimentação, foram realizados estudos para avaliar o crescimento e a sobrevivência de camarões alimentados com ração comercial e rejeito de pesca. Também foram realizados estudos para avaliar o papel do biofilme (comunidade de microorganismos associada com uma matriz orgânica que adere às superfícies) aderido às panagens e a utilização de substratos artificias para sua fixação. Os melhores resultados obtidos foram aqueles onde os camarões foram alimentados com o rejeito da pesca e com maior disponibilidade de biofilme.

Paralelamente foram elaborados estudos para avaliar a qualidade da água e sedimento de fundo dentro e fora dos cercados de cultivo. Os parâmetros analisados foram: salinidade, temperatura, oxigênio dissolvido, pH, produtos nitrogenados, fosfato e matéria orgânica (MO). Não foram detectadas diferenças significativas (P>0,05) entre os parâmetros da água nas áreas de controle e dentro dos cercados de cultivo, entretanto, o percentual de MO, foi significativamente menor (P<0,05) dentro dos cercados.

Manejo Básico

Baseando-se nos experimentos realizados, o manejo básico para o cultivo de camarões em cercados é o seguinte: (1) Construção dos cercados de berçário e engorda; (2) Estocagem de 63.000 pós-larvas em cercado de berçário com 200 m2, em densidade de aproximadamente 300/m2; (3) Alimentação das pós-larvas no berçário, em período que pode variar entre 30 e 60 dias até que a maioria dos camarões (95%) atinjam peso mínimo de 0,35 gramas; (4) liberação dos juvenis para o cercado de engorda (20/m2); Alimentação em seis bandejas, preferencialmente com rejeitos de pesca; (5) Acompanhamento das atividades do cultivo (biometrias) durante período de 60 a 90 dias; (6) Despesca de 500-600 Kg de camarões com peso 10-12g e comercialização.

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Viabilidade econômica

A viabilidade econômica dos cultivos em cercados está fundamentada no emprego de materiais de baixo custo (bambus, arame galvanizado e fios têxteis), alta durabilidade (malha de poliéster revestida com PVC) e custos de alimentação minimizados pelo emprego de rejeito de pesca e apenas um complemento alimentar na forma de ração peletizada. A ração é principalmente utilizada nos dias quando o pescador não possui a quantidade de rejeito de pesca necessário para a alimentação dos camarões. Em termos econômicos, este modelo de cultivo tem apresentado resultados promissores, pois os custos de instalação são de aproximadamente R$ 2.600,00, com durabilidade da estrutura de até 8 anos. O custo de produção, incluindo pós-larvas, alimentação e depreciação da estrutura, é cerca de R$ 1.200,00/safra. A produção média por cercado é de 500 Kg/safra, gerando uma receita bruta de R$ 4.000,00/safra, considerando que os camarões são vendidos a um preço médio de R$ 8,00. Desta forma, o rendimento médio por cercado pode chegar a R$ 2.800,00/safra. O sistema de cultivo proposto permite que um pescador/produtor, trabalhando menos de uma hora por dia, obtenha uma remuneração mensal superior a R$ 230,00, e trabalhando apenas 4 meses por ano nesta atividade, pois no extremo sul do Brasil apenas uma safra pode ser realizada. É importante ressaltar que os pescadores envolvidos nesta nova alternativa continuam ligados à pesca, realizando suas atividades de origem.

Repasse de tecnologia

Os resultados evidenciaram a possibilidade de aproveitamento da produtividade natural do ambiente, além do uso de resíduos da pesca, os quais eram anteriormente totalmente descartados pelos pescadores da região. Além disso, foi verificado que esta nova maneira de cultivar camarões não provoca efeitos nocivos ao ambiente. Estima-se que com a utilização de uma fração inferior a 1% da área total do estuário que é de aproximadamente 1000 Km2, milhares de pescadores poderiam ser beneficiados. Para que se possa avaliar a quantidade de estruturas que podem ser instaladas sem causar impactos no ambiente, já estão sendo realizados estudos para estimar a capacidade de suporte do estuário como um todo.

Os diversos resultados já obtidos nos experimentos mostraram que a espécie de camarão rosa, F. paulensis é um organismo bastante adequado para ser utilizado nos cultivos em cercados. Este modelo alternativo, proposto pelos pesquisadores da FURG, encaixa-se nos conceitos de tecnologia limpa, e poderá constituir-se em uma nova fonte de renda para as comunidades de pescadores artesanais da região. Para a equipe envolvida no projeto, a performance desse camarão nos cultivos alternativos pode ser ainda mais desenvolvida, principalmente se houver mais investimentos em novas biotecnologias.

Curso prático de cultivo de camarões em cercados
Curso prático de cultivo de camarões em cercados