O Catfish no Brasil

Foto: 80.000 m2 de viveiros de engorda de Catfish da Bluefish Agropecuária em Corupá – Santa Catarina.


O bagre norte-americano Ictalurus punctatus, conhecido como catfish é mais um estrangeiro integrante da lista de peixes exóticos introduzidos no Brasil. É um peixe omnívoro da ordem Siluriforme da família Ictaluridae originário da região do Golfo do México.

Como todos os bagres norte-americanos, seu corpo é cilíndrico e desprovido de escamas. As nadadeiras são macias e raiadas, exceto a dorsal e as peitorais que possuem um espinho que, se o peixe for manuseado sem cuidados, produz uma desagradável e dolorosa ferida. Possui também uma nadadeira adiposa (sem espinhos) localizada entre a caudal bifurcada e a dorsal (figura). Outra característica deste bagre é a presença de barbilhões em volta da boca, quatro no maxilar inferior e dois em cada lado do maxilar superior.

Sua coloração é geralmente verde – azulada no dorso, esbranquecendo no sentido do ventre. Sua cor entretanto, varia com a coloração da água que habita. Em águas claras eles podem apresentar-se quase pretos, ao passo que em águas barrentas podem apresentar-se amarelados. Catfish jovens possuem pintas irregulares nas laterais, que tendem a desaparecer quando adultos.

DNOCS

Em 1972, ano em que chegou ao Brasil, o catfish foi diretamente para as instalações do DNOCS em Pentecostes no Ceará e somente em 1980, levado pelas mãos do piscicultor Miguel Grechinski, chegou a Irati – PR de onde se espalhou para todos os estados.

Passados 27 anos, o peixe ainda não conseguiu um lugar de destaque entre as espécies cultivadas no país, bem como também não invadiu, pelo menos até o momento, nossas águas continentais para colocar em risco nossa ictiofauna, como se chegou a cogitar. Atualmente, o cultivo do catfish vem sendo feito por um grupo fiel de produtores que exploram, principalmente, as características vantajosas do peixe junto ao mercado dos pesque-pagues.

Reprodução

Uma característica ligada aos seus hábitos reprodutivos certamente influenciou a distribuição atual dos quatro principais produtores de alevinos desse peixe no Brasil. É que para reproduzirem-se, as matrizes necessitam passar por um período do ano em temperaturas abaixo de 20 ºC. Segundo Juan Ramon Esquivel, agrônomo, autor de importante tese de mestrado sobre a engorda desta espécie no Sul do Brasil, é algo que poderia ser chamado de “estresse térmico”. É que nos períodos de baixa temperatura no inverno, ocorrem mudanças sensíveis no fotoperíodo (relação dia/noite), que estão associadas às necessidades do peixe para completar o seu ciclo reprodutivo. Essas condições estão presentes nas regiões brasileiras onde o inverno é marcante, daí o catfish só se reproduzir com facilidade na região Sul do Brasil, apesar de obter melhores ganhos de peso se engordado nos demais estados onde a temperatura é mais alta na maior parte do ano.

Ovas incubadas na Bluefish Agropecuária
Ovas incubadas na Bluefish Agropecuária

No Brasil os peixes normalmente estão prontos para a reprodução a partir do segundo ano de vida. O período de desova ocorre no final da primavera – novembro, indo até a metade do verão – fevereiro. Os produtores brasileiros de alevinos utilizam o sistema de pen (curral, cercado) onde os casais de reprodutores são colocados nestes cercados e, na época da reprodução, os ninhos (caixas de madeira) são vistoriados diariamente para se constatar a presença da massa de ovos.

Segundo Esquivel este processo, utilizado normalmente em pesquisas genéticas nos EUA, é muito caro e trabalhoso para ser instalado. Como alternativa ele sugere a simples colocação de ninhos nos viveiros, os quais devem ter no máximo 1.400 kg de peixe por hectare com uma relação de 3 fêmeas para 2 machos. Da mesma forma que o método dos currais, os ninhos são vistoriados e os ovos coletados e levados para o laboratório.

A quantidade de ovos por quilo de fêmea é de aproximadamente 10.000. Após serem coletados, são levados para o laboratórios e colocados em incubadoras até que eclodam após 6-7 dias (foto 1).(ENTRA FOTO 1) As larvas são levadas para viveiros (10.000 – 15.000/m2) bem preparados e com boa alimentação natural. Passados 20 dias as pós-larvas (1,5 cm) podem ser comercializadas ou estocadas em viveiros de alevinagem (50 pós-larvas/m2) por mais 2 meses até se transformarem em alevinos com 4-8 cm de comprimento. Os produtores de alevinos costumam sofrer grandes baixas nesse período, com sobrevivências finais abaixo dos 50%.

Engorda

Os catfish produzidos no Brasil tem como endereço certo os pesque-pagues, e isso determina os padrões de engorda que obrigam os produtores a levar o peixe a pesos ao redor do quilo. O tempo necessário para se alcançar esse peso pode variar de oito meses (município de Mundo Novo, MS) a 15 meses, nas regiões mais frias dos estados da Região Sul. Segundo o Clóvis Minoru Komakome, da Lavoura Igarashi, que vem trabalhando com catfish há 12 anos, o Brasil tem um potencial enorme para a engorda desse peixe e compara: “nos EUA o abate é feito com peixes entre 450 e 600 gramas, num momento onde as relação de filé-carcaça está otimizada e os produtores estarão obtendo o máximo de retorno, após um período de engorda de até uma ano e meio para se chegar a esse peso. Aqui ele dobra de peso neste mesmo período”.

É essa versatilidade do catfish que encanta André Luiz Theiss, diretor técnico da Bluefish Agropecuária Ltda., empresa que iniciou suas atividades a partir da aquisição dos projetos de piscicultura da empresa WEG S.A. André Theiss comercializa alevinos e peixes “prontos” para pesqueiros do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1998, a empresa comercializou 224.000 quilos de catfish provenientes de três fazendas de engorda da empresa, que totalizam 21 hectares nos municípios de Corupá, Indaial e Garuva em Santa Catarina.

As densidades de engorda podem variar de 1 a 2 peixes por m2, dependendo das condições da propriedade (água, solo, equipamentos, etc..) bem como a experiência do piscicultor. Durante todo o ciclo de engorda os peixes recebem ração balanceada e os índices de conversão alimentar variam de 1,5 a 1,8 quilos de ração para um quilo de peixe, com produtividades finais variando de 8 a 12 toneladas por hectare.

Uma das característica interessantes da engorda do catfish é o seu crescimento desigual. Na região sul, após 15 meses de cultivo, 65% dos peixes alcançam o peso ao redor de 1.250 gramas, 10% alcançam o peso entre 2,5 e 3 quilos e os demais ao redor de 700 gramas.

O catfish suporta bem níveis de oxigênio baixos por períodos curtos de tempo. Para estocagens maiores que 10.000 peixes por hectare, é fundamental a utilização de equipamentos aeradores, visando minimizar os problemas com a qualidade da água. Normalmente 2 HP são suficientes para um hectare de lâmina d’água, mas em cultivos mais intensivos André trabalha com até 4 HP.

Reprodutor com 40 meses, importado dos EUA. Peso: 10,6 kg
Reprodutor com 40 meses, importado dos EUA. Peso: 10,6 kg

Comercialização

Nos últimos três anos os preços do catfish comercializados pelos produtores de Santa Catarina têm variado pouco. Segundo André Theiss, até 1997 o catfish era visto como uma espécie de inverno, sendo comercializado preferencialmente de maio a outubro. Nos últimos dois verões, entretanto, o que se observou foi uma grande procura pelo peixe, com transportadores de peixes vivos comercializando volumes semelhantes aos dos invernos.

Nos pesqueiros de São Paulo, os pescadores pagam entre R$ 4,50 e R$ 6,00, o que para André denota uma diferenciação em relação aos demais peixes.

Na propriedade, entretanto, o quilo do peixe em 1998 oscilou de R$ 2,50 a 2,80 (tabela).

Segundo Clóvis Komakome, os custos para se produzir um quilo de catfish variam de R$ 0,80 a 1,00/kg, levando-se em consideração um preço médio da ração ao redor de R$ 0,40/kg e o preço do alevino entre R$ 0,13 e R$ 0,14 além da mão-de-obra e demais custos. Clóvis no entanto acredita que o aumento na oferta pode afetar os atuais R$ 2,50 pago aos produtores, que deverão rever seus preços de venda sem que para isso deixem de estar fazendo bons negócios.